I

Era muito bom estar em casa, para variar. Não havia nada no mundo que eu detestasse mais do que viajar, sair da minha zona de conforto, mudar, ou como queira chamar. Meu tio-avô, um sr. que até três semanas atrás eu só conhecia pelo sobrenome Ferris, faleceu. Eu não o conhecia, pelo menos não pessoalmente, mas minha família paterna era toda londrina e nós tivemos de ir (todos) até o funeral do sr. Ferris prestar nossas sinceríssimas condolências. Londres, como eu poderia explicar? Eu não poderia.

Não que eu tivesse aproveitado muito da nossa viagem de três dias e um-quarto, mas Londres, se eu pudesse explicá-la, resumiria em uma palavra: céu. Pense você em como tenha sido a minha experiência, pois eu mesma realmente não posso lhe dizer. Fora o funeral, que — não diferente de qualquer outro que eu tenha ido — foi realmente muito triste, todo o resto correu perfeitamente bem; nós ficamos na casa da sra. Ferris, minha tia-avó leucêmica que parecia implorar o tempo todo pela nossa pena e empatia.

Pobre sra. Ferris.

Eu não era muito fã de aviões, aeroportos, sotaque britânico… mas fazia parte do pacote, não?

O fato é que nós, com toda a graça da companhia aérea mais econômica que meus pais encontraram para pagar, estávamos de volta à América. E eu não poderia estar mais grata por isso. Larguei meus sapatos sobre o tapete da sala, joguei o pesado casaco de lã que me cobria de qualquer jeito sobre a mesa e me atirei no sofá, sinceramente exausta. Exausta.

— Não pense nem por um segundo que você vai dormir agora, srta. Levante-se já daí — ouvi minha mãe berrar do quarto, onde despejava as compras que havia feito no walmart de Londres — Você não tem aula amanhã?

— Pelo amor de Deus, mãe — gritei de volta, revirando os olhos — Tio Ferris está morto e você só consegue pensar no colégio!

Não houve resposta nenhuma por um tempo, então pensei (surpreendentemente) tê-la convencido e, portanto, ganhado uma tarde de folga. Acho que me convenci do contrário quando senti uma almofada ser violentamente arremessada em mim, então meu impulso foi gritar um xingamento. Levantei-me do sofá, encarei o olhar repreensivo de minha mãe por alguns segundos, e por fim me dei por vencida.

Ela era implacável.

— Não ouse brincar com esse tipo de coisa, Liss. É sério.

— Tudo bem — levantei minhas mãos em sinal de rendição. Ela aceitou a vitória, recolheu a almofada do chão e voltou para o quarto, onde terminou de desempacotar suas roupas.

Meu Deus — pensei — essa casa está impossível.

Tudo bem. Eu tinha que ir ao colégio no dia seguinte e, de qualquer maneira, eu adorava a primeira semana de aulas. Era a única semana do ano que eu não tinha vontade de me enforcar antes que as três primeiras aulas terminassem, ou que tivesse de me preocupar com provas e tudo o mais. E, claro, para mim era uma ótima oportunidade de me provar socialmente incapaz aos alunos novatos e evitar contato social o resto do ano com tranquilidade; parecia um plano perfeito.

Eu havia recebido uma mensagem de texto de Heather pouco depois de ter chegado em casa, mas não tive oportunidade de ler até então; peguei meu celular, abri a caixa de mensagens e me deparei com o seguinte sms:

Ana está dando uma festa hoje à noite.

Não tenho o endereço.

Jesse e eu vamos passar aí às nove! É melhor que esteja pronta!!! (emoji)

Seria um ótimo plano, se não começasse com um total fracasso. É claro que Heather não me deixaria.

Recebi outro sms dela antes que pudesse responder o primeiro:

Ponha algo tão indecente quanto vc.

Pelo menos tente.

Idiota.

Estarei pronta. — respondi

Convencer minha mãe era a segunda parte, mas eu ainda não estava pronta para ela. Subi as escadas até o meu quarto, deitei-me em minha cama e liguei meu iPod no aleatório, no volume máximo. Caí no sono enquanto escutava a Maggie Clifford.

Quase não acreditei quando acordei e vi que já se passavam das sete. Eu tinha aproximadamente uma hora e meia para me arrumar e fazer minha mãe acreditar que eu iria simplesmente dormir na casa da Heather. Missão impossível? Quase isso. Levantei-me rapidamente, tomei um banho e arrumei algumas roupas quaisquer dentro da minha bolsa. Parei em frente ao guarda-roupas, encarando o cabideiro e pensando no que vestir.

Ana estava dando uma festa hoje. Ok. Eu nunca havia ido a nenhuma festa dela, mas tinha uma ideia de como seria. Jeans estavam descartados. Mangas longas, de jeito nenhum. Se eu realmente fosse considerar usar saltos, precisaria estar pronta para voltar sem eles ou com eles estragados. Merda. Não tenho tempo para isso. Coloquei um vestido preto que ia até o joelho e uma sapatilha bege totalmente estou-indo-dormir-na-casa-da-Heather. Era um look bem simples.

