Classe dos Guerreiros - A Sexta Geração
11 Missão
Notas iniciais
Todos estavam no Salão dos Genus, Charles estava em cima de uma mesa, deitado usando o mesmo tipo de vestes brancas que os outros mortos. Todos os mestres e aprendizes estavam ao seu redor, as roupas de gala dos Guerreiros eram como roupas nobres, com mangas compridas com botões duplos, pretas com detalhes vermelhos e dourados.
As roupas dos mestres também tinham luvas de couro e capas. Junto com o corpo de Charles, estavam seu mangual e seu diário de viagem.
Marin chegou mais perto do irmão e o fitou um segundo, Li havia feito um ótimo trabalho, tirando suas feridas, olheiras e marcas de expressão. Ele parecia pelo menos dez anos mais jovem, e aparenteva estar dormindo tranquilamente. A mulher coçou rapidamente sua cabeça, ela e todas as outras de cabelos compridos tiveram que fazer tranças, penteado que ela, particularmente, odiava.
– Charles foi... – começou ela. – Um ótimo Guerreiro e irmão, quando terminamos nosso treinamento, ele seguiu o caminho mais nobre e viajou pelo reino ajudando quem encontrasse. Era a cara dele fazer isso... Priorizar os outros e não a si mesmo. Tenho certeza que cada um que ele ajudou lamenta sua morte tanto quanto nós. – ela afastou os cabelos de Charles da frente de seus olhos. – Adeus, irmão. – e começou a chorar. Seth a abraçou e ela se aninhou no peito dele, enquanto todos os aprendizes baixavam a cabeça, sérios.
– Em honra de Charles, da Classe Hélio. – disse Cassandra, fazendo o corpo de Charles flutuar e o colocou em seu devido lugar, o unindo com todos os outros Guerreiros na Parede dos Genus.
~*~
– Não suporto sepultamentos. – disse Mia, com Caleb atrás dela, os dois estavam entrando na floresta, indo para um lago que havia ali perto.
– Ninguém suporta. – disse ele, afastando alguns galhos para poder passar. – Devíamos ficar com os outros na mansão...
– Nem pensar! Ir para o lago é uma tradição nossa depois dos sepultamentos! Ou você prefere ficar cercado de pessoas chorosas lamentando mais uma morte?
– Por que você sempre tem que estar certa? – ela riu – É sério, não tem jeito, você tem sempre razão! — falou mexendo na gola de sua roupa.
– Deixa eu ver o desenho. – ela disse passando por cima de um tronco, o que se tornava mais difícil com a saia que batia nos joelhos que usava.
– Quem disse que eu estou com o caderno?
– Até parece, vai deixa eu ver. – ele tirou o caderno de dentro da roupa e entregou à amiga, ela olhou o último desenho que tinha feito. O caderno estava repleto de desenhos de Lena.
– Vai fazer outro sermão?
– Não, já gastei toda a saliva que podia com você, campeão. Tem que se virar sozinho agora. – foi a vez dele de rir.
– Eu estava planejando... – Mia então fez um sinal para ele fazer silêncio e olhou mais para dentro da floresta .
– Ouviu isso? – ela sussurrou.
– Ouvir o que, Mia?
– Shiu! Vem. – ela disse entregando o caderno para ele e continuou o caminho mais silenciosamente.
– Arqueiros... – murmurou ele.
– Olha. – disse a garota, atrás de um arbusto. Olhando na mesma direção que ela ele viu o lago, mas tinha algum animal bebendo água ali. Ele pensou que fosse um cavalo, mas o bicho tinha uma cauda muito curta e chifres em forma de parafuso que iam para cima. As pernas eram fortes e ele tinha um tom de vermelho nos pelos que era muito singular. – É um alce vermelho! – ela disse empolgada.
– Eles não são vistos há anos...
– Lembra que a mestra falou que os Guerreiros montavam neles antigamente?
– Sim, o que tem iss... Ah, não! Nem pensar, pode parar com essa cara, eu não vou montar naquilo!
– Não me diga que está com medo?
– Mas eu não estou!
