Clichê

23 Capítulo 23: Teatro


Notas iniciais
EU SEI GENTE ;-; Podem me matar, eu deixo. Eu sumi por muito tempo dessa vez. Gente, eu juro que tem bons motivos. Está tudo uma loucura. Eu troquei de escola por uma mais puxada ainda, entrei no Ensino Médio, minha vida pessoal está uma montanha russa. Não estou tendo tempo nem pra respirar, só consigo escrever nos sábados e geralmente estou muito cansada e não tenho inspiração... Ufa. É uma loucura. Mas hoje eu tirei a parte noturna pra escrever porque eu não imagino minha vida parando a escrita. Portanto, por favor, não me abandonem e tenham paciência com essa pobre escritora que vos fala ;-;

Passei meu fim de semana inteiro pensando em tudo que tinha acontecido por aqueles dias. Estava extremamente confusa. A revelação tinha sido bombástica e vindo num momento extremamente delicado. Queria pedir ajuda para alguém. Esse era o momento que eu sentia a falta de Raquel e das meninas doer no peito como ferro em chamas. Era muito difícil lidar sozinha com decisões e revelações. Eu nunca fui a melhor pessoa pra lidar com esse tipo de coisa, pudera, há poucos meses atrás eu não conseguia imaginar motivos para alguém se apaixonar por mim.

Quando a segunda feira chegou eu acordei respirando fundo e indo até o meu guarda-roupa. Escolhi uma roupa bem básica e então fui tomar meu banho. Olhando para o espelho e lembrando de tudo que Caleb me disse eu acabei fazendo algo que não fazia faz tempo. Tirei as lentes e as guardei na caixinha delas e voltei a colocar meus óculos. Vesti-me com uma blusa preta estampada de mangas nos ombros, um short claro jeans levemente desfiado na barra e na cintura um casaco xadrez roxo amarrado. Amarrei todo o cabelo ruivo num rabo alto e aproveitei que tinha tempo, usei o MiraCurl para deixar o rabo com lindas ondas. Calcei meu tênis da Ravenclaw, coloquei brincos e anéis simples e peguei a mochila. Olhei pra mim mesma no espelho. Parecia nerd sim, mas uma nerd bonita e foi a primeira vez que me ocorreu que dava sim para ser uma bela nerd

Sorri pra mim mesma no reflexo e desci as escadas. Minha mãe franziu o cenho a olhar para os óculos que eu usava. Acho que ela já tinha perdido o costume de me ver com eles.

—Óculos?

—Pois é. Decidi deixar as lentes, é só por hoje. Só pra eu não desacostumar com eles.

—Pegou a permissão para o passeio?

Bati com a mão na minha testa. Como tudo que estava acontecendo eu havia até esquecido do passeio que teríamos hoje. Iríamos para um teatro, algo sobre drogas. Iria ter música em meio a apresentação, de funk a rock o que eu me fez querer ir ao mesmo momento. Toda a sala iria. Eu já tinha pagado, faltava só o papel com a assinatura da minha mãe.

—Espera mãe, eu tinha me esquecido desse passeio. Vamos ter só as três primeiras aulas hoje, me deixa guardar o material das outras duas.

Subi as escadas correndo, abri a mochila e tirei os materiais das aulas que não teríamos os guardando e voltando s correr. Entrei no carro um pouco mais contente com a ideia de um dia diferente e enquanto minha mãe dirigia, eu voltei a ficar imersa em pensamentos. Foi quando me toquei que nunca tinha ido a um passeio com aquela escola e por um segundo meu coração apertou a pensar que eu estava indo sem o meu grupo. Depois balancei a cabeça pensando que não eram meu grupo e que talvez nunca foram.

Quando me toquei já estávamos com o carro parado. Desci dele e estava passando pelo gramado quando dei um encontrão com alguém. Olhei pra cima e encontrei Caleb com um sorriso doce, me segurando pelos ombros com cuidado para eu não cair.

—Desculpa Cal... Estava distraída. –Desculpei-me corando, aquela proximidade me lembrando dos acontecimentos de depois da festa. Droga. Agora eu corava só de olhar pra ele. Isso não está certo.

—Não, tudo bem Lexye. –Ele sorriu de forma divertida vendo minhas bochechas ganhando a cor rosada típica. –Você estava pensando em tudo aquilo não é? Escuta, eu não deveria ter contado, não quero que isso acabe estragando o que temos e tudo que eu menos quero agora é te deixar mais confusa do que já está.

Respirei fundo e dei um sorriso pequeno. Fiquei na ponta dos pés, o puxei pela nuca e o beijei. De início o susto dele o deixou estático, deixou a mim também. Mas então o beijo fluiu, de forma bem doce e delicada. Afastei-me depois de pouco tempo e olhei:

—Não posso assumir um compromisso agora Caleb. De verdade, não consigo. E eu sinto muito por isso. Mas quero tentar superar, quero tentar com você. Deixa as coisas rolarem, sem compromisso por enquanto... Topa?

