Cinquenta Tons de Violetta
1 Capítulo 1 - Garota Infame
Fiz o nó de minha gravata enquanto ao meu lado na pia dupla de minha suíte, Ana se maquiava. Sua mania sedutora de se maquiar de lingerie me tentara durante muito tempo, mas recentemente com o fogo do nosso casamento se apagando, eu sentia que qualquer chance de tentar algo seria inútil e rebatido com uma queixa mal-humorada dela. Deve ser a crise dos seis anos de casamento, quando o sexo é dispensável.
Conversei com meu pai sobre isso, com certa prudência, pois não quero detalhes de sua vida sexual com minha mãe, compreensivo me disse ter tido está crise aos 5 anos, aos 8 e aos 14. Elliot que notara que o fogo de meu casamento estava menos forte que quando eu a pegava no colo e nos trancávamos em um quarto, me contara casualmente que logo após o nascimento de Ava ele tivera uma crise horrível com Kate, que quase levou a uma traição por parte dele, mas que não acontecera. A minha crise de abstinência sexual com Ana vinha agora, aos seis anos, sem sexo.
Estou entediado. Não fazemos mais coisas BDSM, pois elas exigem tempo, concentração e planejamento. Nosso quarto de jogos não é usado a meses, quando nos mudamos a chave ficava sempre comigo, agora está guardada em uma gaveta, simbolizando silenciosamente nossa falta de disponibilidade para explorarmos um ao outro.
— Pensou? – perguntei olhando para ela pelo espelho, nossos reflexos encarando um ao outro.
— Não preciso pensar, a resposta é “não”.
Ana não está com vontade de uma rapidinha antes do enterro, aliás, faz um bom tempo que não damos nossas rapidinhas, lembro com ânimo de quando transávamos entre três e cinco vezes ao dia, hoje é dia sim e dia não, quando tenho sorte. Tem o estresse dos filhos, amo loucamente os dois, mas eles tomam muito o tempo de Ana. Temos empregada e baba, mas ela faz questão de participar mais que ativamente da vida deles e isso me irritava, não a culpo, mas odeio quando me deixa para ver o mais novo desenho de Phoebe, que faz um a cada cinco minutos, quando interrompe nosso beijo, pois Teddy quer que ela veja como ele está indo bem no jogo de videogame.
Claro, enterro, esta palavra chama a atenção em minha mente. Tanto tempo que não vou a um. Hoje era o enterro de Gustave Werther, amigo de infância do meu pai que, aliás, não se viam a um tempo. Ele morava na costa leste com a filha, eram só os dois e ele morreu em um acidente de carro. Como toda a família mora em Seattle, ele será enterrado aqui. Tenho leves lembranças de Gustave, ele cruzava o país só para o aniversário de meus pais, e o aniversário de casamento, sempre vinha com a filha, uma garotinha, que nunca se deixou passar em branco em minha memória.
— Poderia ao menos respeitar a família dele. Não quero chegar lá e vê-los chorando sabendo que pouco antes estava transando. É um desrespeito.
— Certo. Vou levar está em consideração. E quando voltarmos?
— Não quero ficar lá sabendo que tenho uma foda marcada para a volta, Christian. Pare de ser tão viciado em sexo – ela me olhou pelo reflexo como se eu fosse um maníaco.
— Sou viciado em você – ela se virou e sorriu, nossa, minha esposa era linda – Sem foda marcada, mas você sabe que não temos transado muito.
— Eu sei meu amor – veio a mim e me abraçou, dando-me um beijo de leve nos lábios – Lhe manchei de batom – ia me limpar, mas lhe beijei novamente, com amor, com desejo, com saudade – Christian vamos, não quero fazer isso hoje, me sentirei mau. Posso dizer de certa forma que sei como é perder um pai. Mesmo sendo recém-nascida, sei que falta ele faz, mesmo tendo Ray. Para ela deve ser ruim sabe, perder um pai no qual se era tão apegada.
— Não me lembro dela em detalhes, mas o pai a seguia para todos os lados – rio com uma lembrança dita por meu pai.
— Viu, imagine como a garota deve estar sofrendo – pousou as mãos em meus ombros – Mas vamos logo, já estamos em cima da hora.
Anastasia havia amadurecido muito fisicamente, seu corpo estava cada vez mais delicioso, mais mulher. A amamentação aumentou seus seios naturalmente, seu rosto tinha traços mais maduros, mais sérios, sem as bochechas que a deixavam tão criança, os olhos grandes e azuis estavam mais firmes, além do ar de madame que ela adquirira com o tempo. Ana se acostumara a ser uma esposa. Minha esposa. Minha.
A caminho do enterro estou pensando, nossa crise é puramente sexual, nós continuamos a conversar, mesmo que não tão frequentemente. Às vezes, aliás, tenho me condenado em ter dado um negócio tão trabalhoso e em tempo integral quanto a Grey Publishing, mas fiz na maior boa intenção e ela é feliz com isso, todavia nos tira muito tempo. Nossos horários as vezes não batem, tenho que viajar ou ela, quando tem um bom livro faz questão de lê-lo totalmente, de corpo e alma, e para uma boa leitura é preciso paciência e concentração, esse tempo poderia ser gasto comigo. Estou sentindo ciúme até de Jane Austen.
Chegamos ao local do enterro. Era em um cemitério tão lindo que dá pena saber que ele foi feito para enterrar pessoas, mas nos tranquiliza em saber que nossas pessoas queridas irão descansar em um local que deveria ser descrito como o Éden. A grama era tão verde e as lapides tão brancas. Os mausoléus gigantes à noite deveriam dar medo em muita gente, mas de dia, eram belos e castos. Ídolos sagrados nos observavam, parecendo tão tristes quanto nós. Quando cheguei já estavam transportando o caixão, achei meus pais logo, meu pai se mostrava muito abalado, minha mãe tinha os olhos vermelhos de quem havia chorado muito, mas agora se mostrava forte, mesmo que ao me ver, tenha apertado minha mão com tanta força que me deixou triste, a ponto de pensar “Tudo bem mãe, pode quebrar minha mão se quiser, se isso for aliviar seu sofrimento, pode quebrar as duas”.
Kate e Ethan estavam meio avoados a tudo, Mia e Elliot estavam como eu, com o choque de alguém que você conhece morrer, não a ponto de isso lhe abalar como fez a meus pais. Infelizmente, não estou tão triste quanto acho que deveria estar. Gustave Werther era meu padrinho, sua ex-esposa, que está aqui também, não era minha madrinha, mas moramos na mesma cidade, entretanto ela mal me deu um presente de casamento. Seu ex-marido, que morava do outro lado do país, me visitou e nos deu um presente maravilhoso. Ele sabia o nome de meus filhos e a data de seus aniversários, era presente mesmo longe, nunca esquecia de nada que falávamos e sempre respeitava nossa opinião e estava aberto a tudo.
