Cinco Sentidos
1 Prólogo
Notas iniciais
— Alguns casos são inacreditáveis – Jemma verbalizou o que ela e Fitz pensavam. Ele apenas meneou a cabeça, concordando.
Havia horas que estavam sentados a mesa da sala de jantar do apartamento de Simmons, analisando o Index– um arquivo confidencial contendo dados de pessoas com habilidades especiais, algumas bastante bizarras, além de artefatos tecnológicos curiosos e outros itens supostamente mágicos que eles não faziam ideia da existência até então.
Conhecer os casos sobrenaturais, ler os estudos realizados naquele campo e os relatórios inconclusivos, era o último requisito para garantir seu ingresso em uma divisão especial e sigilosa da SHIELD.
Bem, ainda havia o teste de campo. Ambos sabiam que não iriam passar. Mas não era necessário. Pelas ordens de seu novo diretor (que eles ainda não conheciam) e com a autorização do próprio Nick Fury, Leo Fitz e Jemma Simmons entrariam no time por conta de sua expertise em ciência e tecnologia.
Nada mal para dois gênios precoces que ingressaram na Academia da SHIELD aos dezesseis anos, haviam se formado e vinham trabalhando incessantemente – e sendo reconhecidos pelas suas habilidades – nos laboratórios de pesquisa e análise da super agência de espionagem; fabricando armas, desenvolvendo antissoros e outros artefatos de suma importância para as equipes de operação.
Agora, eles deixariam a segurança do laboratório e partiriam em uma jornada de mistério, integrando uma equipe tática e, embora ainda não conhecessem seus colegas e estivessem receosos quanto a ir a campo pela primeira vez, não poderiam negar que estavam animados.
E impressionados ao tomar conhecimento dos casos do Index.
— Você viu essa? Telecinética – comentou Fitz.
— Sério? Nós sempre dissemos que, embora não fosse cientificamente comprovada a existência de telecinésia, ela era...
— Cientificamente possível – completou o engenheiro. Era um costume deles. Completarem a frase um do outro – eu gostaria de possuir telecinésia. Facilitaria meu trabalho e aumentaria minha produtividade.
— Ugh, Fitz! – Jemma o censurou – isso o tornaria preguiçoso. Imagine? Você trabalharia o tempo inteiro sentado, apenas movendo os objetos com o poder de sua mente.
— Isso está longe de ser verdade. Eu só usaria caso estivesse ocupado demais para me locomover pelo laboratório em busca de ferramentas que não estivessem ao meu alcance.
— Sei. Você tiraria o máximo de proveito de seu poder e se acomodaria. É um fato. Hey, veja! – a bioquímica mudou o rumo da conversa assim que percebeu que ele abrira a boca para replicar – este homem... Ele perdeu o tato. Não tem mais sensibilidade.
— Como isso é possível? – perguntou Fitz, as sobrancelhas arqueadas. De longe, aquele era um dos casos mais bizarros a integrar o Index.
— Aparentemente ele foi vítima de uma experiência mal-sucedida de laboratório. Voluntariou-se para um experimento que deveria torná-lo resistente à alta e baixa temperatura, à dor e à pressão. Porém, acabou por afetar inteiramente sua inteligência corporal cinestésica, o sistema somatossensorial e, principalmente a termocepção...
— E a nocicepção – educamente, ele retirou o tablet que continha os arquivos do Index das mãos dela para poder ler mais a respeito daquele curioso caso – deve ser triste e... Horrível viver assim. Sem captar mais nenhum estímulo térmico, mecânico ou doloroso.
— Em pensar que até mesmo a ausência da dor deve lhe perturbar...
— Sim! Imagine? Ter de ser forçado a se privar do calor, do frio, de um toque, de um abraço...
— De sexo.
A sala mergulhou em um silêncio profundo e Fitz demorou pelo menos meio minuto para erguer a cabeça na direção da amiga e capturar seu olhar. Quando o fez, foi com as sobrancelhas arqueadas e uma nítida expressão de surpresa em seu rosto. Jemma o encarou com um semblante confuso, tentando compreender a razão de Fitz ter ficado sem palavras.
