Clarice está em crise
3 Geography
Notas iniciais
II
Acordei no dia seguinte na maior ressaca. Acho que não teria sido pior se eu tivesse ficado e dormido por lá mesmo. Eu não conseguia me lembrar de como havia chegado em casa, e não tinha a mínima ideia de onde estaria Heather, mas ali estava a minha mãe, furiosa, encarando-me com a maior carranca.
Balbuciei algumas vezes que sentia muito pelo que havia acontecido, mas eu não a ouvia de qualquer jeito. Tudo que eu via era sua boca sibilar xingamentos e promessas de castigo até sabe-se-lá-quando, sempre acompanhada de uma parada com as mãos na cintura, expressando seu cansaço em relação à minha irresponsabilidade. É. Essa parte eu escutei muito bem.
E ah, eu estava realmente arrependida.
— O que é que eu deveria fazer com você, Clarice? — ela parou novamente, pousando as mãos sobre os meus ombros.
Eu não tinha certeza da resposta.
— Acho que me amar incondicionalmente, como todas as mães fazem — arqueei as sobrancelhas, contendo um riso inapropriado.
Ela revirou os olhos, soltando um longo suspiro — claramente cansada. Levantou-se da minha cama, bateu a porta do quarto ao sair e, de longe, gritou:
— Estou cheia de você!
É claro que está. Também estou.
Minha mãe havia levado o meu celular, infelizmente. Por sorte, eu nunca contei a ela a senha, e ao menos pelas minhas conversas eu não estaria encrencada. Meu alarme soou como a sirene de uma ambulância bem ao pé do meu ouvido; eram nove da manhã e eu já estava quinze minutos atrasada para a primeira aula do dia.
Ir para o colégio não me parecia a melhor ideia de todas àquela altura, mas eu não queria causar mais problemas com minha mãe do que eu já havia criado desde a noite passada. Corri para tomar banho e — tentar — tirar de mim o cheiro insuportável de cerveja e cigarro que parecia impregnado na minha pele, roupa e cabelo. Pus música no meu iPod, uma vez que sem o meu celular, eu já estaria entediada o suficiente. Escutei a George Ezra enquanto me limpava.
Quase desisti da ideia de sair de casa quando me olhei no espelho e me deparei com as minhas olheiras enormes. Depois de passar camadas e mais camadas de base, corretivo e rímel, vesti meu uniforme e uma calça jeans qualquer, calcei o primeiro tênis que vi jogado pelo quarto e corri para a sala. Apanhei minha mochila, minhas chaves, e saí de casa antes que minha mãe aparecesse para se queixar do meu atraso.
Que ótimo dia para começar as aulas.
A caminhada até o colégio era, no entanto, o melhor momento do dia para mim. Eu passava pela cafeteria, por todas as casas em que já sonhei viver, e via os rostos das pessoas que, assim como eu, eram moralmente forçadas a acordar cedo todos os dias com o propósito de fazer algo de suas vidas. Eram dez minutos ou menos da minha casa até o Herald’s High School, mas que até faziam a diferença na minha manhã. Certas vezes, quando eu já não estava suficientemente atrasada, fazia uma parada na cafeteria de Jared para tomar café da manhã. Capuccino e waffles eram o meu prato favorito.
Jared era um cara legal. Tinha lá seus trinta e poucos anos, a barba mal feita, os dentes amarelados, as vestes quase sempre amassadas, um sorriso quase impregnado no rosto. Um bom dia tão verdadeiro que, para mim, até soava falso. Bom mesmo era o capuccino que ele preparava. Em Jared mesmo, as pessoas não costumavam prestar muita atenção.
O clima estava bom, apesar do fato de que meu corpo estava quase completamente desidratado. Sério. Quase não havia nuvens no céu, e o Sol aparecia lá no alto, fraco, mas claro o suficiente. Uma caminhada me faria bem, acho.
Cheguei no colégio antes que a segunda aula terminasse; consegui entrar a tempo, esbarrar com o coordenador geral — que não perdeu a oportunidade para me dizer que eu já havia começado o ano letivo com o pé esquerdo — e ver Heather indo para a classe 17, provavelmente para um intensivo de matemática. Segui-a, correndo o mais rápido que podia, e a puxei pelo braço antes que ela realmente entrasse na sala.
— Merda, Heather.
— Entra, nós temos geografia agora — ela disse somente, parecendo igualmente acabada.
Eu mal podia acreditar. Nossa turma parecia tão… vazia.
— Então é assim como um graduando deve se sentir? — murmurei, mais para mim do que para Heather.
— Acho que sim — ela deu de ombros, escolhendo a carteira mais ao fundo que conseguiu encontrar.
Sentei-me ao seu lado, despejando minhas coisas ao chão, em frente à carteira. Heather usava óculos de Sol grandes o bastante para literalmente cobrir seu rosto até às maçãs, e ainda um grosso robe que mantinha todo o seu corpo coberto.
— Talvez você queira me explicar alguma coisa?
— Claro. — ela bebericou um gole do copo de café da starbucks que segurava — Minha mãe voltou de viagem antes do que eu previa, e essa é a explicação. Ela praticamente chutou Jesse dali, e ligou para a sua mãe no mesmo instante. O resto é boato — Heather riu.