Me pergunto onde está sua filha, não sei realmente que aparência ela tem agora, mas sei que se a ver vou reconhecê-la, principalmente por causa de seus olhos. Os olhos dela são tão belos que minha mãe a um tempo atrás me comentou que um fotografo havia lhe pago uma fortuna para fotografar seus olhos, seu rosto todo, mas principalmente seus olhos e que agora eles estavam expostos em galerias pela Europa fazendo o tal fotografo ganhar milhões. Minha mãe tinha uma dessas fotos, mas eu nunca me dei ao trabalho de ver.
— Já irão baixar o caixão. Pode ir chamá-la para mim? – pediu minha mãe a Elliot.
Atendendo ao pedido dela, ele saiu de meu campo de visão, indo para bem longe de onde estávamos. Algumas pessoas foram falar à frente coisas sobre Gustave, inclusive meu pai e minha mãe. Sei que Gustave foi um amigo muito querido por eles, melhor amigo da vida toda de meu pai, além de ter sido ele quem apresentou meus pais, fora padrinho de casamento e meu padrinho também, mesmo com a distância eles se comunicavam com frequência, sempre a par do que acontecia com o outro. Sorri tristonho, pois lembro das cestas e brinquedos que recebi ao nascimento de meus dois filhos. Olhei para Ana e me senti culpado por ter pensando em uma rapidinha pré e pós-enterro.
Esperaram um tempo até que aparecendo em meio a roda que se formara em volta do caixão, em destaque a tudo, uma jovem de longos cabelos castanhos e um vestido amarelo surgiu e pôs um buquê de papoulas vermelhas em cima do caixão. Eu disse que saberia e ali estava Violetta.
Nossa, ela estava tão diferente, era uma moça e se encontrava tão bonita, inocentemente sexy e encantadora. Seu vestido era inclusive curto para a ocasião, mesmo sendo verão, as pernas brancas e longas de fora, belas pernas. O cabelo esvoaçava pelo vento do fim da manhã, o rosto sem cores, que aparecia de momento em momento quando seu cabelo não o escondia de mim. Pôs as flores e foi para ao lado de sua mãe, a quem as vezes encontrava casualmente por aí, ela usava óculos escuros, mas se destacava, pois todos usavam preto e ela usava vestido amarelo com sapatilhas vermelhas. Quando desviei os olhos dela soltei a respiração, que não notei que estava segurando, entretanto de momento em momento, eu dava olhadas para ela e sentia um calafrio.
O caixão desceu e após o enterrarem, uma coroa de flores fora posta ali, na lápide discreta estava escrito “Bom pai. Bom amigo. Bom homem”. Bom pai, como será que ficará Violetta? Ela estava impassível. Notei que não conseguia ficar muito perto da mãe, que uma sempre dizia baixo algo para a outra, que deixava a que ouvira levemente incomodada. Quando o terminado todos seguimos a nossos carros, Violetta dava passos pesados e bateu com força a porta do carro, não deve ser um dia fácil para ela. Entrei no carro com Ana onde Taylor nos esperava no banco do motorista. Ana segurou minha mão e me olhou tristonha, pelo o que eu sei ela não conhecia Gustave o suficiente, mesmo adorando sua simpatia, inteligência e gentileza.
— Sua mãe está tão triste – massageou minha mão – Lembro de ter visto seu padrinho poucas vezes, ele estava sempre com a filha. Era um homem tão amável, gentil e sempre lembrava de tudo – sorriu para mim com carinho – Antes de nossos filhos completarem um ano, ele mensalmente nos mandava um presente, comemorando o primeiro, terceiro, sétimo, decimo mês de vida deles e vinha com uma frase em um bilhete, que mostrava que ele realmente se importava.
— Não fique triste. Existem coisas que acontecem, até com as melhores pessoas.
Não continuamos, ficamos só de mãos dadas, olhando o caminho, um comboio de carros seguia para o velório na humilde casa da ex-esposa. Assim que desci do carro, Elliot que também havia acabado de chegar, veio a mim preocupado, me chamando discreto, mas sem impedir que Ana ou Kate, que o seguira, ouvissem e me disse.
— Mamãe e papai tomaram mais um calmante cada um, já é o terceiro do dia.
— Você pegou os calmantes deles?
— Não, eles não querem me dar, me prometeram que não vão tomar mais.
— Mas sua mãe é medica, ela sabe dos perigos disto – disse Ana.
— Claro que sabe – disse – Mas ela está muito abalada emocionalmente.
— Está muito nervosa – era Mia, só então vi que ela estava logo atrás de mim – Vamos ficar aqui por uma meia hora e depois vou levá-los para casa.
Resolvido o problema dos nossos pais, pudemos entrar na mansão, que tem uma decoração completamente, exagerada, plumas, brilho e estampas. Ana também notou e riu de leve, mas tapando a boca para ninguém ver. Era o último lugar possível para se fazer um velório. Pensei comigo que na casa de meus pais seria melhor, além de ser grande e eles serem muito amigos de Gustave, tinha um visual mais sóbrio, mas mudando de ideia, lembrei de como eles gostavam de dar festas, momentos para todos ficarem felizes, os bailes e aniversários, e não, não queria que o ambiente puro e festivo natural da casa de meus pais fosse corrompido com um velório, mesmo sendo de Gustave.
— Christian, quanto tempo – minha madrinha me cumprimentou – Tanto tempo que nem fui completamente apresentada a sua esposa e vocês já estão casados a três anos.
— Seis – corrigi – Nicole, está a minha esposa Anastasia. E Ana, está a ex-esposa de meu padrinho, Nicole Benchley.
— Que bom que lembrou do meu novo sobrenome.
— Sinto muito, Sra. Benchley.
— Tudo bem querida, não era mais casada com ele mesmo.
— De qualquer maneira – Ana ficou pasma – Vocês têm uma história.
— Não Ana, deixe ela, ela é assim mesmo.
Nicole logo nos deixou para falar com outras pessoas. Minha mãe e meu pai ficaram, desde que chegaram, sentados em um sofá de oncinha. Andando pela casa, ouvia cochichos, todos com um assunto em comum.
— Que falta de respeito. Não usar preto no enterro do próprio pai.
— Gustave sempre mimou muito esta garota.
— Ela deve ficar com a mãe. Certo?
— Pelo o que sei ela e a mãe não se falam.
