Cily Wine
2 Capítulo 1 - Saudades Papai!
Notas iniciais
Já é tarde, e a luz baça do sol nas montanhas há esquerda destacam os picos de neves inderretiveis, e as nuvens rosadas dificultam o contraste no horizonte. Mas mesmo assim consigo notar um ponto no mar, é um navio. A minha expressão emburrada por estar lavando tigelas e panelas, logo se transforma em um largo sorriso de ansiedade.
– Cily, o que ouve? – Minha mãe me pergunta, ao ver-me correndo pela casa até a porta, toda animada.
Então ela logo aparece atrás de mim, segurando meu ombro.
– O papai chegou! – Digo sem olhar para ela.
– Não devia estar tão contente de ver ele. – Ela me diz, com um tom de ameaça.
– Ahh. Você não vai falar pra ele.
– Você sabe que vou!
– Ahhh. Qualé! Você não precisa falar.
– Preciso sim, e vou.
A minha mãe está decidida em contar ao meu pai, o que aconteceu há uns quatro dias atrás. Quando discuti com outra criança nobre na cidade. E então logo fico zangada com ela, por não conseguir guardar um pequeno segredo.
Mas logo me distraio vendo o pequeno barco pintado a mão encostar ao trampolim de madeiras sobrepostas.
– Papai! – Grito, quando dou os primeiros passos correndo para o barco.
Ele se levanta, logo depois de amarrar o barco bem firme, e abre um grande sorriso.
Meu coração se alegra, ao ver aquele homem grande e forte, de cabeça raspada com um lenço amarrado, e suas barbas falhas que preencherem seu rosto cansado, mas bastante contente.
– Minha filha! Tudo bem? Comportou-se? – A pergunta dele fazia parecer estar esperando a notícia que minha mãe estava doida para passar a ele.
– Sim! Estou bem papai! – Minha resposta deixou clara eu estar evitando responder a segunda pergunta, isto me preocupou.
– E sua mãe? Como ela está?
Ainda bem que ele não percebeu minha hesitação em responder. Acho que ele estava bastante contente em estar novamente em casa, e não quer se preocupar com detalhes bobos.
– Você já vai levar isto para dentro Astor? — Fomos interrompidos por um dos ajudantes do meu pai, Litro. É claro que este não é seu verdadeiro nome, eu acho que o nome dele é Brand, Brad, Brendy ou algo parecido, meu pai me contou uma vez que chamam ele dessa forma, porque um dia ele bebeu um frasco inteiro de Fur, a bebida mais forte já criada pelos homens. É claro que eu nunca bebi, então não posso dizer o quão forte é, mas o meu pai, que é um homem forte e grande o suficiente, consegue beber dois copos numa noite, e já precisa ser levado nos braços para casa. Alguns dizem que esta bebida nem é criada pelos humanos, mas por quem seria? Deuses? Acho que não!
– Não Litro, pode deixar aí, amanha a gente trabalha nele. E a água fria do rio vai mantê-lo fresco, só precisamos cobrir com algumas mantas molhadas, isso resolve.
– Tudo bem chefe!
Meu pai lança um olhar sombrio de reprovação para o homem barbado e barrigudo.
– Astor! – E então ele corrige, com um sorriso.
Ser chamado de chefe ou patrão sempre incomodou meu pai, ele não gosta de ser superior a ninguém. Talvez seja o homem mais humilde da cidade.
Fico observando os dois homens pegar uma manta em uma construção pequena ao lado de minha casa, levar ate o rio, mergulhá-la com cuidado para não molhar as mãos já que a água está bastante fria, e então cobrir os vários Crácudus dentro do barco, meus olhos brilham ao ver aquelas criaturas cascudas lá dentro, que até então não tinha reparado, eu sempre gostei de comer as garras vermelhas daqueles bichos, talvez seja meu prato predileto.
Ahh! Eu não falei sobre o outro ajudante de meu pai, Senhor Miks, não parece ser seu verdadeiro nome também, — será que todos pescadores tem um apelido ou codinome? — É um senhor magro, porem bastante forte, mas não tanto quanto Litro e sua barriga. Papai não falou muito dele, parece querer esconder algo sobre este homem, mas eu nunca insisti em saber, até então, não me interessa muito. A única coisa que ouvi meu pai falar a minha mãe, é que conheceu ele há muito tempo no bar do Mora, um bar onde meu pai geralmente encontra alguns amigos, inclusive o Litro.
