Cinzas
1 Capítulo 1
A lua estava escondida atrás do mar de nuvens. Era outono e aquele parecia o cenário perfeito para o motivo de estar ali naquele dia, pensou o jovem Uchiha.
À sua frente encontrava-se um enorme bar, lotado de homens bêbados aos berros, fumando e despejando toda a frustração de uma vida sem sentido em cima dos balcões de madeira.
Irônico o local escolhido para a reunião. Fora exatamente ali que seu pai dera seu último suspiro. Talvez reviver a angústia de perdê-lo cruelmente fosse algo bom; talvez lhe desse a esperança de que tudo estava a prestar a mudar para melhor.
Aproximou-se, relutante, do estabelecimento. Tinha medo de ser reconhecido e não estava com vontade de entrar numa briga com um monte de perdedores. Franziu o cenho no momento em que passou pelas portas vai e vem estilo faroeste, sem chamar muita atenção, mas começando a ansiar pela brisa fresca do lado de fora. Aquele bar estava mais abafado do que as celas da prisão onde vivera por longos seis meses no ano anterior.
Atravessou o recinto cobrindo a parte inferior do rosto com a gola do casaco. Precisava lembrar ao irmão de que até mesmo a floresta conhecida como sangrenta parecia ser um ponto de encontro melhor do que aquele.
Caminhou por entre as diversas mesas lotadas e sujas de diversos líquidos além do próprio álcool e desejou nunca descobrir a origem dos outros tipos que se encontravam ali. Ouviu xingamentos em sua direção ao tropeçar em alguns pés e até sentiu um leve empurrão de uma garçonete que passava apressada. Ignorou a todos. Não valia a pena continuar em um ambiente tão deplorável quanto aquele.
Alcançou o ponto mais distante da entrada do bar e olhou à sua volta. Procurou por uma porta vermelha, desgastada pelo tempo provavelmente, mas não a viu. Pensou em pedir ajuda a alguém, mas suas opções se resumiam a bartenders mal-humorados e metade da população de Konoha embriagada. Suspirou pesadamente, com a raiva começando a se espalhar por todo seu corpo. Arrependia-se profundamente de não ter procurado por um modo melhor de contatar seus companheiros.
Até que, finalmente, avistou uma pequena luz vinda de não muito longe. O motivo de não encontrar a maldita porta era porque estava aberta, cercada de escuridão no local mais escondido do bar. Fez seu caminho até ela e deu uma última olhada por cima do ombro para verificar se não estava sendo seguido.
Quando seus instintos lhe deram a permissão que esperava, voltou-se completamente para o breu à sua frente.
Uma série de escadas apareceu em seu campo de visão e uma única lâmpada estava disponível para ajudar na identificação do que vinha a seguir. Roedores corriam próximos a seus pés, mas não ligou. Estava acostumado a viver em locais como aquele, cheirando a mofo, sangue e medo.
Com as mãos apoiadas dos dois lados da parede, continuou a descer os degraus o mais rápido que suas habilidades permitiam. Não via a hora de acabar logo com aquilo. Estava louco de ansiedade por finalmente voltar à ativa depois de tanto tempo precisando superar suas próprias incapacidades. A cada passo seu o barulho de vozes abaixo crescia. Começou a reconhecê-las aos poucos. Aparentemente, todos eles estavam ali, apenas à sua espera.
– Ele está aqui... – ouviu sussurrarem assim que alcançou o último lance de escadas.
Apesar disso, encontrava-se em um beco sem saída. Outra porta estava em sua frente e parecia estar trancada. Esperou pacientemente que a abrissem e quando o fizeram percebeu a expressão surpresa no rosto de muitos dos presentes.
Sorriu internamente. Era exatamente aquilo que queria.
– Seja bem-vindo, irmão – Itachi falou distante, sentado em uma cadeira de ferro, na ponta de uma enorme mesa onde todos os outros membros da Akatsuki encontravam-se.
Como resposta, Sasuke apenas balançou levemente a cabeça.
Andou na direção da mesa e sentou-se no último lugar que restava: o lado oposto ao qual se encontrava o Uchiha mais velho. Assim que o silencia foi restabelecido, os olhares da quadrilha se direcionaram ao chefe.
– Como bem sabem, o império dos Haruno tem crescido imensamente nesses últimos anos. Estimamos que a fortuna do clã esteja por volta dos vinte e quatro milhões por ano. Pode parecer muito mais do que um dia sonhamos receber – uma leve risada escapou dos lábios de Itachi – Contudo, não chegamos nem perto da nossa verdadeira missão da outra vez e nem sequer fomos capazes de tocar no dinheiro. Nosso plano de infiltração nas instalações do poderio Haruno não foi muito bem elaborado... – todos os olhos nesse instante se voltaram para o rapaz loiro cujo nome Sasuke mal lembrava – E agora estamos com as atenções voltadas para nós. Precisamos agir rápido e com eficiência se quisermos destruí-los.
