Cinquenta Tons de Violetta
18 Capitulo 18 - Garota Trapaceira
Notas iniciais
Duas semanas depois, o frio em Seattle estava insuportável e ainda não era nem inverno, mas as pessoas já evitavam ficar na rua após o pôr do sol, entretanto naquele dia era diferente. Mia e Ethan haviam convidado toda a família para um jantar especial na casa deles, disseram que quem faltasse jamais seria perdoado. Ethan era um rapaz tranquilo, mas eu conheço Mia desde sempre e sei que ela pode ficar bem ressentida com as coisas. Sai de meu carro e corri para a porta, toquei a campainha e enquanto esperava me encolhia dentro do meu casaco.
Ethan abriu a porta e pegou meu casaco para guardar no armário, ele parecia radiante aquela noite e logo me ofereceu uma bebida, eu aceitei um vinho para esquentar. Na sala Ava bebia um chocolate quente enquanto via desenho na televisão, pelo visto Ana e as crianças ainda não haviam chegado. Logo a campainha tocou e eu como já estava ali atendi, eram meus pais, ambos também pularam para dentro fugindo do frio.
— Estamos atrasados? – perguntou meu pai enquanto tirava o cachecol.
— Não, acabei de chegar.
— Mãe! Pai! – Mia veio saltitando até eles – Que bom que chegaram. Agora só falta Ana e então vamos poder servir o jantar.
Menos de cinco minutos depois eu estava na bancada da cozinha bebendo vinho com Elliot e Ethan quando ouvimos o som da campainha e logo depois a voz de crianças, pelo visto Ana havia chegado. Mia entrou na cozinha e fez nos três levarmos a comida até a mesa da sala de jantar, cuja lareira estava acesa e a melhor louça servia a mesa. Elliot e eu nos olhamos, Mia estava aprontando alguma coisa. Sentei ao lado dos meus pais, Ana estava do outro lado da mesa, a todo momento nos olhávamos, mas ela logo desviava o olhar e ruborizava.
Depois do jantar as crianças foram para a sala assistir televisão com taças de salada de frutas enquanto Mia ia fazer um café e Ethan retirava a mesa com a ajuda de Kate e Ana.
— O que será que ela está aprontando? – Elliot me perguntou.
— Parem de implicar com a irmã de vocês – minha mãe a defendeu.
— A senhora sabe o que é? – perguntei.
— Estou começando a desconfiar.
Já com todos de volta a sala de jantar, Mia cochichou algo no ouvido de Ethan que respondeu baixo, mas o suficiente para que eu ouvisse.
— Acho que é a hora.
— Vocês devem estar se perguntando o motivo pelo qual convidei a todos – ela estava em pé, com a mão apoiada na cadeira, Ethan estava ao seu lado com o braço em volta da cintura dela – Na verdade queríamos ter contado desde do início do jantar, mas não sabíamos bem como – eles se olharam e sorriram – A alguns dias eu descobri que... – ela sorriu com tanta alegria que não conseguiu falar – ...bem, eu estou grávida.
Depois do anuncio foram gritinhos de alegria de Kate e Ana, minha mãe pulou da cadeira e abraçou a filha com força, meu pai esperou que a esposa terminasse de apertá-la para desejar parabéns.
— Quanto tempo? – perguntou minha mãe alisando a barriga dela.
— 5 semanas.
— Que maravilha! – Kate apareceu ao seu lado e deu um beijo no rosto de Mia – Vamos ser tias – disse ela para Ana.
— Já sabem os nomes que querem dar? – Ana adorava escolher nomes, quando engravidou todo dia me mostrava cinco novos nomes.
— Ainda não – Mia segurou a mão de Ethan – Ainda nem sabemos direito o que fazer, por onde começar. O que fazemos primeiro? – se virou para nossa mãe — Comprar berço? Pintar o quarto? Comprar fraldas?
— Primeiro você precisa se cuidar e descansar.
As mulheres foram para o quarto de hóspedes, conversar sobre o que seria preciso fazer para acomodar um bebê, esqueceram o café e nos, homens o bebemos ainda na mesa.
— Ethan – começou meu pai após um belo gole de café – Eu realmente poderia lhe fazer um discurso sobre paternidade, mas na realidade ninguém pode prepará-lo para a benção de ter um filho. Esqueceria totalmente dos nove meses de ensinamento e conselhos no momento em que o visse em seus braços, e a sensação imediata de amor e medo que e ter uma pequena vida que depende inteiramente de você. É a melhor sensação do mundo.
— Pai, você vai assustá-lo – avisou Elliot.
— Foi o que eu disse para você e ainda assim você chorou quando Ava nasceu.
— Eu não chorei – Elliot ergueu a cabeça – Estava com alergia – respondeu sorrindo.
Naquela noite eu não pude conversar com Ana, aliás, depois da notícia nem me lembrei que pretendia fazer isso. Poderia ligar, mas depois da nossa recaída no escritório decidi que seria mais cavalheiro conversarmos pessoalmente.