– Gostou do que pescamos né? – Litro diz ao colocar a mão em minha cabeça, e passar por mim.
Eu apenas balanço a cabeça aprovando tudo aquilo, com um largo sorriso no rosto.
– Deixa um pouco pra gente em! – Miks diz ao passar logo depois de Litro.
E então me viro para olhar meu pai encontrando a minha mãe na porta, fico observando os dois se abraçando e se beijando. Mas logo me vem a lembrança do que minha mãe tem para contar à ele.
Vou me aproximando, fingindo não saber de nada.
– ...é bom te ver novamente Eryn!
– Foi tudo bem com a navegação? Era pra ter chegado há dois dias.
– Sim! Desculpa-me, tivemos que ficar mais um dia para pegar mais alimentos...
Ambos estão apenas reencontrando, nada demais. Hoje fazia duas semanas e dois dias que meu pai partiu para o mar, era pra ter voltado ontem, mas aparentemente ele precisou ficar mais um dia já que saíram tão atrasados. Meu pai estende a mão para mim, e me puxa para nos abraçar. Eu esperava minha mãe hesitar por eu ter criticado poucos minutos atrás, mas ela me abraça calorosamente.
– Vamos entrar — Ela diz, nos puxando para dentro. Logo me soltando.
– Cily, bem que você poderia terminar seu trabalho né!
– Claro mamãe!
Deixo meu pai ali mesmo, me soltando dos braços dele, vou a caminho da cozinha, pegando a escova que deixei dentro da pia, e então observo os dois conversando em volume baixo demais para eu não ouvir o assunto, logo várias imaginações passam por minha cabeça, ela deve estar falando da noticia..
– Serio?... – Escuto meu pai perguntar a minha mãe com tom de surpreso, e logo olhar para mim, se encolhendo por ter falado alto demais.
Ambos continuam conversando em voz baixa, minha mãe está de costas para mim, então não consigo entender o que ela diz. Mas as poucas vezes que tento olhar para eles sem ser notada, meu pai dá uma olhadela para ter certeza de que eu não estou escutando. O medo sobe minhas espinha, e vejo que meu pai vai me punir severamente.
– Preciso de um banho! – Ouço meu pai dizer a minha mãe.
Continuo com o rosto para a pia, mas prestando atenção nos sons que minha mãe faz caminhando ate próximo a mim. Procuro escutar meu pai, tentando ver se está próximo, mas não consigo.
– Você contou tudo? – Pergunto logo depois de varrer a minha volta com os olhos, e não encontrar meu pai. Ela está preparando algumas carnes para jantarmos.
– Porque está tão preocupada? Você sabe que seu pai não briga com você.
– Então pra que contar?
– Porque ele precisa saber.
Volto a olhar pela janela, o rio distante tremulando lentamente.
– Não é justo.
– O que não é justo? Seu pai saber?
– Não! Não é justo as pessoas falarem mal de nós, e ficarmos quietos.
– Você não precisa se importar com estas pessoas.
– Sim. Eu sei.
– Então porque tanta revolta?
– Você sabe o que aquele infeliz disse sobre o papai?
Eu já estava falando mais alto. Mas quando me virei pra ela, e notei que ela estava olhando em direção a porta de seu quarto, nem precisei me virar para perceber que meu pai estava ali, ouvindo nossa conversa.
– Quem disse o que sobre a gente? – Meu pai pergunta.
Fico em silencio, de costa.
– Nem precisei contar nada. — Faço uma cara de reprovação a minha mãe ao ouvi-la sussurrar.
– O que aconteceu filha? — Meu pai insiste na pergunta com uma voz calma.
– Briguei com um garoto.
– Quem?
– Não conheço.
– Um Briks. — Minha mãe fala, atravessando a conversa. Me fazendo ficar com mais raiva dela, por revelar ser um dos nobres da cidade.
Meu pai fica em silencio por um curto tempo, parece estar pensando em algo. Será que está escolhendo minha punição?
– Me conte o que aconteceu Cily! — Agora o meu pai parece mais serio, parece realmente preocupado.
– Ele disse que você é um porco.
– E por isto você discutiu com ele?
Balanço lentamente a cabeça confirmando.
– Acho que quebrei a perna dele. — completo.
– Caramba! Porque você fez isto? só porque ele disse estas coisas bobas?
