City of stars

1 Behind the mic... I see the stations…


Notas iniciais
Oieeee meus amores! Sejam bem-vindos a City Of Stars! ✨ Preciso confessar uma coisa para vocês: a ideia de escrever essa história surgiu do nada, depois de eu passar por um vídeo no TikTok sobre La La Land, que é, sem dúvidas, um dos meus filmes favoritos da vida! Mas, sejamos sinceros… apesar de amar a estética e a trilha sonora, eu odeio o final daquele filme! Por isso, fiquem tranquilos e podem ler sem medo: o final da nossa fanfic vai ser bem diferente! 😉 Espero do fundo do coração que vocês gostem deste primeiro capítulo. Preparei cada detalhe com muito carinho para trazer essa atmosfera mágica e apaixonante para o universo de Crepúsculo. Não se esqueçam de favoritar e deixar um comentário dizendo o que acharam, quais foram suas partes favoritas e o que estão esperando dos próximos capítulos! A opinião de vocês é super importante para me motivar a continuar escrevendo. Boa leitura e nos vemos no Capítulo 2! ❤️

Capítulo 1 : Behind the mic... I see the stations…


O alarme do despertador nem teve a oportunidade de ressoar no quarto pequeno e abafado; o sobressalto mecânico do corpo de Bella Swan antecedeu o metal estridente do aparelho em exatos dois minutos. Quando os olhos castanhos se abriram na penumbra avermelhada que atravessava a cortina puída, o relógio digital de cabeceira marcava impiedosos quatro horas e quarenta e cinco minutos da manhã. Um gemido abafado escapou de seus lábios ressecados enquanto ela girava o corpo na cama rangente, sentindo cada músculo das costas protestar contra a maratona do dia anterior. Ela deveria estar com o uniforme impecável e o crachá preso ao peito na cafeteria dos estúdios da Warner Bros. às cinco horas em ponto, um feito matematicamente impossível para quem ainda precisava cruzar metade de Los Angeles.

Ao colocar os pés no piso de taco frio, a sensação de urgência foi interrompida pelo aroma denso e sufocante de incenso de sálvia-branca misturado com alfazema. O corredor do apartamento parecia imerso em uma névoa mística. No centro da sala de estar, cercada por um círculo de cristais de quartzo rosa e pequenas velas que queimavam sobre pires desparelhados, Renée Dwyer flutuava em seu próprio universo. Vestia uma bata fluida de estampas psicodélicas em tons de laranja e violeta, calças boca de sino desgastadas e trazia no centro da testa o inconfundível bindi indiano em tom carmesim. Os cabelos loiros longos e ondulados caíam desalinhados sobre as tatuagens florais que cobriam seus braços, enquanto ela mantinha as pernas cruzadas na posição de lótus, os olhos fechados e os braços erguidos em uma tentativa desesperada de meditação.

— Mãe , por favor, são quase cinco da manhã... — sussurrou Bella, a voz rouca do sono, enquanto desviava com agilidade de um queimador de cerâmica quente deixado no meio do caminho. — Eu estou terrivelmente atrasada e a casa cheira a queimado.

— Não corte a vibração de cura do ambiente, minha estrela — respondeu Renée sem abrir os olhos, mantendo uma entonação ritmada e excessivamente serena, embora o balançar frenético de sua perna esquerda traísse sua agitação natural. — O alinhamento planetário de hoje está em uma quadratura crítica. Senti uma densidade pesadíssima nos seus chakras enquanto você dormia, Bella. Estou limpando o seu campo auríco para que os executivos do cinema vejam a sua luz interior. Respire a sálvia! Inspire abundância, exale a estagnação do sistema capitalista...

Bella respirou fundo, mas não para absorver a sálvia, e sim para conter a onda de frustração que ameaçava transbordar. Enquanto prendia o cabelo castanho em um coque apressado diante do espelho trincado do banheiro, ela conseguia ver, através da porta aberta, o rastro de irresponsabilidade deixado pela mãe: pratos da noite anterior acumulados na pia da cozinha, correspondências não abertas sobre o balcão e, no topo da pilha, o envelope de papel pardo com o carimbo vermelho garrafal que fazia seu estômago se contorcer em nós congelantes.

Ao retornar para a sala, vestindo a calça jeans escura e a camisa polo neutra do trabalho, Bella pegou a carta do balcão. A textura do papel parecia queimar a ponta de seus dedos calejados.

— Você leu isso aqui, mãe? — perguntou Bella, a voz vacilando ligeiramente entre o cansaço e a severidade de quem fora forçada a se tornar a adulta da casa antes da hora. — É a segunda ordem de despejo em três meses. O proprietário deu cinco dias úteis para quitarmos o aluguel atrasado ou as nossas coisas estarão na calçada da Boulevard.

Renée finalmente abriu os olhos azuis e reluzentes, desfazendo a postura de lótus com um movimento abrupto que quase derrubou a torre de selenita ao seu lado. Ela se levantou em um salto, a saia esvoaçante estalando ao redor das canelas decoradas por tornozeleiras de prata, e envolveu o rosto da filha entre as mãos quentes e perfumadas de óleos essenciais.

— O universo proverá, meu amor! O dinheiro é apenas uma energia ilusória que flui quando paramos de nos apegar ao medo — disse Renée, o tom transbordando um afeto genuíno, porém exasperante, enquanto ajeitava uma mecha rebelde do cabelo de Bella. — O planeta Mercúrio vai sair da retrogradação no fim da semana. Eu joguei o tarô ontem à noite e a carta da Imperatriz saiu acompanhada do Sol! Isso significa que o seu grande papel está chegando, ou o meu projeto do atelier de cerâmica holística vai finalmente decolar!

