Acordei e Arthur já estava estacionado na frente do aeroporto. Não sei quanto tempo dormi ou quanto tempo já estávamos ali estacionados, parados.

Olhei para o lado e vi o banco do motorista todo deitado e Arthur estava deitado nele, dormindo como eu quando o carro está em movimento. Mas Arthur dormia pesado, parecia que não havia dormido há muito tempo, sem contar que havia dirigido duas horas até o aeroporto, isso se ele não pegou nenhum trânsito nem nada né?

Comecei a esfregar minhas mãos em meus olhos pra dar uma acordada melhor e logo olhei no relógio do rádio do carro. Seis e meia da manhã, eu dormi durante três horas e meia dentro do carro, sem acordar em nenhum momento. Que coisa estranha.

Me deu conta de que Vanessa ainda iria demorar para chegar, isso se o voo dela não demorasse para sair claro, então comecei a pensar um pouco na viagem. Climton. A praia do assassinato, e mesmo assim, sempre há os lunáticos que sonham em ir visita-la, eu por exemplo. Nem sei se algum dos meus amigos ja esteve lá, eu creio que nenhum pois se não, já teriam me dito como é já que eu sou muito ansioso para ir visitar lá.

Não deve ser uma morte que estrague uma praia, certo? Imagina os pais da garotinha, deve ter sido horrível. Eu tenho raiva só de pensar no maldito assassino que à matou! Pra que isso? Imagina se fosse minha família? Imagina se fosse minha filha ou mesmo a sua? Eu aposto que você sente raiva de pensar que isso poderia acontecer até com você. E o pior, é que foi com um tiro na cara, bem no rosto da menina, e não adianta dizer que foi acidente porque... Ahhhhh que raiva!!!!

Sério, se tem algo que me incomoda é morte de crianças e animais. Crianças em perigo eu acho que é até pior do que se ela estiver morta. Imagina só, a pobre criança deve sofrer muito mais vendo que está em perigo, imaginando o pior que pode lhe acontecer, do que morta direto, porque ai, ela já não estaria sentindo mais nada. Acho que é por isso que sinto tanta saudades da minha irmã. Ainda não falei da minha irmã pra vocês né? Vou parar de enrolar então.

Minha irmã se chama Helena e tem dezessete anos. Eu não encontrei Helena em nenhum momento desde que voltei da viagem, pois ela está viajando há cinco ou quatro anos, não me lembro direito, para a Inglaterra. O motivo de ela estar la é que há um casal de tios meus que moram por lá, e aproveitaram que Helena nem com colegial estava, para acostuma-la com inglês desde pequena. Vocês sabem, inglês hoje em dia é crucial. Eu tive sorte por ter aprendido e ganho fluência sozinho, mas nem todos são assim, e eu entendo a ação dos meus pais de mandarem ela pra lá. Muito justo por sinal.

Mas Helena é alguém de quem eu gosto muito. Sabe, eu falo mal do Ezequiel e tals, mas é tudo por sentir falta de Helena. Meus pais tem o péssimo costume de substituir as pessoas e Helena não foi uma exceção, logo nasceu Ezequiel e eu sei que ele é todo mimado do jeito que é, parecendo um santo, porque eles botam todo o carinho que dariam para Helena, nele, e para ajudar, eu estive fora por cinco anos também, durante toda a minha faculdade. Você acha mesmo que eles não mimaram ainda mais por que eu estava longe? Sinto falta de Helena, ela é alguém muito amada por mim.

Nesse exato momento, alguém começou a bater no vidro do carro e era a belíssima Vanessa. Arthur acordou com um enorme e eu tomei também, estava distraído pensando na vida e tudo mais, e por incrível que pareça, fiquei pensando durante toda essas duas horas até ela chegar. Sai do carro e ela me abraçou, mas foi muito forte. E eu gostei. Já disse que sou meio apaixonado por Vanessa, porém, não é amor, ela é muito amiga minha mesmo só tendo visto ela uma vez, e essa sendo a segunda, e o fato dela ser linda me faz apaixonar mais ainda. É difícil explicar.

– Ai que saudades de você! — Vanessa é uma menina muito amorosa, e disse isso me apertando mais ainda, o que estava a me sufocar.

– Tava com saudades de você também! Conversar pela internet não é a mesma coisa. — eu sorria como uma criança que acaba de ganhar um brinquedo novo. E atrás dela, no nosso abraço, puder ver a Arthur sorrindo como um idiota, e olhando pra bunda dela também. Continuamos na mesma até que Vanessa me soltou e ficamos nos olhando uns segundos, então comecei a conversar um pouco. — Mas e ae, como foi sua viagem?

– Foi ótima, sério! Cansa um pouco mas era pro aniversário do meu melhor amigo, né? Fazer o que? — Vanessa começou a rir, uma risada muito gostosa por sinal. E só pra avisar, não acredito que seja o melhor amigo dela, posso ser querido por ela, mas ela só me via na internet e tudo mais, isso não poderia me tornar alguém tão querido assim.

– Brigado Vanessa! Sério mesmo. Aliás, não te apresentei, esse é o Arthur, um amigo meu que vai pra viagem também.

– Oi, tudo bom? — Arthur disse simpaticamente isso, como se não tivesse segundas intenções, mas eu sei que tem.

– Tudo sim, e com você?

– To bem também.

– Desculpa perguntar, mas você sempre foi careca? — eu e Arthur não nos contivemos, começamos a rir que nem dois idiotas na frente da Vanessa que não fazia ideia do que estava acontecendo.

– Eu raspei recentemente, meu cabelo começou a cair, devia ser a quimioterapia. — isso me irrita no Arthur. Ele não liga de dizer certas coisas, não tem problema isso, mas o que me irrita de verdade é ele querer chamar a atenção com certos detalhes, e ele ia usar o câncer pra chamar a atenção da Vanessa, como ele sempre faz com as pessoas.

– Como assim?! Você tem câncer, ou alguma doença do tipo? — nunca sei se as pessoas fazem essas perguntas se realmente se importam com as pessoas. Eu acho errado ter dó, porque eu teria raiva de quem tivesse de mim, mas, realmente, eu não me importo com a pessoa quando faço essas perguntas.

– É um câncer terminal, mas só to falando isso porque uma hora você ia acabar sabendo, então melhor saber por mim que pelo outros. E outra coisa sobre isso, não pergunte demais, e não fiquei fazendo coisas por dó de mim, ta bom? Eu não gosto nem um pouco disso, só te peço isso na verdade. Quer ajuda com a mala? — isso foi meio estranho, e me dei conta de que essa mudança de assunto podia ser porque Arthur devesse está incomodado em falar de seu câncer, já te disse, não sei o que devo imaginar sobre o pensamento de alguém que sabe quando vai morrer. Não deve ser fácil.

Vanessa aceitou e colocas a mala dela na caçamba da Montana. A mala não. As malas, porque mulher não consegue ser econômica, tem que levar quinhentas malas pra passar um dia viajando, impressionante. Colocamos as malas na caçamba e vi que Arthur já estava com a sua lá, isso me fez pensar que tinha de fazer minha mala ainda, então pedi para Arthur voltar para minha casa.

Durante uns dez minutos da viagem fiquei conversando com Vanessa mas ai, ela começou a conversar com Arthur e, sinceramente, não quis incomodá-los. Nem se conhecem direito ainda, isso seria uma oportunidade, e eu aposto que Arthur conseguiria ficar com Vanessa no final. E é claro, comecei a dormir novamente.

Se tem um hábito bom que eu odeio, é dormir no carro.