City of stars
2 Is someone in the crowd the only thing you really have …
Notas iniciais
Capítulo 2 : Is someone in the crowd the only thing you really have to see?
O grande salão do luxuoso hotel em Seattle parecia respirar uma opulência sufocante, onde o tilintar dos copos de cristal lapidado e os murmúrios de risos polidos se entrelaçavam em uma sinfonia de riqueza e privilégio desmedidos. Luzes amareladas e quentes emanavam dos suntuosos lustres de dropes de vidro no teto alto, projetando feixes dourados e cintilantes sobre os vestidos de alta-costura, os smokings impecáveis de corte italiano e as joias reluzentes que adornavam os ombros e pescoços da elite da cidade. O ar estava impregnado com uma mistura densa e inebriante de perfumes importados de notas amadeiradas e florais, taças de champanhe recém-abertas e os aromas delicados de canapés sofisticados distribuídos em bandejas de prata. Entre a multidão elegante que circulava com passos lentos sobre os tapetes aveludados, Bella Swan mantinha a cabeça erguida, mas o olhar estritamente compenetrado no peso da bandeja que sustentava entre os dedos já dormentes. O uniforme de garçonete, de um tecido preto rígido e quente, parecia ajustar-se de forma desconfortável ao seu corpo franzino; a calça social levemente folgada nas barras e a camisa branca engomada até o colarinho exigiam dela um rigor postural exaustivo. Cada passo que dava entre os convidados era friamente calculado para não derramar uma única gota das taças de alta haste, pois ela sabia, com a clareza dolorosa de quem vive no limite financeiro, que qualquer erro mínimo ali significaria o desconto do valor em seu pagamento no final da noite, um pagamento do qual ela dependia desesperadamente para manter o teto sobre sua cabeça e a de sua mãe.
Nos bastidores da copa de serviço, escondida atrás das pesadas portas duplas de madeira que separavam o luxo ostensivo do trabalho braçal e invisível, a atmosfera era vertiginosa e caótica. Garçons e maitres corriam de um lado para o outro sob as ordens ríspidas do chefe de cerimonial, ajustando gravatas, limpando manchas imperceptíveis em pratos de porcelana e organizando os itinerários do serviço. Foi nesse pequeno refúgio de correria que Jasper, com sua postura sempre serena e o olhar empático que parecia enxergar através do cansaço dos outros, aproximou-se de Bella ao notar seu visível desconforto. Ele usava a mesma vestimenta de garçonete, mas trazia uma elegância natural e despretensiosa, os cabelos loiros arrumados com esmero e as mãos firmes, porém cuidadosas. Percebendo que Bella lutava contra o espelho de parede descascado para alinhar a gravata borboleta preta que teimava em ficar torta ao redor do colarinho ajustado, Jasper deu um passo à frente com um sorriso acolhedor no rosto.
— Deixe-me ajudar você com isso antes que o supervisor venha com os discursos de sempre... — disse Jasper com uma voz suave e pausada, enquanto aproximava suas mãos do pescoço dela para ajeitar o nó com precisão habilidosa, permitindo que a ponta dos seus dedos roçasse gentilmente o tecido engomado sem pressioná-la.
— Obrigada, Jasper... — murmurou Bella, soltando um suspiro pesado de alívio enquanto fechava os olhos por um breve segundo para assimilar a gentileza dele em meio ao turbilhão. — Acho que minhas mãos estão tremendo tanto que nem consigo dar um nó simples. Se eu perder esse cachê hoje, nem sei o que vai ser da minha semana.
— Você está se cobrando demais, Bella — respondeu Jasper, ajustando as pontas da gravata borboleta e dando um leve toque no ombro dela, o olhar repleto de uma preocupação genuína. — Você é a pessoa mais trabalhadora deste lugar. Vai dar tudo certo, só tente respirar um pouco entre uma rodada e outra de champanhe. Nós vamos conseguir terminar esse turno sem nenhum incidente.