— O aluguel não se paga com a carta da Imperatriz, mãe — rebateu Bella, soltando-se delicadamente do abraço e recolhendo as chaves sobre a mesa bagunçada. Ela olhou para a mulher que deveria protegê-la, sentindo uma mistura dolorosa de amor incondicional e exaustão extrema. — Eu vou dar um jeito. Sempre dou, não é? Mas você precisa parar de gastar o pouco que resta do cheque do papai em pedras e cursos online de aromaterapia.

Sem esperar pela resposta dramática que sabia que viria, Bella agarrou sua bolsa puída e disparou pela porta do apartamento. O ar fresco da madrugada de Los Angeles atingiu seu rosto como um tapa de realidade. A corrida até o ponto de ônibus foi uma luta contra o relógio, mas o destino parecia alinhar-se contra ela naquele dia: a avenida principal estava completamente travada em um engarrafamento monstruoso causado por um acidente nas proximidades da autoestrada. Os faróis vermelhos dos carros formavam uma serpente luminosa interminável sob o céu cinza da manhã. O ônibus que deveria ter passado às quatro e cinquenta e cinco simplesmente não apareceu.

Quando Bella finalmente conseguiu desembarcar nos portões da Warner Bros. e correu desesperadamente pelos paralelepípedos do estúdio até a cafeteria, o relógio sobre o balcão principal marcava cinco horas e cinco minutos.

— Cinco minutos atrasada, Swan. Na minha equipe, cinco minutos é a diferença entre manter um cliente VIP satisfeito e perder o contrato do estúdio — a voz cortante e gélida ecoou assim que Bella cruzou a porta de serviço.

Victoria, a gerente do estabelecimento, estava de pé ao lado da caixa registradora com os braços cruzados sobre o peito. Seus cabelos ruivos volumosos estavam presos em um penteado rígido, e seus olhos felinos acompanhavam cada movimento de Bella com uma desconfiança quase predatória. A mulher exalava uma autoridade inflexível, uma postura moldada pelos anos de exigência nos bastidores de Hollywood.

— Me desculpe, Victoria... o trânsito na saída da autoestrada estava totalmente parado por causa de um acidente e o ônibus atrasou — justificou-se Bella, a arfagem acelerada fazendo seu peito subir e descer enquanto tentava vestir o avental verde sem tropeçar nos próprios pés.

— Seus problemas pessoais e o trânsito desta cidade não são da minha conta — cortou Victoria, a voz desprovida de qualquer empatia. — Se acontecer de novo, a sua vaga será preenchida por dezenas de garotas que estão fazendo fila na porta desse estúdio querendo uma chance. Vá para o balcão agora. As jarras de café precisam ser repostas e os grãos expresso precisam ser moídos.

Antes que Bella pudesse processar o peso da ameaça, uma mão firme e acolhedora tocou delicadamente o seu cotovelo. Jasper Whitlock, seu colega de trabalho e único refúgio dentro daquele ambiente claustrofóbico, já havia assumido a moagem dos grãos e adiantado metade dos pedidos da fila matinal. Jasper era um jovem de feições suaves, cabelos loiros impecavelmente cortados e olhos expressivos que carregavam uma devoção silenciosa por Bella, um sentimento que ela fingia não notar para preservar a amizade mais preciosa que possuía na cidade.

— Deixa que eu assumo as máquinas de expresso, Bells — disse Jasper, com seu sotaque sutil do sul desprendendo-se em um sussurro reconfortante enquanto empurrava delicadamente uma xícara de chá quente para a amiga. — Você está pálida. Bebe isso antes que a Victoria olhe para cá de novo.

— Eu não aguento mais isso... — sussurrou Bella, apoiando os cotovelos contra o aço frio do balcão interno enquanto Jasper acariciava com extrema ternura as costas de suas mãos calejadas, oferecendo um porto seguro em meio ao caos. — Parece que estou correndo em um moinho de vento que nunca para de girar, Jas. Se eu perder esse emprego, não sei o que vai ser da minha mãe e de mim nesta semana.

Os olhos claros de Jasper se estreitaram em profunda preocupação. Ele observou as sombras escuras sob os olhos de Bella e a rigidez em seus ombros magros.

— O que aconteceu? É o aluguel de novo? — perguntou ele baixinho, sem soltar sua mão.

— Recebemos a ordem de despejo hoje cedo — confessou ela, engolindo em seco o nó de angústia que travava sua garganta. — Preciso de dinheiro líquido até sexta-feira. Trabalhar só na cafeteria e lavar a louça no restaurante à noite não está cobrindo as dívidas que a Renée acumula. Estou desesperada.

Jasper olhou ao redor, garantindo que Victoria estivesse distraída no escritório dos fundos, e aproximou-se um pouco mais de Bella, a expressão iluminada por uma ideia repentina.

— Olhe para mim, Bella. Minha mãe gerencia uma das maiores empresas de catering de luxo de Bel-Air — revelou ele, com o olhar brilhando em esperança. — Eles vão fazer a cobertura da grande festa de inauguração de um novo arranha-céu da cidade nesta sexta-feira à noite. É um evento gigantesco da elite imobiliária. Eu posso falar com ela hoje mesmo e te encaixar na equipe de garçonetes. O cachê por essa única noite é três vezes maior do que a cafeteria te paga em duas semanas, e o pagamento é feito em dinheiro no final do evento.

Bella olhou para o amigo, a sensação de alívio varrendo momentaneamente seu peito como uma brisa fresca.

— Você faria isso por mim? — perguntou ela, os olhos castanhos brilhando com uma gratidão profunda.

— Eu faria qualquer coisa para ver você respirar um pouco em paz, Bells — respondeu Jasper com sinceridade cristalina, apertando os dedos dela suavemente antes de retornar às máquinas de café com um sorriso tímido.

