Clichê

13 Capítulo 13: Primeira Aula


Notas iniciais
Dessa vez eu não demorei tanto gente

Cheguei pontualmente ao parque com livros em mão. Pensei que ele chegaria atrasado e iríamos brigar logo no começo das aulas, mas não teve isso. Para o meu completo espanto, ele chegara adiantado e isso me deixou espantada. O que mais me surpreendeu foi o fato de eu ter ficado espantada. Geralmente eu imaginava o melhor para as pessoas e porque com Leo era diferente? Não precisei pensar muito pra chegar á uma resposta. Porque ele sempre mostrava ás pessoas somente às partes ruins para que elas não tivessem expectativas com ele. Eu já estava começando á perceber que tudo aquilo era somente um muro que o rapaz havia construído ao redor de si mesmo.

–Bom ver que chegou na hora. –Digo colocando uma franja atrás da orelha.

–Nossa, você realmente gosta de Harry Potter.

Dou risada. Eu estava usando uma blusa com o símbolo das relíquias da morte, um short creme e um tênis da Ravenclaw que era a minha casa. Um colar que imitava o vira tempo estava no meu pescoço, um anel escrito “expecto patronum” e uma bolsa transversal em forma de uma máquina fotográfica. Foi uma mais casual.

–Mais do que você pode imaginar. –Respondi sorrindo. –Okay, vamos ás aulas porque se começar á falar de Harry Potter eu não vou parar.

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–Eu disse que não era difícil. –Falo dando um sorriso. Mais uma vez meu aluno havia me espantado. Leonardo havia sim uma facilidade bem grande pra aprender, o único motivo de ele não se sair bem nas provas era a mais pura preguiça.

–Calma aí ruivinha, eu não disse que não era difícil. Eu disse que não era tão difícil. Acredite, uma única palavra pode mudar todo o sentido de uma frase. –Ele sorri.

–Bom mesmo porque só pegamos uma matéria e apenas o começo dela. Ainda temos muito que aprender, mas você vai já vai estar tinindo nas provas de Setembro ou pelo menos vai estar sabendo o suficiente pra não ficar de recuperação o que já é um começo.

–Sim, mas sua hora acabou. –Revirei os olhos longamente. Tinha que ter sido idéia de Raquel. Porque eu confiava naquela garota ainda era um mistério.

–Pegue leve Leonardo, lembre-se que não sei dançar á dois.

–Alguma coisa que você não sabe afinal. –O rapaz se levantou e me estendeu á mão. –Vou pegar leve. Vai se sentir bem comigo, vai ver.

Respirei fundo e aceitei á mão me levantando. No começo ele me ensinou os passos básicos e me ajudou á pegar confiança tanto com ele quanto comigo mesma. E ficamos no básico na primeira aula, ele não queria me forçar muito em algo novo pra mim assim como eu não havia forçado ele nas minhas aulas. No último passo da hora dele ele me levou girando pra longe e me puxou pra ele da mesma forma. Enlaçou-me pela cintura de forma que eu ficasse de costas encostada no peito dele. Caramba, eu era bem menor perto dele e só agora havia percebido isso.

–Pode me prometer uma coisa? –Ele sussurrou no meu ouvido sem me largar o que me fez franzir a testa.

–Depende. Do que?

–Aprecio sua mudança Lexi, de verdade. Mas não deixe que as meninas tirem sua inocência, é uma coisa tão difícil de ter e tão fácil de perder. A sua personalidade é algo tão doce, tão lindo. Você já é perfeita assim. Mude sua aparência, não o que você é. Lembre-se que foi isso que amamos em você. Ser tão diferente das pessoas que conhecemos.

–Leo, eu não vou deixar de ser eu mesma nunca. Eu tenho valores e princípios desde bem pequena e não vou deixar que me tirem isso. Quando eu era pequena lembro de ter ouvido que eu mudaria e não seria mais uma garota boa quando adolescente e eu prometi á mim mesma que não me deixaria mudar. Posso ser insegura, mas reconheço que meus valores são bons e que estão bem firmados. Então não se preocupe comigo. Ficarei bem, de verdade. Eu prometo. –Dei um sorriso tímido e ele beijou o meu cabelo levemente. Estávamos abraçados, mas eram os primeiros carinhos que ele me dava sem malicia nenhuma e eu apreciei isso, de verdade.

Ficamos assim por mais algum tempo, mas nos largamos antes que aquilo ficasse constrangedor. Recolhi os livros, mas Leo os tomou dos meus braços:

–Não pense que vou deixar você voltar sozinha. Uma moça bonita não pode sair andando por aí sozinha, sabia?

Dou risada:

–Okay, já que insiste... –Era a primeira vez que eu não estava discutindo com Leonardo também ou com raiva dele e era bom.