Ajeitado o uniforme, Bella assentiu com um agradecimento silencioso nos olhos acastanhados e retornou ao salão principal, onde o murmúrio da elite atingia o seu auge. No canto oposto da suntuosa sala, posicionado em um pequeno palco elevado cercado por arranjos de orquídeas brancas e luzes indiretas, um piano de cauda preto reluzia como uma joia isolada no meio da ostentação. Edward Masen acomodou-se no banco de veludo escuro, sentindo a rigidez do smoking que fora escolhido a dedo por seu pai para aquela ocasião social. Cada fibra do seu ser repelia a falsidade daquele evento, os sorrisos plásticos e os apertos de mão calculados pelo interesse corporativo, mas ele estava ali para cumprir a promessa solene que fizera ao patriarca da família Masen. Seus dedos longos e pálidos flutuaram por um instante sobre as teclas de marfim antes de pousarem suavemente, dando início a um repertório clássico e denso, cujas notas melancólicas começaram a se espalhar pelo ambiente refinado. A música era sua única fuga legítima, o único idioma em que podia expressar a dor que carregava no peito sem ser interrompido por formalidades.
Assim que a última nota da primeira peça ecoou no salão, Edward Masen Sr, um homem de postura impecável, cabelos grisalhos perfeitamente alinhados e um olhar dominador que transparecia décadas de liderança nos negócios, subiu ao palco. Ele segurava uma taça de cristal e posicionou-se ao lado do microfone, projetando sua voz firme e ressonante que imediatamente silenciou a multidão curiosa.
— Boa noite a todos os nossos ilustres convidados, parceiros e amigos de longa data — começou Edward pai, gesticulando com elegância contida enquanto o filho mantinha os olhos fixos nas teclas pretas e brancas do instrumento, recusando-se a encarar a plateia. — É uma honra imensa receber cada um de vocês esta noite para celebrarmos as conquistas extraordinárias da nossa empresa ao longo deste ano. No entanto, mais do que uma celebração corporativa, este encontro carrega um significado profundo para a minha família. Hoje, se estivesse entre nós, minha amada esposa, Elizabeth, comemoraria mais um ano de vida. — Um murmúrio respeitoso percorreu o salão, e Edward Sr fez uma breve pausa, a voz levemente embargada pela saudade antes de prosseguir. — A memória de Elizabeth continua sendo o alicerce de tudo o que construímos e a inspiração diária para que meu filho, Edward, e eu sigamos em frente. É em homenagem a ela que ele nos presenteia com sua arte ao piano nesta noite tão especial.
À distância, equilibrando uma bandeja pesada com taças de vinho sobre a palma da mão, Bella congelou no meio do salão ao escutar os primeiros acordes da música seguinte que Edward começou a tocar. A melodia delicada, profunda e carregada de uma melancolia singular ressoou através da multidão como um sussurro doloroso que ela conhecia perfeitamente. Era a mesma peça suave que ouvira dias atrás, aquela que havia ficado gravada em sua mente e que parecia traduzir em sons a própria solidão que ela carregava no peito. Lenta e cautelosamente, abrindo caminho entre as pessoas vestidas com elegância, Bella ergueu os olhos em direção ao palco. Através do oceano de rostos estranhos e joias brilhantes, sua visão finalmente encontrou a figura do pianista. O rapaz de cabelos acobreados desalinhados e expressão compenetrada tocava com uma entrega visceral, de olhos fechados, como se estivesse completamente isolado de todo o luxo que o cercava. Uma estranha sensação de reconhecimento e fascínio percorreu a espinha de Bella, mantendo-a presa àquele ponto fixo enquanto o som do piano envolvia o ambiente.
Entretanto, o transe poético daquela noite foi abruptamente quebrado pelo vibro violento do celular de Bella dentro do bolso fundo de seu avental de serviço. Assustada e temendo ser repreendida pelos chefes de equipe, ela se esgueirou rapidamente para trás de uma grande coluna de mármore e retirou o aparelho. O visor iluminado indicava uma ligação de sua mãe, Renée. Sentindo um aperto imediato no estômago, Bella atendeu a ligação com a voz abafada pelo pânico contido.
— Mãe? O que aconteceu? Eu estou no meio do trabalho... — murmurou Bella, pressionando o aparelho contra o ouvido enquanto tentava ignorar o barulho ao seu redor.