Enquanto o sol já começava a tingir os arranha-céus de Los Angeles com uma luz dourada e intensa, no lado oposto da cidade, em uma das mansões mais luxuosas de Beverly Hills, a rotina transcorria em um ritmo completamente diferente.

O relógio de pêndulo no corredor da residência Masen badalava pontualmente onze horas da manhã quando a porta do quarto principal se abriu suavemente. O ambiente espaçoso era dominado por tons de cinza, madeira nobre e grandes janelas de vidro que ofereciam uma vista panorâmica para a piscina de borda infinita. Deitado entre lençóis de algodão egípcio, Edward Masen Jr. permaneceu imóvel por alguns segundos, cobrindo os olhos contra a claridade que invadia o recinto.

— Bom dia, meu querido — a voz doce e maternal de Esme Platt quebrou o silêncio absoluto da casa.

Esme, a governanta que cuidava de Edward desde a sua infância e que assumira voluntariamente o papel de figura materna após a trágica morte de Elizabeth Masen há dezesseis anos, entrou no quarto carregando uma bandeja de prata repleta de frutas frescas, suco natural e croissants quentes. Ela vestia seu avental impecável sobre roupas sóbrias, ostentando um sorriso caloroso que parecia ser a única fonte de vida e afeto naquela estrutura de concreto e vidro.

— Esme... já é tão tarde assim? — resmungou Edward, a voz rouca e profunda, enquanto se sentava na cama e passava as mãos pelo emaranhado de cabelos bronzeados.

Ele não vestia pijama elegante; usava apenas uma camiseta cinza desbotada e calças de moletom confortáveis. Ao contrário da expectativa do pai, que exigia uma postura aristocrática até mesmo no isolamento de casa, Edward mantinha uma estética despojada, quase desleixada, a marca registrada de quem respirava arte e desprezava a ostentação vazia.

— São quase onze e meia, Edward — disse Esme com carinho, pousando a bandeja sobre a mesa de apoio e sentando-se na borda da cama para acariciar suavemente os cabelos do rapaz. — Seu pai já ligou do escritório três vezes nesta manhã. Ele está furioso porque você não compareceu à reunião dos acionistas às nove.

Edward soltou uma risada amarga, balançando a cabeça com desdém.

— Ele não está furioso porque sente a minha falta, Esme. Ele está furioso porque a cadeira vazia com o meu nome envergonha o ego dele diante do conselho — rebateu Edward, pegando a xícara de café preto sem açúcar. — Eu já disse a ele mil vezes que não quero saber da Masen Construction. Eu não sou um homem de negócios.

Os olhos de Esme se encheram de uma dor antiga e compreensiva. Ela segurou a mão de Edward, sentindo a rigidez nos nós dos dedos dele — dedos feitos para a delicateza das teclas de um piano, não para assinar contratos milionários de perfuração de solo.

— Eu sei, meu filho... eu sei o quanto a música é o seu refúgio e o quanto ela te conecta com a memória da sua mãe — disse Esme baixinho, o tom carregado de nostalgia. — A Elizabeth estaria tão orgulhosa de ver o músico incrível que você se tornou. Mas tente entender o seu pai... desde que ela se foi, o trabalho tornou-se a única linguagem que ele conhece para lidar com o mundo. Vá ao escritório hoje, Edward. Faça esse gesto por ele. Evite mais uma tempestade nesta casa.

Edward olhou para Esme, a única pessoa naquele império capaz de desarmar sua defesa. Ele suspirou derrotado, acenando positivamente com a cabeça.

Poucos minutos depois, Edward desceu as escadas monumentais da mansão. Ele recusou o terno de três peças sob medida que o pai deixara preparado em seu closet; em vez disso, vestiu sua jaqueta de couro preta surrada sobre uma camisa de malha escura, calças jeans bem cortadas e botas de couro desgastadas — o mesmo estilo marcante e rebelde que o afastava de qualquer estereótipo corporativo.

Na garagem espaçosa, o reluzente sedã preto da família já o aguardava com o motor ligado. Ao volante estava Emmett Platt, o filho de Esme. Emmett era um jovem alto, de ombros largos, braços musculosos e um sorriso fácil que contrastava perfeitamente com a gravidade habitual de Edward. Apesar de trabalharem em posições tão distintas , um como herdeiro contrariado e o outro como motorista da família, a convivência sob o mesmo teto os transformara em irmãos de alma.

— Pela cara de enterro, vejo que o chefe Masen já mandou recado — brincou Emmett assim que Edward ocupou o banco do carona, fazendo questão de dispensar a formalidade de sentar-se atrás.

— Nem me fale, Emm. Se eu tiver que ouvir mais um discurso sobre 'nosso legado de concreto e aço', juro que me jogo desse carro em movimento — resmungou Edward, afundando-se no banco enquanto o veículo ganhava as ruas movimentadas de Los Angeles.

O trânsito da cidade, no entanto, logo os prendeu em mais um congestionamento sufocante. Parados entre ônibus de turismo e SUVs de luxo sob o calor crescente do meio-dia, o silêncio dentro do carro deu lugar a uma conversa profunda sobre as discrepâncias de suas realidades.

— Você reclama demais da sua sorte, Bro — disse Emmett com tom sério, os olhos atentos ao espelho retrovisor enquanto batia os dedos no volante. — Eu entendo a sua paixão pela música, de verdade. Mas olhar para o império do seu pai e sentir nojo disso é um luxo que só quem tem a vida ganha pode se dar.

Edward olhou para o amigo, surpreso com a franqueza.

— O dinheiro dele não compra o que eu quero, Emmett. Ele quer me transformar em um robô sem alma.