— Nicole não se divorciou só do marido, mas da filha também.
— Agora a adaptação será difícil.
Violetta. Todos só falavam dela e me perguntei onde estava. Seu vestido amarelo era chamativo, não em si, mas para o ambiente. Como não a achei e tenho certeza que ela veio, pois a vi entrar na casa, pensei que talvez visto aos comentários e olhares tortos, tenha posto uma roupa preta, mas me enganei, não estava ali mesmo. Não existe ninguém para lhe ensinar como se comportar em um velório, então eu me resumi a caminhar por ai, pensando em ver muitos sinais de tristeza e luto, mas se não fossem as roupas todas pretas das pessoas, poderia ser um coquetel ou algo do tipo.
— Vamos levar o papai e mamãe para casa – Mia apareceu – Vou deixá-los em casa, eles vão dormir, descansar e dar adeus ao calmante por hoje.
— Cuide bem deles – sorri e afaguei a cabeça de Mia, bagunçando seus cabelos – Vou ficar aqui mais um pouco, se todos nós saímos juntos ficará muito desrespeitoso.
— Como quiser.
Mia e Ethan levaram meus pais, Kate e Ana conversavam e Elliot batia papo com alguns conhecidos. Meu celular tocou e eu fui para fora atender, na sorte achei um pequeno quintal tranquilo e sem barulho, onde me sentei em um banco e comecei a falar com minha assistente, que dizia ter um documento importante que eu tinha que ver com urgência. Senti algo se mexendo próximo de mim e vi em outro banco, no extremo oposto do pequeno quintal, Violetta, ainda de amarelo, com sapatos vermelhos, segurando uma garrafa de vinho tinto. Não me importei e voltei a minha ligação, mas com a vontade de tomar um vinho, lembrei que lá dentro estavam servindo vinho, então irei quando terminar a ligação.
Vi Violetta se levantar e começar a andar em minha direção, em pé me ofereceu a garrafa. Quando a vi de perto notei que ela seria o que posso classificar como uma mulher que me faz perder o fôlego, ela estava linda, percebi agora, que a vi de perto. Ela estava bebendo direto da boca da garrafa e eu sem pudor, peguei a garrafa e dei um bom gole, era vinho tinto, prefiro o branco, mas este vinho era bom. Devolvi a garrafa a ela e lhe agradeci com um aceno de cabeça, meus lábios começaram a formigar, em um círculo perfeito onde a boca da garrafa tocou, era um formigamento bom, tinha gosto de pêssego.
Violetta se afastou e voltou para onde estava, a porta se abriu e Ana apareceu, sorriu ao me ver, deveria estar me procurando. Sentou-se a meu lado, achou que estávamos sozinhos, pois não olhou para o canto onde Violetta se escondia. Desliguei o telefone e recebi um beijo de Ana.
— Tenho que ir para o escritório, Andrea está arrancando os cabelos. Preciso resolver um assunto.
—Tudo bem, vamos.
A porta se abriu novamente e ambos olhamos, senti a ira de Ana quando Elena apareceu subitamente, o susto dela ao nos ver foi tão grande quanto o nosso. A amizade se desfez totalmente, minha família também não falava mais com ela, mas tínhamos muitos amigos em comum e Gustave era um deles. Ela abriu a boca, mas nenhum som saiu, ela olhou em volta e ia entrar quando viu algo que a fez sorrir. Andou em direção a Violetta, agora vi que a garrafa de vinho havia sumido, ela levantou e se abraçaram. Ana me puxou pela mão para irmos, ela não gostava nem de ficar no mesmo ambiente que Elena. Em meio ao abraço, vi que Violetta me encarava e atrás dela, rolando, a garrafa de vinho vazia, quando a peguei e bebi, pouco tempo atrás, ela estava ainda na metade, perto dela, havia outra também vazia. Diferente do enterro, agora seu rosto tinha cor, as bochechas rosadas, um rosado que eu sei bem, era o rosto de um bêbado. Seus olhos pareciam alcoolizados e quando Elena a soltou, ela cambaleou levemente.
Minha mãe me pediu gentilmente que a deixasse fazer um jantar em minha casa, e chamar a família, além de Violetta, Nicole e seu marido. O motivo era que a casa de meus pais estava sendo redecorada. Fiquei feliz, a voz de minha mãe parecia mais normal, bem diferente da de três dias antes, no dia do enterro. Ana então disse que a deixasse cuidar de tudo, tirou o dia de folga e ficou em casa. Eu saí mais cedo do trabalho, não por causa do jantar, mas por causa da minha esposa, pensando que esta seria uma boa oportunidade para ficarmos juntos. Ela estava na cozinha com Gail, vendo as receitas dos pratos a serem servidos. Ana sempre que possível tentava ser uma típica dona de casa americana, com direito a avental e tudo. Ela ficava tão sexy de avental.
— Ana – a chamei da porta da cozinha – Venha aqui rápido, preciso lhe mostrar uma coisa.
Veio e lhe beijei, ela retribuiu com um sorriso sapeca, subimos correndo ao quarto de jogos. Como planejara já uma bela foda esta tarde a chave estava no meu bolso. Entrei e puxei seu cabelo com força, mas sem machucá-la.
— Nossa, Christian – ela disse quando pus a mão dentro de seu vestido.
— Você me deixa doido com este avental.
Começamos a nos beijar e ela já estava sem roupa quando alguém bateu na porta. Nos assustamos, embora estivesse trancada.
— Mãe! – era a voz de Ted – Não tia Gail, eu quero falar com eles!
— Estou indo Ted – Ana rapidamente começou a se vestir.
— Ana... – eu a olhei, mas ela não me olhou de volta.
Abriu a porta com cuidado para Ted não ver o lado de dentro e me deixou ali sozinho. Dez minutos depois eu a encontrei sozinha na cozinha onde vigiava algo que assava no forno.
— Christian, me desculpe – ela disse assim que me viu – Estou tão atarefada, este jantar tem que ser perfeito.
— Você sempre fala isso – Ana me olhou levemente espantada.
— Não precisa falar assim comigo. Eu só quero ser uma boa anfitriã.
— Eu pago empregados para isso, para que nós tenhamos conforto. Eu trabalho para que você não precise ficar assim, com a cara no fogão. Você tem o cargo de diretora da editora para se dar ao luxo de impor trabalhos aos subalternos.
— Mas eu amo o que faço e quero estar contribuindo para o crescimento da editora.
— Eu também quero isso tanto quanto você. Mas eu tenho a consciência de que eu tenho que me cuidar também, eu dedico tempo para a empresa, para você e para as crianças.