– O que precisamos mesmo é ser inteligentes! – sibilou raivosamente o loiro – Não é minha culpa se o Tobi foi encarregado de uma das partes mais importantes quando ele é que deveria ter ficado de guarda.
– A culpa não foi dele, Deidara – retrucou o rapaz ruivo que o Uchiha mais novo reconheceu como Sasori – Atingimos um ponto completamente previsível. Quero dizer, todo mundo espera que se atinja o coração da empresa. E era óbvio que eles colocariam todo tipo de sistema de segurança para impedir imbecis como nós de roubar a grana e causar... Um estrago maior.
– E o que você sugere que façamos? – tornou a perguntar o líder do grupo que, apesar de estar direcionando a frase à Sasori, mantinha seu olhar no irmão, como que o testando; esperando por algo que o fizesse realmente se orgulhar de tê-lo como um membro da família.
Sasuke sentiu bem o peso daquele olhar.
– Andei pesquisando sobre o histórico dos Haruno. A primeira coisa que surgiu na minha cabeça foi que o que realmente move toda a empresa é o “poderoso chefão”, Mizuho Haruno. Afinal de contas, quem coordena e manda em cada passo que a empresa dá, é ele. Se conseguíssemos derrotá-lo de algum modo... Se o velho batesse as botas, poderia ser que o trem saísse dos trilhos e tivéssemos a nossa chance. Porém, — acrescentou rapidamente, erguendo o dedo indicador quando notou que estava prestes a ser contrariado por vários dos presentes – isso seria quase que a mesma coisa que assaltar o cofre como tentamos fazer da primeira vez. Talvez não rendesse a quantidade de dinheiro que sabemos existir. E ele pode ser substituído em questão de segundos. O império Haruno continuaria a funcionar normalmente. Então me veio outra coisa à mente... E se em vez de matá-lo... O sequestrássemos?
O silêncio reinou no cômodo enquanto os membros da Akatsuki tentavam compreender a linha de raciocínio de Sasori.
– Prossiga – exigiu Sasuke, ignorando os ruídos de raiva de terceiros e o sorriso desdenhoso de Itachi.
– Pensem! – Sasori continuou se tornando mais inquieto enquanto falava – O que aconteceria se nós o mantivéssemos preso por muito tempo? Claro que eles poderiam mesmo assim substituí-lo enquanto não fosse resgatado. Só que se cobrássemos dinheiro pelo resgate, poderíamos não só quebrar a empresa como também matá-lo logo depois. Dois coelhos com uma só cajadada.
Enquanto comemorava sua ideia brilhante e atraía alguns simpatizantes, Sasori notou que nem todos estavam conseguindo acompanhar seus planos.
Um deles era Konan, que não demorou a se pronunciar:
– Você está se esquecendo de que justamente por serem tão poderosos seria apenas questão de tempo até se restabelecerem, isso se não nos encontrarem antes. Seríamos postos na cadeia em segundos.
Murmúrios ao redor da mesa foram escutados. Alguns aceitavam a ideia de Sasori sem pestanejar, outros ainda sentiam o peso das palavras de Konan. Itachi permanecia calado, apenas observava a confusão. Sasuke se perguntou o que passava na cabeça de seu irmão, como líder do grupo deveria ser o primeiro a opinar e decidir o que deveria ser feito. Ele mesmo já tinha notado a falha e achado a solução, mas queria testar as habilidades de leitura de Itachi antes de se pronunciar novamente.
O que não demorou muito.
– Silêncio – Itachi ergueu uma das mãos e mesmo sem ter levantado a voz, sua autoridade se fez presente em uma única palavra – Me soa bom. O que acha, Sasuke? Devemos seguir em frente com o plano?
O jovem Uchiha ergueu uma das sobrancelhas. De todas as coisas que esperava no mundo, a última seria que lhe pedissem uma opinião. Ainda mais por ter sido aceito ao grupo há menos de uma semana. Algo perigoso se escondia por trás do sorriso de Itachi e ele temia estar caindo em uma armadilha. Porém, ele continuava sendo seu irmão e devia todo seu treinamento a ele.
Resolveu, por fim, jogar as cartas na mesa.