— Edward, veja o meu lado — continuou Emmett, a voz carregada de uma maturidade dolorosa. — Minha mãe rala naquela mansão há mais de vinte anos para pagar minhas contas. Eu daria qualquer coisa... qualquer coisa mesmo para ter a oportunidade de fazer uma faculdade de arquitetura como você, sentar naquela cadeira da empresa do seu pai e dar uma aposentadoria digna para a minha mãe. Eu queria poder dizer para a Esme que ela nunca mais vai precisar lavar a louça de ninguém. Você tem o mundo aos seus pés e trata isso como uma prisão.

As palavras de Emmett atingiram Edward com a força de um soco no estômago. O pianista olhou pela janela, observando a paisagem urbana e os trabalhadores nas calçadas, absorvendo pela primeira vez a magnitude do privilégio que rejeitava enquanto outros lutavam desesperadamente pela sobrevivência.

— Me desculpe, Emm... você tem razão — admitiu Edward baixinho, o olhar fixo no horizonte. — Eu só queria que o meu pai enxergasse quem eu sou de verdade, e não apenas o sobrenome que eu carrego.

Quando o sedã finalmente encostou diante do imponente arranha-céu espelhado com o logotipo dourado da Masen Construction Corp. no centro financeiro de Los Angeles, a atmosfera ao redor de Edward tornou-se pesada. Ele despediu-se de Emmett e caminhou pelo saguão de mármore sob os olhares atentos dos funcionários, que sussurravam sobre a presença do herdeiro rebelde.

No último andar, a porta da sala de reuniões principal estava escancarada. Ao redor de uma mesa de carvalho polido, dezenas de executivos de terno e gravata ouviam atentamente a apresentação do patriarca da família.

Edward Masen Sr. era a imagem viva do poder e da rigidez. Alto, com cabelos grisalhos impecavelmente alinhados, terno de corte italiano de três peças e uma postura impecável, o homem exalava um domínio gélido sobre tudo ao seu redor. Ao ver o filho entrar na sala vestindo jaqueta de couro e jeans, os olhos de Edward Sr. se estreitaram em uma tempestade de fúria contida.

— Senhoras e senhores, dêem-nos um momento, por favor — ordenou o velho Masen, a voz de trovão ecoando pela sala.

Os executivos recolheram seus papéis rapidamente e saíram em silêncio, fechando a pesada porta de madeira atrás de si. O silêncio que se instalou na sala VIP era ensurdecedor.

— O que significa essa aberração, Edward? — começou o pai, caminhando a passos lentos até o filho, apontando com nojo para a jaqueta de couro. — Você atrasa três horas para a reunião mais importante do trimestre e aparece na minha empresa vestido como um desocupado de rua?

— Eu já disse que não queria vir, pai — respondeu Edward, mantendo a cabeça erguida, embora seus punhos estivessem fechados dentro dos bolsos da jaqueta. — A Esme me pediu para vir, mas eu não tenho interesse nenhum no seu novo projeto de construção.

— Você é meu único filho! O seu dever é dar continuidade ao império que eu construí com o meu suor e honrar o nome da sua mãe! — esbravejou Edward Sr., cravando os punhos sobre a mesa de carvalho. — Você passa as suas noites em bibocas imundas tocando piano para bêbados por trocados! Isso é uma vergonha para o nome Masen! A música era um passatempo bonitinho da sua mãe, mas você já tem vinte e quatro anos, Edward! Chega dessa ilusão ridícula!

A menção à falecida mãe usada como ferramenta de manipulação fez o sangue de Edward ferver instantaneamente. O limite de sua paciência fora ultrapassado.

— Não ouse colocar a minha mãe no meio da sua obsessão por poder! — gritou Edward, a voz ecoando pelas paredes de vidro, os olhos faiscando em raiva pura. — A mamãe amava a música porque a música tinha alma! Uma coisa que você destruiu em você mesmo há muito tempo! Eu prefiro passar a minha vida inteira tocando em bares imundos do que me tornar um homem frio, amargurado e miserável como você!

Sem esperar pela resposta do pai, Edward virou-se bruscamente e caminhou em direção à saída.

— Se você cruzar aquela porta, Edward, não volte para a minha casa! — ameaçou o patriarca com a voz trêmula de raiva.

Edward nem sequer olhou para trás. Ele empurrou a porta dupla de madeira com violência, o estrondo da batida ressoando por todo o andar corporativo. Ignorando os elevadores lotados, ele desceu os lances de escada correndo, a respiração desregulada e o peito queimando de indignação.

Ao sair do prédio, ele recusou o carro de Emmett que o aguardava na calçada e caminhou sem rumo pelas ruas barulhentas do centro de Los Angeles. O sol da tarde começava a declinar, projetando sombras longas sobre os edifícios enquanto a raiva de Edward dava lugar a uma sensação profunda de desolamento e solidão.

Após caminhar por horas, seus passos o levaram até a fachada acolhedora de um restaurante italiano tradicional e refinado, situado em um bairro boêmio da cidade. Do lado de fora, parado perto da entrada de serviço nos fundos, estava o sedã preto da família. Emmett o havia seguido à distância e o aguardava pacientemente enquanto conversava com uma jovem de avental branco e dotes culinários visíveis.

Rosalie Hale, a namorada de Emmett, trabalhava como chef auxiliar naquele estabelecimento. Ela era uma mulher de beleza estonteante, cabelos loiros radiantes e uma personalidade forte e protetora que mantinha Emmett completamente apaixonado.

— Edward! Graças a Deus você está bem — disse Emmett, aproximando-se ao ver o amigo se aproximar com o rosto obscurecido pela exaustão emocional. — O seu pai ligou como um louco, mas eu não disse onde você estava.

— Obrigado, Emm — murmurou Edward, encostando-se na parede de tijolos aparentes da entrada de serviço.