Enquanto olhava para o horizonte pela parede de vidro do meu escritório minha secretaria anunciou que minha irmã estava querendo conversar comigo. A porta se abriu e eu vi que minha irmã não estava sozinha, com ela, carregando sacolas de lojas infantis, estava Violetta com um belo sorriso no rosto.
— Oi – disse Mia como se estivesse cantarolando – Vim aqui para lhe pedir algo importante.
— Claro – me levantei, tentando ignorar Violetta que estava sentada no sofá – O que você quiser.
— Sei que Ethan deveria fazer isso, mas conversamos e ele foi quem decidiu, mas ele está trabalhando e eu não consegui esperar – adorava como Mia fazia pose, como se estivesse discursando em frente a uma grande plateia, quando ia falar algo importante – Queremos que você seja o padrinho do nosso bebê.
— Mia! Nossa, é uma honra – a abracei.
Eu era padrinho de Ava junto com Ana, e Kate e Elliot eram padrinhos de Ted, Mia e Ethan de Phoebe. Acho que o apadrinhamento seria algo família, ou não.
— Adivinha quem será a madrinha – disse Violetta sorrindo.
— Você? – perguntei incrédulo.
— Sim, eu a convidei e ela aceitou. Algum problema?
— Nenhum, mas eu achei que você escolheria Ana.
— Christian – Mia levantou a mão – Primeiramente, não é muito educado discutirmos isto assim na frente dela...
— Sem problema, podem conversar – Mia olhou de maneira repreendedora para Violetta.
— Segundo, eu realmente não quero brigas por causa do relacionamento de vocês. Eu gosto muito dela, ela é como uma irmã e depois de muita dor de cabeça e desejo de manter uma relação amistosa com todos, eu decidi deixar de tentar entender o que aconteceu.
— Desculpe, claro que é indelicado, você é a mãe e a decisão é sua.
— Obrigada por compreender – bateu palmas – Agora precisamos ir.
— Isso mesmo, vamos comprar roupas para Brandon ou Elisa – Violetta pulou do sofá e pegou as sacolas de compras.
— Brandon ou Elisa?
— Sim, ela já decidiu os nomes – explicou Mia – Mas é melhor que antes, ela estava chamando de Feijão.
— Claro – Violetta se virou para mim e explicou – Neste período da gestação o bebê parece um feijão – Mia riu.
— Ainda não sei se gosto dos nomes, mas é melhor assim. Não quero andar na loja com ela perguntando se eu acho que o Feijão vai parecer comigo ou com Ethan.
Também ri, aquela garota era única e parecia mais bem humorada do que da última vez que eu a vi. Quando Mia me deu um beijo no rosto de despedida ela fez o mesmo, mas me deu um beijo na boca e disse que eu fico uma delícia de terno.
— Christian, antes que eu esqueça, você viu a People desta semana? – sussurrou no meu ouvido – Acho que deveria dar uma olhada.
Aquela garota sabia plantar a semente de maldade e desconfiança nas pessoas. Naquele dia eu me segurei para não ir em uma banca e comprar a People, mas no dia seguinte, quando fui a minha consulta com Flynn eu vi uma mulher lendo a People, peguei uma moeda esquecida no chão e a rodei nos dedos para tentar desviar minha atenção. Quando um jovem com uniforme escolar saiu da sala a mulher se levantou, deixou a revista na mesinha de centro e eles foram embora.
Espiei a data na capa, era a revista da semana, que merda, consultórios médicos normalmente tem revistas de dois anos atrás, porque este tinha que ter uma recente? Olhei para a secretaria, ela estava marcando uma consulta pelo telefone, eu peguei a revista e a folheei, chegou uma matéria sobre a sinfônica. Passei as fotos até que vi em um pequeno quadrado, Ana e Simon, lado a lado, sorrindo um para o outro sem perceber a câmera.
— Senhor Grey – a secretaria estava do meu lado, deve ter me chamado algumas vezes antes de sair da sua mesa para me chamar – O Dr. Flynn está lhe esperando.
Levantei rapidamente e abri a porta do escritório, era educado demais para bater à porta, embora quisesse.
— Algo errado? – perguntou assim que me viu.
Joguei a revista na frente dele, na página da foto, ele olhou bem para a foto e depois para mim.
— Creio que isso explica – me joguei na poltrona – Pensei que estivéssemos progredindo.
— Mas isso foi antes da “recaída” – Flynn fez as aspas com os dedos – Deve considerar isso.
— Foi na mesma noite em que tivemos aquela conversa sobre nosso relacionamento.
— Também foi naquela noite em que Ana e Violetta brigaram, e Ana ainda assim não ficou ressentida com você.
Cruzei os braços, odiava quando ele tinha um bom argumento.
— Christian, você não é de ler revistas de fofoca – Flynn entrelaçou os dedos – Por que estava vendo justo essa?
— Me falaram para ver.
— Quem?
— Violetta, eu a vi ontem.
— Pensei que tínhamos combinado de tentar periodicamente um afastamento.
— Ela apareceu com Mia no meu escritório. Mia me convidou para ser padrinho junto com Violetta.
— Mia está grávida?
— Sim, contou a todos alguns dias atrás, me esqueci de lhe dizer.