— Como você consegue estar bem com tudo isso? — revirei os olhos — Que vadia.
— Acho que sim — ela se ajeitou na cadeira quando viu o professor entrar em sala, mas manteve o sorriso malicioso no rosto.
Sr. Harrison era um homem de aproximadamente quarenta e dois anos de idade cuja única diversão era reprovar alunos mesquinhos e extorquir seus familiares até o último centavo por três ou quatro décimos. Ele era cruel, muito cruel, e também um ancião naquela escola. Jamais cogitariam tirá-lo dali porque, aparentemente, sr. Harrison praticamente havia construído aquela escola junto com os outros donos. Além de geografia, ele ensinava boas maneiras por livre e espontânea pressão aos sábados, quando muitos de seus alunos tinham detenção.
Tivemos aula de geografia e um humilhante início de ano letivo. É claro que isso incluía piadas rudes sobre o corte de cabelo de Gray, o garoto novato da classe, as roupas amarrotadas de Amber e, é claro...
— Tenho certeza de que a srta. Heather terá uma ótima explicação para os óculos da moda, a propósito. — toda a classe riu, virando-se para encarar Heather e, consequência de estar ao lado dela, a mim.
Ela não disse nada, abrindo apenas um sorriso de canto de boca.
— Foi o que imaginei — ele respondeu ao sorriso à altura, recebendo mais algumas risadinhas da classe.
Quase senti o coração de Heather parar quando o sinal bateu, no mesmo instante em que o professor apanhava o pincel para começar a lição. Suspirei com certo alívio, pensando que eu poderia ser seu próximo alvo. Toda a sala se levantou em uníssono, recolhendo seus materiais para a próxima aula, que deveria ser matemática, visto que a maioria dos alunos saíam dali com o semblante de horror e tédio.
Não demorou muito para que tivéssemos um intervalo. Apesar de matemática ter sido uma grande pedra no meu sapato no ano anterior, eu havia conquistado uma certa afinidade com a matéria depois das férias; tendo que estudar para a recuperação, meio que fui obrigada. Compramos umas barrinhas de cereal, como sempre. Eu realmente não estava com o melhor estômago para pizza, chocolate ou algo do tipo, e duvidei que Heather estivesse. Comprei nosso lanche enquanto ela guardava uma mesa no refeitório, e quando voltei me deparei com toda a turma de volta: Alice, Georgia, Daniel… até alguns de nossas amigos que reprovaram.
Joguei a barrinha para Heather e corri para abraçá-los. Não eram meus melhores amigos, e é claro que eu jamais confiaria em qualquer um deles, mas fizeram parte da minha segunda série e tinha sido o melhor ano.
— Dan! — gritei, abrindo um largo sorriso para ele — Melhor viagem de todos os tempos!
— Com certeza — ele me deu uma piscadela, sorrindo de volta.
Piada interna? Daniel e eu havíamos dado uns amassos na viagem à Califórnia no ano passado, quando todo o ensino-médio se reuniu para dizer adeus aos graduandos. Apenas Heather sabia.
— Meu Deus, o que aconteceu com você? — Alice arrancou os óculos de Heather, deixando suas olheiras enormes totalmente expostas.
— Devolva isso! — ela sussurrou, tentando esconder o rosto com o cabelo.
— Minha nossa, você realmente sabe como aproveitar suas férias, não sabe? — Alice jogou os óculos de volta na mesa, arrancando-nos uma gargalhada.
É, ela definitivamente sabia. Joguei-lhe um olhar repreensivo, que ela simplesmente decidiu ignorar.
Ficamos ali por mais alguns minutos, jogando conversa fora e colocando algumas de nossas loucuras das férias em dia. Como de costume, eu me mantive calada a maior parte do tempo e deixei que eles conversassem entre si, visto que eu não tinha muito o que compartilhar mesmo.
Alice e Georgia foram embora dali depois de um tempo, pois estavam em turmas separadas da nossa. Daniel ficou um bocado, lançou uma ou outra charadinha para mim e até deu em cima de Heather descaradamente, sem se preocupar com a minha presença. Nada que o soar do sino que indicava o fim do intervalo não pudesse resolver; ele ainda fazia o segundo ano, então se despediu de nós com um aceno e foi em caminho contrário ao nosso.
Seguimos para a sala seguinte, no final do corredor, onde a professora de trigonometria nos esperava. Ela, diferente de Will Harrison, não ligava muito se a classe prestaria ou não atenção em seus deveres e se sentia muito insatisfeita em relação ao pagamento da escola, então não imaginei que seria um grande problema tirar sua aula para dormir.
E o fiz; durante os quarenta e cinco minutos seguintes, encostei-me o mais confortável possível para cochilar o quanto pudesse. De longe, ouvi a voz sonolenta da professora bradando algumas fórmulas que já tínhamos visto no ano passado, os resmungos inquietantes de Heather sobre o maldito tempo, e nada além. Dormi tão profundamente que acho ainda não ter acordado quando fomos à aula seguinte.
É. Aquela foi uma puta de uma surpresa.
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