Climton Beach - Um Lugar Para Todos
7 Fernanda
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Eu enrolei um pouco para chegar em casa. Não tava nem um pouco a fim de encontrar minha família acordada, e a noite tava maravilhosa demais para eu perder, então me sentei um pouco no banco da praça perto de casa, até passar tempo o suficiente para eu chegar em casa e me certificar que todos estavam dormindo.
Cheguei em casa e tive sucesso, todos já estavam a dormir. Fui entrando bem devagar na minha casa, aliás não queria que ninguém acordasse, e me deparei com um bilhete colado bem na porta do meu quarto, escrito "Gostaríamos de saber o que vai acontecer no seu aniversário. Beijos, seus pais.", apenas arranquei e amacei o papel. Aliás eles queriam que eu fizesse o que? Guardasse de lembrança? Era óbvio que eu não ia esquecer, mas pra ser sincero, estou com um pouco de medo por ter agendado a viagem. Sabe, amo meus pais apesar de tudo que eu falo, de não querer me encontrar com eles, odiar meu irmão mas amo minha família, na verdade, difícil achar quem não ame, e sabia que eles ficariam chateados quando eu disser que vou viajar com os meus amigos, e que chamei até Vanessa, que todos vão, menos a Fernanda.
Quando pensei no nome dela, isso ficou ecoando na minha cabeça. Já não conseguia mais tirar da cabeça, sem contar com a lágrima discreta que não se segurou e escorreu pelo meu olho direito.
Meu deus, por quê?
Por quê?!
Entrei no meu quarto e me deparei com aquela escuridão. Parecia que o ambiente combinava com as minhas emoções, meus sentimentos, minha angústia, minha tristeza. À propósito, eu nunca lhes disse como eu conheci ela, né?
Voltemos para oito anos atrás. Eu estudava em uma escola no qual o período era integral, eu ficava naquela maldita escola durante nove horas do meu dia, mas isso não vem ao caso. E nessa escola, como em qualquer outra, havia passeios escolares mas ela não se contentavam em nos levar para parques de diversão, ou em um museu, ela tinha passeios integrais também como, ir para Portugal, onde ficaríamos hospedados em uma espécie de escola, como se fosse um colégio interno, e lá estudaríamos história da arte, mas não ficaríamos apenas por ali, como a Europa tem o privilégio de possuir os países bem próximos um ao outro, conseguíamos viajar para muitos lugares incluindo Espanha e Itália. Esse foi um passeio da minha escola que eu fui, o primeiro e único passei desse estilo em que eu fui. E nesse maldito passeio, eu conheci ela, um ocorrido que até hoje eu não sei se é bom ou ruim.
Mas assim, eu sou um pouco tímido em lugares que não conheço muitas das pessoas, havia pessoas das quais eu conhecia, mas não tinha contato, na verdade, não eram amigos meus de verdade. E isso fez com que eu ficasse muito na minha durante toda a viagem, conversando com uma pessoa aqui e outra ali, isso das que eu já conhecia claro, mas no terceiro dia de viagem as coisas mudaram um pouco. Uma menina alta, magra, muito bonita de cabelos loiros veio em minha direção, sorrindo. Ah que sorriso era aquele aliás, eu acho que o seu sorriso sempre foi no que eu prestei mais atenção. Mas que seja, lá veio ela com o seu sorriso claro, e disse as únicas simples palavras "Sua camisa ta do avesso.". Você ja pensou que uma frase pudesse mudar sua vida? Você já pensou que um som, uma ação pudesse fazer com que você corresse atrás de uma pessoa, justamente pra saber o nome dela? Foi exatamente o que eu fiz. Corri atrás dela e só perguntei o nome, mas aquilo pra mim não me satisfez, eu tinha que saber mais, eu precisava conversar mais com ela. Eu só não conseguia mais ficar longe dela depois daquilo. Toda a minha viagem era em função de estar perto dela, e eu não ligava que ela namorasse (não era o marido dela), eu só estava apaixonado e estava ciente disso. Na verdade, nem ela conseguia ficar longe de mim. Nós dois nos apaixonamos e essa foi a verdade, mas para, literalmente, foder nossa situação, ela namorava um cara, um bosta na verdade. Mas a merda real, foi que nós fomos sinceros e contamos tudo quando nos separamos, querendo ou não, ela morava em uma cidade que é perto da minha, mas é um saco pra chegar lá.