– Não acredito, o grande Caleb, matador de um demônio nível nove, está com medo de um alce?
– Eu não matei aquele demônio! Um puma pulou em cima de mim e eu só me defendi, depois ele assumiu a forma humana! Eu. Não. Sabia!
– Mesmo assim.
– Eu não vou e pronto!
– Ótimo, fique ai então. – ela ficou de pé e começou a se aproximar lentamente da criatura, que a olhava com um ar de desconfiança. Caleb estava boquiaberto olhando a cena, até Mia chegar ao animal e acariciá-lo.
– Sua louca... – murmurou ele.
– Pode vir! – ela gritou ainda acariciando o animal. – Ele não vai matar você! – com uma careta, Caleb foi até ela.
– Você é completamente...
– Louca, eu sei. – ela completou, pegando a mão dele e colocando no focinho do alce antes que pudesse protestar. – Ele não é lindo? – perguntou acariciando o pescoço da criatura.
– Sim. – respondeu Caleb agora mais tranquilo. O alce era um pouco maior do que um cavalo, tanto em altura como em tamanho.
– Calma, amigo. – disse Mia, e surpreendendo Caleb, subiu no alce.
– Não acredito...
– Eu disse que ia montar. – ela falou como se fosse óbvio. – Vem. Ou está com medo de novo? – em resposta Caleb subiu no animal com uma cara raivosa.
– Feliz?
– Quase. – disse ela segurando o pescoço do alce. – Aguenta ai! – e deu um chute leve no tronco do animal, que começou a trotar.
– Como você faz isso tão bem? — Eu costumava cavalgar quando ainda estava no meu clã...
– Caleb ficou calado ao perceber o que tinha feito, Mia odiava falar de seu passado, assim como todos ali.
– Quer ver velocidade?
– Tenho medo de dizer que sim...
– Já era! – disse dando um chute um pouco mais forte no alce, que começou a correr. Caleb nunca tinha montado antes, e essa primeira experiência estava sendo quase traumática. O alce corria rápido e as vezes Mia se virava somente para ver e rir da cara de pavor de Caleb, que só tinha vontade de estrangular aquele pescocinho tão estrangulável dela.
Então, alguns minutos depois, o alce parou bruscamente fazendo os dois caírem de cara no chão. Mia gargalhava enquanto Caleb parecia indignado com o fato de a outra estar rindo. O alce os deixara na entrada da floresta perto da mansão, quase como se soubesse onde estava indo, os deixando em casa come se dissesse “Ei, já vai escurecer, é hora de criança estar em casa!”
– Como você pode estar rindo? – perguntou Caleb ficando de pé.
– Algum dia você vai me agradecer por trazer mais emoção para a sua vida. – respondeu a morena também ficando de pé.
– Vou agradecer quando você parar de fazer isso... – resmungou. — Blá, blá, blá. – ela disse simplesmente, enquanto o alce se afastava. – Obrigada! – disse ela acenando para o animal.
– Obrigada?!
– Ele nos trouxe para casa, não foi?! Deveria agradecê-lo também. – disse andando para a mansão. Caleb olhou para o animal se afastando uma última vez e seguiu a amiga.
~*~
No dia seguinte, logo após o café, ao invés de irem embora cedo como faziam geralmente, Cassandra, Seth e seus aprendizes ficaram na mesa junto com Marin e os outros. Os mestres se entreolhavam, em dúvida de como explicar tudo aos jovens, que já tinham percebido que havia alguma coisa errada. Li estava parada na frente da porta que levava a cozinha, impassível, como um tipo de segurança ou uma aparição fantasmagórica.
– Bem, — começou Seth. – vai ser difícil de explicar...
– Vocês vão ser mandados numa missão extremamente difícil para restaurar o Fluxo e se falharem provavelmente vamos estar condenados. – disse Cassandra rapidamente como se estivesse pedindo um café. Marin e Seth bateram com as mãos no rosto enquanto os aprendizes ficavam espantados e Cassandra parecia não perceber o pânico que quase causou.