—Bella! Meu Deus, Bella, você precisa vir para casa! — a voz de Renée veio entrecortada por soluços descontrolados e um choro histérico que fez o sangue de Bella gelado nas veias. — Ele está aqui... O senhor Félix está aqui dentro do apartamento, Bella! Ele trouxe caixas, disse que acabou o prazo e que vai trocar as fechaduras agora mesmo! Nós não temos para onde ir, meu amor, ele quer nos despejar nesta noite!
— Não, não, não! Mãe, por favor, me dá o telefone com ele! Passa para o Félix agora mesmo! — pediu Bella desesperadamente, apertando os olhos com força enquanto as lágrimas de ansiedade começavam a queimar em suas pálpebras.
Após alguns segundos de ruídos confusos no fundo da linha e o choro convulsivo de Renée se afastando, a voz grave e cansada do senhorio ecoou no alto-falante. Félix não era um homem cruel por natureza, mas trazia na voz a firmeza inflexível de quem dependia de regras para sobreviver em seu próprio negócio.
— Bella... — disse o senhorio com um tom visivelmente pesaroso, soltando um suspiro longo que atravessou a linha telefônica.
— Senhor Félix, por favor, eu imploro ao senhor! — interrompeu Bella, a voz tremendo irremediavelmente enquanto ela segurava a respiração. — Eu estou trabalhando no evento de gala neste exato momento. O pagamento vai sair em dinheiro no final do meu turno, daqui a poucas horas! Eu juro pela minha vida que vou direto para aí e entrego tudo o que eu ganhar na sua mão para cobrir o aluguel atrasado! Por favor, não coloque minha mãe no meio da rua a esta hora da noite!
Houve um silêncio torturante do outro lado da linha, onde apenas a respiração pesada de Félix podia ser ouvida por Bella. Quando ele finalmente respondeu, sua voz trazia uma nota sincera de compaixão e desconforto com a situação.
— Bella, eu sinto muito por isso estar acontecendo, de verdade... Eu gosto muito de vocês duas, mas eu recebo ordens superiores da imobiliária e preciso cumpri-las, o proprietário não quer mais esperar. — Félix fez uma pausa curta, suavizando o tom ao perceber o desespero visceral da jovem. — Mas... eu vejo o quanto você se esforça e trabalha sem parar. Vou abrir uma exceção única hoje. Eu vou esperar você chegar do trabalho com o dinheiro antes de tomar qualquer atitude drástica. Por favor, não demore, Bella.
— Eu estarei aí o mais rápido possível! Muito obrigada, senhor Félix, muito obrigada! — disse ela antes de encerrar a chamada, guardando o celular com as mãos trêmulas e o peito subindo e descendo em arfadas descontroladas.
A onda de alívio temporário foi imediatamente soterrada por uma pressão esmagadora que parecia sufocar seus pulmões. O medo iminente de perder a casa onde morava, a exaustão física acumulada por dias sem dormir adequadamente acumulando múltiplos empregos, a ansiedade de ter que demonstrar perfeição e frieza enquanto servia pessoas milionárias que sequer notavam sua existência, tudo aquilo colidiu violentamente dentro de sua mente. Sentindo a garganta fechar e o choro preso querendo explodir em soluços dolorosos, Bella percebeu que não conseguiria retornar ao salão principal sem desabar publicamente. Engolindo o choro com um esforço sobre-humano e deixando a bandeja de prata sobre uma mesa de apoio da brigada de serviço, ela caminhou com passos apressados e cambaleantes em direção ao corredor dos fundos, buscando desesperadamente por ar puro.
Ao empurrar a pesada porta de emergência, Bella pisou na varanda de serviço, uma estrutura de concreto fria e isolada que dava para os fundos do suntuoso hotel, longe do brilho das luzes e do ruído dos convidados. O ar frio e úmido da noite de Seattle atingiu seu rosto com violência, mas não foi suficiente para dissipar o calor sufocante que queimava em seu peito. Apoiar as mãos trêmulas no guarda-corpo de metal congelado não evitou que suas pernas perdessem a força. Bella entrou em uma crise aguda de ansiedade; sua visão começou a embaçar nas bordas, o coração martelava contra as costelas a um ritmo aterrorizante e cada tentativa de puxar o ar resultava apenas em um chiado rasgado e insuficiente na garganta. Ela caiu de joelhos sobre o chão frio de cimento, abraçando o próprio corpo e afundando o rosto entre os joelhos enquanto lágrimas quentes e incontroláveis banhavam suas bochechas.
