Clichê
24 Capítulo 24: Sinto Sua Falta
Notas iniciais
Raquel
Cheguei em casa do passeio e coloquei os brincos na caixinha de joias. Suspirei olhando para dentro. Tinha um par de brincos de corujas da Lexi que ela havia esquecido. Eu ia devolver, mas então tudo aquilo aconteceu e eu acabei ficando eles. E era difícil todas as vezes que eu iria pegar um brinco novo para usar. Porque todos os dias eu me lembrava que quando fosse para a escola não teria minha melhor amiga para abraçar, para conversar, para comentar sobre os acontecimentos. Eu não teria com quem confiar à pessoa que tinha beijado ou até de quem estava gostando. Não. Ela estaria vivendo a vida dela, sem sequer olhar para mim.
Peguei os brincos pequenos e delicados nas mãos e sorri. Coloquei nas orelhas como se tentasse inutilmente ter uma parte dela comigo. Coloquei o rosto entre as mãos. Era tão complicado, principalmente porque eu tinha errado naquela história toda. Nós tínhamos errado. Mas já havia tanto tempo. Tanto tempo que tínhamos esquecido aquela maldita aposta. Tanto tempo de que aquilo havia sido posto de lado. Eu nem me lembrava mais de que havíamos começado daquela forma. Ela era minha melhor amiga e não porque eu tinha apostado isso. Ela só... Era. Era parte do nosso grupo, parte de nós.
—Eu reconheço esses brincos. –Leonardo apareceu na porta do meu quarto me fazendo pular de susto. Isso sempre acontecia. Era ele ou Tatiana, em outros tempos Lexi. Minha mãe sabia quem deixar subir sem precisar perguntar. Esses nomes eram daqueles que tinha passagem sem precisar de permissão.
—Ela tinha esquecido aqui. Não tive chances de devolver. –Desabei sentada em cima da minha cama. Leonardo sentou-se do meu lado e nós dois sorrimos um para o outro de forma tristonha. O grupo havia sentido, mas eu e ele tínhamos sido de longe os mais afetados com isso tudo. Eu nem me reconhecia mais. Não havia mais sentido dançar se minha melhor amiga não estava ali para me ver. Não havia sentido ficar com alguém se eu não poderia ligar para ela e conversar sobre como foi. E eu nem pude dizer a ela que estava apaixonada. E agora essa parte ainda era extremamente mais complicada. –Ela estava com os óculos hoje, você viu? Eu nem me lembrava mais como eles eram. Ainda assim estava linda.
—Você sabe que temos que seguir em frente não sabe? Ela escolheu se afastar, Raquel não há nada mais que possamos fazer. Lexi nos odeia e nada vai mudar isso. Nem mesmo nossa força de vontade.
—Eu não consigo. Eu não deixo amigos para trás. Leo... Ela me viu. Ela me viu, entende? Ela não viu a abelha rainha, a pegadora, a gostosa, a rainha da escola. Ela viu a Raquel. Ela viu meus medos e minhas qualidades, ela viu quem eu era. Eu não posso esquecer isso porque ninguém mais fez isso comigo. Ninguém mais fez isso conosco. Como posso deixá-la para trás? Como posso não sentir falta?
—Eu sei Raquel. Ela estava de conversa com um garoto hoje. Não gosto dela com Caleb, obviamente. Mas gosto menos ainda dela um dia estar com alguém que não conheçamos. De ela seguir e ser outra pessoa com outras pessoas.
—Eu não me importo dela estar com Caleb. Eu não me importo de estar apaixonada por ele e estar com ele porque eu abriria mão disso se pudesse ter minha melhor amiga de volta. Eu abriria mão de tudo. –Suspirei. –Isso é carma sabia? Todas as pessoas sobre quem apostamos, sempre deu certo e ninguém descobriu. Justo a pessoa com quem nos importamos e nos fez mudar, justo ela descobriu. Isso é no mínimo irônico.
—Carma é realmente uma merda. –Leonardo resmungou do meu lado e passou o braço pelo meu ombro me abraçando. Encostei a cabeça no ombro dele suspirando. Eu me lembrava de quando éramos simplesmente um grupo. Quando eles estavam juntos e todos nós achávamos incrível. Menos uma pessoa. –Acredita que até a Tatiana sente falta?