– Obrigada, Cassandra, útil como sempre. – disse Marin sarcasticamente com um sorriso forçado enquanto a outra mestra dava de ombros. – Antes de vocês começarem a falar deixem-nos explicar! – disse se adiantando antes que todos começassem a discutir, fazendo um gesto para esperarem. – Recentemente descobrimos que o Fluxo, está ao que parece sendo redirecionado, está fora do seu curso de propagação.
– Quem ou o que poderia fazer algo assim? – perguntou Carter.
– Isso não sabemos. – respondeu Seth. – E depois de nos reunirmos, achamos que no momento o melhor que temos a fazer é interromper esse controle sobre o Fluxo, antes mesmo de descobrir o que está provocando isso. E é aqui que vocês entram.
– Como, mestre? – indago Melanie. – Nosso treinamento nem ao menos terminou, não temos capacidade para restauras o Fluxo!
– Exatamente por isso, não irão fazê-lo.
– O que? — Vocês vão atrás de quem pode.
– Mais precisamente, os animais das Classes. – esclareceu Cassandra.
– Esperem... – interrompeu Carter novamente. – Estão falando... Do pégaso que pertenceu a Torin, do dragão que pertenceu a Giebra e do grifo que pertenceu a Hélio? Esses animais?
– Sim e não. Os animais dos fundadores das Classes já se foram a muito tempo, procuramos os descendentes deles.
– Para que possam subir aos pilares e provocar uma interferência ainda maior do que a que existe e assim restaurar o Fluxo. – concluiu Marin. – Em resumo, vamos usar os pilares depois de muito tempo, mas ao invés de serem usados como arma para acertar inimigos no céu, faremos o contrário, lançando a magia para baixo.
– Por que vocês mesmos não ativam os pilares? – perguntou Hunter.
– Porque somente os animais podem fazer isso. Por isso precisamos deles.
– E por que nunca nos contaram isso? – perguntou Lena.
– Porque ainda não era hora. – disse Cassandra como se fosse óbvio. — Não era preciso, e não tinham chegado nessa parte de seu treinamento, por isso até agora vocês pensavam que os pilares eram monumentos em homenagem aos nossos primeiros mestres.
– Os Guerreiros têm muitos segredos, alguns dos quais somente os mestres sabem. Para que continuem assim: segredos. — disse Seth parecendo pesaroso.
– De qualquer modo... Vocês partem depois de amanhã, temos que começar o mais rápido possível. – disse Marin. – As equipes vão ser de acordo com as Classes, já que vão partir de suas mansões.
– Daqui, vocês cinco – disse Seth gesticulando para os aprendizes de Marin. – Irão para o sudeste do reino, encontrar o dragão, Melanie e Derek irão para o noroeste atrás do pégaso e Carter vai pelo nordeste procurar o grifo. Talvez fosse melhor cada Classe ir procurar seu animal, mas por conta da localização achamos melhor assim.
– Como sabem que os animais estão lá? – perguntou Mia. – Quer dizer... Dragões, grifos e pégasos não vivem mais em Astra, eram perseguidos e foram embora, só durante sua migração passam por aqui e ainda assim é difícil vê-los!
– Existem coisas difíceis de se explicar, querida. – falou o mestre percebendo a confusão na voz de Mia. – Uma delas é a ligação dos primeiros Guerreiros com seus animais. De algum modo, não me pergunte como, foi transmitida durante esse tempo todo, entre as gerações de Guerreiros e entre os descendentes daqueles animais. Existe um ninho para cada um deles, onde o descendente daquele animal vive por muito tempo, eles protegem as Vitaras, não por acaso elas ficam naquelas direções.
– O que é outro motivo para vocês terem cuidado. – disse Marin. – Seres mágicos também são imprevisíveis, e todos têm que tomar cuidado. Quando acharem o animal, voltem para cá e quando todos eles estiverem reunidos, eles irão para os pilares e tudo ficará bem.
– Enquanto isso nós teremos nossa própria missão. – disse Cassandra referindo-se a si mesma e aos outros mestres. Os aprendizes estavam de cabeça baixa, quase como se sentissem sobre seus ombros o peso daquela missão.
– Confiamos em vocês. – finalizou Marin.
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