Classic Is Outdated
7 Knowing Music
Notas iniciais

Vou caminhando até minha casa em passos lentos, para que eu possa apreciar a paisagem: um belo pôr-do-sol e as árvores balançando com o vento fresco que bate em meu rosto.
Já estou na rua onde moro, quando avisto Susan regando as plantas de seu jardim. Vou me aproximando e cumprimento-a com gentileza. Ela, por sua vez, sorri e me chama para mais perto.
– Olá Nina! Estava passeando?
– Na verdade, estou voltando da casa de um amigo. Ele tem uma banda e me chamou para assistir ao ensaio.
– Que ótimo! Sabe, eu estive pensando, será que você poderia chamar o Erick para dar uma volta com você? Pode ser em qualquer lugar. É que eu fico muito preocupada com ele trancado naquele quarto o dia inteiro, sem se comunicar com ninguém.
– Claro, sem problemas – noto que Susan realmente é preocupada com o estado do filho se isolar de todos e eu também não gostaria de decepcioná-la, pois ela está contando comigo.
– Muito obrigada mesmo, Nina.
Despedi-me de Susan e fui para minha casa, onde meu pais estavam assistindo à TV, bem descontraídos. Junto-me a eles, pois momentos como este são realmente raros em minha família.
***
Toco a campanhia e demora um pouco até Susan abrir a porta. Erick estava sentado no sofá e vestia uma blusa cinza, seus jeans e tênis. Levantou-se, com as mãos nos bolsos, e foi em minha direção. Deu um aceno meio tímido com a cabeça e eu despedi-me de Susan.
Fomos caminhando pela rua, onde passam muitos carros e pessoas andando com seus cachorros e crianças. Também moram muitos idosos, portanto, à noite era bastante calmo e tranquilo. Apenas ouve-se o som da natureza, nada mais.
Erick mantinha um passo acelerado — eu tinha sempre que dar uma corrida para alcançá-lo -, as mãos sempre aos bolsos e olhava para o chão.
Ficamos em silêncio por todo o percurso, Erick definitivamente não gostava de conversar e nem se esforçava em esconder.
O parque ficava na descida da rua e tinha um lago, onde há muitos patos que as crianças adoram brincar. Não havia nenhum banco disponível, então nos sentamos debaixo de uma árvore com belas flores vermelhas.
– Então, onde estuda? – perguntei da maneira mais descontraída que pude, mesmo estando muito desconfortável.
– Na escola pública do bairro – sua voz era grave e baixa, quase não pude ouvi-lo quando decido aproximar-me mais.
– O que gosta de fazer?
Erick dá de ombros e não responde. Seus olhos continuam fitados na grama, que agora está enrolada em seus dedos.
Fico observando as crianças que brincam com os patos no lago e nas famílias que se divertem juntas com seus cachorros e riem como se aquele fosse seu último momento que passariam na companhia de uns aos outros.
O tempo foi passando e o silêncio permaneceu, até que comecei a ficar com um pouco de fome e sugeri a Erick que fôssemos tomar um milkshake na lanchonete, que é ponto de encontro da banda de Josh, pois lá é servido o melhor que já experimentei.
A lanchonete estava cheia como sempre, com vários grupos de amigos, grandes e pequenos. As garçonetes não param por um minutos, estão sempre andando por todos os lados, atendendo e entregando pedidos em seus uniformes fofíssimos, compostos por um vestido branco e sapatos pretos, como de bonecas.
Supus que talvez Erick não gostasse de muito tumulto, então sugeri que sentássemos em uma mesa mais afastada da multidão.
Uma das garçonetes nos entregou os cardápios de sabores para milkshake e, enquanto Erick escolhia o seu, pude observar seus olhos verdes claro, que tinham um brilho especial.
Rapidamente desvio meu olhar quando ele faz seu pedido, querendo um milkshake de chocolate. Entrego o cardápio que estava em minhas mãos e peço um de baunilha.
A garçonete afasta-se da mesa no mesmo momento em que risos muito altos ecoam por todo o local. Procuro ver de onde está vindo e avisto um grupo de quatro garotos que vestiam roupas escuras. A mesa estava cheia de copos e muitas garrafas de bebidas como cerveja e vodka. Definitivamente estavam muito bêbados.
Olho mais atenta para o grupo a fim de tentar ver se reconheço alguém, quando meus olhos encontram os de um dos garotos. Eram negros como uma jabuticaba. Donnie.
Ficamos nos encarando por alguns segundos, quando ele desvia seu olhar e volta sua atenção para seus amigos e eu, para Erick, que olhava para algo que estava atrás de meus ombros. Viro-me para ver o que era: o tocador de músicas.
– Gosta de música? Gostaria de ouvir alguma em específica? – pergunto
– Na verdade, não.
– Jura que não gosta de música? – estou meio surpresa – É porque você ainda não encontrou a certa. Aposto que quando encontrar, se apaixonará por essa arte.
Nossos milkshakes são entregues e Erick parece estar com tanta fome quanto eu, pois praticamente devora o seu.
– Sabe, você deveria conhecer meu avô. Ele é um especialista em música e com certeza irá encontrar algo para você. O que acha de ir visitá-lo depois? Eu sei que hoje já fomos em dois lugares, se quiser, deixamos para uma próxima vez.
– Por mim está tudo bem irmos hoje mesmo – Erick olha nos meus olhos pela primeira vez no dia.
Dou um leve sorriso e continuo a saborear meu delicioso milkshake de baunilha.
***
O vovô pegou alguns de seus inúmeros vinis de todos os artistas de todas as épocas, de todos os gêneros. Ele era realmente um apreciador da música, não importava seu estilo.
– Sabe, meu jovem, música é uma paixão, não importa o gênero. Música é música, e com certeza se encontrará aqui – entrega a Erick três vinis de presente.
– Muito obrigado – agradece Erick, timidamente.
Vejo o brilho nos olhos do vovô, por estar possivelmente fazendo parte da vida de mais alguém além de mim e compartilhando seus conhecimentos e sua grande paixão. Ele estava muito feliz.
– Erick, na próxima vez que saírmos, irei te levar em uma loja onde vendem vários vinis e que também podemos ouvi-los lá mesmo. Vendem discos de todos os estilos, é muito legal. Leve esses que meu avô lhe deu para ouvirmos juntos também.
Ele abre um sorrio bastante tímido, sem mostrar seus dentes. Mas, já é o suficiente para mim.
Fale com o autor