— Você não é mãe, Christian. É muito mais trabalhoso do que ser pai. Temos empregados, mas é preciso saber o que precisa ser feito para podermos ter empregados.
— Para isso que Gail está aqui. Ela é nossa governanta – percebi que estávamos elevando o tom de voz.
— Ela já cuida das crianças.
— Então porque temos uma babá?
— As crianças são mais apegadas a Gail.
— Por que nossa governanta virou babá e a que contratamos para o trabalho não faz nada?
— É ela quem leva as crianças para a escola e ajuda com o dever de casa, e quem sai com as crianças para passear quando eu não posso.
— Já que Gail está tão sobrecarregada, eu contrato outra governanta.
— Ela pode se ofender.
— Ana, este é o trabalho dela, mas você a colocou como babá.
— Tenho mais o que fazer do que discutir com você – ela saiu da cozinha.
Passei a tarde no escritório, tomei banho e me arrumei, enquanto isso minha família chegava. Todos estavam lá, só soube que meus irmãos viriam esta tarde quando perguntei a Ana por que tanta comida. Desci e minha mãe dava uma olhada aos últimos preparativos, Kate e Mia conversavam com Ana, que logo que me viu me olhou de cima a baixo. Kate pareceu notar e lhe cochichou algo, que Mia não ouviu, pois Ethan chegara para lhe dizer algo.
— E a crise? – Elliot me perguntou enquanto juntos observávamos nossas esposas de longe, provavelmente falando do mesmo assunto.
— Brigamos hoje por este motivo.
— É algo difícil, mas você tem que ser forte e deixar a ideia de traição de lado.
— Nunca pensei em traí-la! – disse baixo, mas ofendido. Olhei incrédulo para meu irmão, ele suspirou.
— Sei o que quer dizer, mas na prática não é bem assim. As tentações aparecem. Você é rico, inteligente, legal, e por alguma razão as mulheres gostam de você. Mesmo que você não procure por outra mulher, outras mulheres irão atrás de você, sem se importarem se você é casado e tem uma família. Duvido que nestes 6 anos de casamento nenhuma mulher deu em cima de você.
— Nunca irei trair a Ana.
— Não diga nunca. É uma palavra muito forte. Diga que no momento não irá traí-la.
— Acha que Ana me trairia?
— Não sei. Nunca se sabe, mas creio que não – ficou sério subitamente – Já eu acredito que é capaz de Kate me trair, não que já tenha feito, não que eu saiba, mas pelo jeito dela, acho que é possível.
— Você a trairia?
— Quase fiz isso uma vez. Se acontecer não será uma surpresa, nem para mim nem para ela.
— Ela sabe de sua quase traição?
— A quase traição só ficou no quase porque ela descobriu.
— Como? – fiquei chocado, ele havia me dito da quase traição, mas não me disse realmente como aconteceu.
Ele me indicou outro cômodo, onde poderíamos conversar mais tranquilamente, fomos até a outra sala, onde ninguém estava, era logo ao lado. Ele se sentou no sofá e eu sentei a seu lado, ele se mostrou pensativo e com uma memória não muito boa vindo a mente.
— Foi com Gia Matteo, a arquiteta que reformou esta casa. Trocávamos e-mails e mensagens, nos telefonávamos, quando vi nossas conversas passaram a ter um teor sexual, sinceramente não sei quem começou. Kate estava muito ocupada com o nascimento de Ava e estressada com ela pequena. Estava perdendo várias oportunidades em matérias investigativas no jornal, além de não transar brigávamos por tudo, tudo mesmo. Se chegava tarde reclamava das minhas responsabilidades como pai de família, se chegava cedo dizia que agora que ela estava de licença eu deveria me dedicar mais ao que faço e se chegasse na hora dizia que chegar no horário em casa parecia ser a única responsabilidade que eu conseguia seguir. Já estava de saco cheio e contei a Gia então combinamos de nos encontrar, mas na véspera Kate pegou meu celular e leu as mensagens, foi horrível.
— Como ficou tudo depois?
— Continuo falando com Gia, não é culpa dela, ela era descompromissada e eu casado, mas evito encontrá-la até por respeito a Kate. Então conversamos e ela compreendeu meu lado, desde então temos levado tudo com companheirismo, mas ela sempre está com um pé atrás em relação a mim. Se tornou paranoica e ciumenta ao extremo, a ponto de cheirar minha roupa e verificar meus bolsos.
Taylor surgiu na sala e Elliot se calou. Taylor nos disse que o carro dos convidados já passara os portões. Nos levantamos e fomos ao hall, mas antes Elliot me soprou “Tenha cuidado”. Entretanto, estou ciente de que amo Ana, minha esposa é linda, só estamos em uma fase difícil, ela tinha que chegar em algum momento e comparando as outras crises que meus familiares tiveram a minha demorou, deve ser um bom sinal.
Sempre rápido, Taylor já estava na porta esperando para abrir. Minha mãe estava alegre, sorridente, ansiosa, era bom vê-la assim, feliz. Meu pai ia indo, ainda estava muito abalado, mas não continha o sorriso de ansiedade como o de minha mãe e segurava a mão dela. Também pudera, há anos não viam Violetta e isso me lembrou que como uma troca de favores, por Gustave ser meu padrinho, meus pais eram padrinhos de Violetta. Algo bem familiar e íntimo, me veio uma leve lembrança de dez anos atrás, quando Gustave se mudou, da tristeza de meus pais e até meu também, pois Gustave era um bom padrinho “Uma mulher mudou você, não é?” me perguntou em minha adolescência, quando deixara a rebeldia para uma vida secreta de sadomasoquismo.
— Sejam bem vindos – minha mãe disse quando Taylor abriu a porta.
— Trouxemos para vocês – Nicole lhe entregou duas garrafas de vinho branco, a marca era boa.
— Obrigada. Entrem. Logo o jantar será servido – eles entraram na casa e como todos, olharam em volta atordoados por sua magnitude, me orgulhava por cada rosto espantado pela casa que eu escolhi tão bem para formar minha família – Sei que a ocasião não era boa, então não tive a oportunidade de lhes apresentar minhas noras e genro.
Minha mãe apresentava Ana, Kate e Ethan à Nicole e seu marido, Allan Benchley. As típicas frases ditas ao se conhecer foram ditas, até estava prestando atenção, mas desliguei-me do papo corriqueiro quando um baixo e agudo assobio me chegou aos ouvidos, em frente a porta recém fechada perto de Taylor que ainda estava ali, uma garota olhando tudo descaradamente, vendo daquele ponto cada grande detalhe do hall da casa.