Antes que pudessem continuar a conversa, uma discussão calorosa vinda do interior da cozinha chamou a atenção dos três. A porta de aço se abriu bruscamente e James, o gerente arrogante e estressado do restaurante, surgiu empurrando um homem visivelmente desorientado para a rua.

— Fora daqui! Você está completamente bêbado e drogado em pleno horário de pico! — gritava James, com o rosto vermelho de estresse enquanto ajeitava o gravatinha borboleta. — O restaurante está lotado de clientes da alta sociedade e você nem consegue parar em pé diante do piano! Está demitido!

— Mas cara... eu posso tocar... eu juro... — balbuciou o músico, tropeçando nos próprios pés antes de se afastar cambaleando pela calçada.

James levou as mãos à cabeça em um gesto de puro desespero.

— Que desastre! O pianista titular sofreu um acidente ontem e este substituto me aparece assim... Eu tenho mesas reservadas para críticos gastronômicos e não tenho ninguém para tocar o repertório ambiente desta noite!

Edward, que observava a cena em silêncio, sentiu um estalo em sua mente. O destino parecia lhe oferecer uma saída imediata para provar a si mesmo que não precisava do dinheiro do pai.

— Eu posso tocar — disse Edward, dando um passo à frente com a jaqueta de couro nos ombros e a postura decidida.

James olhou para Edward de cima a baixo, franzindo o cenho com extremo ceticismo diante do visual rebelde do jovem.

— Você? Garoto, este é um restaurante de classe alta. Não tocamos rock de garagem aqui. Preciso de alguém que domine o repertório clássico e suave.

— Teste-me — desafiou Edward, os olhos brilhando com uma intensidade inabalável. — Se eu errar uma nota nos primeiros dois minutos, você me coloca para fora sem pagar um único centavo. Mas se eu mantiver os seus clientes entretidos, você me paga o cachê da noite em dinheiro.

James olhou para a sala de jantar lotada, depois para o relógio e por fim para Edward.

— Cinco minutos. Se você estragar a noite, chamo a polícia — cedeu o gerente, dando passagem para que Edward entrasse.

No mesmo instante, no fundo escuro e abafado da cozinha do restaurante, Bella Swan vivia o ápice de sua exaustão física. O aroma refinado dos pratos servidos no salão principal não chegava até a área de higienização, dominada pelo vapor quente da máquina industrial e pelo cheiro forte de detergente concentrado.

Após cumprir seu turno exaustivo na cafeteria da Warner e ter corrido pela cidade para não perder o horário de seu segundo emprego, Bella estava de pé diante da pia gigante há mais de quatro horas consecutivas. Suas mãos pequenas estavam avermelhadas e ásperas devido ao contato constante com a água fervente e o sabão. Seus pés doíam intensamente dentro dos sapatos velhos, e a imagem da ordem de despejo continuava a ecoar em sua mente como um pesadelo incessante.

O barulho na cozinha era ensurdecedor: pratos de porcelana batendo, gritos dos chefs ordenando pedidos e o chiado das frigideiras quentes. Bella enxugou a testa suada com o antebraço, sentindo as forças de seu corpo se esgotarem gradativamente.

Foi então que, em meio ao caos barulhento da cozinha, algo extraordinário aconteceu.

A porta de vai e vem que separava a área de serviço do salão principal ficou levemente entreaberta quando um dos garçons passou carregando uma bandeja pesada. Através da fresta, uma onda de som envolveu o ambiente de forma mágica.

Edward havia se sentado ao piano de cauda posicionado no centro do salão iluminado à meia-luz. Inicialmente, ele seguiu as ordens rigorosas de James, tocando uma melodia clássica e suave que agradava os clientes elegantes. Porém, ao fechar os olhos e tocar as teclas de marfim, a dor da briga com o pai, a saudade incalculável de sua mãe Elizabeth e a frustração de sua alma artística transbordaram de seus dedos.

Sem perceber, Edward abandonou a partitura comercial. Ele começou a improvisar, deslizando as mãos pelo teclado com uma paixão avassaladora, executando a composição autoral que sua mãe lhe ensinara pouco antes de morrer. A melodia era uma mistura sublime de melancolia, beleza e dor, notas profundas que pareciam contar a história de duas almas perdidas buscando um refúgio no mundo.

Dentro da cozinha caótica, Bella congelou.

Sua mão, que segurava uma taça de cristal engordurada, parou no ar. A música atravessou o barulho dos pratos e o vapor da água quente como um raio de luz cortando a escuridão. Era uma melodia tão linda, tão dolorosa e tão visceral que fez o coração de Bella acelerar no peito, despertando nela uma sensação que há muito tempo a exaustão da vida havia adormecido.

Como se estivesse hipnotizada por um feitiço insustentável, Bella largou a esponja na pia, enxugou as mãos molhadas no avental sujo e caminhou em direção à porta de serviço.

Ela empurrou a porta levemente, permanecendo escondida na penumbra do corredor de acesso, e olhou para o salão.

Lá estava ele.

Sob o foco de luz amarelada que caía sobre o piano de cauda, o jovem de jaqueta de couro preta e cabelos bronzeados bagunçados tocava com uma entrega absoluta. Os olhos dele estavam fechados, a mandíbula travada em emoção pura enquanto seus dedos voavam pelas teclas, criando uma harmonia que arrepiava a pele de quem ouvia. Bella ficou paralisada, observando o contraste fascinante entre a figura rebelde do músico e a delicadeza poética da música que ele produzia. Naquele milésimo de segundo, em meio ao cansaço, à sujeira do avental e ao medo do futuro, Bella sentiu que o mundo ao seu ao redor havia parado de girar, e que a jornada dos dois estava, finalmente, prestes a se cruzar.

