Cinzas
5 Rua R. Jorge, nº 74
Notas iniciais
Silêncio.
Não havia coisa alguma além do silêncio.
Entre os cantos, olhando entre as fechaduras e ranhuras dos becos trancados atrás de balaustradas e placas de madeira, olhos brilhantes encaravam a face branca e suja do grande buraco pavimentado do Anhangabaú. O silêncio, sabiam eles, era o som da morte.
A morte, veja bem, se recusou em assumir sua forma comum. Forma esta popularizada pela figura encapuzada segurando a foice. Não, a morte se recusara em tomar sentido pelo banal. Tornara-se andante. Fedia e se decompunha. Aliás, nem fez seu trabalho com a dedicação que o fazia. A morte agora pede pelo fim mastigado, destruído. Os portões do inferno se fecharam e, agora, só quem teve o cérebro destruído pode vagar entre o limbo que se tornou o além. Sem céu, apenas inferno e limbo.
Ao longe, do alto dos edifícios encardidos de janelas quebradas cá e lá, os pontos pretos faziam sombra contra o sol implacável que brilhava no céu absolutamente azul e sem nuvens. O termômetro eletrônico do largo do Paissandu jazia morto como a metrópole que o abrigava. Sem dúvida, anunciaria em secções garrafais: 32° C. O calor era banal, mas ainda assim os deixava agitados. Os nóias, tontos, zumbis. Há todo um dialeto a ser atualizado no Aurélio quando aquilo acabasse. Mas ela sabia que não acabaria. Sentia no âmago o vazio da esperança perdida. Não havia retorno. Fátima cortara os cabelos castanhos com a faca. Estavam sujos, oleosos e grudados. Sentia falta do magenta que combinava tão perfeitamente com o tom escuro de sua pele, mas nada se comparava à falta de um desodorante e do filho perdido.
A abóbada azulada estendia-se no alto dos pináculos e topos dos prédios ao redor. Ela observava, com lágrimas silenciosas, o carrinho de bebê roto e enferrujado. As manchas marrons populavam o que antes havia de ser o leito da cabeça da criança. Em gritos agudos, lembrava-se dos monstros. Tomavam, arrancavam a dentadas o que queriam. Agarravam-se aos flancos e mordiam. Enterravam seus dentes podres e mortos na carne viva apenas para provar o sangue e espalhar a Praga. Não satisfaziam em matar e devorar, queriam mais. Devoravam e aumentavam mais. E assim Fátima caiu, indefesa, nas garras do desespero. Correndo com um carrinho de bebê. Lembrava-se, tola como fora, do incidente na Vinte e Cinco. Lembrava-se, tola como fora, dos desvios e dos que gritavam por ajuda. Dos carros que rugiam pela rua hoje suja. Lembrava-se, por um breve instante, em como fora idiota. Batia com o punho enquanto engasgava silenciosamente em um choro frenético. Ela manteve o bebê no carrinho. Se o estivesse segurando… Ambos estariam mortos. É o que sentia. Eles a deixaram enquanto viravam o carrinho e arrancavam a carne do pequeno Lucas… Mas ela deveria focar no que a fizera vir até ali.
Armara-se com uma faca de considerável tamanho que conseguira procurando restos em um açougue. Protegia o rosto com um pano branco encardido contra o fedor terrível da cidade. Olhava para todos os lados e seguia, passo a passo, os sons de arrastar e os gemidos, mais como sussurros, que anunciavam a morte. Ela entrara em território alienígena. A Riskalah Jorge seguia paralela ao viaduto Santa Ifigênia. Logo em frente a Prestes Maia se abria, larga e morta como a cidade. Sua missão era simples: Voltar à estação São Bento com o que conseguira enfiar na mochila puída, resquícios do que restara em uma loja de conveniência na rua de acesso à Praça do Correio.
Então um deles levantou. Faltava boa parte do abdômen. Apodrecido, o que antes era um homem agora andava lentamente em sua direção. A carne preta e carcomida de vermes, o restante do couro cabeludo com alguns fios de cabelo compridos e pretos. A boca descarnada em um sorriso eterno. O sangue marrom sujava o que lhe restava de roupas, uma calça de tecido nobre, provavelmente risca de giz, e apenas um sapato roto e feio no pé esquerdo. Fátima não deu atenção. Continuou andando rápido. Seu medo não era o de encontrar nóias. Temia muito mais os vivos do que os mortos. Os Vermelhos — bolivianos e coreanos e chineses que trabalhavam nas galerias da Vinte e Cinco — tornaram-se uma ameaça muito maior do que os milhões de mortos que caminhavam entre as alamedas, ruas e vielas do mundo inteiro. Matavam e roubavam o que encontravam. Era a lei do mais forte. E eles tinham a força.
Uma única bala silenciosa, disparada de um rifle de longo alcance.
O crânio de Fátima explodiu e ela caiu, ainda viva. Tremia. Sua visão se apagara e nem dor ela sentia. Fátima morreu com a mochila nas costas. O zumbi que se levantara cambaleara em direção à morta. Agachou-se e se serviu dos miolos expostos da mulher.
A faca foi arrancada da mão ainda quente e decepou a cabeça do nóia. A mochila foi pega e levada embora. Não era um vermelho. A menina não tinha mais de nove anos.
Nunca encontraram o corpo de Fátima.
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