— Acho que você não gostou muito de Violetta ser madrinha, também acho que você preferia Ana.
— Sou tão transparente assim? – perguntei rindo.
— Acho que deve considerar o tempo em que eu te conheço – ele também riu – Modéstia a parte, também sou um bom psicólogo.
— Mas é sobre isso – apontei para a revista com a ponta do nariz.
— Se quiser ter Ana, deve reconsiderar algumas coisas.
— Então eu devo esquecer isso?
— Exatamente, e não leve a sério o que essa garota diz, ela quer justamente isso. Causar desavenças que compliquem a sua relação com Ana.
No meu escritório, apôs a consulta eu fiquei brincando com a chave do apartamento dela na minha mão. Se eu quisesse terminar o primeiro passo seria devolver a chave, mas devolver a chave também significaria cortar relações e embora eu não amasse Violetta eu tinha um carinho muito especial por ela. Pode parecer impróprio, mas ela se tornou uma amiga, uma amiga muito querida. Ela é engraçada e autêntica, viveu muitas tragédias, mas ainda assim é a pessoa mais otimista que eu conheço. Ela é determinada e a maior prova disso foi que ela conseguiu o que queria, eu, durante esse tempo tentei culpá-la, mas agora vejo que não foi culpa dela, ela me deu a oportunidade e eu escolhi. De qualquer maneira, que culpa tem o vento pela bagunça se fui eu quem deixei as janelas abertas?
As duas da tarde eu teria uma importante reunião, então resolvi que apôs seu término eu sairia e visitaria Violetta. A reunião terminou por volta das quatro, minha secretaria já estava com meu casaco na mão me esperando fora da sala, nem precisaria voltar para buscar, junto com meu casaco ela entregou uma pasta para documentos que eu deveria verificar e então assinar. No caminho, enquanto Taylor dirigia eu analisava minuciosamente cada linha. Estávamos em um engarrafamento no centro da cidade então eu aproveitava meu tempo para analisá-los.
— Senhor Grey – Taylor me chamou, ele apontou com o dedo para o lado direito do carro, em direção a um grupo de pessoas que assistia uma apresentação de rua, sentada na beirada de uma fonte estava Violetta que apreciava a apresentação.
— Ficarei aqui, qualquer coisa te ligo.
Sai do carro e apertei o cachecol no pescoço. Um grupo tocava algum tipo de música havaiana, os integrantes usavam roupas rosa e barba grande, um tinha um black power loiro, usavam bermuda rosa-choque, via na bateria o nome Beach Crumbers. Violetta não me notou, ela estava muito encantada com tudo, tanto que nem o frio lhe abalava, embora seu rosto estivesse branco como mármore, ela parecia bem aquecida em seu conjunto totalmente preto, seu sobretudo revelava uma meia-calça listrada preto e branca, e botas velhas de fivela.
— Gosta desse tipo de música?
— Nossa, você me assustou;
— Desculpe. Mas me responda, gosta?
— Adoro qualquer tipo de música – olhou em volta – Aqui por exemplo, é só um momento banal, duas pessoas em uma praça conversando, mas quando tem música a vida se enche de significado. Ela nos incentiva a viver o momento, porque momentos especiais como esse nunca duram para sempre.
Sorri com sinceridade, ela é apaixonante por sua maneira enigmática, não de uma maneira sexual, ela era o tipo de pessoa que nós desejamos ficar do lado só para sentir sua presença e admirar aqueles olhos coloridos que refletem uma luz intensa e única.
— E o senhor, o que faz assim?
— Estava indo até seu apartamento.
— Que bom que me encontrou, senão você teria que esperar ao lado de Ivana. E você sabe como ela te adora – disse sarcasticamente.
— Antes de mais nada quero falar que não gostei de você ter me dito para ler a People.
— Mas você leu – afirmou.
— De qualquer maneira me respeite.
— Falando em respeito – ela se aproximou, senti a chave de seu apartamento queimando dentro do meu bolso, precisava devolvê-la – Tenho sido uma menina tão má, acho que mereço uns tapas – ela se aninhou em meus braços.
— Olha quem está pedindo tapas, aquela que recentemente bateu em uma pessoa sem motivo algum.
— Não se preocupe – colocou as mãos dentro do meu casaco, elas estavam geladas – Ultimamente minha raiva tem sido descontada em objetos inanimados. Mas e então, vamos para o Escala?
— Você não deveria estar fazendo outra coisa? – observei a minha frente duas jovens passarem com moletons da Universidade de Seattle, a mesma em que Ana se formou – Como se dedicar em entrar na faculdade que você quer, por exemplo. Está no último ano, tenho certeza de que a maioria dos seus colegas de classe está fazendo isso.
— Eu não quero ir para a faculdade.
— Por que você não se importa com nada? – olhei para ela, estava olhando para o baterista.
— Quisera eu não me importar com nada. Eu vejo as opções de curso e fico perdida, são tantas coisas, e se eu me arrepender?
— Procure algo que você realmente queira fazer.
— Mas esse é o problema, todos do meu ano já sabem o que querem, quando me perguntam eu não respondo, e eles pensam que eu não quero ser nada, mas eu quero ser tanta coisa.