Sequei meu cabelo de modo que fizesse ondulações nas pontas. Pensei em fazer um penteado, mas nem a ocasião nem o tempo estava me favorecendo, então tentei deixar meu cabelo o mais simples possível e enfiei alguns acessórios dentro da bolsa, junto com uma necessaire de maquiagens e um salto alto preto básico. Ouvi minha mãe subir as escadas vagarosamente, e meu coração palpitou forte; mas que merda. Aja normalmente.

— Lissa? Está acordada? — ela sussurrou pela fresta da porta entreaberta.

— Oi, mãe — escancarei um sorriso falso, abrindo totalmente a porta — Heather está me chamando para ir dormir na casa dela hoje, sabe como é. Último dia de férias? — tentei esboçar um olhar de pena.

— Eu não sei, não, Liss. Não tenho como te levar agora, e com certeza te deixar ir sozinha a esta hora não é uma opção.

— Ela vem me buscar. — minha mãe arqueou as sobrancelhas — É sério.

Ela não disse nada em resposta.

— Por favor? Mãe? — mordi os lábios, nervosa. Olhei para o horário no relógio de canto de olho, e faltavam dez minutos para Heather chegar.

— Último dia de férias — ela cruzou os braços — Eu não acredito nessa bobagem. Quero falar com a mãe dela amanhã pela manhã para ter certeza de que vocês não vão faltar à aula, entendeu?

— Entendi. Tchau! — abracei-a e corri para fora de casa, evitando a possibilidade de minha mãe mudar de ideia.

Essa foi por tão pouco, tão, tão pouco. Mandei um sms para Heather:

Estou esperando!

Ela respondeu no mesmo instante, e vi o carro parando do outro lado da rua:

Eu também!

Entrei no carro rapidamente, temendo que minha mãe descesse e visse Jesse. Meu Deus, que pontualidade. 20:56 PM. Heather estava linda: seu cabelo loiro natural, que ia até a cintura, estava perfeitamente liso e contrastado com o vermelho de seu batom. Ela estava usando um vestido cinza colado extremamente curto e saltos tão altos que, pela primeira vez em anos de amizade, ela estava mais alta do que eu. Troquei minhas sapatilhas pelo salto e — tentei — me maquiar sem parecer um desastre total. Passei um blush, um batom da cor do de Heather — o.k., talvez não tão extravagante — e incontáveis camadas de rímel. O carmim da minha boca, em contraste com o preto de minhas madeixas e do meu vestido, deixaram-me de muito simples à aceitável.

Não que eu estivesse me importando muito com a festa em si, mas eu não os via há tempos e, bem… Eu estava com a Heather. A verdade é que, não importava o quanto eu tentasse ficar bonita e arrumada, os olhares estariam sempre nela. Jesse era o ficante de Heather, um universitário que repetiu o último ano do colégio pelo menos umas três vezes e era seis anos mais velho que ela; nem bonito nem feio.

Quando chegamos no lugar, mal acreditei. Eu já sabia, por boatos, que Ana era de boas condições e berço de ouro, mas não que chegava a ser… aquilo. A casa tinha dois andares e uma cobertura enorme, cuja piscina parecia ser suportada unicamente por um vidro que revestia toda a cobertura. Engoli em seco, pensando estar básica demais para entrar ali. Tudo era grande demais e aparentemente caro demais para mim — dei um passo para trás. Estava deslumbrada.

O jardim de frente, o som alto, a multidão entorpecida, o cheiro de bebida e cigarro; olhei para Heather, desentendida. Não vi ninguém conhecido, e pelo que me parecida nem Heather (embora ela não estivesse tão confusa quanto eu). Ok. Aquela não era uma festa normal do ensino-médio.

— Onde estão os pais dela? — perguntei, tentando ser ouvida em meio ao grave do som.

— Os pais de quem? — Jesse riu de escárnio, o sotaque sulista que tanto me irritava.

— Os pais de Ana! Eles viajaram? Onde ela está? — gritei.

— Pelo amor de Deus, Heather, o que você disse a ela?

Heather me puxou pelo braço, aproximando-me dela e disse com a voz um pouco mais baixa:

— Não pira. A festa é de uma amiga do Jesse, mas eu estou com a chave do carro dele. Se você vir ou sentir algo que não gosta, nós vamos. Ok?

Não respondi. Minha mãe me mataria se soubesse de algo assim.

— Liss, relaxa. Você nunca gostou do pessoal da escola, mesmo. Vem, vamos beber alguma coisa.