A melodia autoral que preenchia o salão atingira seu ápice dramático quando a porta de serviço se abriu com um solavanco. James, com as veias do pescoço saltadas e o rosto corado de puro estresse, invadiu o pequeno tablado onde o piano de cauda estava posicionado.

— Chega! Pare com essa barulheira agora mesmo! — esbravejou o gerente em um sussurro furioso, segurando o pulso de Edward com força antes que ele pudesse tocar a última nota. — Eu pedi música clássica ambiente para acompanhar o jantar de executivos, não esse seu lamento trágico e depressivo! Você está perturbando os meus clientes!

Edward abriu os olhos devagar, a respiração ainda arfante da entrega emocional. Ele olhou para a mão de James em seu pulso e depois para o rosto transtornado do homem. A raiva acumulada da discussão com o pai, misturada com a humilhação de ter sua arte mais sagrada tratada como "barulheira", subiu-lhe à cabeça de forma fulminante.

— Pegue seu casaco e caia fora do meu restaurante! Você está demitido! — ordenou James, apontando para a saída de emergência que dava acesso ao corredor de serviço nos fundos. — Não vou te pagar um único centavo por esse vexame!

Sem dizer uma única palavra, sabendo que qualquer reação violenta só pioraria as coisas, Edward arrancou o pulso do aperto de James. Ele levantou-se bruscamente, pegando sua jaqueta de couro sobre o banco, e caminhou a passos largos e pesados em direção ao corredor escuro dos fundos.

Bella, que ainda testemunhava a cena com a porta de serviço entreaberta, sentiu um aperto no peito ao ver a injustiça. Esquecendo por um segundo o seu avental sujo de detergente e a pilha de louça acumulada, ela deu dois passos para a frente, interceptando o caminho do músico no corredor estreito.

— Com licença... — começou Bella, a voz suave carregada de um afeto genuíno. — Sua música... foi a coisa mais linda que eu ouvi em toda a minha vida. De verdade.

Edward, no entanto, estava completamente cego de raiva e humilhação. Com a cabeça fervilhando e os olhos fixos no chão, ele nem sequer ergueu o rosto para olhar para a garota que falava com ele. Em vez de agradecer, ele simplesmente acelerou o passo, esbarrando o ombro com força contra o de Bella e empurrando-a levemente contra a parede de tijolos do corredor.

— Não me enche o saco — resmungou ele, ríspido e ranzinza, antes de empurrar a porta de metal para a rua e sumir na noite fria de Los Angeles.

Bella cambaleou para o lado com o impacto, ajeitando o avental sobre o peito. Ela olhou para a porta de ferro que se fechava com um estrondo pesado e franziu o cenho, massageando o ombro atingido.

— Grosseiro... — sussurrou ela para a penumbra do corredor, soltando um bufado de indignação antes de se virar e voltar para a sua montanha de pratos engordurados.

Cerca de duas horas depois, com as mãos dormentes e o corpo caindo de sono, Bella finalmente conseguiu encerrar seu turno na cozinha. Ela caminhou com passos arrastados até o ponto de ônibus da avenida central, onde a brisa gelada da madrugada cortava suas roupas finas.

Ao entrar no transporte público praticamente vazio que fazia a linha noturna, uma figura vibrante no fundo do veículo chamou sua atenção. Encostada na janela, vestindo um blazer rosa-choque impecável e segurando uma sacola de grife, estava Alice Brandon. Alice era a melhor amiga de Bella — uma jovem de estatura pequena, cabelos curtos e desfiados como uma fada urbana, e olhos amendoados que brilhavam com uma energia inesgotável. Alice trabalhava como consultora de estilo em uma boutique de altíssimo luxo na Rodeo Drive e parecia um raio de sol permanente no meio do caos da cidade.

— Bella! Meu Deus, olha o estado de você! — exclamou Alice assim que a amiga se sentou ao seu lado no banco estofado de plástico, envolvendo-a imediatamente em um abraço apertado e perfumado com essência de baunilha importada.

— Nem me fale, Alie... — suspirou Bella, afundando o rosto no ombro da amiga antes de se afastar com um sorriso fraco. — Eu sinto como se um caminhão tivesse passado por cima de mim duas vezes.

— Você está trabalhando demais, amiga. Eu fico morrendo de medo de você desmaiar no meio de uma dessas cafeterias — disse Alice, os olhos cheios de uma preocupação sincera enquanto pegava as mãos ásperas de Bella entre as suas. — Como estão as coisas no apartamento? A Renée aprontou mais alguma?

Bella soltou um riso amargo e encostou a cabeça no vidro frio do ônibus em movimento.

— O de sempre. Incensos, cristais e uma ordem de despejo novinha em folha na mesa da sala — desabafou Bella, com a voz embargada pela exaustão. — O proprietário deu cinco dias úteis. A Renée acha que o universo vai pagar as contas com a energia das pedras, e eu estou me desdobrando em três para não irmos parar na rua. A única notícia boa é que o Jasper me conseguiu um bico de garçonete num evento de gala nesta sexta-feira.

Alice ouviu tudo em silêncio, a expressão mudando de preocupação para uma determinação quase feroz. Ela abriu sua bolsa de grife e puxou um tablet de última geração, deslizando os dedos rapidamente pela tela iluminada.

— Esqueça o aluguel por um minuto, Bella. Eu tenho algo muito maior para te mostrar — disse Alice, virando a tela do aparelho para o rosto de Bella. — Olhe para isso aqui.

Na tela, um panfleto digital exibia o logotipo oficial da Netflix e o título de uma nova produção jovem de época que seria totalmente gravada em Paris.

— A Paramount e a Netflix abriram uma seleção internacional para a personagem principal dessa nova série teen — explicou Alice, os olhos faiscando de entusiasmo. — As inscrições presenciais para os testes de elenco aqui em Los Angeles encerram amanhã à noite! Eu guardei o formulário aberto para você desde que vi a chamada no fórum das agências!