— Como o quê? – sem que percebesse eu estava abraçando ela.
— Eu quero ser atriz, professora, veterinária, também quero ter uma floricultura e ser colunista de alguma revista. E eu me vejo sendo feliz em todas essas profissões, mas não tenho coragem de tentar nenhuma delas por medo de me arrepender e ter desejado outra coisa.
— Coragem? Mas você é tão corajosa – beijei sua testa.
— Não sou não – ela olhava fixamente para um lugar do outro lado da rua, era uma sorveteria cujo movimento estava fraco – Sempre quis ter coragem de entrar em uma sorveteria e pedir uma bola de cada sabor, e não ter medo da cara que vão fazer para mim, encher de granulado e comer sem culpa.
— Quando tinha a sua idade eu também fiquei assim, mas essa é uma fase da vida em que tomamos decisões muito importantes, mesmo sendo tão jovens. E quando erramos não decepcionamos só a nós mesmos, mas também a todos os que acreditaram em nós.
— Queria ser como um gato que tem sete vidas, então sempre que errasse teria mais vidas para poder consertar as coisas. Seria tão legal – ela deu um suspiro sonhador – Se eu tivesse sete vidas poderia nascer em sete países diferentes, saber sete idiomas diferentes. Comeria sete vezes mais. Teria sete vezes mais amigos. Poderia ter sete profissões – ela deu um beijo no meu pescoço – Também poderia me apaixonar sete vezes por você. Em cem diferentes vidas, em cem diferentes mundos. Em uma versão diferente da realidade. Eu encontraria e escolheria você.
A abracei também, ela era tão incrível que eu não conseguia abandoná-la, ela precisava de carinho, do meu carinho. Agora me diga, como poderia devolver a chave e cortar qualquer tipo de relacionamento?
Andamos de mãos dadas até o Escala, quando vinha uma brisa fria ela dava um pulo e grudava em mim, mas a caminhada nos aqueceu. Quando chegamos ao Escala a primeira coisa que fiz foi ligar o aquecimento, agora que eu estava morando ali ele parecia mais habitado, diferente de quando eu ia lá só para me encontrar com Violetta. Mesmo sem roupas pelos lados e louça suja na pia, ele tinha uma atmosfera de que alguém morava ali, não era mais um local mantido por puro costume, quando eu fui morar ali anos atrás eu levei quase um ano procurando o lugar perfeito, e não me vi abrindo mão dele quando passei a morar naquela mansão fora do centro.
Também havia muito tempo que não entrava no Quarto de Jogos e ao ver aqueles chicotes balançando com o deslocamento de ar e as algemas brilhando com a luz que eu havia acabado de acender, um formigamento veio da ponta dos meus dedos dos pés, se intensificando no ventre, virando borboletas no estômago e um arrepio nos pelos da nuca. Soltei um longo e delicioso suspiro quando fechei a porta, Violetta já estava sentada na cama.
Quem estivesse dentro do quarto quando acabamos não diria que era um dos dias mais frio de Outono, suávamos tanto que nossos cabelos grudavam no rosto, ela estava de barriga para cima, com o corpo todo marcado, sem poder se mover direito, eu a havia algemado com os braços para trás. Estava em pé ao lado da cama, olhávamos um para o outro, eu gostava como seu rosto ficava rosado depois do sexo, com os beijos seus lábios ficavam inchados e vermelhos. Eu gostava do corpo dela, era um corpo jovem e muito bonito de se olhar, mas não era o que eu queria, eu gostava mais do corpo de Ana. Não me importava com “as marcas” a que ela se referia, como a cicatriz de cesárea que eu me orgulhava, era a marca de nossos filhos. Ela tinha uma cicatriz no joelho que fez quando caiu de bicicleta e eu gostava de beijá-la.
— Pare com isso – disse Violetta.
— Com o quê?
— De ficar pensando nela enquanto olha para mim. Pelo menos me solte.
Fiquei de joelhos em cima da cama e me encaixei entre as pernas dela. Passei as mãos por sua cintura, depois seus seios, eram firmes e macios, fui subindo e coloquei as mãos em seu pescoço, ela tinha um pescoço longo e elegante, mas não tão elegante agora, ainda estava vermelho, era possível ver a marca dos meus dedos, eu gostava de enforcá-la. Ana nunca gostou disso e era algo que eu gostava de fazer com minhas submissas.
Voltei com as mãos para sua cintura e depois para suas costas, abri as algemas. Rapidamente ela enlaçou as pernas na minha cintura e juntos nos sentamos, ela estava me segurando pelas pernas, no meu colo, ela colocou o rosto na curva do meu pescoço e me cheirou.
— Eu gosto do seu cheiro – ela passou o dedo pelos meus lábios – Eu gosto do seu sorriso e também gosto de como você me faz sorrir. Adoro as suas costas e amo seu cabelo. Sua voz é a mais bonita que eu já ouvi e seu jeito de falar me faz sentir segura – ela pegou minhas duas mãos com as dela e as entrelaçou – Gosto das suas mãos e de como elas se encaixam perfeitamente com as minhas. Mas principalmente seu abraço, o lugar que existe entre seus braços quando você me abraça e o lugar mais seguro do mundo.
