Cinzas

6 Máscaras


Notas iniciais
As luzes piscam e a chuva passa rápida. Os dias se arrastam e a comida escasseia. Não há saída segura. Não há certeza além da morte.

Há uma chama que brilha escondida entre conchas de mãos dentro de cada um de nós. A de Karla encolhia-se em um aperto. Transformava-se em nó. Era ela abrir as mãos e o brilho amarelado iluminava seu rosto encardido e encovado, face de quem perdera tudo, menos a si mesmo.

Acocorava-se, abraçava-lhe as pernas. Fetava-se em posição de nascimento. Desfazia-se sobre a colchonete. Derretia como manteiga exposta ao sol. Era silenciosa e ninguém a via chorar. O escândalo calava-se entre lábios grossos sob cachos despenteados e ondulados como molas. O soluço subia gorgolejante e morria na ponta da língua. Era desnecessária. Era tristeza invasora. Era fora de ordem sentir autopiedade em um mundo de piedade alguma.

A Sé brilhava fracamente. Meia dúzia de lâmpadas fosforescentes brilhava no teto de cimento. Um terrível cheiro de urina vinha da entrada dos banheiros. Restos de carne queimada descansavam suas crostas negras no chão frio. Gotas caíam da infiltração que entrava através das paredes do teto aberto. O céu brilhava em nanquim. As estrelas incomuns em outra vida davam graça ao preto monótono.

E Karla mergulhava em sua melancolia. Não dormia. Comia pouco. Perdera peso e um tanto do juízo. A depressão abria caminho entre seus ossos como água gelada que cai em lamaçal. Havia, dentro dela, a mínima chama que tão desesperadamente tentava manter viva. E a brisa da noite trazia mais do que o refresco no meio do verão. Trazia o cheiro de morte e a sinfonia dos grilos. Trazia o rumorejo da água empoçada no chafariz próximo. Trazia o vazio do mundo, o cadáver colossal que abria os braços em direção ao céu. Castigo divino? Talvez.

Ela lia tão desesperadamente em tempos passados. Sonhava com personagens de livros fantasiosos e tão frívolos quanto sua vida — e a de todo mundo — fora. Ver o mundo se despedaçar, além da irracionalidade humana quando o instinto fala mais alto, trouxe-a a realidade. O objetivo de sua vida, a Universidade de São Paulo, jazia tão morta quanto o futuro que a esperava. O que ela era hoje? Uma sobrevivente.

Repetia para si mesma: Não importa o que você foi ou conseguiu. Você é uma sobrevivente. Você e todo mundo aqui.”

Era sorte ou destino, ela não se decidia, que amigos seus sobreviveram também. Caio, Giovanna, Marly na CCO… Marina sumira no mundo embicada em uma motocicleta. Deus sabe onde foi parar. Talvez em um lugar melhor. Karla era responsável pela manutenção e distribuição das rações. Arrastava-se entre as penas do luto eterno que sentia. Alucinava-se com sangue inexistente em suas mãos. Enlouquecia, aos poucos, em seu cubículo. Trancava-se entre barras de solidão. Fechava-se em seu tesouro de muitos livros conseguidos que dividia com Caio. Sumia entre as espirais do edredom.

E voltava a realidade. Matava. Decepava. E depois chorava. Não sabia se funcionava como penitência para com Deus, se é que Ele existia, mas sua consciência, tão ferida e dilacerada, respirava aliviada em cada lágrima rolada.

E Fátima sumira. E Daniel sumira. E Marisa morrera. E Dante, nome estranho, fora mordido. E Júlia. E sua mãe. E seu pai. E todo o mundo.

E ela sofria por todos. Sentia por todos. Caía em desgraça por tudo. Matava com gosto cada andante que encontrava. Chorava desesperada no abraço do seu melhor amigo. Deus sabe os problemas mentais de todos.

As pessoas reagiram de modos diferentes. Leandro tornara-se calculista. Gostava de interpretar as ações das pessoas, ajudava-o a entender. Decapitara um boliviano dos Vermelhos e espetara a cabeça em uma estaca de madeira improvisada no túnel que vai à São Bento. Caio tecera uma máscara que ela, Karla, sabia que ajudava a sustentar. Giovanna isolara-se em uma irritação comum, mas consolava-se com todos em pontos estratégicos e invisíveis. Não havia procedimento comum, apenas a fria convicção que precedia o assassinato.

Ainda entre os grandes e mortos edifícios da capital, somava-se a imprudência e a selvageria de muitos. Os mortos-vivos eram cruéis. Não conheciam a piedade ou o medo ou a dor. Rumavam sem trajetória em fiapos de roupa e carne putrefata e fedorenta. Matavam por matar. Comiam por comer. Seguiam apenas a fome eterna.

Os vivos, não.

Notas finais
Karla ainda pisca, afastando as lágrimas. O céu estrelado tornara-se azulado e a manhã se aproximava. Precisava se recompor.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.