Enquanto isso, distante da comoção velada da varanda, Edward Masen havia acabado de executar os últimos acordes de sua apresentação ao piano. Aplaudido calorosamente pela multidão e cumprimentado por seu pai com um tapinha formal no ombro, o rapaz sentiu uma urgência avassaladora de se distanciar daquele ambiente sufocante e repleto de falsidades. Recusando educadamente as abordagens de empresários e políticos locais que buscavam iniciar conversas sobre os negócios da família, ele se esgueirou pelos corredores reservados à equipe do hotel, buscando um local silencioso para clarear a mente e fugir do barulho dos aplausos que pareciam ecoar vazios em seus ouvidos.
Ao passar perto da saída de emergência dos fundos, um som abafado e doloroso chamou sua atenção. Era o ruído claro de alguém lutando desesperadamente para respirar, acompanhado por soluços contidos que cortavam o silêncio daquela área isolada. Curioso e impulsionado por um instinto de preocupação, Edward empurrou a porta de metal de devagar, deparando-se com a cena angustiante na varanda de serviço: uma garota vestida com o uniforme de garçonete do evento, encolhida no chão frio, completamente dominada por uma crise de ansiedade.
Sem hesitar por um único segundo, Edward aproximou-se com passos rápidos e suaves, ajoelhando-se no cimento frio ao lado de Bella. Ele manteve uma distância respeitosa para não assustá-la ainda mais, mas sua voz emanou uma doçura imensa ao romper o silêncio da noite.
— Ei... calma, por favor. Você está em segurança. Tente me escutar... — disse Edward com um tom baixo, aveludado e profundamente calmo, estendendo as mãos devagar para tocar suavemente os ombros dela.
Bella encolheu-se inicialmente com o toque, mas a calidez e a estabilidade da voz dele agiram como um âncora no meio da tempestade mental que a consumia. Ela ergueu a cabeça lentamente, os olhos marejados de lágrimas e as bochechas coradas pelo esforço desesperado de puxar o ar, encarando o rosto do rapaz diante de si.
— Eu... eu não consigo... puxar o ar... — tentou formular Bella entre arfadas descontroladas, os lábios trêmulos e os dedos apertando o tecido do próprio avental. — Eu não aguento mais isso... — sussurrou Bella enquanto Edward, percebendo o pavor nos olhos dela, aproximou-se um pouco mais e acariciava as costas de suas mãos com uma delicadeza extrema, tentando transmitir-lhe alguma firmeza através do contato físico.
— Você consegue sim, confie em mim. Olhe para mim... — pediu Edward suavemente, sustentando o olhar assustado dela com seus próprios olhos verdes expressivos e atentos. — Acompanhe a minha respiração. Sinta o ar entrando bem devagar... Assim, ó: puxa o ar fundo comigo... um, dois, três... e agora solta devagar... Isso, muito bem. Você está indo ótimo. Vamos fazer de novo.
Com uma paciência infinita e sem se importar com a sujeira do chão de concreto que manchava as calças do seu smoking caríssimo, Edward permaneceu ajoelhado ao lado dela. Ele continuou acariciando suavemente o dorso das mãos frias de Bella com os polegares, marcando um ritmo ritmado e tranquilo para que ela pudesse seguir. Aos poucos, conforme a voz aveludada do rapaz preenchia o espaço e a firmeza do seu toque trazia segurança, a respiração desgovernada de Bella começou a se desacelerar. O chiado em sua garganta deu lugar a inspirações mais profundas e regulares, e os batimentos cardíacos descontrolados em seu peito começaram a encontrar um ritmo normalizado.
Sob a luz fraca da iluminação noturna da varanda, Edward pôde finalmente observar com clareza as feições da garota a quem ajudava. Quando o tremor no corpo dela cessou quase por completo e ela limpou as lágrimas do rosto com as costas da mão, a iluminação amarelada revelou a delicadeza dos seus traços marcados pelo cansaço, os lábios macios e os olhos castanhos expressivos. Foi nesse instante de observação atenta que uma onda de reconhecimento atingiu a mente de Edward. Ele se lembrou instantaneamente do esbarrão ríspido que ocorrera dias atrás no corredor escuro do restaurante, onde ele, consumido por seus próprios problemas e mau humor, a havia tratado com frieza e arrogância injustificáveis.