A beijei, ela era tão doce, não sei porque ela tenta ser tão grosseira com as pessoas. Droga, eu estava novamente caindo em sua teia, me afastei, ela era estranha, as vezes não sabia se ela falava as coisas para desabafar ou para me fazer cair ainda mais de amores por ela.
— Acho melhor você ir.
Violetta se levantou de cabeça baixa, ela abraçou o próprio corpo, parecia envergonhada de sua nudez, ela abriu a porta do Quarto de Jogos e eu soube que ela ia para o banheiro tomar banho no banheiro do andar de baixo. Olhei para minha calça jogada no chão, podia sentir a chave do apartamento dela ali, vesti a cueca e peguei a calça no chão, tirei a chave do bolso e fiquei olhando para ela. Me levantei com determinação e desci as escadas, abri a porta do banheiro sem pensar na privacidade dela, o vapor do banho quente que ela tomou passou por mim como um nevoeiro esbranquiçado. Violetta estava nua, com os cabelos molhados e pingando, apoiava as mãos, uma em cada lado da pia e olhava para o ralo, ela levantou a cabeça e me encarou através do espelho.
— Por que você não me deixa te amar?
Ela se virou e segurou meu rosto e me puxou delicadamente para baixo, pensei que iria me beijar, mas ela tocou sua testa na minha e afagou meus cabelos bagunçados.
— Por favor, diga que me ama. Diga que quer passar o resto da vida comigo.
Com a mão que tinha a chave segurei a dela, apertei e passei a chave para a sua mão.
— Desculpe, eu não posso.
Soltei sua mão e me afastei, ela olhou para a própria mão e quando viu a chave eu vi em sua expressão seu mundo desabar.
— Fique com ela – esticou o braço me oferecendo a chave.
— Violetta...
— Não fale nada, apenas fique com a chave. Eu me sentiria mal e mesmo que você não queira mais aparecer lá, eu me sinto melhor pelo menos sabendo que você tem a chave.
Peguei novamente a chave, nos encaramos e eu vi que ela demonstrava uma enorme tristeza, se seus olhos pudessem falar, o que diriam? Acho que eu não quero saber, ela sabe como me fazer esquecer minhas responsabilidades e deveres, e mesmo estando mais determinado do que nunca, eu preciso esquecê-la.
Na manhã de domingo, ao chegar para buscar meus filhos fui surpreendido por Ana me esperando na entrada, ela estava sem maquiagem, com jeans e tênis, mas ainda assim era de cair o queixo. Quando desci ela sorriu timidamente e me desejou bom dia.
— Tudo bem?
— Sim, está sim – senti um ponto de paranoia, ela não gostaria de saber que eu estive com outra desde que tivemos nossa recaída.
— As crianças estão tomando café-da-manhã.
— Espero aqui fora.
— Não, entre, está frio.
Aceitei o convite e me vi sendo convidado para o que era a minha casa.
— Como vão as coisas? – perguntei por causa do silêncio constrangedor.
— Muito bem, sabe aquele livro que eu estava trabalhando? Aquele sobre um mafioso russo?
— Sim, claro, você passava os dias e noites lendo – depois de dizer percebi que era uma provocação a falta de atenção que ela tinha comigo, que acarretou nesses eventos indesejados.
— Esse mesmo – ela suspirou – Está na lista de mais vendidos.
— Parabéns. Vejo que seu trabalho valeu a pena.
— Obrigada. Tem um tempo que não conversamos.
— É verdade, talvez possamos voltar a fazer isso.
— Seria ótimo – disse com verdadeiro entusiasmo.
Ouvi os passos das crianças correndo, ia levá-los para patinar no gelo, Phoebe estava com um capacete de zebra que combinava com suas joelheiras e cotoveleiras.
— Voltaremos as oito – já estava do lado de fora com as crianças e prestes a fechar a porta quando Ana me chamou.
— Espere Christian! – a olhei, ela parecia nervosa, abriu a boca várias vezes, mas sinto que o que saiu não era o que queria falar – Divirtam-se.
Naquele dia, já a noite no Escala, em minha enorme cama tristemente vazia, antes de dormir liguei para Ana, queria ouvir sua voz, mas ela estava cansada então não conversamos muito. Me arrisquei em pedir um almoço no dia seguinte, ela disse que teria um compromisso, perguntei então por um jantar, ela aceitou e isso me fez dormir mais tranquilo.
No dia seguinte vesti um terno que Ana adorava, uma gravata que ela me deu, e deixei o relógio que Violetta me deu em casa, mesmo que ele combinasse perfeitamente com a roupa, o motivo é obvio. Coloquei outro, não tão bonito, porém mais apropriado para a ocasião. O dia foi quase todo passado contando os minutos para o fim do dia, além de imaginar respostas e possíveis diálogos durante o jantar, eu queria fazer tudo certo, ainda mais agora que parecíamos estar nos entendendo. Iríamos jantar no restaurante do melhor hotel de Seattle e não posso dizer que foi fácil deixar de fazer, além da reserva para o restaurante, também uma reserva para um quarto do hotel.
