Clerigum
2 Gênesis pt. II
Um grito aterrorizante veio do quarto.
−Maya? Maya!!− Madre Bernarda correu apressada até a garota. Ela estava sentada na cama, com o olhar vidrado e suando frio – O que aconteceu? Está tudo bem, querida... Foi mais um daqueles sonhos, não foi?
Maya não respondeu de imediato. Seus olhos cor de avelã estavam arregalados até o limite. O cabelo castanho curto, naturalmente desgrenhado, estava em pé. Ela sentiu os braços tremerem. Ficou chorosa.
−Ah, meu Deus!− queixou-se, entre lágrimas – Não aguento mais esses pesadelos!
−Calma, minha querida− Madre Bernarda aninhou a menina em seus braços – são apenas lembranças. Deus sabe o que faz.
Seis anos haviam se passado desde que A Sombra tinha invadido sua casa e roubado sua família. A polícia investigou durante meses, mas não tinham encontrado nenhuma pista: apenas a garota fora encontrada no meio da casa incinerada, completamente intacta. Como ela tinha sobrevivido sem nenhum arranhão era um mistério.
Sua sorte fora, mais uma vez, a igreja, que a acolheu no Convento de São Sebastião, um lugar reservado exclusivamente para freiras, acessível por uma gigante escadaria de pedra. O certo seria que a mandassem para um orfanato, mas ela escapou de acabar em algum lugar desconhecido e caindo aos pedaços por causa da Irmã Ada, que tinha se apiedado da menina. Aos poucos, Maya foi crescendo e deixando o passado para trás. Mas às vezes ainda tinha lampejos assustadores.
Depois de levantar da cama ensopada de suor, Maya se arrumou e desceu as escadarias. Após o café, tomou a liberdade de passear pelo convento. Ao longo do jardim, plantas de diversos tamanhos e cores se debruçavam diante do piso de pedra. Ela saltitou até o canteiro das margaridas, seu bem mais precioso; cuidava delas todos os dias, a única forma de diversão naquele lugar tão estrito.
O incidente fez com que Maya ficasse sem conseguir abrir uma Bíblia por meses, fato que irritava ainda mais a Madre Evangeline. Essa era a senhora mais antiga do convento, que detestava ter que deixar Maya conviver com as freiras, pois “Sua juventude explosiva e irresponsável poderia tirar as freiras do caminho da iluminação”. De vez em quando, Evangeline passava pelo jardim e cuspia nas margaridas. Isso fez com que Maya optasse por colocar uma redoma de vidro nelas, e vigiasse tudo pela janela do último andar.
Dessa vez quem apareceu no jardim foi a Irmã Ada.
−Bom dia, flor do dia!− ela sorriu – fiquei sabendo que alguém não dormiu muito bem esta noite.
A jovem suspirou, com o olhar cansado.
−Não aguento mais, Ada... Tenho medo de comer, medo de dormir, medo de orar. É como se... todo o mal do passado estivesse à espreita novamente.
−Minha querida− sorriu a Irmã com o olhar doce – o que está no passado está no passado. Deus ama você demais para deixar algo assim acontecer. Tente compreender... e tente superar. Quanto mais você se focar na beleza das coisas, menos medo sentirá.
Dito isso, as duas se abraçaram. Ter alguém como Ada por perto era uma enorme bênção.
Algum tempo depois, a garota largou as flores por um instante e foi almoçar.
−A comida já está pronta?− ela gritou da soleira da porta. Ninguém respondeu. Maya entrou e procurou pelas freiras; estava tudo vazio. De repente, começou a sentir uma sensação estranha. Era como o medo, subindo pelo estômago, subindo... até virar aquela sensação horrorosa outra vez.
Logo em seguida, o corrimão de uma das escadas pegou fogo.
Ela ouviu tudo outra vez: os gritos, o desespero. Ela correu desesperadamente até a sala de orações: várias freiras estavam atrás da porta, que estava trancada. Maya urrou e sacudiu a porta com toda a força que tinha até cair no chão, em lágrimas. Ela subiu mais alto até os quartos, onde algumas irmãs gritavam assustadas pela janela.