Sentindo uma pontada sincera de vergonha e remorso pelo comportamento anterior, a expressão de Edward transformou-se em algo profundamente vulnerável e humano. Ele soltou as mãos dela devagar, mas manteve-se próximo, o olhar transbordando um pedido de desculpas que vinha diretamente do coração.
— Espera... Eu conheço você — disse Edward em um tom baixo e reflexivo, balançando a cabeça levemente enquanto os cantos de seus lábios se curvavam em um esboço de sorriso triste. — Você é a garota do restaurante...
Bella piscou os olhos devagar, ainda recompondo suas forças, e encarou o rapaz com surpresa ao notar que ele também a reconhecia sob a luz daquela varanda fria.
— Eu... é, sou eu... — respondeu ela com a voz ainda levemente rouca pelo choro recente.
— Me desculpe... De verdade — pediu Edward sinceramente, sustentando o olhar dela sem nenhuma sombra da arrogância daquela noite. — Eu fui incrivelmente rude e injusto com você naquele dia. Eu estava passando por um momento terrível e acabei descarregando minha frustração na primeira pessoa que cruzou o meu caminho, mas isso não justifica o tom ranzinza que usei. Eu me arrependi no mesmo instante em que vi você ir embora, mas não tive a oportunidade de me retratar... Me desculpe, por favor.
Bella encarou o semblante dele, percebendo a autenticidade estampada em cada traço do rosto do rapaz. O homem ríspido e distante daquele restaurante havia desaparecido completamente, dando lugar a uma pessoa atenciosa, gentil e disposta a estender a mão a uma desconhecida em seu momento de maior fraqueza.
— Tudo bem... — disse Bella com a voz suave, permitindo que um pequeno e tímido sorriso surgisse em seus lábios enquanto limpava a última lágrima que escorria por sua bochecha. — Aquele dia também não foi muito fácil para mim... Mas obrigada por ter me ajudado agora. De verdade. Eu não sei o que teria acontecido se você não tivesse aparecido aqui.
Edward assentiu com um alívio genuíno transparecendo em seu olhar, feliz por ver que a cor e a serenidade retornavam gradativamente ao rosto dela. Ele ajeitou a postura, encostando as costas na parede fria ao lado dela e estendeu a mão direita de forma simples e despretensiosa, omitindo deliberadamente seu sobrenome poderoso ou qualquer menção ao império corporativo que seu pai ostentava no salão principal.
— Bem... Acho que precisamos começar do jeito certo desta vez — disse ele com um sorriso caloroso e cativante que iluminou seus olhos. — Eu sou o Edward... E você?
Bella olhou para a mão estendida dele por um breve segundo antes de segurá-la com firmeza contida, sentindo o calor reconfortante da pele dele contra a sua.
— Eu sou a Bella — respondeu ela, sentindo pela primeira vez naquela noite exaustiva que a solidão sufocante que a perseguia parecia ter encontrado um pequeno e inesperado ponto de paz no meio da multidão.
A brisa leve da noite continuava a soprar na varanda do salão de festas, enquanto o som abafado da orquestra chegava até eles como um pano de fundo suave. Bella ajeitou a bandeja vazia que segurava com as duas mãos, olhando para Edward com um brilho divertido nos olhos.
— Então você está me dizendo que prefere levar uma bronca do seu pai a ter que cumprimentar o terceiro vice-presidente de finanças? — perguntou ela, inclinando ligeiramente a cabeça.
— Sem dúvida alguma — respondeu Edward, abrindo um sorriso torto. — O vice-presidente fala sobre a variação cambial do iene com o mesmo entusiasmo de quem está lendo uma lista de ingredientes de detergente. Se eu ficasse mais cinco minutos lá dentro, entraria em coma induzido.
— Pelo menos você tem a opção de entrar em coma em um terno sob medida — provocou Bella, prendendo o riso. — Se eu dormir em pé, caio por cima da mesa de canapés de salmão e perco o salário da noite. E acredite, a queda não seria nada elegante.
Edward soltou uma risada genuína, sonora e desarmada. O som fez a tensão nos ombros dele desaparecer por completo, e ele balançou a cabeça, encarando-a com o olhar caloroso.