— Querida venha aqui – minha mãe a chamou – Queridos está é Violetta Werther, minha afilhada. Violetta, estes são Anastasia, Katherine e Ethan. Eles se casaram com meus filhos, acho que chegou a vê-los.
Ela se aproximou de nós e debochadamente pegou as barras laterais de sua saia rodada e esticou enquanto se curvava e cruzava a perna esquerda atrás da direita. Ao levantar o rosto, eu senti o que sempre sentia quando via minhas submissas pela primeira vez, uma atração forte e instantânea. Era uma garota jovem, com cabelos castanhos ondulados que moldavam o contorno de seus seios escondidos pela camisa de botão.
— Nossa que olhos lindos – disse Ana, ela tinha um ciúme imenso de morenas que se aproximassem de mim, mas acredito que ela não teria de uma criança como aquela.
— Agradeça a ela, foi uma das designers.
— Violetta! – sua mãe a repreendeu – Obrigada, Anastasia.
— São incríveis. Grace comentou que já chegou a fazer uma sessão de fotos por causa de seus olhos – Ana acrescentou – Realmente lindos. Qual sua idade, querida?
— Dezoito – afirmou sorridente com dentes perfeitamente alinhados, esticou a mão para à Ana para apertá-la, fazendo subir sua camisa de botão.
— Ela tem dezesseis – corrigiu contrariada sua mãe enquanto ao invés de abaixar a blusa da filha, levantava a saia que ia até o joelho – Adora aumentar a idade.
— É um prazer conhecê-la, Anastasia – olhou para mim de cima a baixo – Há quanto tempo, Christian – ela esticou a mão para mim e eu a apertei, mas ela me surpreendeu, com um aperto de mão forte e olhos que ficaram fixos nos meus, algo que ninguém conseguia fazer sem ter certa intimidade, nem quem me conhecia há anos. Ana mesmo, só conseguia olhar para as próprias mãos em nosso primeiro encontro apesar de nossa atração instantânea.
— Muito mesmo, Violetta.
Belo aperto de mão, bem firme. E olhos desafiadores que não desviaram dos meus, ao contrário, me encararam como se quisesse ler minha alma.
— E seus filhos? – cortou Nicole.
— Estão dormindo, eles costumam dormir cedo, passam o dia todo agitados – Ana não notou minha batalha muda com Violetta através do olhar e do aperto de mão – Logo o jantar estará pronto, por favor, venham a sala para conversarmos.
Fomos todos e o papo era entre todos, falávamos de tudo ao mesmo tempo. Allan era dono de uma companhia aérea, herdeiro para ser mais exato e Nicole logo dera o bote, mesmo que apesar de ser mãe de uma adolescente de dezesseis anos, era jovem, não tinha nem quarenta anos. Gustave que era velho para ela, tinha a idade de meu pai, fora pai tarde, se casara com uma miss e lembro de ter dito abertamente que não se importava em ela ser uma golpista, só queria uma esposa e formar uma família. Eles se divorciaram quando Violetta tinha cinco anos e imediatamente se mudou. Há alguns anos, Nicole se casou novamente e voltara a frequentar o círculo de amizades de quando era casada com Gustave e, aliás, escolhera um cara bem rico e com um único interesse em comum que me fez levar uma longa conversa.
— Realmente este tipo de helicóptero é ótimo – disse a Allan.
— Meu sonho sempre foi pilotar aviões. Helicópteros também, temos mais liberdade e movimento com eles, mas adoro o poder de pilotar um avião.
— Nunca pilotei aviões, só meu jato uma vez casualmente, por pura diversão – olhei para a poltrona onde Violetta estava em uma pose cômica, com as pernas cruzadas, mas quase deitada na poltrona, sua saia levantou e eu podia ver bem sua coxa, só eu podia ver aquele ângulo. Ela estava com os olhos quase se fechando, mas me olhava bem de rabo de olho, até ergueu a sobrancelha quando a encarei silenciosamente lhe cobrando compostura.
— O jantar está servido – anunciou Gail enquanto eu ainda avaliava a garota.
Levantamos, ela foi mais lenta ao levantar. Uma sofisticada mesa estava posta na sala de jantar, eu sentei na cabeceira e Ana a minha direita. Os outros foram se distribuindo nos outros lugares. À mesa, a garota soube comportar-se perfeitamente, se sentou com postura e não cometeu nenhum erro de etiqueta, mas permanecia calada, assim como na sala, todavia ela tinha a mania de olhar tudo e nem se importava conosco, se virava para ver a decoração na parede atrás de si. Ela era uma obstinada observadora.
Não tomou vinho, só água, a ouvi responder quando minha mãe lhe deu permissão para beber se quisesse, mas está respondeu que não gostava de bebidas alcoólicas. Franzi a testa, pois lembro-me perfeitamente bem que a vi no quintal da casa de sua mãe, completamente bêbada e que provavelmente bebera duas garrafas de vinho sozinha, a não ser um único gole que dei quando me foi oferecido. Chegou um ponto que seu silêncio me incomodou, vi então ser provavelmente porque estávamos em pares, eu e Ana, Allan e Nicole, meu pai e minha mãe, Elliot e Kate, Mia e Ethan. Violetta era o número ímpar e sem par ficava deslocada e sem ter com quem conversar.
Ana tocou minha mão e silenciosamente me perguntou o que estava acontecendo, eu ergui a sobrancelha e enquanto tomava um gole de vinho olhei para Violetta. Ana me olhou e fez uma expressão de quem também está desconfortável com o silêncio dela.
— Violetta. Você pensa em faculdade?
— Faculdade?
— Sim. Para onde quer ir?
— Eu não vou longe – disse como se fosse algo bom.
— Violetta! – sua mãe lhe repreendeu.
— Nicole, fala sério. Faculdade? – pelo visto aquele não era um assunto que ela não está acostumava a conversar – Se matar a vida toda para ter um bom currículo, fazer atividades extracurriculares para ter pontos extras, estudar feito uma condenada para só ter notas maravilhosas, passar todo o colegial pesquisando a faculdade perfeita para você, procurar uma carreira que você goste mas que dê muito dinheiro, fazer vestibulares, mandar cartas, ir às entrevistas, esperar ansiosamente por uma resposta, se você for muito azarado, terá que aguardar ainda mais porque ficou na lista de espera de sua primeira opção, entrar para uma faculdade, procurar um grupinho, escolher entre o campus, república ou se seus pais irão lhe dar uma casa para morar, trabalhar em algum comércio local meio período, perder cabelo com as provas semestrais, se divertir nas festas de fraternidade, mas nunca demais para prejudicar suas notas, chegando ao último ano, escolher a empresa vítima onde você deseja ir após terminar a faculdade, dar seu último suspiro de liberdade na época das provas finais, festejar quando elas acabarem e ir para uma formatura que você aguardou durante quatro anos mas que dura só quatro horas, e fim. Você é um assalariado normal como qualquer outro que vai entrar em um mercado de trabalho difícil e que verá que a faculdade não lhe fez diferença em nada – ela não parecia ter perdido o fôlego. Pegou a taça e olhou para mim – Você tem diploma universitário?