– Acho que os fundamentos da ideia são realmente interessantes. Contudo, isso não se trata de um simples assalto ao banco. Trata-se de vingança – mirou Sasori na esperança de que ele não levasse nada para o lado pessoal, e se fosse o caso, que se dane; não ia viver mendigando aprovação de todos – Os Haruno nos devem muito mais que dinheiro e mesmo sequestrando Mizuho ainda resta, como vocês devem se lembrar, a filha dele. Sakura Haruno. Mesmo destruindo o comandante da empresa, a garota pode muito bem assumir controle de tudo em alguns anos. Talvez já esteja sendo treinada para isso nesse exato momento.
Por mais incrível que fosse, cada integrante prestava bastante atenção nele e ganhando cada vez mais confiança no que dizia, Sasuke prosseguiu com o plano.
– A mera ideia de ver um membro do clã Haruno vivo me enoja. Portanto, minha condição pra fazer parte desta missão é acabar de uma vez por toda com a linhagem Haruno.
– E como você vai fazer isso, pirralhinho? – retrucou Deidara, irritado demais por ver que todos estavam levando a sério o que o “novato” tinha a falar.
– Bom... nós não vamos sequestrar o senhor Haruno.
Uma onda de protestos se iniciou logo depois que Sasuke soltou a notícia. Cansado de tanta impaciência da parte deles, o rapaz se levantou bruscamente empurrando a mesa para trás, quase atingindo seu irmão. O barulho cessou imediatamente ao qual ele aproveitou para concluir seus pensamentos:
– Nós não vamos sequestrar o senhor Haruno porque ele é a peça chave aqui. Será que nenhum de vocês imbecis percebe?! A pessoa que devemos usar como isca é a garota! Devemos levá-la para um local afastado, do qual ninguém tenha consciência da existência e mandar instruções para os pais anonimamente por um tempo. A princípio devemos deixá-los com medo. Ameaçamos matá-la se soubermos que houve o mínimo contato com a polícia. Assim que tudo estiver sob controle, o dinheiro tenha sido acertado e eles se mostrem perfeitamente obedientes... Nós os atraímos para uma troca. Mas é claro que nenhum dos três sairá vivo de lá – mais calmo depois de ter colocado pra fora tudo o que pensou, Sasuke respirou fundo e completou em um tom de voz mais baixo – Dinheiro em mãos, vingança paga e um futuro despreocupado. Os Haruno mal saberão o que os atingiu.
Um sorriso muito idêntico ao de Itachi surgiu em seus lábios quando notou que as coisas realmente poderiam dar muito certo. Desde que seguissem suas instruções com cautela.
O Uchiha mais velho exibia uma expressão ilegível, mas por dentro sentiu que fizera uma ótima escolha ao convocar o garoto para fazer parte do grupo.
– Está decidido então – respondeu ele, levantando-se da cadeira logo depois de afastar a mesa de perto de si. Caminhou em direção a Sasuke, apertando sua mão assim que se aproximara dele o suficiente – Seja bem-vindo à Akatsuki. Estou me orgulhando cada vez mais de você.
– Obrigado – Sasuke falou, soltando a mão de Itachi.
Com uma pequena reverência, ele abandonou o porão do bar e saiu dali o mais rápido que poderia. Estava desesperado para chegar ao quarto de hotel que havia alugado pela noite e começar a organizar os detalhes da operação na tranquilidade da madrugada, longe de qualquer distração. Sabia que por ter sido o idealizador daquele plano seria utilizado como a isca e, apesar de sempre evitar pensar nisso, ainda lembrava-se de que Sakura fizera parte de um pouco de sua história quando pequeno. Para alguns isso poderia se tornar um problema, mas não pra ele. As marcas do passado e o treinamento que recebera durante muito tempo o ensinara a esmagar qualquer tipo de sentimento ligado a alguém que não ele mesmo. Finalmente teria o desfecho procurado por tantos anos.
Observando o irmão sair, seguido pelos outros integrantes da Akatsuki, Itachi se deixou perder em algumas memórias de infância com Sasuke, lembrando que muitas vezes o julgara fraco e inexperiente para muitas coisas. Agora ele provava o quanto errado estivera e isso lhe trazia uma grande satisfação. Satisfação essa que não passou despercebida por Konan.
– O quê? – Itachi perguntou, quando se virou e deu de cara com a expressão divertida da companheira.
– O que deu em você? – ela questionou – Pensei que estivesse feliz em se livrar dele. Ou nunca teria permitido que Sasuke fosse levado para aquele inferno que chamam de prisão.
– Eu sei... – suspirou, inabalável – Mas os resultados de sobrevivência de Sasuke foram melhores do que o meu próprio. Ele está pronto, Konan. E logo se tornará nossa mais nova e perfeita carta na manga!
Fale com o autor