Cisne Branco (em Revisão)
1 Morte e Liberdade
Notas iniciais
Voltei para o meu camarim. Entrei e fechei a porta rapidamente, olhando para o local. A bagunça encobria o ocorrido com Lily que havia acontecido há pouco tempo. O pano de cetim ainda cobria os cacos do espelho, sangue escorria por debaixo da porta do banheiro.
Desespero. Peguei uma toalha e pus onde estava o líquido carmesim para que fosse absorvido.
Nada podia me abalar. Estava errada, pensei. Lily estava errada. Separei o roupa do Cisne Branco e me ajeitei para vesti-la, quando estava finalizando a maquiagem leve e suave do Cisne Branco, diferente da maquiagem pesada e sexy do Cisne Negro, alguém bateu à porta. Abri o suficiente para deixar minha cabeça aparecer, ocultando a cena de um crime. Um leve susto escapou de meus lábios.
Era... Lily? Como era possível? Eu não a havia matado?
Ela me olhava com admiração e respeito, sem medo de deixar transparecer.
– Hey! Nossa, você foi maravilhosa! — disse sorrindo. Eu fiquei pasma, não conseguia falar, apenas pensava em como ela estava viva. Ela continuou: — Olha... Sei que as coisas não andam muito boas entre nós... Mas, caramba, você me fez comer poeria!
Um breve instante de silêncio. Lily deve ter visto o quanto eu estava confusa e disse:
– Bem, okay, acho que é isso.Vou deixar você terminar. Tchau.
E foi embora com um sorriso de alegria no rosto, me deixando para trás cheia de dúvidas.
Fechei a porta.
O quê... Se Lily está viva, então o que houve aqui?, pensei aflita.
O espelho. Será que... olhei para a toalha e fui até ela, peguei-a pelas bordas e retirei calma, mas nervosamente. Sem sangue.
Levantei-me e fiz menção para abrir a porta do banheiro, mas estava com medo do que podia estar atrás daquela porta. Uma Lily morta, o que deixaria tudo mais confuso, ou alguma coisa pior. Abri e acendi a luz... Nada. Não havia nada. Soltei um pouco de ar rapidamente e deixei a porta aberta.
Meu Deus, me diga, supliquei, o que está acontecendo?
Parei. Pensei. Se Lily não havia sido morta, então o espelho...
Fui juntando cada peça do confuso quebra cabeça em minha mente. A minha obsessão pela perfeição, eu pensar que Lily queria tomar meu lugar, minhas constantes ilusões, e agora isso.
O espelho, ele...
Baixei o olhar aos poucos, com medo do que podia ver. Insegura. Covarde. Eram as palavras que viam a minha cabeça. Frágil. Obsessiva. E a mais chocante: Medrosa.
Contendo as lágrimas, olhei para o meu abdômen e vi a verdade. A triste verdade. Um buraco vermelho escuro no imaculado vestido branco cravejado de pequenos quartzos brilhantes e enfeitado com penas. A perfeita fantasia da representação do Cisne Branco.
Não, não, não. Não pode ser.
Eu ofegava. Senti mais medo do que podia estar fincado em minha barriga. Com a minha mão esquerda procurei pelo pequeno caco do espelho que havia "enfiado" em Lily. Tudo feito com medo e cautela, mas com muito mais medo e insegurança.
A dor se alastrou pelo meu corpo de forma absurda, quando eu havia dançado o Cisne Negro não senti dor. Mas agora a dor era recompensada aqui. Peguei o caco e o retirei com cuidado, minhas mãos tremiam.
Um pequeno pedaço do espelho completamente embebido em sangue. O meu sangue. Elevei o caquinho até o nível dos meus olhos, que já não aguentavam segurar as inoportunas lágrimas. Estas rolavam, descendo pelo meu rosto e passando pelo meus lábios.
O que foi que eu fiz? Meu Deus... o que foi que fiz?
Olhei novamente para a ferida que latejava, franzi a testa e chorei mais.