— Você é inacreditável, sabia? — disse ele, ainda rindo baixinho.
Antes que Bella pudesse responder, a porta de vidro que dava acesso à varanda foi aberta de soco. Jasper apareceu no pátio, com a expressão rígida e as sobrancelhas franzidas em um cenho visivelmente incomodado. Seus olhos passaram de Edward para Bella com um ciúme escancarado, que ele nem se deu ao trabalho de disfarçar.
— Bella — chamou Jasper, com a voz dura e carregada de impaciência. — O gerente está procurando você lá dentro. A equipe do bufê precisa recolher o material do setor B agora.
Bella encarou o amigo por um segundo, percebendo a carranca defensiva dele, mas resolveu não alimentar a tensão ali. Ela virou-se para Edward com um sorriso gentil.
— Bom, meu dever me chama — disse ela suavemente. — Muito obrigada pela ajuda com os pratos mais cedo e por salvar minha noite do tédio, Edward.
— O prazer foi todo meu — respondeu ele, mantendo os olhos nela enquanto ela dava um passo para trás.
Bella acenou brevemente e caminhou em direção ao pátio, acompanhando Jasper para o interior do salão.
Ao final do evento, quando os últimos convidados já haviam ido embora e o salão estava quase desmontado, o responsável pelo evento chamou os garçons temporários para acerto de contas. Quando entregou o envelope de Bella, ela abriu discretamente e piscou, surpresa. Havia um valor significativamente maior do que o combinado no início da noite. O supervisor apenas piscou para ela, indicando que a eficiência e a simpatia dela haviam garantido uma excelente gorjeta da organização.
O montante cobria exatamente os aluguéis atrasados do apartamento e ainda garantia o pagamento adiantado do mês seguinte. Um alívio gigantesco pesou sobre o peito de Bella durante todo o trajeto para casa.
Ao abrir a porta do pequeno apartamento, ela encontrou Renée na sala conversando com Félix. Sem perder tempo, Bella tirou o bolo de notas do bolso, contou a quantia exata da dívida e entregou diretamente nas mãos de Félix.
— Aqui está tudo o que devíamos, Félix. E adiantado o próximo mês… — disse ela com firmeza.
Félix contou o dinheiro, surpreso, deu um sorriso de canto e guardou as notas no bolso interno do casaco.
— Negócio fechado, garota — disse ele, caminhando em direção à saída. — Vejo vocês qualquer hora.
Assim que a porta se fechou, Bella virou-se para a mãe. O cansaço da noite pesava em seus olhos, mas sua expressão era séria e resoluta.
— Mãe, precisamos conversar — começou Bella, sentando-se no sofá surrado. — Esse dinheiro deu uma trégua, mas não podemos continuar vivendo assim, de bico em bico e à beira de um despejo. Você precisa procurar um emprego fixo. Alguma coisa com estabilidade.
Renée suspirou, abrindo a boca para protestar, mas Bella ergueu a mão gentilmente.
— Eu estou falando sério — continuou ela. — Amanhã de manhã eu tenho o meu último teste de seleção para a série da Netflix. Se eu não passar... acabou. Vou deixar meus currículos em lojas, cafés, onde for preciso para conseguir um trabalho de carteira assinada. Eu cansei de viver no limite.
Renée olhou para a filha, vendo a determinação e o cansaço em seu rosto, e acabou assentindo lentamente.
Na manhã seguinte, o alarme tocou cedo. Bella levantou-se disposta a dar o seu melhor. Foi até o café dos estúdios da Warner Bros, cumpriu seu turno matutino na lanchonete e, assim que o horário terminou, correu para o banheiro dos funcionários para se arrumar.
Enquanto escovava os dentes na frente do espelho, ela segurava as folhas do roteiro amassado com a outra mão, repassando as falas mentalmente e fazendo expressões faciais dramáticas. No ônibus a caminho do local da audição de elenco, ela continuou o ensaio. Sentada perto da janela, gesticulava baixinho e sussurrava o texto emotivo. Ao seu redor, alguns passageiros olhavam de lado, julgando-a e cochichando entre si, achando que ela estava falando sozinha ou maluca, mas Bella nem se importou.
