Cinco Sentidos
2 1 Olfato
Notas iniciais
— Bem… — ela começou, com certa hesitação — eu tenho uma ideia de como podemos fazer isso — disse, sem olhar para ele, levando uma mecha de seu cabelo que caía pelo rosto para trás da orelha.
Após firmarem um acordo de começar um estudo acerca da atuação dos cinco sentidos durante o sexo na noite em que analisavam o Index, ambos concordaram que, assim que terminassem de ler e analisar os casos bizarros que integravam o arquivo confidencial da SHIELD, iriam dar início à sua pesquisa.
Agora, se encontravam de pé, no centro da sala de Jemma, planejando as etapas de seu estudo e como ele iria se desenrolar.
Fitz arqueou as sobrancelhas na direção da amiga, esperando que ela manifestasse sua ideia.
— Não é possível inibir totalmente um ou mais sentidos. Se tentássemos, poderia soar até mesmo ridículo…
— Você fala de usarmos vendas ou grampos no nariz?
— Ugh! Isso mesmo. Vendas, nós podemos utilizar. Agora grampos? Seria infame.
O engenheiro assentiu.
— Então, ao invés de tentar suprimir um sentido, nós deveríamos…
— Priorizar um sentido em detrimento dos demais?
— Exato!
Todos aqueles que os conheciam, diziam que ambos poderiam ler a mente um do outro, especialmente devido à mania de falarem ao mesmo tempo e um completar a frase que o outro iniciou. Jemma sempre achou isso adorável. Mas, naquele dia, pareceu lhe incomodar. Ela não queria Fitz dentro de sua cabeça, pois teria conhecimento da confusão que estava se desenrolando por ali… Ela queria fazer isso sem compromisso, em prol unicamente da ciência. Mas estava temerosa quanto ao que aquilo poderia representar para sua amizade e de que forma impactaria em sua relação. Só podia desejar que tudo corresse bem, que nada mudasse entre eles, que se tratasse de uma questão estritamente profissional.
Ela respirou fundo, cruzando os braços em frente ao corpo, encarando um ponto fixo no chão.
O engenheiro, por sua vez, levou uma mão à nuca, sentindo-se desconfortável, de repente.
— Jemma… Não precisamos fazer isso…
Finalmente, ela levantou a cabeça para fitá-lo.
— Você está desistindo? – seu tom de voz transparecia desapontamento.
— Não! — ele apressou-se em dizer – é só que… Parece que você não está bem certa disso.
Droga! Ela pensou consigo. Era como se ele fosse mesmo capaz de ler seus pensamentos.
— Eu estou certa disso – ela garantiu com uma voz segura – só quero ter certeza de que estamos na mesma nota.
Ele franziu o cenho.
— Achei que isso já estivesse certo. É profissional. Apenas por razões científicas.
— Promete que isso não vai afetar nossa amizade?
— Jemma… Eu sei separar as coisas. No mais, nós dois sabemos que… Bem, sentimento não é algo fundamental quando se trata de sexo. O que é fundamental são os sentidos. Todos eles – provocou.
— Especialmente o tato – ela devolveu no mesmo tom.
— É o que veremos – o engenheiro rebateu com um ar de desafio.
— Ótimo! Então… Por qual sentido começamos?
Fitz retirou o iPhone do bolso e selecionou um aplicativo de sorteio de palavras. Nele, digitou o nome de cada um dos sentidos e, então, o escolhido pelo sorteador foi o olfato.
— Ok. Vamos usar vendas nessa – disse a bioquímica, fazendo o possível para disfarçar seu desapontamento. Intimamente, ela desejou que o primeiro sentido sorteado fosse o paladar. Assim, teria a oportunidade de beijá-lo antes de se relacionarem sexualmente. Não que ela estivesse morrendo por isso, pelo beijo de seu melhor amigo. Só achava estranho fazer sexo sem beijar. Era algo realmente inédito para ela – Fitz?
— Sim? — ele tornou o rosto na direção dela, sua expressão indecifrável. Se ele estava tenso, estava disfarçando muito bem.
— Com a venda nos olhos, você terá problemas para tirar a minha roupa? – indagou, categórica.
O engenheiro engoliu em seco, as palavras pareceram lhe escapar momentaneamente.
— Não! – sua voz falhou ligeiramente – Acredito que não – completou após um pigarro – onde faremos isso?
— Acho que aqui, na sala mesmo. Quer dizer, não pode ser um lugar muito pessoal, certo?
— Concordo — ele meneou a cabeça afirmativamente — no sofá, então. Ou no tapete…
— Não tenho problemas com o tapete.
— Nem eu — tornou Fitz, casualmente.