—O pior é que acredito. –Ouvi sua risada e isso me fez rir. –Sinto falta das sardas sabe? Dos cabelos ruivos. E dela corando. Era tão fofo e tão lindo. Sinto falta dela tocando violão e cantando. Sinto falta de sentir o gosto da boca dela. Dos seus beijos doces e dos quentes também. Sinto falta das aulas e sinto falta de dançar com ela. Sinto falta dos sermões e da comemoração das notas altas. Sinto falta dos olhos que procuravam o chão o tempo todo e que se importavam com todo mundo que podia. Da responsabilidade excessiva e do amor pelas regras. Sinto falta da ingenuidade. Sinto falta de ela ser sexy sem perceber da inteligência. Eu realmente sinto falta dela Raquel. O tempo todo. E não sei como ela fez isso comigo porque eu nunca fui disso.
—Eu também sinto muito a falta dela. Acha que ela pode nos perdoar quando o tempo passar?
—Acho que pode nos perdoar. Não sei se pode voltar pra nós.
Escondi meu rosto em seu ombro. O que é que eu tinha feito?
Lexi
Caleb me deixou em casa. A casa ainda estava vazia quando entrei. Geralmente eu arrumaria a casa e depois iria tocar. Ligar para Raquel ou para o Leonardo. Mas eu estava aprendendo a mudar os hábitos, embora não fosse algo fácil. Toda vez que algo acontecia, qualquer coisa eu queria contar para eles. Até imaginava o que me diriam sobre o passeio de hoje. E mudar os hábitos fazia com que eu me sentisse terrivelmente sozinha. Claro, havia Caleb sempre, mas antes eu tinha um grupo. Um namorado e uma melhor amiga. Agora éramos só nós dois.
Deixei minha mochila na cama do meu quarto. Tirei o tênis e quando fui colocar as joias na caixinha percebi que um dos meus inúmeros brincos de coruja não estava ali. Não precisei me esforçar muito para lembrar que tinha deixado na casa de Raquel. Toquei o espaço vazio e sorri. Em outros tempos provavelmente eu já estaria com o par em mãos, mas agora eu nunca mais o veria.
Sentei na cama e encostei minha cabeça nos travesseiros, encarando o telhado. Minha mão coçava para ligar para a minha melhor amiga. Ás vezes isso acontecia, justo quando eu pensava que estava superando. E aí era mais doloroso ainda. Não conseguia ser pior nesses dias. Enquanto eu abraçava o travesseiro lembrava das inúmeras vezes que eu e minha amiga assistíamos séries juntas ou simplesmente ficávamos horas no telefone.
E aí é claro que a minha cabeça me levava a Leonardo e nesses dias eu quase conseguia sentir o cheiro dele. Quase conseguia sentir o gosto dele novamente. Quase conseguia sentir o arrepio que eu sentia todas as vezes que ele me tocava. E por um segundo eu fechava os olhos sentindo tudo aquilo e era como se estivesse com ele novamente. Mas depois vinha aquele tapa na cara que me lembrava que eu não poderia estar com ele porque o coração dele nunca foi meu. Aliás, de nenhum dos dois. E aí doía mais. E eu me perguntava por que sentia falta deles. E eu me lembrava o quanto eles foram importantes pra mim. O quanto eu os amei e o quanto eram como minha família. E o quanto me ajudaram em momentos de ansiedade, em momentos de choro. E então me lembrava que abandonar famílias nunca eram fácil.
Caleb
Deixei Lexi em casa. A minha casa não era tão longe então eu fui andando mesmo. Sentindo aquele incômodo. Se eu adorava estar com Lexi depois de tantos anos gostando dela em segredo? Claro. Mesmo que não tivéssemos um relacionamento. Ainda assim eu sentia que ela não estava por inteiro comigo. Que parte dela estava ainda com Leonardo e que provavelmente isso não mudaria tão cedo e por isso não podia estar plenamente satisfeito.