– Foi um acidente! E ele disse que deveriam ter lhe matado! — Esta frase sai do meu peito em gritos, sem que eu consiga controlar, lembrar das palavras ditas pelo garoto ainda me perturbava. Olhando o rosto de meu pai, depois de alguns segundos percebo que falei alto de mais, e então abaixo a cabeça novamente.
Esta frase eu não havia contado para minha mãe, então percebo ela me olhando com olhos arregalados, assustada com o que eu disse.
– Cily. Você não conhece esta família, eles são perigosos.
– Não pude ouvir e ficar quieta. – Digo mais calma.
– O pai dele é um homem poderoso, tem motivos próprios para nos expulsar da cidade e fazer da nossa vida o inferno.
– Motivos? — Falo mais exaltada novamente.
– Você simplesmente não consegue se controlar, não faz idéia do quão perigoso é esta gente.
– Só acho que você deveria enfrentá-lo. — Estamos quase gritando na discussão novamente.
– Você não entende. É apenas uma criança.
– Eu sei o...
– Acho que já chega Astor! — Somos interrompidos pela minha mãe. — Não achei que você ia levar tão a sério, estou feliz de você ter voltado, mas você mal chegou e já estamos com este clima dentro de casa. Vamos nos acalmar.
Irrita-me o fato de minha mãe criar toda confusão e depois não gostar do que esta vendo.
Jogo a escova que ainda rolava em minhas mãos nervosas, e em passos firmes eu caminho rapidamente para fora de casa, vou até o trampolim, e então sento com as pernas cruzadas próximo a beira. O sol partiu há alguns minutos, então o céu cheio de nuvens pouco rosadas esconde partes da lua que insiste em iluminar o mar calmo.
Não demora muito até eu ouvir passos nas madeiras que fazem rangidos. E então, sem olhar percebo meu pai sentar ao meu lado.
– Desculpa. Não deveria gritar contigo.
– Não se preocupe. Eu só não consigo entender.
– Eu fico preocupado com você. Não quero que nada aconteça.
Sinto seus olhos no meu rosto que escorre uma lagrima que procuro disfarçar.
– Sei cuidar de mim mesma. – Respondo virando-me para o outro lado.
– Sei que sabe. Mas estas pessoas são perigosas, não medem esforços pra tirar qualquer um do caminho.
– Eu não entendo. Somos tão... Sagrados para muitos, mas estas pessoas insistem em nos perturbar e você continua não reagindo.
– Você é realmente sagrada filha! – Ele diz calmamente, segurando meu ombro, chamando minha atenção a ele.
– Então porque os nobres da cidade nos desprezam? Porque eles nos odeiam tanto?
– Talvez, porque eles não acreditem.
– Acho que vou me juntar a eles. — Falo em um tom claramente irônico.
– Não fale assim. Não quero perdê-la também.
– “Perdê-la também”?
– Aquelas pessoas são perigosas, tome cuidado. — Ele responde em voz baixa e então vira o rosto.
– Conte o que aconteceu. – Ele me pergunta depois de alguns segundos de cabeça baixa em silencio, como se tentasse tirar estes pensamentos da cabeça. Vi que algo o incomodava, mas segui respondendo sua pergunta.
– Quatro dias atras. Mamãe pediu para que levasse algumas ervas até a estalagem. Eu fui rápido, mas no caminho de volta tentei ir pelas ruas mais vazias, tinha muita criança na praça.
– Era muito tarde?
– Não, o sol até que estava quente ainda. — Respondo a pergunta descontraída. — Mas quando estava saindo de uma viela, os garotos me encontraram, e aquele idiota do Reno veio me atormentar, dizendo coisas sem sentido, como se fossemos uma escoria da cidade. Até que um momento ele se aproximou demais de mim, e então eu o empurrei. Ele acabou tropeçando.
– E o que aconteceu com ele?
– Eu não tenho certeza, mas acho que ele quebrou a perna.
– Provavelmente o pai dele irá me visitar.
– Vou estar aqui para…
– Venham! Vamos comer! — Minha mãe aparece na porta, nos interrompendo e chamando para jantar.
– Acho melhor irmos, afinal de contas, preciso tomar meu banho ainda. — Ele diz se levantando, e se espreguiçando — Vem? — Ele estende a mão, logo depois de se levantar.
– Não. Pode ir, vou ficar aqui mais um pouco.