— Ok. Então, acho que podemos começar.
*
— Você já está com a sua venda? – ela perguntou em um sussurro.
Não que ela não confiasse em Fitz. Para falar a verdade, ela realmente confiava muito nele a ponto de topar ficar totalmente no escuro enquanto davam início ao seu peculiar estudo. Jemma estava certa de que não faria isso com nenhum outro homem. O caso é que as mãos dele eram tão habilidosas na tarefa de remover suas roupas, que ela suspeitou por um momento que ele não estivesse com a venda.
Fitz ficou em silêncio por um momento antes de responder, confuso.
— Sim, por quê?
— Por nada! Era só pra ter certeza...
— Pode confiar em...
— Eu sei – ela o interrompeu antes que ele concluísse a frase – boa sorte com os botões da minha blusa – ela provocou com um sorriso desafiador que Fitz não pode contemplar.
— Acho que essa é a hora em que paramos de falar – disse ele, também em um tom de voz sussurrado, mas com um ar de profissionalismo que fez com que Jemma se sentisse levemente constrangida.
— Oh, me desculpe...
— Não, tudo bem. É só para não corrermos o risco de estimular a audição – concluiu enquanto se empenhava na tarefa de abrir os últimos botões da blusa que ela usava. Jemma não estava brincando; eles deram algum trabalho a Fitz.
Livres de suas peças de roupa, a ideia era apenas se concentrar no aroma que suas peles exalavam.
*
O olfato é o sentido que mais estimula a memória. O mais primitivo, mas o que melhor interpreta mensagens químicas ao redor. Incrivelmente, o mais subestimado dos sentidos. No mundo animal, o olfato desempenha um papel vital. O olfato é intrinsicamente associado à sobrevivência e também à reprodução. O feromônio secretado por insetos e mamíferos é o que desperta a atração sexual entre eles. É puramente instintivo. Entre as espécies, o feromônio exerce a função de atrair membros do sexo oposto para fins de acasalamento. A presença do composto químico na espécie humana é alvo de controvérsias pelos cientistas. Toda pesquisa neste campo não passa de mera especulação.
Mas Fitz e Simmons sabiam de tudo isso.
O que eles não sabiam é que o perfume de um era tão inebriante ao outro e capaz de excitá-los mesmo diante da ausência de outros sentidos como a visão. Deitados sobre o tapete da sala de Jemma, Fitz corria suavemente a ponta do nariz pela pele alva e macia da bioquímica, sentindo seu cheiro. O aroma natural de sua pele confundindo-se com o de seu perfume adocicado e com o cheiro de seu shampoo.
Jemma, por sua vez, não pode deixar de notar a fragrância almiscarada do perfume que Fitz usava combinada ao odor de seu suor.
Ambos se encontravam ofegantes, fazendo um esforço sobre-humano para se concentrar apenas no sentido que havia sido sorteado. Portanto, evitavam gemer para não estimular a audição; as vendas cumpriam o papel de inibir seu contato ocular; eles não trocavam beijos ou qualquer outro gesto que incitasse o paladar; e faziam o possível para não utilizar muitos suas mãos um no outro, a menos que fosse inevitável, a fim de deixar o tato em segundo plano durante a cópula.
Mas não podiam negar que era um tanto frustrante. Enquanto se ocupavam apenas do cheiro um do outro, a ânsia por carícias e beijos, a vontade insana de usar as mãos, a boca e a língua um no outro e o desejo de expressar essa sensação e seu prazer em palavras – ainda que incongruentes – gritos e sussurros, era quase insuportável, mas não irrefreável. Eles se continham, por mais doloroso que fosse. Jamais se esquecendo de seu trato e do objetivo do estudo que iniciaram.
Assim que ele penetrou seu corpo, Jemma sufocou um gemido de surpresa e satisfação ao senti-lo dentro de si. Ela afundou o rosto no pescoço de Fitz, aspirando o reconfortante aroma do perfume em sua nuca ao passo em que ele se concentrou no cheiro do cabelo dela.
E, com os olhos vendados, eles tiveram uma chance de se conhecerem de uma maneira que ainda não tinham feito, atentando para o quanto seus respectivos odores eram agradáveis ao outro e pareciam dizer muito sobre o que estavam sentindo naquele momento. Se o perfume de Jemma era um indicativo do quão delicioso era o seu sabor, Fitz mal podia esperar pela oportunidade de prová-la quando o paladar fosse o sentido em foco. Quanto a ela, foi com um sorriso de malícia que percebeu como o odor intenso que ele exalava se atenuou quando atingiu o ápice do prazer. Ela já havia chegado ao clímax há alguns minutos, de modo que sua racionalidade voltara a guiá-la e, só por isso, conseguiu identificar aquela singela diferença.