O espetáculo deve ser concluído. Eu devo concluí-lo. É a minha vez. Minha vez de brilhar. Nem que seja a primeira e a última vez.
Respirei fundo, aceitando meu destino.
Eu vou conseguir.
Sentei me chorando mais e mais até poder me conter. Finalizei a maquiagem, dando um retoque devido ao choro. Retomei o controle do mim mesma e terminei de me aprontar, pondo as sapatilhas e a linda diadema da Rainha dos Cisnes, adornada com penas e alguns quartzos.
São os meu últimos suspiros, vou dar o melhor de mim. Sendo perfeita ou não.
–
–
–
Na hora da dança, ma entreguei de corpo, coração e alma, coisa que eu nunca havia feito antes. Senti os passos vindo com fluidez, e eu sentia que havia sentimento ali. Senti a música fazer parte de mim, senti que aos poucos a vida ia embora de mim. Enquanto a música tocava, e eu dançava, eu podia ouvir o bater de asas de vários cisnes.
Seria esse o som da morte? Da minha morte?
Agora eu entendia pelo o que Odette passou. A perda de algo de grande valor na sua vida, sentia o que ela sentiu. Sentia-me inválida, abandonada, destroçada. Mas eu tinha a dança. Uma coisa que me reconfortava naquela hora.
Estava chegando ao fim.
Dava para notar que tudo era real, minhas várias faces interpretadas com vida, coisa que nenhuma bailarina conseguiu fazer, nem Beth.
O final. Como Odette para encontrar a paz, fui ao topo do "penhasco" e fiz meus últimos passos, com lágrimas nos olhos. Podia sentir o sangue se espalhar pelo vestido conforme eu fazia os movimentos finais. Olhei para "Rothbart" e em seguida para o "Príncipe Siegfried", e por último, para a plateia. Para minha mãe. Ambas chorávamos. Ela pela minha dança e pelo meu sucesso, e eu por vê-la uma última vez.
Mamãe, eu te amo, enviei o pensamento à ela. Elevei os braços e fiz o último movimento. Pulei do "penhasco", nisso vi alguns momentos marcantes da minha vida. Minha primeira aula de Ballet, a minha entrada na companhia, minha ascensão até me tornar solista, o momento em que "conheci" Lily, quando eu ganhei o papel na peça, e outros momentos lindos. Nenhuma tristeza foi vista.
O colchão reconfortou meu corpo, mas o primeiro impacto fez a ferida latejar, provocando dor. Depois, o conforto da morte vinha aos poucos.
Agora a me resta pouco tempo.
Ouvi os aplausos, meus aplausos, queria levantar e agradecer, porém estava incapacitada. Toda a companhia veio me aplaudir. Lily parecia a mais empolgada, recolhi os braços e sentia a dor voltar aos poucos e o sangue vazar. Revirei os olhos.
– Pode ouvir? Eles te amam — Thomas Leroy veio até mim. — Minha princesinha. Eu sempre soube que tinha isso dentro de si.
Ele acariciou minha face. Queria beijá-lo, mas não podia, queria abraçá-lo, no entanto não conseguia.
– Vamos. Vamos agradecer os aplausos.
Neste instante, Lily viu a enorme mancha de sangue e se espantou. Thomas seguiu seu olhar e o sorriso que habitava em seu rosto desapareceu, dando lugar a um semblante preocupado.
O sangue escorria pelos meus flancos e eu ofegava de modo incômodo. Todos ficaram espantados.
– Alguém vá buscar ajuda! — diz rapidamente e retorna a mim. — O que você fez? — Tocou minha face. — O que você fez?
– Eu senti... — respondi sem forças.
– O quê?
– Perfeita. Eu fui perfeita.
Olhei a sequência de holofotes que aumentavam gradualmente a potência de iluminação, me envolvendo em luz. Os barulhos iam desaparecendo e a música do último ato tocava aos meus ouvidos, junto com o belo som do bater de asas de vários cisnes.
E assim eu morri.
E assim... eu encontrei a minha liberdade.
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