– Se cuida minha filha. Preocupo-me com você. — Ele diz, abaixando-se e me dando um beijo na cabeça — E não demore ai fora, está frio!
A lua está mais escondida agora, cujo só consigo ver o reflexo das nuvens na água, e as luzes da cidade a alguns metros distante. Então começo a me lembrar as coisas que escondi de meu pai, que aconteceram no dia da briga.
...
Ainda era dia e o calor do sol era interrompido, quando um vento da floresta soprava sentido ao mar, trazendo todo aquele frio das florestas negras que cresciam não muito longe da cidade.
Mamãe havia pedido para eu levar um pouco das ervas — reparadas por ela — até a estalagem onde ela trabalha, geralmente ela vende as tais folhinhas verdes para os clientes da estalagem do Sr. Bertio. É incrível dizer isto, mas as ervas da mamãe realmente funcionam.
Quando entrei na estalagem não havia muitas pessoas ali, apenas alguns poucos trabalhadores de um lado, alguns poucos nobres de outro, e umas três pessoas no balcão. Uma que parecia com uma mulher, mas toda coberta chamou-me a atenção, contudo, não quis incomodá-la. Fui até um canto do balcão onde minha mãe estava, entreguei e então virei as costas e saí, porém notei alguns trabalhadores sussurrando algo estranho, tentei ouvir, mas foi em vão; parecem ter silenciado na minha presença.
Ao sair da estalagem, lembrei que a praça estaria cheia de crianças a esta hora da tarde, mas eu não queria ser incomodada, estava com pressa para chegar a igreja, onde Hilia estaria me esperando para terminarmos nosso aquário que estávamos construindo para Lizia.
Resolvi então atravessar algumas vielas paralelas a praça, mas percebi que não dera muito certo ao encontrar Reno, e alguns outros rapazes cujo não lembro os nomes, provavelmente ele me viu cruzar alguma rua.
Não era muito difícil perceber que Reno era um dos nobres mais influentes da cidade. Com roupas caras e cheias de detalhes brilhosos, seu cabelo todo arrumado e penteado, e seus sapatos sempre muito bem lustrados. Um verdadeiro carneirinho “pomposo”.
– Onde está indo “Anjinho”! — Reno diz com um tom ameaçador.
– Não tenho tempo para você hoje Reno.
– Mas converse comigo, quero sua companhia.
– Porque não pede para seus amiguinhos lhe acariciarem?
Reno se irrita com o insulto.
– Você deveria me tratar com mais respeito, se não quiser que a coisa fique feia para seu lado novamente.
– Desculpe! Mas a cota do dia já foi atingida. — Digo caminhando por entre os garotos, que me impedem de passar.
– Não precisa correr. Vamos cuidar de você, já que seu pai não cuida.
Fico em silencio, com uma expressão ameaçadora.
– Hooww!! Ficou zangada?
– Você não deveria falar do meu pai assim.
– Por que não? Ele é um lixo mesmo, assim como sempre foi.
Lembro-me do que meu pai sempre me pedira, que nunca arrumasse briga com os nobres da cidade.
– Me deixe ir. — Digo novamente tentando passar sem sucesso.
– Vai chamar o papai? Aé! Tinha me esquecido, ele não está na cidade. Afinal de contas, do que adiantaria? Já que ele não faz nada.
– Cala a boca! — Grito.
– Ui! Não fique nervosa.
Ele se aproxima, e eu permaneço intacta. Agora estou encurralada em uma parede, Reno próximo demais a mim, e os outros três amigos dele mais afastados, trancando as saídas do beco.
– Venha cá! Vamos brincar.
Ele aproxima seu rosto ao meu. Uma adrenalina dispara em minhas veias, e a ação toma conta de meu corpo. Dou-lhe um empurrão, ele cambaleia para trás e logo se aproxima novamente, mas projeto meu corpo para frente, e então lanço o meu pé em seu peito, fazendo-o cair bruscamente sobre algumas caixas empilhadas. Não consigo ver direito devido adrenalina, e o impulso de sair correndo, mas noto um pouco de sangue na perna dele.
– Desgraçada! Seu pai deveria estar morto. Todos vocês deveriam estar mortos! Eu ainda vou acabar com você! — Apenas escuto Reno gritando ferozmente.
Não tenho certeza do que vi, mas acredito que foi grave.
...
– Cily!? — Minha mãe novamente me chamando para entrar.
Levanto-me e vou caminhando lentamente para casa.
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