Chegando ao endereço da seleção, Bella se deparou com a crua realidade dos bastidores de Hollywood: uma fila quilométrica ocupando a calçada. Dezenas de jovens deslumbrantes, perfeitamente maquiadas, usando roupas impecáveis e ostentando aparências dignas de capa de revista aguardavam a sua vez.
Entrando na fila, Bella começou a analisar mentalmente cada uma delas. Havia a garota loira ao seu lado que passava brilho labial compulsivamente; a outra mais à frente que repassava as falas em tom teatral exagero; e várias outras que pareciam saídas direto de uma agência de modelos de luxo. A competição era feroz.
Enquanto esperava a fila andar, a mente de Bella vagou por um segundo para a noite anterior. Lembrou-se do sorriso torto de Edward e de como ele tinha rido espontaneamente da piada dela na varanda. Ela soltou um suspiro baixinho e um pequeno sorriso de canto. Pelo menos foi uma boa conversa, pensou ela, porque alguém como ele provavelmente vive em outro mundo. Nunca mais vou vê-lo na vida.
Enquanto isso, do outro lado da cidade, na mansão Masen, o dia começava de forma inédita.
Edward acordou cedo pela primeira vez em meses sem precisar ser chamado. Tomou um banho rápido, alinhou o cabelo e vestiu um terno escuro sob medida, ajustando a gravata impecavelmente no pescoço.
Ao descer as escadas e entrar na sala de jantar, encontrou seu pai, Edward Masen Sr., lendo o jornal e tomando café. O pai levantou os olhos da xícara e encarou o filho de cima a baixo, completamente abismado com a figura elegante do rapaz àquela hora da manhã.
— Aconteceu algum milagre que eu desconheça? — perguntou o sênior, franzindo a testa com estranheza. — Para onde você vai vestido assim tão cedo?
Edward ajeitou os punhos da camisa, exibindo uma postura firme.
— Para a empresa com o senhor — declarou ele. — Eu vou cumprir minha promessa. Vou trabalhar e seguir o legado Masen.
Edward Sr. encarou o filho por dois segundos em silêncio antes de soltar uma gargalhada alta e solta.
— Fico muito orgulhoso da sua iniciativa, Edward... mas hoje é sábado — disse o pai, balançando a cabeça com diversão. — A empresa não abre hoje. Espero que na segunda-feira você continue com toda essa disposição.
Edward parou no meio do salão, piscando algumas vezes ao perceber que tinha se perdido completamente nos dias da semana. Ele acabou rindo da própria confusão, desfazendo o nó da gravata.
— Sábado... é claro — murmurou ele, sorrindo.
— Sendo assim — continuou o pai, dobrando o jornal sobre a mesa —, que tal fazermos uma programação de pai e filho? Podemos ir jogar tênis no clube.
Edward olhou para o pai e concordou imediatamente:
— Parece uma ótima ideia. Vamos nessa.
De volta à audição, o momento de Bella finalmente chegou. Dentro da sala de testes, diante do diretor de elenco e dos produtores, ela deixou o nervosismo de fora. Entrou na personagem com uma entrega absoluta, dando nuance, emoção e uma verdade crua à cena que silenciou os jurados.
Ao terminar, o diretor olhou para os papéis, depois para ela, e deu um sorriso largo.
— Excelente trabalho, Bella. Você foi aprovada na primeira fase dos testes. Entraremos em contato para a etapa final.
A sensação de triunfo inundou o peito de Bella. Ela saiu do prédio flutuando de alegria e pegou o celular para falar com a mãe. Renée atendeu animada e contou que estava dando aulas de Hot Yoga no clube de elite de Los Angeles naquela manhã.
— Vem para cá, querida! — comemorou Renée do outro lado da linha. — Me encontre no clube. Hoje o almoço é por minha conta para celebrar!
Bella pegou o transporte e foi direto para o suntuoso clube de campo. Ao chegar, passou pela recepção e começou a caminhar pelas alamedas arborizadas e pelas áreas externas, observando o ambiente. As pessoas ao redor vestiam roupas de grife, falavam de investimentos com um ar esnobe e desfilavam sua riqueza sem qualquer modéstia.
Distraída olhando ao redor, Bella virou a esquina perto do restaurante do clube e acabou esbarrando de frente com alguém.