Depois de tudo isso, ela me disse que gostava de mim mas que não poderia trocar o namoro dela por algo duvidoso, que teria traído o namorado dela comigo, porque eu era muito melhor e no fim das contas, ele só fez mal pra ela, tanto que eles terminaram. Mas quem pode prever o futuro? E sobre o fato de traição, era um alívio ela não ter traído. Dizer é sempre muito mais fácil do que fazer, não acredito muito que ela teria realmente traído, mas era um alívio porque, minha esperança era ficar com ela um dia, e assim eu saberia que ela não me trairia. Ah se eu soubesse o futuro dela, eu teria feito ela trair, mesmo não me orgulhando do que eu faria. Mas quem pode prever o destino? Nós planejamos e deus ri da nossa cara, essa é a verdade.
E foi assim que aconteceu, assim que começou e como terminou vocês já sabem.
Eu estava completamente sem sono, mas não queria desenhar de novo, aliás o que eu iria desenhar? Era tarde demais, duvido que eu enxergaria algo lá fora, e duvido que teria algum animal acordado. Decidi fumar um cigarro.
Sai para fora de casa mas dessa vez fui pela porta dos fundos, não queria passar pela porta do quarto do Ezequiel. La fora, havia uma parte asfaltada no fundo da minha casa, um gol desenhado na parede e também uma cesta de basquete. Gostava muito de jogar só para passar o tempo, hoje em dia aquilo era apenas um desperdício.
Fiquei ali fora, fumei uns três ou quatro cigarros, não me lembro, fumava muito quando estava ansioso e nervoso e aquele era um momento misto. Nervoso pela morte da Fernanda e ansioso pela viagem. Ia ser uma grande viagem. Fiquei tentando pensar na viagem, me concentrar em como ela seria mas comecei a chorar. Chorava em silêncio dentro do meu mundo vazio ao lado de fora da casa, mas chorava muito mais internamente onde meu coração era esfaqueado a cada lágrima que caia dos meus olhos.
Aquela mulher maravilhosa de, mais ou menos, 1,80 de altura, loira de olhos castanhos não saia da minha cabeça. Pensei no Walter e na combinação sedutora dos seus curtos cabelos loiros com seus olhos verde-amarelas. Pensei no Lucas de cabelos negros e olhos azuis límpidos. Tentei pensar até na careca reluzente de Arthur, e admito que isso me fez rir mesmo ele estando daquela forma por um mau motivo. Como será que é saber a data da própria morte?
Devo admitir que me intriguei ao saber sobre a doença do Arthur, acabou me fazendo gostar mais dele, não por dó, mas por me identificar mais com ele. Vai entender o porquê me identifiquei, mas aconteceu. Ele deve estar sofrendo com aquilo, ou será que não? Será que você desencana e apenas continua vivendo ou será que a pessoa se lamenta todos os dias?
Nem sei o que pensar. Mas sei que eu tive vontade de ligar para ele. Peguei o celular e disquei o número de Arthur. Deu apenas dois bips até que ele atendeu e começou a falar naturalmente, o que mostrava que ele ainda não havia dormido.
– Alo?
– Arthur? Aqui é o Carlos.
– E ae Carlos, como você ta cara? — ele disse isso como se não nos víssemos a muito tempo.
– To na mesma, e você cara?
– To bem, sem sono aqui em casa vendo tv.
– Entendi. Ta afim de fazer alguma coisa?
– Cara, não é meio tarde?
– Você tem carro, vem aqui e fica em casa já que vamos viajar amanhã.
– Bom, pode ser. Já to indo então. Tchau!
Ele desligou tão rapidamente que nem tive a oportunidade de me despedir. Terminei o quarto cigarro e entrei em casa, ia esperar ele sentado na guia da calçada da parte da frente de casa então entrei devagar e passei pelos corredores bem lentamente para que ninguém acordasse, ou me enchesse o saco para saber o que eu estava fazendo acordado àquela hora.
Na hora que eu sai de casa pude notar que o balanço do Ezequiel, que era na verdade da minha irmã, havia sido consertado. Mas na verdade, não parecia que estava consertado, parecia que nem tinha quebrado tanto porque eu nunca vira que havia outro galho para que pudessem prender aquilo.
Me sentei na calçada e fiquei olhando aquele balanço, e me lembrando de quando minha irmã brincava nele. Eu amo a minha irmã, acredite, mas depois falo sobre ela.
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