— Não – respondi imediatamente.
— Viu? – disse para sua mãe, com um sorriso sínico – E vejam que vida horrível ele leva sem um diploma.
Sua mãe e padrasto ficaram constrangidos e Ana perdida, acho que ela a viu descrever sua vida pré-universitária à pós-universitária. Mia gargalhou deliciada com aquilo, não prestei atenção nas outras expressões, eu só ri discreto, mas escondi o riso com a taça de vinho. Era por isso que ela não costumava falar e não mesmo me condenando, eu queria ouvi-la falar ainda mais.
— Desculpem, ela tende a ser irritante a maior parte do tempo – disse Nicole muito corada.
Depois disto Violetta não disse mais nada, ficou quieta comendo, foi a primeira a acabar e para se distrair mais uma vez ficou observando o cômodo. Todos terminamos e comemos a sobremesa então voltamos a sala, onde Gail nos serviu chá e café. A conversa até que não foi ruim, aquela noite se tornou melhor do que eu esperava. Allan era interessante, embora aviões e helicópteros fossem nosso único interesse em comum, era difícil achar alguém que compartilhasse deste hobby então se tornava um assunto que adorava, mas que pouco podia trocar ideias, contudo ele tinha conhecimentos amplos sobre isto.
— Onde está Violetta? – Nicole perguntou me tirando do assunto
— Não vi Violetta.
Ela havia se separado de nós e nem havíamos percebido, ou será que nem havia vindo para a sala conosco?
— Ela adora sumir.
— Não se preocupe, deve estar no jardim ou algo do tipo. Para uma adolescente ouvir nossas conversas deve ser bem tedioso – tranquilizou minha mãe, mas eu tinha um mau pressentimento.
— Preciso fazer uma ligação – me levantei do lado de Ana, que me olhou incrédula – Já volto, é rápido e se encontrar Violetta digo que estão a procurando.
— Afinal ela faz tudo por você – Elliot me provocou, com um fato do passado, que só quem conheceu Violetta na infância sabia.
— Elliot, por favor – pediu meu pai, mas eu não liguei, era impossível que isso ainda existisse.
Quando sai do campo de visão dos que estavam no cômodo acelerei o passo e subi as escadas para o próximo andar. Parei em frente à porta do quarto de jogos, eu não a trancara depois de sair mais cedo do que pretendia, após minha discussão com Ana aquela tarde. Segurei a maçaneta e a girei, a porta se abriu, só um pouco, eu não ouvi nada vindo de lá, fiquei tranquilo, mesmo com a luz acessa, eu também a deixara acessa, entretanto um som de vento veio a meus ouvidos, abri a porta com rapidez e encontrei Violetta brincando com um chicote, o balançando e cortando o ar com ele.
— O que você faz aqui?!
— Christian, nunca imaginei que você pudesse gostar destas coisas – ela não se espantou com minha presença e continuou a balançar o chicote.
— Por favor, saia.
— Que hospitalidade – deixou o chicote na cômoda e veio até mim.
— Quanto você quer? – perguntei ao trancar o quarto após termos saído.
— Nada.
— Pago qualquer coisa.
— Não quero nada.
Me deu as costas e foi em direção a escada. Eu queria interrogá-la, deixar bem claro que faria tudo para que ela ficasse de boca calada, cheguei a acelerar o passo atrás dela, mas ela também era rápida e quando vi estávamos já a porta da sala, e eu tive que parar e fingir tranquilidade, mesmo estando suando frio. Não conheço essa garota, ela pode contar por simples diversão, anunciar meu fetiche em meio a minha família, provocar um constrangimento monumental a mim e principalmente a Ana. Ela se sentou em uma poltrona e ficou calada, eu fui ao lado de Ana, a todo momento a olhando, mas ela me ignorava, olhava para tudo menos para mim, propositalmente. Sua mãe falava sobre qualquer coisa, eu não prestava atenção, só estava atento e notei quando ela se preparou para interrompê-la.
— Vocês não sabem o espanto que tive ao acidentalmente entrar em um quarto lá em cima – logo senti temor no que ela poderia dizer de forma tão imprudente. Ana percebeu e acho que ela decifrou que Violetta deveria estar se referindo ao quarto de jogos – Tem um quarto com uma vista incrível. Jamais pude crer que em Seattle pudesse ter paisagens bonitas – respirei e ela não pareceu ligar para mim, ainda era ignorado. Senti Ana respirar aliviada, enganada ao achar que ela não fazia ideia do quarto de jogos.
— Seattle é uma ótima cidade, você nasceu aqui – Elliot disse, ele era um apaixonado por nossa cidade.
— Não posso dizer com certeza que nunca gostei daqui, só que já tem certo tempo que Seattle se tornou um dos lugares que não gostaria de visitar.
— Por isso nunca mais veio?
— Não. Tinha aulas importantes que não poderiam me fazer dar ao luxo de me dar uma semana de folga para vim. E durante as férias adoro aprecia-las explorando um país novo. Além disso, Seattle sempre me pareceu tão escura, tão sem vida, tão... cinza – olhou-me pela primeira vez desde que voltou a se juntar a nós, abandonando sua exploração curiosa pelos cantos mais secretos de minha casa.
— Qual sua idade? – perguntei.
— Você deveria saber. Me viu nascer.
— Por que deveria? Você não sabe a minha.
— Trinta e quatro. Nasceu dia 18 de Junho de 1983.
— Nossa... – ri pela primeira vez desde que retornei à sala – Assim você me fez parecer ignorante – Desc...
— Dezesseis – me interrompeu e aquilo me deixou visivelmente surpreso, porque ninguém me interrompia – Eu tenho dezesseis, Christian – meu nome saiu como uma nota musical de seus lábios – Minha mãe disse quando me apresentou a sua esposa. Logo que chegamos. Mas por que deseja saber?
— Não é grande o suficiente para afirmar que já viu tudo do mundo.
— Não em idade, mas em experiência sou mais velha que algumas pessoas desta sala, com certeza. Não você, outras pessoas.