—Claro. –Ele me puxou pela cintura e roçou os lábios nos meus enquanto sorria e eu não resisti a sorrir também. Foi quando senti alguém passando quase grudados na gente e só consegui ver o olhar de Leonardo antes de ele adentrar no colégio.

~X~

No ônibus para o passeio o pessoal do fundo cantava todo o tipo de funk que pode se imaginar enquanto eu me encontrava junto com Caleb na parte da frente. As letras das músicas me deixavam vermelha se eu fosse parar pra ouvir, então eu resolvi me focar somente na conversar com o Caleb. Meu antigo grupo estava completamente na parte de trás, cantando animadamente. Raquel e Juliane puxavam a música e o resto acompanhava. Leonardo volta e meia olhava para mim e para o meu amigo, mas eu fingia que não via.

—Você gosta tanto de cantar, talvez devesse acompanhar as letras. –Cal brincou sabendo que aquelas músicas sempre me deixavam mais vermelha que um pimentão. Nunca entendi o motivo de cantarem músicas com letras tão vulgares como se fosse à melhor coisa do mundo. Existiam palavras ali que eu nunca nem tinha pronunciado de tão deselegantes.

—Claro Caleb, me acompanha? –Minha frase saiu irônica e nós dois rimos, nos olhando.

—Lógico. –Sorriu. –Você não me disse por que veio de óculos hoje. É bom ver você com ele. Sinceramente, gosto mais de você com óculos.

—Deu vontade de mudar hoje. Vi o óculos lá estacionado... Deu á louca, de vez em quando essas mudanças são boas. Além disso, usar lente direto pode me desacostumar com os óculos e nunca se sabe o que pode acontecer, vai que eu precise voltar á usar em certo momento?

—Verdade. Deveria vir de óculos mais vezes. Parece mais com você... Sei lá, me lembra muito mais você da nossa antiga cidade.

Sorri para ele e me lembrei de algumas coisas de antes daquela cidade. Lembrei-me das tranças de lado que eu costumava usar no terceiro ano e ri muito porque era bem infantil, o penteado eu digo. Lembro que até o quinto ano eu detestava meus cabelos acobreados, mas depois eu passei á amar completamente. Eu também odiava os óculos, mas naquele dia eu aprendi a gostar deles. Acho que com o tempo eu me acostumaria a mudar de opinião sobre o que gostar ou não.

—Eu deveria ter vindo de tranças também.

Ele riu e dividiu meu cabelo jogando duas partes por sobre os ombros, do jeito que ficavam minhas tranças antigas. No momento o ônibus parou, fazendo com que as cantorias parassem. Logo estávamos todos entrando na faculdade onde teria o teatro. A nossa sessão seria compartilhada com outro colégio e teríamos que esperar junto com o povo do outro colégio, a outra sala que estava lá.

Nesse caso ficamos numa espécie de gramado da faculdade. O pessoal do nosso colégio de um lado e o deles de outro, no mesmo lugar. Sentei com Caleb numa mureta perto de onde o pessoal da nossa escola cantava. Percebi que outro grupinho da outra escola cantava a mesma música. Eu e Caleb paramos de falar pra observar os duelos. Os dois grupos cantavam a mesma música. Juliane era a vocalista do nosso e uma garota loira do deles. A voz de ambas, pra mim, era empate técnico.

—Nossa, mal chegamos e já temos treta com a outra escola? –Caleb perguntou rindo e eu ri também, ouvindo o pessoal cantar ao mesmo tempo.

—A gente não dá tempo Caleb. –Sorri e de repente o grupo começou a cantar Counting Stars. O pessoal do grupo da minha escola se entreolhou e vi a Juh dizer para Raquel um “não sei essa”. Olhei para Cal e ele assentiu com a cabeça. Então respirei fundo e minha voz soou acompanhando a garota na música.

No mesmo instante todos olharam pra mim, de ambos os colégios. Vi Raquel abrir um sorriso lindo e a Juh também enquanto a garota loira arregalava os olhos e o pessoal do colégio também. Arqueei uma sobrancelha para ela enquanto continuava acompanhando o que ela cantava sem problemas, conhecia a letra da música como conhecia a palma da minha mãe.