Cheguei quinze minutos antes e Ana chegou dez minutos atrasada. Não que eu tivesse contando os minutos, mas ela não era de se atrasar e isso me deixou nervoso. Será que ela desistiu? É algum tipo de troco por tudo o que aconteceu? Mas ela veio e eu fiquei tão feliz que nem me levantei de modo cavalheiro para recebê-la.
— Desculpe o atraso, um escritor deu uma crise na editora alegando que tínhamos tirado a essência de sua arte na edição
— O que você fez? – sei que ela adora falar do trabalho, é o orgulho dela.
— Disse para ele procurar outra editora – ela tomou um gole de sua taça de água – Mas tenho certeza que amanhã ele vai aparecer com a desculpa de um astral ruim.
— Aposto que não é a primeira vez que ele faz isso.
— Foi a terceira em menos de dois meses. Alguns escritores são como astros do rock mimados, mas são mais fáceis de se malear.
— Espero que hoje aceite um vinho.
— Acho que sim – ela sorriu – Aliás, estou faminta.
— Fico feliz em ouvir isso. Você está tão feliz hoje.
— Acordei de bom humor.
— Engraçado, eu também, principalmente depois de saber que à encontraria.
Ela fez aquilo, mordeu os lábios daquela maneira inocente e completamente tentadora que só ela conseguia fazer. Sorri também e isso a deixou vermelha, e eu achei graça. Estar ali rindo sem qualquer motivo era divertido, principalmente por estarmos totalmente alheios a tudo e a todos. Fizemos nossos pedidos, logo um belo vinho nos era servido.
— E as crianças?
— Estão bem. O dente de Ted caiu, ele acordou hoje com o dente no travesseiro.
—Nossa, ele está crescendo – lembro de ontem ele ter me mostrado o dente mole.
— Está meio irritado, amanhã é a foto da turma e ele vai sair com um dente faltando. Sabe como ele não consegue segurar o riso quando tira fotos.
— Gostaria de uma cópia, uma foto de Ted sem dente era o que faltava na minha mesa de trabalho.
— Ire providenciar – ela deu um gole de seu vinho – Como ela está?
— Ela? – quis que aquela noite ela fosse esquecida – Bem, meio isolada de tudo e te todos. Mas não vamos falar disso hoje.
— Você fez com ela o mesmo que fez com Leila, a ajudou, é algo que você faria normalmente, apesar de tudo.
— Não está zangada?
— Não disse que não estou – outro gole.
— Vamos falar de outra coisa, qualquer outra coisa.
Antes que percebêssemos havíamos tomado uma garrafa de vinho, e o garçom servia a segunda garrafa. Agora estávamos mais soltos e tinha que me concentrar para dar uma colherada na sobremesa que estava na minha frente.
— Você está tão bonito com esta roupa – colocou o flan sensualmente na boca, talvez de propósito para me provocar.
— Você também, adoro como o verde realça seus olhos – estiquei a mão para segurar a dela, ela aceitou, não afastou a mão – Ana, eu te amo, muito.
— Não fale isso – ela tentou tirar a mão, mas eu segurei com mais força.
— Vamos conversar melhor, apenas alguns minutos.
— Em um quarto? – não posso dizer que fui eu quem deu a ideia.
O bom de um hotel daqueles é que podemos rapidamente sair da mesa já com a chave do quarto na mão. Não era o melhor quarto, mas foi o melhor que consegui em cinco minutos sem qualquer reserva. Já no corredor vi como Ana aproximou o corpo do meu, às vezes encostando como se fosse sem querer. Antes de fechar a porta já estávamos nos beijando e eu tive que fechá-la com um chute.
Acordei com Ana se levantando, estava abraçando ela, já estava meio acordado, mas tê-la saindo de meus braços foi como um balde de água fria. Estava no canto do quarto, onde pelo espelho, aproveitei sua imagem para vê-la se vestindo por dois ângulos diferentes. Era impressionante como ela poderia ser tão sexy, seja colocando ou tirando a roupa.
— O que está fazendo? – me sentei na cama, o vinho ainda estava no meu sangue, então eu devo ter balançado um pouco.
— Preciso ir para casa.
— Não quer ficar mais um pouco?
— Christian, você vê como isso é estranho – ela se virou e me olhou divertida – Agora é você quem me quer aqui. Quantas vezes tentei me aproximar de você e você se afastava.
Me levantei meio bambo, queria dizer a ela que ela também me rejeitava, mas sabia que se quisesse que ela me perdoasse não poderia dizer essas coisas. Estava nu e ela já com uma lingerie azul-turquesa, que durante o jantar apareceu durante de relance quando a alça de seu vestido escorregou pelo seu ombro e fez minha virilha formigar.
— A essa hora as crianças já estão dormindo. Ligue para Gail e diga que só chegara amanhã.
— Já falei com ela antes de te encontrar. Disse que provavelmente dormiria fora de casa.