Assenti, ainda com o pé atrás. Eu não tinha como voltar para casa, e de qualquer jeito nós já estávamos ali, juntas. Que voltássemos juntas, então. Acompanhei-a até a cozinha da casa, onde serviam coquetéis e drinques preparados com misturas de bebidas de todo tipo; algumas eu nunca havia experimentado, é claro. Virei um shot de vodca junto a um comprimido de LSD que Heather me entregou, algo que já estávamos acostumadas a tomar em festas que nossos amigos costumavam dar.

Nós havíamos repartido o comprimido, mas ainda assim a onda vinha — quase sempre — mais forte do que nos preparávamos para ficar. Olhei para Heather quando virei o shot, com um olhar meio culpado, meio sacana.

— Não me deixe fazer nenhuma besteira — falei, com um sorriso meio desacreditado.

— Que merda — ela murmurou — Eu ia te pedir exatamente o mesmo.

Não sei por certo quanto tempo ainda permanecemos “sóbrias”, ou até quando ficamos juntas ora na sala, ora na cozinha; mas, quando me dei conta, eu estava sendo jogada por dois caras — que eu não me lembrava de conhecer — na piscina da cobertura.

O som ainda estava alto, e eu não conseguia distinguir todos os rostos ao meu redor, o que deveria me dizer que ainda tinha muita gente ali; não havia se passado muito tempo, então. Avistei Heather aos pegas com Jesse dentro da piscina, e inúmeros cigarros de maconha apagados nas bordas. Implorei aos meninos que não me atirasse ali; eles não pareciam convencidos.

— Eu juro, tenho asma — esperneei — Por favor, tomei bala agora a pouco.

— Quem tem bala? — um deles perguntou.

— Digo a vocês se me colocarem no chão agora — falei.

Eles me soltaram, e apontei para o casal aos amassos; quando saíram da minha cola, desci as escadas para sair dali o mais rápido possível. As luzes e o barulho ensurdecedor estavam me deixando louca; lutei para descer sem tropeçar em nada e ninguém, apoiando-me no corrimão. O que, como você já deve ter imaginado, não foi bem-sucedido; acabei esbarrando em alguém, provavelmente um cara — porque era grande —, e caí no chão do segundo andar aos tropeços. Levantei-me antes que aparecesse alguma pessoa para me ajudar, e desci os últimos lances de escada para fora dali, finalmente.

Ar puro.

Inspirei profundamente, olhando para o céu. Eu estava suando como nunca antes, e tremia de frio; não contive — e nem tentei — o vômito. Ajoelhei-me na grama, e deixei que meu organismo fizesse o resto. Jurei para mim mesma que, quando estivesse sóbria, mataria Heather e o namorado escroto dela.

Quase dei um pulo para trás quando senti uma mão segurando meu cabelo. Virei-me no mesmo instante, deparando-me com a silhueta de um homem. Levantei-me, sentindo o salto afundar na poça de vômito e tentando ao máximo me equilibrar. Ele novamente me segurou, dessa vez pelos braços, mantendo-me de pé.

— Ei — ouvi a voz dele meio embargada — Fica calma. Você quase caiu em cima de mim na escada. Só estou tentando ajudar.

Subi o olhar, encarando-o. Ele era alto, bem mais alto do que eu. Tinha uma barba que denunciava (ao menos pelo que eu achava) que ele era mais velho que a maioria ali, e olhos castanhos incrivelmente claros. Não soube o que dizer; na verdade eu sabia, sim. Mas minha língua travou. Ele era lindo, muito lindo, e parecia realmente preocupado comigo.

Soltei um grito alto, segurando-me em seus braços. Meu salto havia quebrado ali mesmo, e me vi apoiada somente pelo corpo daquele homem que era, certamente, um anjo enviado para me salvar. Obrigada, vida. Como foi que você adivinhou que essa era a hora certa para o meu salto quebrar?

— Obrigada, mas você não precisa. Minha amiga está aqui, nós já estamos indo.

— Eu não a vejo — ele riu.

Puta merda.

— Que sorriso lindo — sussurrei.

— Como é? — ele perguntou, soltando-me.

— Eu não disse isso alto, disse? — e minha raiva por Heather e Jesse crescia a cada minuto — Desculpe, eu agradeço muito a sua ajuda, mas só tive uma reação inesperada.

— A que? O que você tomou?

— Escuta, eu não conheço você, e não é da sua conta, então muito obrigada por ter me ajudado, mas eu realmente não preciso que você me interrogue. Obrigada. Estou ótima.

Arranquei o que havia sobrado dos meus sapatos e os joguei na calçada. Afastei-me dali, tentando apagar da minha mente os pensamentos que haviam se formado na presença daquele homem. Pelo amor de Deus, Lissa. Ele é pelo menos dez anos mais velho que você. Pode ser um psicopata, ou qualquer coisa do tipo. Não sei se senti mais ódio ou alívio por ter encontrado Heather descendo as escadas enquanto eu as subia.

— Vamos embora! São quatro da manhã — ela gritou, um sorriso enorme estampado na cara.

Notas finais
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