Notas iniciais
Neste capítulo Nina ainda está em New York, esperando para ver seu enterro, e depois é sugada para a outra realidade. É um bom capítulo na minha opinião, pois nele Nina vê como as coisas eram na sua vida antes de morrer de um outro jeito e também que a história do "Lago dos Cisnes" não é bem do jeito que conhecia, como vai ver mais a frente.

Ai, ai.

Eu aceitava minha morte, mas não entendia o "por quê" de continuar ali. Não entendia de forma clara os fatos que levaram à minha morte. Precisava compreender o real motivo disso, pois a aceitação não me faria ter paz. Eu precisava saber a razão.

Continuei em New York por tempo suficiente para ver meu enterro. Mas vamos recapitular desde o momento em que apareci fora do meu corpo. Todos estavam espantados, alguns achavam que eu havia me matado, ficavam dizendo que eu era egoísta por fazer tal coisa. Outros sentavam-se ao meu lado e choravam por minha morte. Lily era a que chorava mais intensamente enquanto segurava minha mão. Repetindo desculpas que eu não entendia o motivo de serem ditas.

Queria ter sido amiga dela, melhor amiga, a primeira de todas que nunca tive. Bem, pelo menos uma verdadeira amiga. Não que eu fosse uma antissocial, mas o problema era que poucas meninas queriam se aproximar de alguém tímida como eu.

Thomas havia chamado minha mãe, Erica Sayers, para contar a inoportuna notícia. Ela ouvia tudo atenção até que ele falou meu real estado e deixou minha mãe ver o corpo ainda no colchão. Mamãe correu até meu corpo frio e sem vida, me tomando nos braços ao que se desmanchava em lágrimas enquanto dizia:

– Minha doce menina. Por quê? O que eu fiz de errado para te perder? O quê? Me diga Nina. Volte para mim. Volte para mim!

Pus a mão na boca para tentar evitar o choro, mesmo sendo impossível. Cheguei perto dela e me sentei ao seu lado, vendo-a reconfortar uma Nina sem vida.

Morta.

(...)

Passaram-se dias, exatamente três dias, e Lily me substituiu no espetáculo. Fiquei feliz por ser ela a me substituir agora, Thomas tentava seguir em frente, porém estava nítido que ele ia péssimo nessa tarefa. Sua expressão não abandonava a mágoa da perda, meu coração doeu ao vê-lo de tal maneira.

Mamãe era pior, não parava de chorar, dormia no meu quarto, não queria sair de lá para nada. Minha morte mexeu com todos, e quando digo todos são todos mesmo. A notícia se alastrou por toda New York, muitos ficaram decepcionados e outros não. Havia sido publicado no The New York Times a seguinte matéria: O trágico fim da Rainha Nina, o cisne mais perfeito.

No dia do enterro, o local estava lotado, parecia o dia da estreia de um novo ballet. Mas ao contrário de uma grandiosa e maravilhosa estreia, o ambiente estava mórbido e melancólico, todos se reuniram em torno do caixão branco e choravam em silêncio.

Curiosa, olhei para mim mesma no caixão. Até me surpreendi com o que vi, meu corpo vestido com a roupa do show, só que totalmente imaculada e nova. O vestido, as sapatilhas, a maquiagem e o diadema. Eu morri como Rainha dos Cisnes e agora, seria enterrada como tal.

– Nina Sayers hoje — dizia o reverendo -, nos deixa com um grande buraco em nossos corações. Ela nos encantou com sua beleza, dança e dedicação em tudo o que fazia. Agora ela está junto aos anjos do Senhor, aproveitando de toda a glória que o Pai Celeste pode fornecer. Sempre alegre, porém tímida, Nina tinha poucos amigos com quem pudesse partilhar sua felicidade, mas todos a amavam sinceramente. Agora, gostaria de lhes pedir uns instantes de silêncio enquanto velamos o corpo desta graciosa jovem que nos deixou tão repentinamente.

Se ele soubesse que estou bem aqui, ao lado da minha mãe, pensei. Ao lado de Thomas e Lily...

Ele prosseguiu.

– Alguém aqui presente gostaria de dizer algumas palavras?

Mamãe tomou a palavra.

– Nina, minha doce garotinha, ela era mais do que especial para mim. Ela era minha vida, meu tudo. Lembro-me de ter largado o futuro esplendoroso que eu podia ter tido, só para poder ficar com ela. Deixei que minha mágoa por ter deixado essa carreira para trás recaísse sobre ela e me tornasse controladora demais. Me perdoe, meu bem... juro que não queria lhe fazer mal algum. Ou até mesmo, viver a vida que eu queria para mim através de você. Agora que você se foi, Nina, não sei o que será de mim. Adeus Nina, minha filhinha, meu eterno cisne. Minha sweet girl. Swan Queen– terminou aos prantos.

– Mais alguém? — O reverendo esperou.

Foi a vez de Lily falar.

– Eu e Nina... Bem, não nos falávamos muito. Mas eu sabia que ela era uma grande amiga minha. Pena que ela não pôde estar presente para saber disso, queria poder ter sido mais simpática no início de tudo. Gostaria de ter compartilhado mais momentos felizes com ela. Queria poder...

Thomas Leroy nem deixou Lily terminar e foi falando.

– Minha princesinha — começou. — Como sinto e sentirei sua falta. Como fui burro em não dizer que te amava... Agora nem sei se você pode ouvir isso. Durma bem, meu belo cisne.

Eu te amo Thomas e, sim, posso ouvir, falei em pensamento desejando que ele também pudesse ouvir. Porém, eu sabia que ele e nem ninguém me ouviria.

– Agora, que Deus acolha Nina Sayers em seu reino, de luz e paz, de braços abertos. E a conforte com seu caloroso abraço de amor e glória.

Na hora sorri e chorei de felicidade, por que todos que me amavam estavam ali presentes até neste momento fúnebre.

Ouvi o som do bater de asas da corte de cisnes me envolver e a névoa leve me cobrir suavemente e me levar para algum lugar. Talvez o Paraíso.

Agora eu compreendia um pouco da razão dos fatos que levaram a minha morte. Minha obsessão pela perfeição fez com que eu perdesse a minha sanidade e acabasse me ferindo fatalmente. Por mais que eu mesma não quisesse que nada disso houvesse acontecido. Aconteceu.

Olhei para mim mesma. Ainda vestida do jeito que morri, apenas com o vestido perfeito. Tentei olhar além da névoa para saber onde eu me encontrava, porém a névoa havia se tornado mais espessa bloqueando a minha visão. Eu não me importava.

O que importava era que eu não só aceitava, como também compreendia a minha morte. Isso sim era o que importava.

O que quer que a névoa escondia de mim... teria de esperar. E eu não me incomodava em esperar.

Notas finais
Bem esse é o capítulo dois, espero que tenham aproveitado bas-tante, por que (creio eu que) a marcha fúnebre da história vai ser deixada de lado por um bom tempo. O próximo capítulo Nina vai se aventurar nas terras do mundo alternativo e descobrir a verdadeira história do "Lago do Cisnes".