Não pude deixar de sorrir, ela já havia vindo com a intensão de fazermos sexo. Ana se aproximou de mim e alisou meu cabelo, depois meus ombros e então meu peito, não podia deixar de me sentir excitado com ela me alisando. Ela mordeu os lábios daquela maneira que me deixa louco, sua expressão só poderia ser descrita como alguém que está de dieta e entra em uma loja de doces.
— Talvez eu possa ficar um pouco mais – ela foi me empurrando para a cama e sentou em cima de mim.
No dia seguinte, quando eu ainda estava feliz e radiante pela minha noite com Ana eu fui surpreendido por uma visita totalmente inesperada, quando minha secretaria anunciou eu precisei de alguns segundos para pensar se permitiria que ela entrasse, mas acabei aceitando. Quando Nicole entrou na minha sala eu novamente imaginei me encontrando com o futuro, a semelhança entre ela e a filha era impressionante, mas Nicole era triste e ao entrar na sala pareceu trazer junto uma onda de melancolia. Ela se sentou em uma das cadeiras em frente à minha mesa, Nicole estava mais magra, praticamente esquelética, sua blusa de seda azul-claro marcava os ossos pontudos de seus ombros e as maçãs de seu rosto estavam mais salientes do que o normal para uma pessoa saudável.
— Em que posso ajudá-la?
— Preciso da sua ajuda.
— Imaginei algo assim, você jamais viria aqui por simples simpatia comigo – me reclinei na minha cadeira, queria colocar os pés em cima da mesa, mas achei que seria muito estereótipo.
— Por favor – ela deu um longo suspiro e abaixou a cabeça – Não sabe como foi difícil eu vim até aqui.
— Como você está? – me endireitei na cadeira, ela realmente não parecia nada bem.
— Estou levando a vida da melhor maneira possível.
— Tem ido ao médico? – poderia parecer deselegante da minha parte, mas ela pareceu feliz por eu perguntar.
— Ele não é muito bom, os remédios me fazer ficar na cama o dia todo, eu durmo na segunda-feira e acordo na quarta-feira. Não tenho sentimento nenhum quando estou tomando os remédios.
— Talvez deva procurar algo para se distrair. Quem sabe o ballet? Pelo o que me disse você ama ballet – olhei para o corpo dela, ela parecia frágil demais para qualquer atividade, inclusive ballet, Nicole parecia estar prestes a quebrar de tão magra.
— Não sei o que eu gosto de fazer, estou mais focada em cumprir com minhas obrigações básicas, como comer, pentear o cabelo, levantar da cama. Porém não consigo cumprir essas obrigações porque estou desmotivada já que não faço nada que eu gosto, mesmo que eu não saiba o que eu gosto. Então tudo começa a perder o sentido e por isso que eu estou sempre nervosa. Pentear o cabelo, escovar os dentes, colocar uma roupa e entrar no carro foi uma verdadeira tortura. Talvez isso lhe mostre o quanto estou determinada.
— Eu não entendo. O que você quer que eu faça?
— Ela faz tudo o que você manda. Quando eu vou no prédio dela ela não me dá autorização para entrar. E eu duvido que você não tenha acesso irrestrito, provavelmente você até tem uma chave do apartamento – devo ter me entregado com minha expressão fácil, já que Nicole deu um leve sorriso, como o da filha quando coloca alguém contra a parede.
— Se ela não quer te ver então é preciso respeitar. Você não foi uma boa mãe, deve levar isso em consideração.
— O ser humano é falho, eu falhei durante dezessete anos, ninguém nasce sabendo. Então, me deixe tentar.
— Terá que pedir isso a sua filha. Agora se me der licença, tenho uma reunião.
Eu menti e ela demonstrou saber que eu mentia, mas não retrucou. Quando Nicole se levantou da cadeira eu quase fui até ela para ajudá-la, ela realmente estava mal, se desfazendo, mas eu não poderia fazer nada, agora tudo o que eu preciso é ficar longe da filha dela.
Na noite daquele mesmo dia eu fui até a casa dos meus pais, meu pai estava fazendo aniversário e ofereceu um jantar só para a família e amigos mais íntimos. Eu sentia saudade de ir lá, ultimamente tenho estado envergonhado demais para isso e fingia que não ligava, mas quando o assunto é família, no fundo ainda somos crianças não importa o quão velho ficamos sempre precisamos de um lugar para chamar de lar. Porque sem as pessoas que você mais ama, você não pode evitar em se sentir sozinho do mundo.
Mia estava cercada de algumas mulheres que pelo tom de voz deveriam falar de bebês, procurei Ana entre elas, mas não a encontrei, embora meus filhos já estivessem ali mexendo em seus tablets ao lado de Ava e outras duas crianças, filhos de amigos de meus pais. Logo vi minha mãe vindo em minha direção com um enorme sorriso no rosto, teria sido um ato normal, se ela não estivesse segurando um chocalho de prata da Tiffany's.
— Mãe, o que é isso? – perguntei quando ela me soltou.
— É para a Mia que eu e seu pai demos, eu estava mostrando ao Ethan – ela me mostrou o chocalho.
— Não deveria ter um nome gravado.
— Deveria, mas eu não me aguentei e comprei já. Faremos isso quando Mia descobrir o sexo do bebê.