E infelizmente, não podia negar que também sentia falta. Sentia falta do grupo. Sentia falta das loucuras da Raquel e da forma como ela era segura. Como ela conseguia fazer as pessoas sorrirem ao redor dela e fazer tudo brilhar. Sentia forma das brincadeiras do pessoal e de como ficávamos no intervalo. E também sentia falta da sensação de que aquelas pessoas fariam o possível por nós. E eu não queria mostrar á Lexi, mas céus, eu também senti um baque terrível quando descobri daquela aposta. Porque eu também era uma aposta. Afinal, eles só me aceitaram porque eu estava com ela então eu também era parte daquilo. Eu também havia sido traído pelas pessoas que eu considerava amigos. Isso deveria me impedir de sentir saudades deles e de todo aquele clima grupal, mas não impedia. Por isso eu entendia parte de Lexi estar com Leonardo. Porque parte de mim também estava com o grupo.
Tatiana
Não dava para fingir que não. As coisas não estavam normais no grupo. Eu havia pensado que sem a Lexi as coisas voltariam a ser como eram antes. Como era antes de termos feito a aposta. Mas simplesmente não dava. Ela tinha realmente sido parte de nós e não funcionamos bem sem uma das partes. Raquel e Leonardo que o digam. Estavam tentando disfarçar, mas não dava. A saudade estava estampada neles. E em todos nós.
Eu pensei que não sentiria falta. Afinal, ver Leonardo e Lexi todos os dias me doía tanto que eu não podia pensar em outra coisa senão que acabasse. Eu não conseguia mais ver aquelas cenas todos os dias. Porque doía. Meu coração apertava e eu não conseguia pensar em outra coisa. Talvez não tanto o fato de Leonardo estar apaixonado por alguém, mas pelo fato de ter sido substituída. Eu perdi o cara que gostava e minha melhor amiga para a mesma pessoa. Era insuportável, ás vezes. Perder as pessoas que tanto importavam para mim.
Mas enquanto tentava ler alguma coisa no meu quarto as coisas vinham como uma bola de destruição. Eu também sentia falta dela. E de Caleb. Sentia falta de como ela podia acalmar o grupo de repente. Sentia falta de como ela nos fez ver beleza em coisas simples como o fato de estarmos todos acalmando uns aos outros quando anunciavam as notas. Sentia falta do sorriso de Caleb e de como era divertido. Não havia percebido a tempo que eles eram parte do nosso grupo e que não tinha como reverter isso. E agora me arrependia por ter tentado.
Leonardo
Saí da casa de Raquel depois dela ter me prometido que iria assistir uma série e iria parar de sentir saudades. Como se isso fosse fácil. Eu não tinha muita moral porque eu não conseguia. Ela estava em toda parte. Seus cabelos ruivos me perseguiam em todo o canto que eu olhava. Não conseguia mais me sentir atraído por outra garota porque só via ela. Meu olhar sempre me levava a ela.
Eu não tinha ideia de quando isso tinha acontecido. Não tinha ideia de quando ou como eu tinha me apaixonado por ela. Mas eu estava e estar longe só tornava as coisas mais difíceis. Eu não sabia como lidar, afinal, isso nunca tinha acontecido comigo. Eu nunca tinha tido me apaixonado antes. Eu achava perda de tempo, fraqueza. Mas eu nunca tinha me sentido tão forte quanto no momento que estava ao lado dela. Ela era meu coração, minha cabeça. Eu ouvia seus conselhos e seu toque mexia comigo. Pra mim ela era a coisa mais linda e pura do mundo.
E agora ela estampava para o mundo que tínhamos acabado e que eu era feliz e agora estava partido. Todas as vezes que ela entrava naquela sala de cabeça erguida era como se só eu estivesse com cicatrizes. Como se só eu sentisse saudades e como se só eu daria tudo para tê-la de volta. Porque eu daria. Ela tinha ido e levado um pedaço de mim, de todo o grupo. Havíamos falhado sim. Aquela aposta fora cruel. Mas a aposta tinha acabado porque era importante. Todas as apostas haviam acabado porque ela era importante. Porque faríamos qualquer coisa por ela. E de nada adiantara porque havíamos perdido. E se acostumar com a perda nunca seria fácil. Não quando a perda entrava todos os dias na sala de aula. Não quando a perda beijava outras bocas desdenhando da sua dor como se não sentisse mais nada. Como se não sentisse falta de como era. E eu sentia falta e queria disfarçar. Queria ser forte, mas não conseguia. Porque ela havia levado minha força com ela.
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