Climton Beach - Um Lugar Para Todos
6 Câncer
Eu abri os olhos. Nem me lembrava de ter dormido, mas estava acordando no sofá do porão. Eu estava com olhos um pouco pesados, não consegui abrir direto, tive que ir ao poucos, eles ainda estavam cheio de lágrimas, tanto que quando olhei para a luz do porão escorreu várias lágrimas dos meus olhos. Comecei a olhar ao meu redor para ver o que estava acontecendo, e fui logo pegando um cigarro de maconha.
Todos os meninos já tinham chegado. Lucas estava sentado do meu lado, Walter estava em uma das poltronas e Arthur na outra. Arthur estava engraçado e estranho ao mesmo tempo, estava careca!
– Você ta careca por quê?
– Castigos da vida. Tenho câncer cara. — ele não disse de uma forma surpreendente, parecia bem calmo na verdade. Eu não era o maior fã de Arthur, mas tive muita vontade de chorar nessa hora, acho que por consequência dos acontecimentos, mas estava com dó de Arthur.
Dó. Isso era algo ridículo mas inevitável de se sentir. Sabe, dó é um dos piores sentimentos que existem, porque não tem coisa pior do que sentirem dó de você! Então por que sentimos dó dos outros? Eles não querem que sentimos dó, eles estão pouco se fodendo para nossas opiniões e continuam a viver da forma que é possível. Sua compaixão é inútil, não vai mudar nada. Não vai trazer a menina de Climton de volta, nem a Fernanda ou curar o câncer do Arthur, então por favor, paremos de sentir dó ou de ficarmos mais fofinhos depois que você descobre o problema do próximo. A vítima está sempre pouco se fodendo para você! E quem é o generoso, tem que estar pouco se fodendo para o problema do outro e cuidar da própria vida!
– Puxa cara! Só porque eu estive fora cinco anos você tinham que me deixar de saber sobre tudo?! — eles começaram a rir, mas não falei como brincadeira. Os filhos da puta não me informaram sobre nada durante cinco anos, e agora que voltei, tudo era novo ou estranho demais. Era como se eu estivesse em um mundo diferente. — Faz quanto tempo que você ta com isso cara?
– Já deve fazer um ano mais ou menos cara.
– Operável? — tive medo de perguntar isso, mas tinha que saber.
– Terminal. Tenho, mais ou menos, um ano. — ele disse isso calmo demais, era muito estranho alguém que sabe quando vai morrer, dizer com facilidade a data de sua morte, sem gaguejar ou sem hesitar. Arthur estava mudando os meus conceitos sobre ele. — Mas fazer o que? Preciso continuar vivendo. Todos precisam continuar vivendo, por isso não me venha com a sua tristeza agora cara, eu sei que foi uma grande perda pra você porque todos aqui sabemos, qual era a importância da Fernanda na sua vida. Mas sem raiva, sem ódio, apenas viva! Você ainda tem muito o que viver e não digo isso para terem dó de mim! Só quero que vivam por mim. — eu não tive raiva do que ele disse. Foi uma das coisas mais sábias que eu ja ouvi vindo de uma pessoa jovem. Notei que depois que ele disse isso tudo, se escorreu uma lágrima pelo seu rosto e ele não teve a vergonha de esconder. Disse que ele não hesitou em dizer o tempo que tem de vida, mas duvido que era fácil viver com isso. A morte tem que ser um presente, uma surpresa. Qual a graça de saber o que você vai ganhar no próximo natal um ano antes, e saber que não é realmente o que você queria? Isso é a morte. Ela apenas faz parte de nossa vida. É, apenas, um capítulo dela.
– Eu entendo. Não tenho dó de você, viu? Sei que deve ter raiva daqueles que viram para você e dizem "Nossa, que pena!". Ridículos! Mas também não tenho o que comentar sobre isso. — começou a rir depois disso, foi automático eu começar a rir também, só parei uma hora para fumar mais do meu cigarro de maconha.
– Relaxa cara, tenho raiva mesmo. Tudo que eu quero é que elas cuidem da vida delas. É tudo que eu quero, e vocês não são exceções entenderam?
Olhamos um para os outros. Eu já sabia que não ia ficar palpitando sobre uma doença alheia, uma sentença de morte na verdade. Eu me pergunto como certas coisas, escolhem a suas vítimas. Será que são energias negativas? Pecados? Atrações malignas? Não sabia o que Arthur poderia ter feito que o faria merecer um câncer terminal no pulmão.