Ele sacudiu levemente a cabeça com uma risada baixa.
— Sério, Jemma? Dentre tantas coisas, você tinha que pensar justamente por esse viés? – Ele não a estava censurando. Pelo contrário, proferiu aquela sentença com um ar de divertimento.
— Ora! – foi a vez de Simmons chacoalhar a cabeça de um lado para o outro, como se o comentário dele a houvesse ofendido – Por que você tem que ser tão pudico?
— Não sou pudico – rebateu ele, prontamente.
— Se essa ideia não lhe passou pela cabeça, então você é!
— Não mesmo.
— Afinal, como eu ia dizendo – ela o cortou – sexo é puro toque. Trata-se mais de tato do que de qualquer outra coisa.
— E eu afirmo que você está errada.
— Não estou! Durante o sexo, os demais sentidos são apenas complementares. No mais, sexo é uma questão de pele. É cinestésico.
— Não, Jemma! Durante uma conjunção carnal, os sentidos atuam todos em consonância. O toque não é o primordial.
A bioquímica revirou os olhos diante do modo como ele se referia ao sexo.
— Como eu poderia discutir acerca deste tópico com você? Alguém que se refere a sexo como conjunção carnal durante uma conversa informal é claramente inexperiente.
Ela se arrependeu de suas palavras no exato instante que as proferiu, mas já era tarde. Elas penetraram nos ouvidos de Fitz lhe causando um súbito desconforto e embaraço. Ambos ficaram calados por um longo instante. Ela evitou seu olhar o quanto pôde, então ergueu a cabeça para fitá-lo com um pedido de desculpas estampado no rosto. Jemma não soube precisar se o tom de vermelho vívido nas bochechas do engenheiro indicava constrangimento ou raiva.
— Me desculpe, Fitz... Eu não quis...
— Está tudo bem. Digo e repito que você está errada. E, agora, duplamente errada. Primeiro que eu não sou inexperiente. Apenas sou mais discreto do que você.
A boca de Jemma se entreabriu devido à segurança inesperada com que ele despejava suas palavras sobre a mesa, e a forma como ele aludiu ao fato de Jemma não fazer segredo de seus encontros desde a época da Academia.
— Em segundo lugar, está errada porque não se trata apenas de toque. Todos. Os. Sentidos. Atuam. Em. Consonância— ele repetiu, pontuando as palavras a fim de enfatizá-las.
Ela calou-se por um momento, ainda tentando absorver o que ele havia acabado de dizer.
— Não estou errada – foram as únicas palavras que lhe vieram à mente após um segundo desconcertante de silêncio.
— Está sim!
— Quer apostar? – ela esbravejou, deixando aquilo escapar sem pensar. Apenas depois de falar é que ela foi se dar conta de como aquilo poderia ter soado aos ouvidos de Fitz e o que pareceu sugerir.
Eles trocaram um olhar hesitante antes de o engenheiro falar novamente.
— Você está falando sério ou foi apenas uma coisa dita sem pensar?
Jemma engoliu em seco, sem desviar o rosto. Não queria deixar transparecer seu constrangimento.
— Sério... – ela disse de uma vez, antes que a coragem lhe escapasse.
O engenheiro sentiu como se o ar se tornasse rarefeito ao seu redor.
— Bem... Há várias pesquisas teóricas nesse campo...
— E não podemos nos debruçar em teorias, afinal... É algo que requer prática.
— Você se refere a uma pesquisa empírica?
Eles falavam sem romper o contato visual.
— Sim – Jemma respondeu simplesmente. Ambos portando expressões insondáveis – concorda?
Fitz procurou disfarçar um pigarro antes de responder.
— Pela ciência.
— Sim, pela ciência! – ela assentiu.
Concordando em limitar-se a uma contribuição científica que lhes parecia inestimável, cada um tentaria provar seu ponto no que dizia respeito a atuação dos sentidos durante o sexo.
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