— Opa, me desculpe! — disse ela, dando um passo para trás.
Quando olhou para cima, seus olhos se arregalaram. Era Edward.
O rosto dele se iluminou instantaneamente com um sorriso radiante ao reconhecê-la.
— Bella? — exclamou ele, genuinamente feliz em reencontrá-la. — O que você está fazendo aqui?
— Eu... eu vim encontrar minha mãe — respondeu ela, ainda tentando assimilar a coincidência. — Ela dá aulas de Hot Yoga aqui no clube.
Edward piscou, surpreso, e soltou uma risada bem-humorada.
— Hot Yoga?
Bella deu um sorriso brincalhão, dando de ombros.
— Pois é. Minha mãe tem alguns gostos bastante peculiares.
Os dois começaram a caminhar lado a lado pelo jardim, conversando com uma facilidade impressionante. Falaram sobre música, sobre o caos de Los Angeles, sobre expectativas para o futuro e sobre histórias engraçadas do cotidiano. A conversa fluía sem esforço, e aos poucos ambos foram se encantando visivelmente um pelo outro, rindo das piadas e trocando olhares prolongados.
Em um determinado momento, Edward encostou na mureta do jardim e olhou para ela com um ar divertido.
— Sabe, ontem à noite... eu acho que o seu namorado ficou com bastante ciúmes de nos ver conversando na varanda.
Bella franziu a testa, confusa.
— Namorado?
— É. O loiro com cara de sofrimento — brincou Edward.
Bella soltou uma risada alta, balançando a cabeça.
— Meu Deus, o Jasper? Ele não é meu namorado! É o meu melhor amigo.
— Bom — comentou Edward, inclinando o rosto com um sorriso sarcástico —, eu acho que ele pensa que é seu namorado...
— Que nojo! — riu Bella, fazendo uma careta engraçada. — Ele não é doido a esse ponto. A gente se conhece há anos, é praticamente meu irmão.
Enquanto os dois riam, uma voz firme e encorpada soou às costas de Edward:
— Edward?
Edward virou-se e viu seu pai se aproximando, segurando duas raquetes de tênis. O jovem prontamente apresentou a garota:
— Pai, esta é a Bella Swan . Bella, este é meu pai, Edward Masen.
Edward Sr. avaliou Bella com um olhar atento por um segundo e perguntou:
— Você é filha do senador Swan?
Bella soltou um risinho espontâneo e respondeu sem hesitar:
— Não, senhor. O meu pai é chefe de polícia em Forks, uma cidadezinha no interior de Washington, o mais próximo do Senado que ele já chegou foi prendendo um corrupto que fugiu e se escondeu em La push.
Edward Sr. encarou Bella por um instante e, para a surpresa absoluta do filho, soltou uma gargalhada calorosa.
— Gostei do seu senso de humor, garota — disse o mais velho, sorrindo amigavelmente.
Edward olhou para o pai, profundamente chocado. Desde que sua mãe havia falecido, o pai raramente sorria para estranhos, muito menos para alguém que acabara de conhecer.
— Bom, filho, precisamos ir para a nossa quadra — lembrou o pai, apontando com a raquete. — Foi um prazer conhecê-la, senhorita Bella.
— O prazer foi meu, senhor Masen.
Edward Sr. começou a andar em direção às quadras. Edward despediu-se de Bella com um olhar demorado:
— Tchau, Bella. Foi ótimo te ver de novo.
— Tchau, Edward.
Ele deu alguns passos atrás do pai, mas parou de repente. Sem pensar duas vezes, virou meia-volta e correu de volta na direção de Bella. Ele tirou do bolso o seu iPhone de última geração e entregou diretamente nas mãos dela.
— Você pode colocar o seu número aqui para mim? — pediu ele, olhando diretamente nos olhos dela, com o respirar um pouco acelerado pela corrida curta.
Bella olhou para o telefone refinado, depois para ele, e deu um sorriso de canto enquanto digitava seus dígitos na tela. Ao devolver o aparelho, Edward guardou o celular no bolso com um brilho vitorioso no olhar.
— Eu te ligo para a gente sair, ok? — afirmou ele com firmeza.
Bella soltou uma risada leve e divertida, balançando a cabeça enquanto assistia a ele acenar e correr de volta para alcançar o pai.
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