– Mas então, me conte sobre a viagem Carlos. — Walter ajustava seus óculos e punha os cabelos lisos para trás. Walter tinha um cabelo muito legal, era todo ajeitado ao estilo Bradley Cooper. Gostava demais.
– Bom, vai ser o seguinte — traguei todo o cigarro de maconha para nada me interromper enquanto explicava os planos da viagem. — Amanhã a minha amiga de Floripa vai chegar aproximadamente umas duas horas da tarde. Quero que vocês hoje já vão preparando as malas de vocês pra pegarmos ela no aeroporto amanhã, e logo ir para Climton Beach, entenderam?
– Sim. — disse Arthur. — Mas só uma pergunta. Onde vamos ficar? A viagem é de última hora e duvido que conseguimos uma reserva em alguém hotel.
– Relaxa, esqueceu que meus pais tem casa lá? Aliás, ninguém mais vai la depois do assassinato da coitada da menina, então acho que seria de boa conseguir um lugar para ficar. Que você acha sr. White? — nossa eu acho que nunca vi o Arthur rir tanto depois desse meu comentário.
Walter White, ou sr. White era o personagem principal de uma série que nós dois assistíamos, chamada "Breaking Bad". A série contava a vida de Walter White, um professor de química que nas horas vagas trabalha em um lava rápido, pois não tem dinheiro o suficiente para sustentar tranquilamente sua família que consiste de sua mulher grávida e de seu filho que tem paralisia cerebral. Ai um dia ele desmaia no lava rápido e descobre que tem câncer pulmonar e vai morrer em pouco tempo, então ele decide que, para deixar a família bem quando ele morrer, Walter começa a fabricar metanfetamína, e como ele é um químico, ele faz a droga mais pura de todas e começa a fazer muito sucesso na cidade onde mora. Mas o motivo de eu chamar Arthur de White foi porque o química da série, raspa a cabeça também, e deixa um cavanhaque, já Arthur raspou a cabeça e deixou a barba.
– Está certo Jesse, — outro personagem da série. — agora o que fazemos então?
– Vão para casa, arrumem as malas e amanhã nos encontramos aqui lá pra uma hora da tarde, beleza pessoa?
– Beleza. — todos concordaram.
– Já vamos indo embora então? Só são seis horas da tarde. — disse Walter.
– Vamos, antes ir com tempo de sobra do que ficar apertado.
Ninguém disse mais nada, todos apenas se levantaram e foram para fora, se despedindo bem discretamente. Continuei na casa de Lucas. Peguei mais um cigarro de maconha até que ele, sem me perguntar se eu queria, trouxe uma cerveja. Comecei a tomar e estávamos vendo TV enquanto isso, na verdade apenas olhávamos para a TV, nem estávamos prestando atenção no que estava passando tanto que não me lembro o que passava na TV naquele momento.
Continuei fumando a maconha enquanto bebia a cerveja. A cerveja acabou, e estranhamente, isso fez com que eu me sentisse meio perdido, sei lá, não sabia mais o que fazer na casa do Lucas, então me levantei comecei a ir em direção a porta.
– Você já vai cara?
– Já vou sim. Aliás, fumamos maconha durante quanto tempo?
Lucas olhou no relógio.
– Caralho!!! Duas horas cara!
– Cacete mano, vou indo então, to na rua desde de cedo. Tchau Lucas! — me senti meio mal de sair assim, sabia que Lucas ia insistir para que eu fica-se mais tempo la, e eu não sei dizer "não" então eu ficaria. Mesmo assim não era razão para sair correndo.
Desci rápido as escadas, mas de uma forma que não fizesse muito barulho para que os pais do Lucas não viessem ver o que era o barulho. Não queria cumprimentar mais ninguém. Acho que tava um pouco de saco cheio. Passei na frente da cozinha nas pontas dos pés, e da sala de estar também. Sucesso, tanto esforço à toa para nenhum deles estarem em nenhum dos aposentos. Deviam estar no quarto deles. A noite estava linda, mas muito linda mesmo. Nenhuma nuvem no céu, ninguém na rua, nem um carro. Aquilo era uma paz que eu não queria perder, não queria chegar em casa e me trancar no meu quarto enquanto eu tinha aquela linda e maravilhosa noite à vista. São em momentos tão maravilhosos quantos estes, que nós deveríamos morrer, nem um minuto a mais.
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