— Mãe – eu precisava perguntar antes que perdesse a coragem – A Ana não vem?
Se eu pensei que minha mãe não pudesse sorrir mais do que ali com sua única filha gravida, estava errado, ela sorriu ainda mais e segurou minha mãe daquela maneira protetora e compreensiva de mãe.
— Eu sabia. Vocês estão se entendendo.
—Mãe – a repreendi, ela havia falado com tanto entusiasmo que algumas pessoas próximas nos olharam – Sim, estamos, mas não é nada oficial. Aliás, onde ela está?
— Kate e Elliot trouxeram as crianças. Ana tinha um compromisso de trabalho, mas logo estará aqui – minha mãe olhou para a porta atrás de mim, sorrindo ela se aproximou e disse como se me contasse um segredo – Aliás, ela acabou de chegar.
Olhei para a porta onde Ana ainda tirava o casaco, quando me virei novamente minha mãe não estava mais ali, ela de maneira surpreendente já estava ao lado de Ethan, chacoalhando o presente diante de seu rosto. Ana arrumava o cabelo que solto lhe emoldurava perfeitamente o rosto, em seu cabelo um prendedor de esmeralda que eu dei de presente para ela no dia dos namorados quando Ted tinha um ano. Ana desfilou discretamente, mas nem por isso menos bela. Imaginei que ela fosse para qualquer lugar, menos para onde eu estava, Ana veio direto na minha direção, olhando diretamente para mim, mostrando que eu era seu alvo. Seus olhos eram gentis, mas intensos, e eles pareciam estar fazendo os meus ossos amolecerem.
— Christian – ela me deu um beijo no rosto, algo menos do que eu queria, mas mais do que merecia.
— Pensei que você não viesse – peguei duas taças de champanhe da bandeja que passava, sendo levada por um garçom – Você está atrasada.
— Eu não estou atrasada – ela aceitou com um sorriso a bebida – Todos que estão adiantados
— Mas o que provocou esse adiantamento de todos nós – ao dizer “nos” fiz menção com a mão para todos a minha volta.
— Precisei ir na gráfica, tivemos um problema de comunicação com uma autora.
— O que aconteceu? – ela me olhou desconfiada e eu sei o motivo, nunca perguntei a ela sobre o trabalho, mas eu estava mesmo interessado.
— Ela queria que seu livro fosse impresso em papel reciclado, mas de alguma maneira esse pedido se perdeu no meio dos inúmeros outros que ela fez, então liguei para a gráfica e eles disseram que já haviam livros impressos. Precisei ir lá e ver o tamanho do estrago.
— Espero que não seja algo considerável.
— Não foi algo considerável, a gráfica aceitou um acordo para cobrir os danos. Mas é claro que sendo que isso não era para acontecer, foi sim algo considerável.
— Então não deveria atender tão facilmente as exigências de escritores que agem como crianças mimadas.
— Não devo, mas quando essa autora é quem escreve o maior sucesso da editora, é preciso algum tipo de consideração e paciência.
— É essa quem escreve aqueles livros da menina que viaja no tempo.
— Ela mesmo, ela era até simpática, mas depois da adaptação para o cinema e a fama mundial ela se tornou bem difícil.
Tomamos um gole de nossas bebidas.
— Gostei muito do nosso último encontro – comentei.
— Eu também, talvez pudéssemos marcar outro.
Fiquei sem ação, está Ana era tão diferente do que eu me lembrava, ou talvez eu que não prestasse atenção. Ao fim daquela noite, quando nos despedimos Ana me deu um beijo no rosto, quase na boca, ela estava jogando e eu entrando no jogo dela. Ela estava sabendo como fazer meu coração doer de saudade e remorso, e parecia feliz com isso.
Quando eu acordei naquele dia eu senti uma sensação horrível, um mal estar no peito, como um sufocamento, mas eu tentei levar o dia normalmente. Eu havia acabado de entrar no meu escritório quando meu celular tocou, era minha mãe.
— Christian! – disse meu nome chorando.
— Mãe, o que aconteceu?
— A Ana, ela sofreu um acidente, está passando na televisão. É o carro dela, eu o reconheceria em qualquer lugar!
Rapidamente peguei o controle remoto do ambiente e revelei atrás de um painel de mogno uma televisão LCD, perguntei o canal da notícia e quando sintonizei ali estava. Era o carro de Ana, completamente amassado por outros dois, mesmo que eu tentasse negar ali estava a placa do carro, os números brilhavam em meio a lataria.
— De acordo com testemunhas o acidente ocorreu por conta do gelo na pista – dizia a repórter – Até o momento temos a notícia de que um dos motoristas morreu na hora, uma mulher ainda não identificada.
Soltei o controle e o celular, eu não ouvi mais a voz desesperada da minha mãe ao ver também a notícia da morte, eu não via nada, o mundo parecia ter perdido a cor e desbotado em dezenas de tons de cinza. Lágrimas silenciosas deslizavam dos meus olhos enquanto eu me arrastei até o sofá para ter apoio, minhas pernas não tinham força, eu queria gritar, mas a voz não saía.
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