Uma explosão de fogo afastou-a da porta, ela correu até a saída em pânico, decidida a descer até a cidade e chamar alguém, seja quem fosse, mas no salão principal alguma coisa se mexia.
Alguma coisa feita de sombra.
“Você está aqui, não está, Di Sancti?” milhares de vozes falaram de uma vez só. “Esse é o seu fim... É o fim de todos...”
−Por favor, não...− chorou a garota – De novo não!
“Por que está chorando? Vai acabar como seus pais...” uma risada maligna em milhares de tons diferentes ecoou pelo convento em chamas. O pânico gerava tremores. Ela fechou os olhos.
−Por favor, alguém me ajude!− gemeu ela− Me ajude, pelo amor de Deus!
−Eu ouço tua súplica.
“O quê?” pensou Maya, atordoada. Algo fez as chamas baixarem. A Sombra estava acuada, girando pela sala, soltando gritos de dor.
“MALDITO SEJA, ANJO IMUNDO!” esbravejou a voz, uma última vez.
HAEC EST ENIM VESTRA CREATURA UMBRA FINIS!
Ainda tremendo, Maya abriu os olhos devagar. O fogo tinha sumido. As vozes das freiras, também. Havia alguém em pé, de costas para ela. Com uma túnica branca, e algo brilhante nos ombros.
O alguém se virou devagar, olhando-a sem nenhuma surpresa. Parecia um... garoto, com pelo menos dois anos a mais que ela. Tinha cabelos encaracolados e meio alaranjados. Ele observou Maya, que estava com expressão moribunda e amedrontada, coberta de cinzas.
−Olá!− sorriu o garoto alegremente– Como vai? Tá meio quente hoje, né?
Maya continuou moribunda e amedrontada, coberta de cinzas.
−Talvez seja... por que estávamos em um incêndio – sussurrou Maya com voz fraca.
Ele botou a mão no queixo.
−Aah... É verdade, né? Isso explica o ventinho que estava lá embaixo! Hahahahaha!− ele se espreguiçou e botou as mãos atrás da cabeça.
Maya ainda estava moribunda e amedrontada, e um pouquinho suja de cinzas.
−Quem diabos é você.
−Isso foi uma pergunta?
Silêncio.
−Ok, vou considerar como uma pergunta. Meu nome é Lelahel. Talvez você não lembre de mim, mas eu sou... SEU ANJO DA GUARDA!
Ele abriu os braços em uma pose dramática. Maya sempre imaginou que talvez tivesse um anjo da guarda, mas não se lembrava de querer um tão estúpido.
− Wow, calma aí! Você está meio ferida, não está!? Por que está se arrastando?
−Eu preciso... ligar pra polícia...− arfava a garota dolorosamente.
−Calma aí, espertinha!− Lelahel acenou com uma mão, e quando Maya percebeu estava flutuando pelos ares. Ela gritou de susto, mas pousou no chão em frente ao garoto.
−ME DIZ AGORA!− esbravejou ela –QUEM É VOCÊ? O QUE QUER COM ESSE CONVENTO? O QUE QUER COMIGO?
−Não confunda as coisas! Já vi que vou ter que me apresentar formalmente! U-hum...
Uma onda iluminou todo o ambiente, cegando os olhos de Maya e entrando em suas veias, tomando posse de seu sangue e causando tremores. Ela nunca havia se sentido daquele jeito antes. Estava abalada, engolida pelo poder, como se pudesse enxergar a vida, a criação, o mistério. No centro de tudo estava Lelahel, que se ergueu com asas de fogo e expressão soberana, irradiando calor e força.
"Eu, Lelahel Azenoc, filho de Lelahel, Anjo de primeiro grau, sou encarregando da vida de Maya Di Sancti, uma humana Iluminada, para guardar, guiar e proteger sua alma até que se eleve ao Reino Dos Céus".
Foi quando ela enxergou.
Ele não estava mentindo.
Lelahel era um anjo. Ela pôde ver isso na sua voz aveludada. No ouro de seus cabelos. Na pele polida como porcelana, sem nenhuma marca da impureza selvagem e do pecado humano, na sua existência de pura bondade e vitalidade, e principalmente em seus olhos, injetados e brilhantes, como quem chorava por todos os pecados do mundo.
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