Tudo o que ela me dizia parecia ter um significado oculto, algo escrito nas entrelinhas, implícito secretamente em suas palavras. Seu olhar também me mostrava isso e nossa, os olhos dela parecia ficar mais bonitos a cada minuto. Não é uma beleza que se enjoa. É uma beleza em constante metamorfose. Ela não disse mais nada depois daquilo, sua última frase mostrou ter deixado sua mãe nervosa e ela, assim se apoderou da atenção contanto histórias tolas sobre problemas na sua viagem a África, onde comprou tudo para poder redecorar a casa. Quando foi embora, ela se despediu tão friamente que eu fiquei chateado, pois ela queria dizer algo para mim, eu senti. Assim como sentia a mão firme de sua mãe a puxando, Nicole sorria e acenava, mas uma das mãos segurava com firmeza o braço de Violetta. Se alguém notou, ignorou e não comentou nada perto de mim. Minha família nunca gostou de Nicole e estávamos agradecidos por podermos ter cortado contato com ela anos atrás, agora ela voltara e infelizmente Gustave não estava ali para proteger a filha da mãe maluca.
Ao terminar meu banho vesti meu pijama de seda pura, normalmente dormia somente com a parte de baixo, mas como normalmente não temos feito mais sexo, nem nada parecido, tenho preferido dormir coberto por completo. Ana estava já na cama, lendo um projeto de livro cujo tema era uma autobiografia fictícia de um idoso que na juventude fora integrante da máfia russa. Pelo visto era um bom livro, já que Ana diariamente dedicava seus últimos minutos antes de dormir em lê-lo. Me deitei ao seu lado e peguei meu iPad, comecei a ler o scanner de um contrato sobre uma associação com uma empresa de médio porte de Portland.
— Christian.
— Sim?
— É verdade que Violetta era apaixonada por você? – me sentei rapidamente na cama, e Ana também.
— Quem te disse? – imediatamente larguei o iPad na cama.
— Mia. E o Elliot confirmou.
— Sim, mas isso foi a anos atrás. É impossível que ela ainda goste de mim.
— Como alguém pode não gostar de você? – passou a mão em meu rosto – Você é perfeito.
— Sou velho, ela tem menos da metade da minha idade. Para uma adolescente, mesmo tendo essa aparência, sou velho demais.
— É bom que seja assim. Senão iria ficar cheia de ciúmes.
— Além do mais ela não demonstrou nada esta noite.
— A maneira como ela fala o seu nome, a voz dela mudou quando disse seu nome.
— Somente a maneira dela falar. A voz dela também muda quando fala com a mãe.
— Tem razão. Besteira minha achar que pudesse ainda haver algum tipo de sentimento.
— Boba – enrosquei meus dedos em seus cabelos – Mesmo se tivesse eu só tenho olhos para você.
Demos um beijo casto e ela voltou a seu livro, acabei por voltar ao meu documento também. Agora era sempre assim, essa frieza, essa falta de sentimento e excesso de seriedade. Sinto falta de antes. Nossa crise começou a quase um ano, quando o trabalho na editora ficara muito intensivo e as crianças passaram a viver cada vez mais apegadas a mãe, porém ainda assim ela dedicava-se fortemente ao trabalho e a casa. Eu agora, estou constantemente em segundo plano.
No dia seguinte, em uma quinta-feira, ao voltar do escritório vi o carro de meus pais estacionado junto ao de Ana e ao da babá. Taylor parou ao lado deles e descemos, eu logo fui até a cozinha onde ouvia o som das crianças brincando. Ela estava bem melhor que ultimamente, minha mãe não era do tipo que se abala facilmente, era uma mulher forte, então vê-la daquela maneira de dias atrás me chocou enormemente, mas hoje era diferente.
— Olá, querido – ela me abraçou e me deu um beijo – Eles estão agitados.
— Eu sei, mas a noite dormem igual a anjinhos.
— Querida... – ela havia se virado para a mesa onde estava sua bolsa, e uma outra cuja dona não conhecia – Nossa. Onde ela está?
— Quem?
— Violetta. Estava ali agora mesmo.
Quando minha mãe a anunciou mais uma vez em visita a minha casa, eu gelei. Violetta havia sumido então logo dei uma desculpa e corri para o quarto de jogos, para meu alivio a porta estava trancada, mas não duvido que ela tenha vindo aqui tentar abrir a porta. O importante era que ela não havia conseguido mais uma vez meter o nariz no quarto mais privado de toda a imensa casa. Ouço então um som vindo do quarto ao lado, o terceiro andar, onde fica o quarto de jogos, não tem quartos, só salas como escritório e outras coisas. Fui a porta de meu escritório e ouvi que o barulho vinha de lá, abri a porta e a vi brincando com meu helicóptero de controle. Ela me olhou tão despreocupada que parecia não estar fazendo nada demais, como vasculhar minha casa, invadir meu escritório e mexer nas minhas coisas.
— O que você pensa que está fazendo? – rosnei, mas ela não se importou.
— Fugindo do convívio social. E você?
— Vendo quem está sendo completamente sem educação em invadir quartos na casa de alguém que não tem intimidade nenhuma.
Andei em passos largos e pesados até ela e tomei o controle de sua mão, o avião desestabilizou e caiu, mas não quebrou, peguei-o e pus onde estava, em minha estante junto a todos os outros, acho que passei de certa forma a colecionar aeromodelos. Me virei e ela está ali, parada de braços cruzado. Estava perto da janela onde entrava o sol, para assim o avião poder funcionar e como no dia do enterro de seu pai, o sol atravessava sua roupa, um vestido tão leve quanto aquele, mas era verde água. Entretanto, hoje com o sol ele estava quase transparente, era a visão perfeita de sua silhueta, suas pernas, suas coxas. Ela mexeu os quadris e olhei para seu rosto, ela notara que eu a olhava e parecia estar apreciando, pois um leve sorriso se formava em seu rosto.
— Saia daqui agora – disse sem levantar a voz, mas ainda assim firme.
— Que falta de hospitalidade.
— Todos estão lá embaixo – ela se virou para a janela e ficou olhando – Ande.
— Gosto desta vista.
Perdi minha paciência e fui até ela, a segurei pelo braço e a fiz se virar para mim. Ela me olhou nos olhos em puro desafio. Desafiando-me a expulsá-la dali, me provocando com aqueles olhos castanhos como chocolate igual ao cabelo dela, mas com risquinhos verdes que saiam de suas pupilas e traçavam caminhos para as beiradas de sua íris, como uma supernova que explodia em seus olhos iluminando todo o universo. Ela tinha um olhar firme, um olhar que me irritava. Eram olhos que eu nunca vi, nunca consegui presenciar um olhar como aquele. Eles eram voluptuosos, desafiadores, dissimulados, como os olhos de um louco, mas no rosto de uma virgem, entretanto ela era bonita demais para ser virgem, Ana também era quando a conheci e me enganei.
