Clerigum
1 Gênesis
“Santo Anjo do Senhor,
meu zeloso guardador,
já que a ti me confiou
a piedade divina,
sempre me rege, me guarda,
me governa e me ilumina.
Amém.
Anjo de Deus,
que sois a minha guarda,
e a quem fui confiado
por celestial piedade,
iluminai-me, guardai-me,
protegei-me, governai-me.
Amém.”
Tudo está conectado.
***
“−Ilumina-...iluminar...me. Iluni...Ilumi...”
A menina de apenas cinco anos se esforçava. Era difícil articular as palavras, passar pela boca o que se cabia imensamente no coração.
A mãe a ajudava “−Iluminar-me, filha. Vamos juntas: i-lu-mi... nar-me”
Com a ajuda da mãe, a garota conseguia pronunciar as sílabas direitinho. Era ela, sua figura materna, brilhando sobre a luz do sol, que a guiava e protegia. Talvez, o primeiro Anjo-da-Guarda de toda a sua vida.
Maya di Sancti era o nome de batismo. Fora batizada ali perto, na Igreja de Nossa Senhora Aparecida. Era um bebê lindo e saudável, pesando seus 4.2 quilos. Aos cinco anos já havia começado a se preparar para a Primeira Comunhão. Aos sete, sabia de cor seus versículos favoritos da Bíblia.
“Por isso não tema, pois estou com você;
não tenha medo, pois sou o seu Deus.
Eu o fortalecerei e o ajudarei;
eu o segurarei
com a minha mão direita vitoriosa”.
Ela sorria ao terminar, mostrando seus pequenos dentes de leite, pequeninos e molengas, parecendo sinalizadores em um mar distante.
Porém, aos nove, tudo mudou.
−Mamãe?
A porta de casa estava aberta. Maya acabara de voltar da igreja. Não estava certo.
A menina andava a passos leves percorrendo a grande extensão da sala, o papel de parede antigo e cinzento, o armário que guardava a louça de porcelana da avó. Não estava nada certo. Fazia frio. E na rua o sol estava à pino. Maya se entreolhou, assustada; por um segundo, se sentiu descoberta, desprotegida, como se uma sombra estivesse pairando por ela.
−Mamãe? Papai?
Maya era jovem demais. E pequena. Tinha herdado isso da mãe, que nunca fora muito alta. Mas a mãe não estava mais lá. O corredor de casa, de travessia fácil, parecia até uma estrada sem fim. E estava frio, frio...
Havia algo mais dentro da casa.
A garota não se sentia bem. Quanto mais andava, mais escura a visão ficava, mais frio sentia, como se todas as sombras da casa estivessem se unindo e formando uma sombra cada vez maior, debruçando-se sobre ela. Quando finalmente chegou ao fim do corredor, quase podia sentir seu peso.
Até que ela avistou a porta do quarto dos pais entreaberta. A menina girou a maçaneta...
...e não se lembrava de mais nada.
Um fogo destruidor agora se alastrava pela casa. O papel de parede estava descascando e encolhia; o piso de madeira era como uma tocha gigante. O armarinho com a louça da vovó espatifado no chão. Ela ouvia os gritos da mãe, do pai, procurando pela filha, mas eles não estavam em lugar nenhum.
“−MAYA!”
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