Circus

12 Presente e Passado


Triiim Triiim

“Que som é esse? Será que eu não posso sequer dormir em paz? Pera... Esse é o meu celular?” Tenma estava esparramado na cama. Basicamente dormiu feito uma pedra. Ou qualquer outra coisa, mas a questão é ele dormiu por um bom tempo. Tanto que perdeu hora.

Ele se esticou para pegar seu celular que estava em cima do criado mudo. Ele realmente precisava mudar o toque, aquilo estava ficando ridículo. Tenma levou a tela do celular até um ponto onde conseguisse enxergar. Era um número desconhecido.

Ele abriu o celular e disse:

-Alô?

-Tenma! Já estava ficando muito preocupado! Eu estou ligando pra você faz tipo... Uma hora! E nada de você atender, achei que tinha morrido ou queria me ignorar ou os dois!

-Taiyou?

-Não, senhor inteligência! Sou eu, Brad Pitt! Mudei um pouco minha voz, quer um autógrafo?

-Claro... Deve valer muito, senhor Pitt.

Taiyou suspirou.

-Tenma, cale a boca ou eu arranco seus olhos da sua cara com uma faca de pão assim que te encontrar.

Tenma coçou um olho involuntariamente.

-Sei, sei... Você me ama, Taiyou! Nunca vai arrancar meus belos olhos.

-Ah! Cala a boca, Tenma! No dia que eu amar você, o mundo vai acabar!

-Sim, sim... Taiyou, não está um pouco cedo pra você me ligar, não?

-Tenma, você olhou direito o relógio?

-Ta querendo me insultar?

-Não. É que são duas da tarde. Aliás, Tenma, eu finalmente consegui sair da casa da minha avó. Ela meio que me obrigou a ir lá depois que eu saí. As coisas não têm sido muito fáceis, mas enfim, você poderia me dizer qual o seu endereço?

-Ah! Claro. Fica a dica, quando você chegar eu vou estar tomando banho, mas tem uma chave de baixo do tapete do apartamento 2302. Pode entrar.

Tenma deu o endereço para Taiyou e depois se despediu. Logo que fez isso, desligou o telefone, foi até o telefone do apartamento e ligou para a recepção, avisando que chegaria Amemiya Taiyou para visitá-lo e então correu para o banheiro.

-Então até mais. Tchau, Ten... — – O outro desligou o celular. –... Ma.

Taiyou estava em frente à casa de sua avó. A senhora pedira muito para ele ficar, mas não podia furar com Tenma. E ela já era uma senhora de idade. Não importava o que Taiyou fizesse sempre estaria atrapalhando-a por isso era melhor passar o menor tempo possível ali. A mãe de Taiyou estava numa viagem a negócios e seu pai estava descansando eternalmente debaixo da terra. Em outras palavras, ele estava morto.

Taiyou ligou para um táxi e por volta de trinta minutos e uma viagem desagradável com um motorista barulhento e fumante depois Taiyou chegou ao prédio onde Tenma estava morando.

Ele entrou no salão e olhou para a recepcionista.

-Err... Eu vim aqui visitar Matsukaze Tenma. – Disse meio inseguro.

-Você é o Amemiya Taiyou?

-S-sim...

-Pode subir. Tenma avisou que você estava vindo. Andar 23 e apartamento-

-2302, certo? – Ele disse.

-Isso mesmo.

Taiyou subiu até o apartamento de Tenma. Achou a chave da qual Tenma falou no embaixo do tapete, colocou-a na fechadura, destrancou a porta e entrou lentamente no apartamento.

Taiyou estava carregando consigo uma bolsa. Dentro dela ele sempre guardava algumas trocas de roupa e um kit de primeiros socorros. Só para garantir. Taiyou estava vestindo uma camisa branca de manga comprida e uma calça jeans. Ele tirou seus sapatos para entrar na casa e os deixou ao lado dos de Tenma.

Ele conseguiu ouvir o barulho do chuveiro ligado e seguiu o som. Chegou a um quarto e depois percebeu que tinha um banheiro lá.

A porta do banheiro estava aberta. Ele entrou no banheiro e se encostou à parede. Tenma estava dormindo na banheira. “Esse idiota...”.

Taiyou se ajoelhou e falou:

-Tenma, ta de brincadeira, não é? Você dormiu até as duas e ainda vai dormir na banheira?

Tenma não deu sinais de que iria acordar e então Taiyou chegou bem perto da orelha dele e gritou:

-MATSUKAZE TENMA!

Foi um grito alto o suficiente para quase matar Tenma do coração, mas não para os vizinhos ouvirem. Tenma agarrou o pescoço de Taiyou com o susto e levou a cabeça dele para debaixo d’água. Logo percebeu que era Taiyou e soltou o braço. O ruivo tirou a cabeça de baixo da água e disse:

-Tenma... Eu realmente devia arrancar seus olhos.