Seguimos sem parar de nos encararmos enquanto todo mundo tentava acompanhar como segunda voz de ambos os grupos. Juh, apesar de não saber a letra, sabia como fazer um bom coro atrás pra substituir instrumentos e o pessoal acompanhava ela, me colocando como vocalista. A do outro grupo me encarava com ódio. Encarei os olhos dela e em certo ponto da música parecia que ela iria me fuzilar:

“Take that Money

Watch it burn

Sink in the river

The lessons are learned”

“Everything that kills me

Makes me feel alive”

A diferença é que ao invés de eu entrar direto no “Lately, i’ve been...” eu continuei segurando a nota do “alive” o que fez todo mundo levantar e começar a aplaudir enquanto eu sorria. Segurei a nota mais um pouco e entrei no “Dreaming about the things”, mas já tinha sido feito. Quando terminamos o pessoal da minha escola estava me olhando com orgulho nos olhinhos e a vocalista do outro grupo bufava levemente.

Sorri para o pessoal do colégio. Tinha sido interessante. Eu adorava cantar então qualquer oportunidade de fazê-lo era boa, principalmente quando era pra defender o colégio num duelo com outro. Que a propósito, eu nem sabia o nome. Uma pena que deixou minha garganta seca. Olhei desesperadamente a procura de um bebedouro. Quando estava quase desistindo achei um ao longe e suspirei aliviada:

—Caleb, já volto. Vou beber água. –Cal assentiu com a cabeça enquanto eu me levantava e seguia em direção ao bebedouro. Se eu tivesse um violão poderia juntar as duas escolas para cantarmos juntas enquanto esperávamos. Provavelmente nem veríamos o tempo passar se isso assim acontecesse.

Inclinei-me e tomei água sentindo o alívio da água passando pela garganta que arranhava. Suspirei aliviada e levantei-me. Quase pulei de susto a ver que um garoto do outro colégio estava ao meu lado. Este era loiro de cabelos estilo surfista, de olhos castanhos e pele bronzeada, como se tivesse acabado de sair de um filme qualquer sobre praia.

—Não queria te assustar. –Desculpou-se e eu sorri como quem diz que não tinha sido nada. –Você tem uma voz muito bonita, fiquei impressionado. Geralmente ninguém supera a Bárbara nesse quesito. Qual o seu nome?

—Lexi. E muito obrigada. Não acho que superei sua amiga, a voz dela também é muito bonita e em questão de vozes acho que vai de gosto pessoal.

—Meu gosto pessoal é a sua.

No momento em que minhas bochechas ficaram avermelhadas senti um braço enlaçando minha cintura possessivamente. Arfei a me deparar com Leonardo o fazendo enquanto fuzilava o loiro com o olhar de forma que até eu percebi e olha que sou lerda pra essas coisas.

—É uma bela voz, não é? –Leo comentou com um sorriso cínico cortado naqueles lábios que há algum tempo eu achava a coisa mais doce que já tinha provado. –Sortudo quem pode ouvi-la todos os dias. A propósito, sua amiga, Bárbara não é? Estava te chamando.

—Hã... Okay. A gente se vê Lexi. –O rapaz que eu nem sequer tinha tido a chance de saber o nome, e se afastou e assim que o fez eu me livrei da mão de Leonardo na minha cintura o olhando nervosa. Nervosa no sentido brava e nervosa no sentido que aquela mão ali tinha me causado arrepios até a alma.

—O que foi isso?

—É incrível como você consegue arranjar olhares por onde anda... Estava só por perto, não falei nada demais. Falei?

Semicerrei os olhos com a fala cínica dele e dei de ombros, me virando pra voltar quando ouvi:

—Você e Caleb? –A voz vinha dele, mas não parecia dele. Estava rouca, magoada, num tom sério que nunca tinha ouvido de Leonardo. Suspirei e me virei.

—Estou magoada demais pra assumir qualquer coisa com alguém por agora Leonardo. Você como ninguém sabe disso.

—Olhe...

—Não. Por favor, não dificulte as coisas. Já é difícil o suficiente Leo. Não tem nada a se fazer. Eu descobri, as coisas foram jogadas no ventilador. Nós estudamos na mesma sala e isso já torna tudo muito complicado, eu estou te pedindo, não complique ainda mais. Não quero esse clima tenso. Só quero viver minha vida, sim?

Suspirei e me virei dessa vez sem olhar pra trás, mas por dentro ainda tinha aquela dor que me incomodava, ferroando meu ser. Será que seria sempre assim? Esses fantasmas me cercando? A ideia de ser apaixonada por Leonardo para o resto da minha vida doía como nunca. Eu não queria ser presa a essa dor. Não queria toda vez olhar pra ele e sentir o coração disparar e então lembrar do que aconteceu e me sentir magoada.

—Ei, você voltou. –Caleb sorriu pra mim e eu devolvi o sorriso sem deixar demonstrar as preocupações que rodavam minha cabeça. A única coisa que fiz pra ver se sumia aqueles pensamentos horríveis foi passar os braços pelo seu pescoço e pressionar meus lábios contra os dele. Foi um beijo muito gostoso, como sempre era com ele. Porém, os pensamentos continuaram ali.