Clarice está em crise
1 Prefácio
PREFÁCIO
Eu tive esse ex-namorado chamado Harry. Daqueles típicos jogadores de basquete da liga esportiva do ensino-médio, que usava um blusão vermelho cujo símbolo estampado era do próprio time em que jogava; alto, loiro, bonito. Harry não era muito mais do que isso. Não era super inteligente, não escrevia, mal lia o que era obrigado a ler. Harry não tinha um sorriso que me arrancava outro, ou um olhar que pudesse me decifrar; ele era... simplesmente o que exigissem que fosse. Medíocre. Ele não foi o meu primeiro namorado e longe de ser o último, mas a razão pela qual eu estou me lembrando de Harry na madrugada de uma sexta-feira, quando em Chicago fazem três graus abaixo de zero, é que ele era o reflexo do fracasso que havia se tornado a minha vida depois que eu terminei a faculdade.
Não sei em que momento do meu ensino-médio quis estudar psicologia. Como todas as minhas primas, as quais vejo somente uma ou duas vezes durante o ano, eu esperava ser médica ou advogada. Todas elas foram criadas em Nebraska — assim como eu, e todas elas estudaram no mesmo colégio que eu. Formaram-se, casaram-se, tornaram-se relativamente bem-sucedidas enquanto se submetiam à indiferença de seus maridos diplomatas e engenheiros. Essa era a vida que eu queria para mim. Essa era a vida que eu queria para mim? Não tive certeza até o quarto ano, quando basicamente tudo que eu tinha como certo na minha vida mudou; e é uma história complicada. De qualquer maneira, psicologia nunca esteve sequer nas minhas terceiras ou quartas opções para seguir como carreira, e no entanto se tornou meu instrumento de estudo, trabalho e, principalmente, o meio pelo qual conheci o amor da minha vida.
Ok. Talvez seja um pouco cedo demais para dizer que conheci o amor da minha vida, então eis que voltamos alguns anos; minha formatura, dia vinte e seis de julho de não-me-lembro-exatamente-do-ano. Acho que aquele foi o melhor dia de todos, e não exagero. Era fim de tarde quando comecei a me arrumar, roupas, maquiagem, penteado, toda essa cerimônia feminina para uma ocasião importante; lembro-me de não ter terminado tudo em menos de quatro ou cinco horas. Naquela época eu realmente me importava... com tudo.
Eu não tive um par de formatura. Algumas semanas antes do meu dia de formatura, nós tivemos o baile, o que é tradicional; vestidos, danças, música ruim, a coroação, toda essa bobagem. Como Alex — meu namorado até então — e eu havíamos terminado alguns dias antes do baile, eu não tinha quem me acompanhasse e acabei indo com a minha melhor amiga, Heather. Heather não é a minha melhor amiga, só para deixar claro; mas ela era, sim. Ela foi. Eu não sei como dizer isso.
De qualquer forma, nós fomos, e foi surpreendentemente bom. Heather era uma ótima dançarina e, quando soltaram as músicas mais agitadas — logo depois da coroação, que foi para Harry e uma garota ruiva novata -, ela literalmente perdeu a linha e bebeu, dançou, e se expôs muito mais do que deveria. Heather beijou Alex naquele mesmo dia, e aquele foi o fim dos tempos para mim. Nenhuma garota graduando deveria, poucas semanas antes de deixar o colégio para sempre, ser traída pela vadia da melhor amiga e pelo recente-ex-namorado-cuzão.
Então aproximadamente doze dias depois do baile nós nos formamos, e aquele sim foi um momento especial para mim. Como tive as melhores notas da turma pelos últimos três anos do ensino-médio consecutivos, fui a oradora e adaptei meu próprio discurso para a maior-menor multidão que já encarei. Estavam todos ali, professores, pais dos meus amigos, meus amigos, pessoas que haviam estudado comigo há mais de dez ou doze anos. Tive dez segundos e alguns centímetros a mais que o resto das pessoas ali presentes para perceber o que eu estaria deixando para trás: praticamente um terço da minha vida inteira.
Realmente não sei o porquê de sentir tanta falta do colégio ou mesmo do dia da minha formatura em especial; afinal de contas, eu não via a hora de terminá-lo enquanto fazia o quarto ano. Não era por Heather, ou por Harry, Alex, ou qualquer professor que tenha me marcado de tal maneira; não era por ninguém além de mim. Eu sentia falta de como era, acho. É claro que muito mais do que a traição de Heather aconteceu naquele último ano de ensino-médio; e é uma longa história, se me permite dizer novamente. Tão longa que aqui estou eu, encarando a tela do computador, as teclas cujas letras já estão quase apagadas, bebericando um café amargo e frio.
O que escrevo não é reflexo de nada além do meu próprio fracasso; as pessoas que fizeram parte da minha vida, as que pouco fizeram, foram meras figurantes de um filme cuja direção pertence a mim. Acho que sobrevivi a mais do que pensei que fosse capaz de fazê-lo. Acho que, na verdade, somos assim mesmo. Capazes de suportar recipientes maiores que a embalagem, dores piores que melhores alegrias.
clarice vienna
em crise
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