Bella olhou para a tela, mas em vez de se empolgar, seu rosto se obscureceu. Ela desviou o olhar para os assentos vazios do ônibus, a dor de um trauma recente tornando sua expressão fria.

— Nem comece com isso, Alice. Eu não vou me inscrever — disse Bella, a voz firme e desanimada.

— Como assim não vai, Bella? Você é a atriz mais talentosa que eu já vi! Você decorava monólogos inteiros do Shakespeare aos doze anos!

— Você sabe o que aconteceu no meu último teste de elenco no mês passado, Alice — revelou Bella baixinho, o nó de nojo retornando à sua garganta. — O diretor me chamou para uma sala fechada depois da audição. Ele olhou nos meus olhos e disse, sem o menor pudor, que se eu quisesse um papel de três linhas como figurante naquela novela, eu teria que ir para um hotel com ele naquela mesma noite. Essa indústria é um lixo, Alice. Eu prefiro lavar louça até minhas mãos sangrarem do que passar por aquilo de novo.

Alice encarou a amiga, o olhar transbordando uma mistura de indignação pelo que Bella passara e de uma profunda empatia. Ela apertou a mão de Bella com firmeza.

— Aquele diretor nojento era um verme que vai pagar por tudo o que fez — disse Alice, o tom carregado de convicção. — Mas essa oportunidade é diferente. É uma produção gigantesca, com uma diretora de elenco mulher super respeitada em Hollywood! Você não pode deixar que um monstro roube o seu sonho de infância, Bella.

Sem pedir a permissão de Bella, Alice começou a preencher os campos do formulário no tablet usando as informações da amiga que sabia de cor.

— Ei! O que você está fazendo? — protestou Bella, tentando pegar o aparelho.

— Estou fazendo a sua inscrição para o papel principal! — declarou Alice com um sorriso vitorioso, clicando no botão de confirmação antes que Bella pudesse impedi-la. — Pronto! Confirmação enviada. Seu teste está agendado para a próxima semana. E você vai, sim, porque nasceu para ser uma estrela, Bella Swan!

Bella olhou para a amiga, brava por fora, mas internamente tocada pela fé inabalável que Alice depositava nela. Ela suspirou, derrotada, permitindo que um pequeno sorriso surgisse no canto de seus lábios.

Enquanto isso, nos portões da mansão Masen em Beverly Hills, o sedã preto de Emmett estacionava na entrada principal. Edward desceu do carro completamente esgotado. A raiva que o impulsionara a sair da reunião do pai e a aceitar o bico no restaurante havia se esvaído, dando lugar a uma ressaca emocional dolorosa.

Ao cruzar a grande porta de entrada da casa silenciosa, ele encontrou Esme sentada na poltrona da sala de estar, lendo um livro sob a luz amarela de um abajur. Ao ver o rapaz entrar com os ombros caídos e o olhar perdido, ela colocou a leitura de lado imediatamente.

— Edward... — disse Esme, levantando-se e caminhando até ele.

Sem dizer nada, Edward desabou no sofá e cobriu o rosto com as mãos. Esme sentou-se ao seu lado, passando os braços maternais ao redor dos ombros dele e puxando sua cabeça para o seu peito, exatamente como fazia quando ele era uma criança assustada.

— Eu não sirvo para nada, Esme... — murmurou Edward, a voz abafada e embargada. — Fui demitido de um restaurante horroroso em menos de vinte minutos por tocar a música da mamãe. O meu pai tem razão... eu sou uma vergonha para o sobrenome Masen.

— Não diga uma bobagem dessas, meu filho — consolou Esme com extrema doçura, beijando o topo da cabeça do rapaz. — A sua música é linda e pura. O mundo lá fora é que às vezes é insensível demais para entender a arte genuína. Mas você não pode viver em guerra constante com o seu pai, Edward. Isso está corroendo a sua alma por dentro.

Edward ergueu o rosto, olhando para Esme com os olhos avermelhados.

— Vá falar com ele, querido — estimulou Esme com um sorriso carinhoso. — Ele ainda está acordado no escritório do andar superior. Diga a ele como se sente, mas peça desculpas pelo escândalo na empresa. Dê o primeiro passo para fazer as pazes. Faça isso pela memória da sua mãe, que odiava ver vocês dois brigados.

Edward respirou fundo. Ele olhou para a escada e, após alguns segundos de hesitação, assentiu com a cabeça.

Subindo até o segundo andar, Edward parou diante da pesada porta de madeira do escritório particular do pai. Ele bateu suavemente duas vezes e abriu a porta.

Edward Masen Sr. estava sentado atrás de sua mesa de mogno, cercado por plantas de engenharia e relatórios financeiros. O homem parecia mais velho sob a luz fraca do cômodo, a fúria da tarde substituída por um cansaço profundo. Ele ergueu os olhos e encarou o filho em silêncio.

— Pai... — começou Edward, dando passos lentos até o centro da sala. — Eu vim pedir desculpas. O que eu fiz hoje na empresa... a forma como gritei com você diante de todos... foi extremamente desrespeitoso. Eu sinto muito.

O velho Masen permaneceu imóvel por um momento. Em seguida, soltou um longo suspiro e tirou os óculos de leitura, colocando-os sobre a mesa.

— Você me machuca muito quando age assim, Edward — disse o pai, a voz menos gélida do que o habitual, revelando a vulnerabilidade de um homem que não sabia como se comunicar com o próprio filho. — Eu só quero garantir o seu futuro. Quando eu não estiver mais aqui, o mundo não vai ter pena de você por ser um sonhador.

— Eu sei... — admitiu Edward baixinho. — Mas a música não é só um passatempo para mim, pai. É a única coisa que me mantém vivo. É a minha única ligação com a mamãe.

