Circus
11 Alta
Notas iniciais
Dois meses após Tenma e Taiyou se conhecerem, eles estavam jogando bola de um jeito que não se esforçassem demais. Ou seja, eles estavam sentados, empurrando uma bola um para o outro com os pés.
Tenma gostava da sensação e queria se levantar e começar a jogar. Realmente, sentiu que gostava muito de futebol. Ele só não se levantou para jogar porque Taiyou não podia. Já Tenma havia melhorado muito, podia andar o tempo que quisesse. Ainda não podia correr muito rápido, mas já estava muito bem.
-Taiyou...
O garoto olhou para ele.
-Sim?
-Algum dia você vai sair daqui?
Taiyou sorriu.
-Claro que sim, Tenma! O meu problema é que eu sei que vou ter que voltar.
Tenma baixou a cabeça.
-Isso é triste. Uma pessoa como você não merece morrer! Não é justo.
-Não é justo, mas é a vida, Tenma. Também não foi justo você cair de uma escada e perder quatro anos e dez meses de sua vida, foi?
-Foi um pouco menos. Eu falei quatro pra arredondar, mas eu fiquei em coma por três anos e seis meses. Aí foram mais dez meses de fisioterapia. Então eu perdi... Quatro anos e quatro meses da minha vida.
-TENMA! Tanto faz!
Tenma riu e parou para pensar numa coisa. Quando seria o aniversário de Taiyou?
-Taiyou... Quando é seu aniversário?
-Sexta.
-Sexta? Tipo, essa sexta?
Taiyou afirmou com a cabeça.
-TAIYOU! VOCÊ TEM NOÇÃO DE QUE HOJE É QUARTA?
-Sim. E?
-E seu aniversário é depois de amanhã! Como vamos comemorar?
-Comendo comida de hospital.
Tenma riu, mas aquilo não tinha graça. Era trágico. Péssima comemoração de dezesseis anos.
-Eu não teria tanta certeza disso, garotos. – Ouviu-se uma voz feminina atrás de Tenma. Taiyou que estava de frente para a dona da voz sorriu.
-Olivia. Por que diz isso?
-Porque o Tenma teve alta.
Tenma deu um pulo, se levantando e disse:
-HEIN?
Taiyou se levantou também, mas de forma mais calma que Tenma.
-Exatamente, senhor Matsukaze. Pode ir embora. Esse é o endereço da Aki – Ela deu um papel para Tenma. – Já chamamos o táxi. Ele chega dentro de duas horas, se arrume e vá embora para sua amada comida gostosa.
Tenma olhou para Taiyou.
-Taiyou... E seu aniversário? Eu devo vir te visitar?
-Tenma-
Taiyou foi interrompido por Olivia, que disse:
-Pode vir, mas Taiyou não vai mais estar aqui. A época de observação de Taiyou termina hoje. Amanhã ele pode ir embora.
Olivia se retirou.
-Então... Até logo, Taiyou. A gente faz uma festa pra você.
-E convida quem? Eu não tenho amigos.
-Nossa! Me senti ofendido agora! Se não tem ninguém para convidar... Pedimos uma pizza e viramos a noite assistindo ou jogando alguma coisa legal.
-Tipo o que?
-Ah! Não faça perguntas difíceis, Taiyou! Eu tenho que ir, não falei com a Aki desde que acordei. Até logo, Taiyou. Me ligue assim que sair do hospital. Meu número é 9425-7436. Até mais.
-Até, Tenma.
Tenma começou a se afastar. Taiyou acenou para ele e ele acenou de volta. Logo já estava no táxi – convenientemente pago por Aki – indo para casa.
Eles chegaram numa casa pintada de amarelo claro. Era uma casa grande e bonita, com dois andares e uma cerca em volta dela. Tenma tocou a campainha.
Logo um homem atendeu. Ele tinha cabelos castanhos, assim como seus olhos. Tenma não demorou muito para reconhecê-lo. Aquele era Ichinose, ele jogara junto com... Alguém! Ele ainda não tinha memórias do clube de futebol da Raimon, seguindo esse raciocínio não se lembrava de Endou.
Mas sabia que aquele era Ichinose. Ele não sabia como, mas sabia que isso tinha algo a ver com suas memórias perdidas.
-Oi...
-Você deve ser o Tenma, certo?
-Sim.
-Entre, garoto. Aki estava esperando você! Ela quer que você conheça uma pessoa.