-Taiyou! Me desculpa, sério mesmo, desculpa... Por favor!

-Ta bom, Tenma! Eu desculpo! Agora sai daí.

Tenma se levantou e esticou a mão para pegar a toalha que estava pendurada perto da banheira, mas Taiyou a pegou primeiro e colocou-a no pescoço.

-É claro que... Nada vem de graça. – Continuou.

-Hahaha! E isso foi muito hilário!

Tenma saiu da banheira e se balançou como um cachorro molhado. Foi até seu armário e pegou outra toalha. Enquanto isso Taiyou retirou sua camisa e começou a mexer em sua bolsa para procurar outras blusas. Pegou uma camisa qualquer e voltou-se para Tenma.

Ele estava usando calças jeans e uma camisa, mas ela estava desabotoada. Taiyou colocou sua camisa amarela e apoiou-se na parede ao lado de Tenma.

-Algum problema, Tenma?

-Não dá! Com os botões maiores até que eu consigo – Ele apontou para os botões da calça – Mas não consigo com esses aqui!

-Não consegue abotoar sua camisa?

-É! Tipo, eu passei quatro anos sem fazer isso!

Taiyou deu um passo e ficou de frente para Tenma. Ele abotoou os botões da camisa do outro e deu um sorriso.

-Melhor assim? – Perguntou logo depois de abotoar o último.

-Sim...

-Reaprenda isso logo, porque eu não vou estar ao seu lado pelo resto da vida para abotoar e desabotoar sua camisa.

Por mais que aquilo fosse uma piada, Tenma imediatamente se lembrou da inevitável morte de Taiyou. Só de pensar naquele ser humano morto, Tenma sentia nojo de estar vivo. Afinal, a injustiça era grande demais. Taiyou era um ser puro e iria morrer com toda a certeza e Tenma sobreviveu a tudo e viveria por algum tempo mesmo tendo feito... Aquilo.

Tenma sentia que tinha feito algo ruim. Magoou alguém. Alguém importante para ele, mas não se lembrava de nada.

-Taiyou... Onde estão seus pais?

-Minha mãe está na Rússia e meu pai, provavelmente, apodrecendo na terra.

-Apodrecendo na terra?

-Sim... Ele morreu quando eu tinha dois anos. De câncer. Acontece que isso é genético. Na verdade, as probabilidades de ter aumentam se você tiver na família. E os seus, Tenma?

-Meus pais estão no Japão, eu acho. Mas nós meio que não nos falamos há algum tempo. Mesmo antes do coma e toda aquela história dramática.

Taiyou percebeu que ainda estava muito perto de Tenma e deu um passo para trás.

-Entendo...

-Taiyou... Você disse que estava com a sua avó?

-Sim. Eu fico lá quando saio do hospital, mas acontece que ela já está ficando velha e não pode mais cuidar de mim... Isso é bem triste, eu não gostaria de trazer problemas a ela.

-Taiyou, por que você não dorme aqui?

-Hein?

-É! Você quer dar um descanso para sua avó, certo? Então pode passar a noite aqui! Matamos dois coelhos com uma cajadada, porque amanhã vou poder te encher o saco com a coisa do aniversário desde cedo... Na verdade, eu mato dois coelhos, você mata um e traz à vida um coelho zumbi. Mas não importa.

-Pode ser, mas você já pensou onde eu vou dormir?

-Em qualquer lugar, Taiyou! Pode dormir no sofá, na banheira, no chão... Onde você quer dormir?

Taiyou levantou uma sobrancelha.

-Na cama.

-Tanto faz, cara! Durma onde quiser, só saiba que eu não saio da minha cama. Mas se quiser dormir lá, vai ser divertido ficar chutando você a noite toda.

-OK, então. Quais os planos pra hoje?

-Organizar as coisas de amanhã.

-Não era só pizza e TV?

-Nope! Vamos alugar alguns filmes, comprar pipoca e um bolo de aniversário.

Eles concordaram que fariam isso, mas Tenma também queria comprar um presente para Taiyou. Não podia ser muito caro, senão o amigo ia reclamar.

O passado pode sempre voltar para agarrar nossos tornozelos. Tenma estava pensando tanto sobre o passado que até criou uma frase lema para ele. Mas naquele dia... Ah, naquele dia a nova frase de Tenma era: O passado pode agarrar nossos tornozelos, mas o presente sempre está mais perto de agarrar o pescoço.

Ele queria aproveitar a vida, sem se preocupar com suas memórias perdidas e com aquela pessoa em quem ele pensava tanto, mas ao menos sabia o nome ou a aparência. Afinal não queria que o presente passasse, sem que ele pudesse aproveitar.

Notas finais
Eu não tenho nada a dizer, por isso... Até o próximo capítulo (onde eu provavelmente terei algo a dizer ¬¬)