Edward Sr. olhou para a foto emoldurada de Elizabeth sobre sua mesa. Um brilho de saudade genuína passou por seus olhos severos. O homem se levantou e caminhou até o canto do escritório, onde um piano vertical de caoba antiquíssimo, o instrumento pessoal de Elizabeth,! repousava coberto por uma flanela.

Ele tirou o tecido e abriu o tampo do piano.

— Sua mãe passava horas neste instrumento... — disse o pai, a voz suave como Edward raramente ouvia. Ele sentou-se no banco e tocou uma sequência simples de notas graves, uma das poucas melodias que a esposa havia lhe ensinado antes de falecer.

Edward se aproximou, tocado pela cena. Sem dizer nada, ele se sentou ao lado do pai no mesmo banco. Suas mãos longas assumiram as notas agudas, complementando o acorde simples do pai e transformando o som em uma harmonia perfeita e emocionante. Por alguns minutos, naquele cômodo silencioso, o abismo entre pai e filho pareceu desaparecer, unido pela memória da mulher que ambos amavam.

Ao final da melodia, Edward Sr. olhou para o filho, dando um tapinha afetuoso no ombro de Edward.

— Sexta-feira é a grande noite de inauguração do nosso novo empreendimento no centro — disse o pai, a voz carregada de um novo tom. — Todos os grandes nomes da cidade estarão lá. Eu quero propor um acordo, Edward. Toque no evento. Suba naquele palco e toque o repertório clássico que combinamos para os investidores... mas reserve a última música para homenagear a sua mãe. Mostre a todos eles o talento da família Masen. Se você fizer isso por mim, eu juro que reconsidero a sua entrada na empresa e te dou um espaço para seguir com seus projetos pessoais.

Edward olhou para o pai, sentindo que aquele era o aperto de mão de trégua que ele tanto esperava.

— Está combinado, pai — concordou Edward, selando o pacto.

Já passava das duas horas da manhã quando Bella finalmente girou a chave da fechadura do pequeno apartamento. Ela só queria tomar um banho rápido e desabar na cama até o alarme tocar novamente dentro de poucas horas.

No entanto, assim que colocou os pés na sala, o aroma intenso de óleo de lavanda e flor de laranjeira invadiu suas narinas. Renée estava de pé perto da entrada, vestindo um ropão colorido e cheio de franjas. Ao ver a filha, o rosto da mãe se iluminou em uma explosão de afeto excessivo.

— Bella! Minha estrelinha! — gritou Renée, avançando sobre a filha como uma avalanche de braços e beijos.

Ela envolveu Bella em um abraço sufocante, beijando as bochechas, a testa e os cabelos da jovem sem parar, apertando-a contra o peito enquanto balançava o corpo de um lado para o outro.

— Ai, mãe... por favor, me solta! — protestou Bella, tentando se desvencilhar dos braços pegajosos da mãe com um misto de irritação e cansaço extremo. — Eu estou podre de suada, exausta e preciso dormir!

— Nem pensar! Eu passei a noite inteira esperando por você! — disse Renée, ignorando os protestos da filha e puxando-a pela mão até a mesa de centro, onde o deck de cartas de tarô estava organizado em formato de cruz sobre um pano de veludo roxo. — Eu senti uma descarga de energia cósmica tão forte há algumas horas que precisei tirar as cartas para você! Senta aqui agora!

— Mãe, são duas da manhã... — gemeu Bella, deixando o corpo cair na cadeira, sem forças para combater a teimosia da mãe.

— Cale a boca e corte o baralho com a mão esquerda! — ordenou Renée de forma melodramática, ajustando o bindi na testa enquanto embaralhava as cartas com habilidade impressionante.

Bella suspirou profundamente, estendeu a mão esquerda e cortou o monte de cartas como a mãe pedira.

Renée virou a primeira carta: Os Enamorados. Em seguida, virou a segunda: A Roda da Fortuna. E, por fim, a terceira: O Sol.

Os olhos azuis de Renée se arregalaram em puro choque e deleite. Ela deu um grito agudo de alegria, batendo as palmas das mãos e assustando Bella.

— Eu sabia! Eu sabia! Os astros não mentem! — exclamou Renée, apontando para as cartas iluminadas pela luz das velas. — Ouça o que eu estou te dizendo, Isabella Marie Swan! A sua vida vai mudar completamente nos próximos dias!

— O aluguel vai se pagar sozinho? — debochou Bella, esfregando os olhos doloridos.

— Não seja cética! As cartas estão dizendo que a Roda da Fortuna girou esta noite! — declarou Renée com fervor quase religioso, pegando as mãos de Bella e olhando bem fundo em seus olhos castanhos. — Você conheceu o grande amor da sua vida hoje, Bella! A energia de vocês já se cruzou! Essa pessoa entrou no seu campo auríco nas últimas horas e nada mais será como antes!

Bella olhou para o baralho e depois para o rosto exaltado da mãe. A imagem do pianista de jaqueta de couro, ranzinza e arrogante, que esbarrara nela no corredor do restaurante poucas horas antes veio instantaneamente à sua mente. Ela soltou uma risada debochada e sem humor, levantando-se da cadeira.

— Se o grande amor da minha vida for um músico mimado e grosseiro que esbarra nos outros sem pedir desculpas, mãe, prefiro ficar solteira para sempre… — respondeu Bella com ironia. — Boa noite, Renée.

Bella caminhou até o quarto e fechou a porta, deixando a mãe para trás conversando com as cartas. No entanto, ao se deitar na cama e encarar o teto escuro, a imagem daqueles olhos intensos ao piano e o som daquela melodia dolorosa insistiram em permanecer em seus pensamentos até que ela finalmente pegasse no sono.