–Ainda está na casa da Raquel?

–Vou embora depois de amanhã, então sim, ainda estou. –Sorrio e começamos á andar.

–Acho que nunca vi a Raquel assim. Sabe, nosso grupo sempre foi muito unido, mas muitas vezes as meninas eram bem cruéis entende? Eu e Patrício também entrávamos na onda com apostas e mais muitas coisas envolvendo outras pessoas e era cruel, Raquel como uma espécie de “abelha rainha” era especialmente ruim. Ela tem até uma caixa com “contratos” de apostas. Mas agora ela está tão leve. A faceta da Raquel que você está vendo é a melhor e você despertou isso. Você é uma menina preocupada com as pessoas e isso acabou passando pra ela. Raquel morreria se decepcionasse você.

Olho pra ele incrédula:

–Sabe que eu não tinha nem noção do quanto...

–Do quanto é importante pra ela? Lexi, você realmente não tem nem noção. Uma coisa entre as meninas do nosso grupo que eu pessoalmente acho muito ruim era a competição que tem entre elas. Sempre foi tênue, mas existia, uma sempre tentando passar a outra. E então entrou você, a coisinha mais inocente que elas já conheceram. Você nunca tentou competir em nada com nenhuma delas e elas não poderiam querer competir com você porque essa rivalidade é desconhecida pra você. Você gostou delas de coração e isso fez com que elas fizessem o mesmo. Sabe, elas matariam qualquer um que tentasse machucar você e os laços entre elas estão se aprofundando porque você inconscientemente faz com que elas vejam que a amizade tem que ser sincera, sem competições, sem rivalidade. Por isso eu pedi que não se perdesse, não agüentaríamos se você também perdesse a sua inocência.

–Todas as minhas amizades foram sempre muito sinceras. Nunca teve rivalidade nem nada do tipo porque como você mesmo ressaltou eu acho inútil ter rivalidade com uma amiga. Eu não fazia idéia que mudei tanta coisa, mas fico feliz. Quando entrei nessa escola sempre pensei que não acharia ninguém que se comparasse com as minhas amizades do passado e então encontrei vocês. Eu também mataria qualquer um que entrasse no caminho de vocês. Por Deus, eu amo a Raquel de todo o meu coração, ela é minha melhor amiga. Eu me sinto feliz que mesmo sem saber eu a tenha ajudado de alguma forma. E se depender de mim esse grupo vai continuar tendo uma amizade sincera. Entenda que vocês são tudo o que eu tenho e eu daria qualquer coisa por vocês.

Ele deu um sorriso. Um sorriso sincero, sem malicia, sem ironia, sem sarcasmo. Somente um sorriso, um sorriso lindo.

–Lexi, você entrou tão diferente e tímida e saiu mudando tudo. Tudo entendeu? Você é muito importante pra gente. Eu e você podemos quase sair no tapa de vez em sempre, mas eu reconheço o que você fez pela gente e eu agradeço.

Dei um sorriso tímido e encarei o chão. Velho hábito. Senti os mesmos dedos delicados de sempre erguerem meu queixo me fazendo encarar os olhos castanhos dele. Os dedos diferentemente não saíram do meu queixo, um deles ficou no queixo me impedindo de desviar o olhar e outro acariciou levemente meu rosto, com o cuidado que se tem com uma boneca de porcelana. Nossos olhares ainda estavam presos e por mais que parte de mim quisesse desviar, eu não conseguia.

Algo me tirou do torpor. Era “Burn”, da Ellie que era o toque do meu celular. Fez com que eu escapasse do olhar de Leonardo e abrisse a bolsa para pegar o aparelho. O visor apontava em letras grandes Caleb.

–Oi Caleb, o que foi? –Perguntei com um sorrisinho que fez com que Leonardo revirasse longamente os olhos.

–Queria saber se já se livrou do carrapato. Sabe que me preocupo com você perto dele Lexye.

–A aula já acabou. –Respondo. –Mas ainda estou com o Leo, ele está me acompanhando até a casa de Raquel. Fica tranqüilo Cal, estou bem.

–Okay. Lexye... Você sabe o jeito que ele te olha. Toma cuidado. Por favor.

–Vai dar tudo certo Caleb. Eu te ligo depois. Beijos.

–Beijos. Cuide-se.

Dei uma risadinha baixa e desliguei o celular guardando ele na bolsa novamente. Leo estava olhando para o céu com um olhar que dizia “O que eu fiz pra merecer?”.

–Era Caleb?

–Sim.

–Sinceramente não sei por que ele não se declara logo. E descobre que você não o quer dessa maneira de uma vez. –Leonardo diz entre dentes de um jeito tão convencido do que eu queria que plantou uma semente de raiva em mim.