Tenma entrou na casa. A porta saía numa sala grande com dois sofás e uma televisão. Num desses sofás estava sentada Aki, com uma criança no colo. Ela logo levantou e deu um forte abraço em Tenma.
-Tenma! Que bom que está finalmente bem!
A criança olhou para Tenma e sorriu.
-Aki-san... Quem é o garotinho?
-Meu filho, Fuyuki. Tem algo que eu gostaria de discutir com você, Tenma. Como o Fuyuki nasceu o quarto que estávamos reservando pra você acabou sendo ocupado e para compensar... Eu e o Ichinose compramos um apartamento para você. Já está todo mobiliado e tome. – Ela deu dez mil dólares em dinheiro para Tenma.
-Aki-san! Pra que tanto dinheiro?
-Você precisa de um jeito de começar, Tenma. Afinal, você não tem nada. Comece seus estudos e viva. Nós vamos te dar algum dinheiro até que você possa se sustentar.
-Algum dinheiro, até passa, mas Aki-san! Aqui tem dez mil dólares! O que vocês fizeram? Assaltaram um banco?
-Não. O Ichinose é muito bem pago.
Agora estava tudo claro. Por que Tenma não supôs isso antes? Ichinose jogava profissionalmente na seleção, é claro que eles eram muito ricos. Tenma queria jogar futebol também. Queria ser jogador também, mas ele não se lembrava nada sobre o jogo. Até se lembrar, teria de fazer outra coisa da vida.
Depois de muita conversa fiada, Ichinose levou Tenma até seu apartamento. Era um bom lugar. No centro da cidade, com vinte e tantos andares. Ichinose deu a Tenma a chave do apartamento 2302. Isso provavelmente queria dizer que o apartamento de Tenma era no vigésimo terceiro andar.
Tenma acertou. O apartamento 2302 era no vigésimo terceiro andar. Estava muito bem mobiliado. A sala era o primeiro cômodo. Lá havia um sofá de três lugares marrom, uma grande televisão com DVD e vídeo games. Até jogos eles tinham comprado. E eram jogos bons. Ao entrar, Tenma tirou seus sapatos e os deixou num canto qualquer.
Tenma deu uma volta pelo apartamento. Na sala havia uma porta, que saía para a cozinha, essa era muito bem equipada. Cheia de balcões, uma geladeira boa e um fogão melhor ainda. Na cozinha havia outra porta, que saía para a área de serviço, mas Tenma não foi olhar. Ele voltou e viu uma área ao lado da sala com uma mesa de jantar de madeira.
Na sala havia outra porta. Essa saía para um pequeno corredor. Lá havia um banheiro, com chuveiro e banheira. E no fim do corredor havia um quarto bem grande. Com uma cama de casal, um criado mudo ao lado da cama, um armário embutido e outro banheiro, como o do corredor, mas maior.
O armário estava com roupas dentro. Sorte de Tenma, pois ele não tinha nenhuma, só as que o hospital disponibilizara para ele.
Voltando para a sala viu que atrás da mesa de jantar havia uma cortina que cobria a parede inteira. Ele a abriu e viu uma porta para a varanda.
Era uma varanda consideravelmente grande. Tinha duas cadeiras e ainda espaço para andar em volta.
Era um lugar perfeito. Tenma estava louco para jogar aqueles jogos com Taiyou. Mal podia esperar para tê-lo ali. Saiu da varanda, trancou a porta e fechou a cortina. Voltou ao quarto e percebeu que ao lado da cama havia um cofre.
Ele o abriu e viu um papelzinho onde estava escrita a combinação. Ele pegou o papel e colocou o dinheiro de Aki lá dentro. Guardou a combinação no armário e pegou uma toalha e uma calça de moletom.
Entrou no banheiro e tomou um banho rápido. Vestiu-se e se deitou na cama, feliz por ter saído do hospital, mas agora estava mais longe de Taiyou que nunca. Ele olhou o horário, já estava tarde, algo como onze e meia. Ele percebeu que passara muito tempo na casa de Aki.
Logo ele caiu no sono. Estava muito ansioso para o aniversário de Taiyou. Queria comemorar a data com seu amigo.
Antes ele estava habituado a ouvir aquela maldita voz todas as noites antes de cair no sono. “Adeus, Matsukaze”. Mas ultimamente, não tinha ouvido mais nada. A sensação que a mão de Taiyou lhe dava, não existia mais. Ele não tinha apagado... Quem quer que fosse da mente, só estava pensando cada vez mais em uma pessoa, Taiyou.
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