Nenhuma dúvida restava de que o olfato era realmente o mais primário dos sentidos. O sexo entre eles fora bem mais instintivo do que eles supunham.
*
— Eu li um estudo que afirmava que a ausência do olfato afeta profundamente a vida sexual das pessoas. Isto é, ela colabora para o declínio da libido.
— E nós combinamos que a nossa pesquisa seria empírica.
— Sim, mas não há mal nenhum em trazer algo de bibliográfico para isso.
Jemma, que se encontrava de bruços sobre o tapete, já desprovida de sua venda e fazendo anotações de modo meticuloso em seu bloco de notas, ergueu a cabeça para encarar o melhor amigo com uma sobrancelha arqueada.
— Isso é só porque você está contrariado por conta das minhas anotações?
Ele bufou, saindo da posição em que estava — o corpo voltado para a direção de Jemma — e jogando-se, de costas sobre o tapete.
Ambos ainda estavam sem suas roupas, mas evitavam encarar a nudez um do outro. Sem muito sucesso, no entanto.
— Jemma, é sério! O cheiro, seja o perfume natura da pele ou a fragrância que estamos usando é extremamente estimulante e contribuiu muito para...
— Eu escrevi isso. Falei sobre a importância da atuação do olfato recentemente testada e comprovada por nós – disse, com indiferença, tornando a encarar o papel.
— Sim, mas você colocou como algo complementar ao toque. Você insiste nisso.
— O olfato não foi fundamental, Fitz. Sabemos disso. Por mais que tenhamos tentado obstruir os demais sentidos e priorizar apenas o olfato, ainda assim, o toque foi primordial. Focar no olfato foi apenas... Um estímulo a mais.
— Não foi e você sabe disso. O olfato foi importante...
— Não estou discutindo isso.
— E a ausência de sentidos como a visão e o paladar foram brutalmente sentidas.
De modo brusco, ela tornou novamente o rosto em sua direção.
— Brutalmente? – questionou.
— Sim, Jemma... Foi algo incompleto. Foi até meio frustrante. Não poder usar tanto... Bem, vai dizer que não sentiu a necessidade de mais carícias ou de beijos durante...?
Ela se moveu de modo a ficar deitada de lado sobre o tapete para melhor encarar Fitz. Ele impediu a si mesmo de contemplá-la nua sobre o tapete. Eles se olhavam nos olhos.
— Frustrante? Você sentiu prazer.
— Sim. Não estou negando isso, mas seria melhor se... Pudéssemos usar os demais sentidos.
Ela desviou o olhar. Com sua visão periférica, não conseguiu impedir a si mesma de notar o quão bem delineado era o corpo de seu amante para fins científicos. Certamente, o engenheiro escondia muito por baixo das comportadas camisas listradas, gravatas estampadas, suéteres e demais peças de sua vestimenta nerd. Ele era avantajado para alguém de estatura mediana. Espantou aqueles pensamentos sacudindo a cabeça de um lado para o outro, antes que o rubor tomasse conta de suas faces.
— O tato continua sendo primordial, Fitz. Você já chegou a essa conclusão, apenas se recusa a aceitar. Isso só deu certo esta noite por conta do toque. Você mesmo alega que a falta dos demais sentidos foi frustrante porque o olfato não é o suficiente para estimular a excitação. Foi necessário o tato para que chegássemos ao auge.
Fitz contou até dez mentalmente, revirando os olhos.
— Está errada, Jemma. O olfato é perfeitamente estimulante, mas precisa trabalhar em consonância com os demais sentidos para que a experiência sexual seja completa.
— Okay, nosso estudo não acabou ainda. Teremos uma próxima – rebateu, fazendo suas últimas anotações.
Fitz agitou a cabeça, concordando. Durante o gesto, seus olhos escanearam brevemente o físico da mulher com quem acabara de ter relações carnais para fins científicos. A visão realmente fizera uma falta enorme naquela noite. Ele gostaria de poder vê-la enquanto colocavam em prática seu novo projeto. Seria ainda mais excitante do que sentir seu perfume, por certo. Ela era tão... Simétrica (para utilizar um termo bem típico da própria Jemma quando se referia ao físico de indivíduos do sexo oposto).
— O que será na próxima?
Fitz deu de ombros.
— Paladar.
Jemma assentiu.
— Ainda usaremos vendas?
— Acho melhor – disse Fitz com simplicidade.
— Alguma outra ideia?
— Morangos... – o engenheiro proferiu após uma pausa.
Jemma não evitou uma interjeição de surpresa, já ansiando pela próxima etapa de seu estudo.
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