Aqueles olhos grandes, com cílios longos e grossos rodeados por olheiras arroxeadas tanto em cima quanto em baixo, as olheiras aprofundavam seus olhos e a maquiagem que parecia ser de depois de um longo sono se esfumaçava naturalmente, um olhar sujo e acima dele, um par de sobrancelhas muito escuras de fios grossos, arredondadas que iam do alto de seu nariz ao lado externo de seus olhos. No dia em que eu fiz fotos para o jornal da WSU, eu e Ana saímos, na volta ela quase foi pega por uma bicicleta e seus olhos gritavam “Me beije!”. Os de Violetta sussurravam roucamente “Te desafio a me beijar” para mim, um desafio sempre foi mais difícil de recusar que uma súplica.
Foi rápido, quando vi, já estava com a minha língua invadindo a convidativa boca dela. Seu gosto era ardente como menta, sua língua macia e decidida, eu a prendi contra a parede, meu corpo emoldurando o dela, pus minha mão esquerda em seu seio direito, era duro e firme. Senti sua perna esquerda se levantando e seu pé alisando minha panturrilha. A mão que segurava sua cintura desci até sua bunda, ela levantou sua saia e eu segurei mais firmemente sua bunda. Minha nossa, ela não estava usando calcinha.
Pele a pele, eu a explorei, ali em baixo era tão quente que podia sentir uma onda de calor. Passei o dedo levemente, não mostrando represália, enfiei meu dedo indicador, não era mais virgem, logo em seguida pus o anelar e fiquei metendo meus dedos, com minha ereção crescendo e então para uma surpresa maior que tudo, ela pôs a mão em meu peito. Quase que instintivamente recuei, mas não o fiz, o toque dela era bom, era como uma pequena eletricidade massageando meu peito. Sua outra mão foi a minha nuca, aprofundando o beijo, esfreguei minha ereção em sua barriga. Queria foder ela, ali mesmo, daquele jeito, em pé, com nossas roupas ainda no corpo, mas fui interrompido por um choque, por uma dor afiada em minha boca, ela mordera minha língua de propósito.
Estático olhei para ela, mas ela fingiu que não estava ali e saiu, em passos calmos e leves, até a porta, me deixando ali, excitado para cacete, com sangue na boca e um peso enorme na consciência, quando pus a mão na boca, para sentir o prazer da dor da mordida e a ardência de seu beijo, vi em minha mão esquerda minha aliança. Puta que pariu! Como uma idiotice total, durante dois minutos, esqueci que era casado.
— Sr. Grey? – ouvi Gail me chamar e enfiar a cabeça através da porta aberta – Sua esposa está lhe procurando.
— Claro, claro – um medo me veio. “Será que ela viu Violetta sair?” Quando fechei a porta do escritório esperei que ela viesse comigo, mas ela seguiu para o outro lado — Não vem, Gail?
— Fui convocada a achar a Srta. Werther. Ela simplesmente sumiu – pela sua expressão de descrença, não parecia ter visto ela sair de meu escritório.
— Não perca seu tempo com isso. Logo irá aparecer.
— Claro senhor, mas sua mãe está desesperada – se mostrou desconcertada em não fazer o que eu disse, mas parecendo determinada em achar aquela garota. Pelo visto já a estava procurando fazia tempo.
Não disse mais nada, acenei a cabeça e continuei rumo à onde todos estavam. Nicole estava cochichando com o marido, provavelmente sobre onde estava a filha, mas todo o resto parecia tranquilo. Eu vi Ana com Phoebe no colo lhe dando suco, ela me olhou e sorriu, mas seu sorriso desapareceu, ela passou Phoebe para minha mãe e veio até mim.
— O que aconteceu? Você parece tão triste – sua preocupação só me fez piorar.
— Nada. Não aconteceu nada.
— Sua boca – exclamou em voz baixa, tremi – Está com sangue – ela pegou um guardanapo na mesa.
— Sim – limpei e realmente estava sangrando muito – Estava falando no telefone e mordia a língua – a rapidez com que meu cérebro elaborou está mentira me espantou, Ana riu, um riso que fez a pedra em minha cabeça sumir por uns segundos e depois voltar ainda mais pesada – Por que está rindo?
— Jamais imaginei que Christian Grey pudesse morder a língua – ela olhou para trás de mim e pareceu aliviada – Que bom que apareceu, sua mãe estava preocupada.
Com um frio na espinha, me viro, Violetta aparece do meio da campina com os cabelos arrumados, diferente de como os deixei, mas estava com os lábios vermelhos, iguais aos que ficam em bocas de mulheres após um beijo maravilhoso.
— Quando sua mãe é maluca, você precisa ficar longe – disse a Ana quando passou por nós e foi até a mãe, que lhe deu uma bronca silenciosa, não querendo chamar a atenção.
Me peguei a olhando, mas logo desviei e fui ao banheiro, tomar um banho, tentar me purificar do que acabara de fazer, mas a cada gota que caia sobre mim, maior meu pesar ficava. O pior é que ainda estava excitado com o que acontecera. Ao sair me vesti com algo leve, uma roupa que não tivesse o toque dela. Logo me veio o pensamento de que se ela entrar agora pela porta de meu quarto e se oferecer, eu iria aceitar.
Desci até a sala onde Ana fazia companhia a Nicole e seu marido, vi de relance o vestido verde de Violetta passar pelo corredor e me contive em ir atrás. Ana sorriu para mim e eu sentei ao seu lado, e passamos os três a ouvir uma das muitas histórias de Nicole sobre curiosidades vistas em suas viagens pela Ásia e África, seus destinos favoritos.
— Nicole. Vamos – chamou Violetta na soleira da porta.
— Claro. Desculpe, querida. Temos um compromisso. Vim aqui só para buscar o celular dela mesmo.
— É sempre bom vê-la.
Todos nos despedimos e eu, ao ficar frente a frente com Violetta, fiquei observando qual seria sua reação e me surpreendi em como ela poderia ser tão cínica. Me ignorou e saiu compassadamente junto a mãe e ao padrasto até o carro. Se não fosse a mordida que me dera, eu até poderia acreditar que havia imaginado tudo.
— Fiquei surpreso com a visita – comentei com Ana.
— Violetta não achava o celular. Já o tinha dado como perdido então lembrou de ter deixado aqui quando veio.
— Alguém achou?
— Ela mesma achou.
Para mim parecia mais uma desculpa para vim aqui, mas eu não disse nada.
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