–E quem disse que eu não quero? –Eu não queria. E nem Caleb, qual é, ele não olhava pra mim desse jeito. Mas não resisti ao comentário.

Leonardo me olhou incrédulo e eu o olhei com um olhar “Vai fazer o que?”.

–Não pode estar falando sério. Ele não é homem pra você.

–E eu tenho tipo de homem agora?

–Claro que tem. Você é tímida, doce, meiga, inocente, insegura. Você demonstra os sinais de timidez e insegurança toda vez que morde os lábios ou passa uma mecha por trás da orelha. Precisa de um homem que a solte, que a deixe segura, que cuide você, que te proteja que mostre o mundo que existe por trás da timidez.

–Eu não tenho tipo de homem. O meu tipo de homem é o que eu escolher e ponto. E antes que você comece á dar crise, Caleb não me olha desse jeito, entendeu? Para de cisma com o meu amigo.

–Ah, eu vou desconsiderar isso porque você é ingênua.

–Sou inocente, não burra. Pare de falar comigo como se eu fosse uma criança!

–Lexi, você é uma das garotas mais inteligentes que eu já conheci pra não dizer que é a mais. Mas você não conseguiria ver que um cara está afim de você nem se ele esfregasse isso no seu nariz!

Ele tinha um ponto. Eu sempre fui muito ingênua para cantadas, mesmo porque elas não aconteciam com freqüência. Mas eu conhecia Caleb desde pequena, ele não me olharia dessa forma e se me olhasse iria ser sincero comigo e falaria. Não havia cabimento quando me falavam que eu e Cal poderíamos dar alguma coisa.

–Leo, estamos tendo um momento bom, dá pra não estragar?

–Não fui eu. Foi seu amigo que ligou na hora errada.

–Ele ligou na melhor hora que poderia ter ligado. –Eu disse e acreditava nisso. Sinceramente, não sei o que aconteceria se aquele celular não tivesse tocado. –Enfim, não sei por que você fala “seu amigo”. Caleb já entrou no grupo, isso é óbvio.

–Eu disse que ele era “seu” amigo, porque ele não é meu amigo. Entendeu ruiva?

–Ai que implicância com o Caleb, Leonardo. –Fiz careta e revirei os olhos. Leo acabou rindo.

–Até suas caretas são fofas. –E apertou levemente minha bochecha. –Está bem, chegamos. Foi uma boa aula Lexi. –Ele beijou minha bochecha e me entregou os livros.

–Sim, foi. –E eu dei um sorriso tímido entrando pra dentro da casa de Raquel.

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–Acho que já está bom por hoje meninas. –Falei pegando minha garrafinha de água e tomando. Estávamos ensaiando para a apresentação de dança e música que iria ter no final de ano, aquela que eu já citei. Elas estavam tão ansiosas que ensaiavam em casa e como eu era a única que cantava, era eu quem fazia a parte principal da cantora que a professora de música havia cedido pra elas. Á esse ponto eu já sabia a coreográfica de trás pra frente.

–Isso porque as férias mal acabaram e a gente já está assim. –Tasha fez careta. –Quando estiver próximo da apresentação à gente vai surtar. E cara, a Lexi canta milhões de vezes melhor que a Juliane. Devia ser ela nossa principal.

–Eu não acho. A Juh foi à escolhida, devemos respeitar isso. –Tatiana falou.

–Ela só foi escolhida porque a Lexi ainda não estava na escola. –Raquel rebateu no mesmo momento.

–De qualquer forma eu vou ensaiar com vocês. –Falei tomando mais um pouco de água. –Mas acho que por hoje já está bom. Nós estamos muito sincronizadas, está tudo perfeito.

–Tudo bem, me conte como foi à aula sua e do Leonardo. –Raquel falou.

–Pela primeira vez a gente não brigou.

–Isso de vocês é TSR.

–Tribunal Superior Regional? –Perguntei confusa.

–Tensão Sexual Reprimida.

Corei mais do que um pimentão, juro pra vocês. Tatiana revirou os olhos e saiu da sala discretamente. Franzi o cenho:

–O que foi com ela? –Perguntei.

–Ah, há algum tempo atrás ela teve um lance com o Leo. Foi só um lance, mas ela nunca esqueceu. Aí o ver dando em cima de você assim, de vez em quando, a faz dar nos nervos. –Raquel explicou e minha boca formou um perfeito “O”.

–Mas ela não tem nada que ficar com ciúmes. Até parece que poderia rolar algo entre mim e o Leonardo. Nunca!

–Você diz isso agora. Mas aposto que aí dentro você já sabe da verdade.