Cily Wine

3 Capitulo 2 - Estranhos


Notas iniciais
“Durou uma semana de trabalho duro para muitos da cidade, ajudando as embarcações a ancorar e descarregar as pescarias, cujo neste tempo tudo na cidade fica parado, para se dedicarem totalmente a este trabalho. Hoje voltam as aulas, e muitas crianças que gostariam de ter mais um tempo para poder brincar nas ruas, precisam se preparar para retomar as matérias.”

As aulas de Brine nunca me interessaram muito, então o que faço muitas vezes é ficar olhando pela janela, observando os navios na doca, imaginando coisas surreais, como se eles tivessem asas e pudessem voar através das nuvens, “seria incrível!”. Hoje é um dia calmo, poucas nuvens no céu, o chão começa a ficar branco, os pássaros se escondem do frio intenso, onde só é possível ser esquecido debaixo das luzes do sol que ainda insiste em brilhar.

– Cily!

Sou interrompida quando chamam minha atenção, onde rapidamente procuro disfarçar e fingir que estava realmente prestando atenção na aula. Mas logo noto que há uma mulher na porta, Lizia.

– Cily! Lizia está precisando de você. — Brine me diz.

Olho assustada para Lizia, que está me observando e me aguardando plantada na porta. Levanto-me e vou caminhando. Brine também me observando, encostada no quadro, não muito longe de Lizia.

– Viche!

– Ela entrou em problemas novamente.

– Será que ela vai ser suspensa?

As pessoas sussurravam entre elas.

– Condelo quer lhe ver. — Lizia diz com a voz baixa, mas provavelmente alguns alunos a escutou.

A porta é fechada pela professora, logo após eu e Lizia sairmos da sala. Caminhamos em silencio pelos corredores e escadas.

– Nervosa? — Passávamos próximo ao jardim quando Lizia me diz em um tom cínico.

Continuo em silencio, esperando que ela mude de assunto, ou permaneça em silencio também. Apesar de não acreditar muito que isso aconteça.

Mas algo me chama a atenção. Um homem muito bem vestido, do outro lado do jardim, permanece me encarando friamente.

– Voce deveria ser mais… Feminina!

Aquele insulto me fez engolir seco, e pensar duas vezes em dizer algo, mas a melhor escolha ainda foi o silencio. E a imagem daquele homem visivelmente nobre, me encarando, me perturba a mente. “Será que a conversa com Condelo tem relação com este homem?”

Saímos do jardim, e chegamos a uma porta bastante familiar. Decorações com desenhos em curvas perfeitas como se fossem plantas, tomando conta de toda porta e parte da parede. Lizia dá algumas batidas para avisar que estávamos ali.

– Entrem, por favor! — Consigo ouvir Condelo dizer de dentro da grande sala.

Lizia então começa a abrir a porta lentamente, e dar passagem para que eu entre.

– Bom dia Cily! — Condelo me cumprimenta descontraído.

Dou alguns passos mais próximos em silencio. Então ele que estava em uma janela de sua sala, visivelmente a minha espera, se vira e então repete o cumprimento, forçando minha resposta.

– Bom dia Cily!

– Bom dia senhor! — respondo timidamente.

Lizia logo após fechar a porta, se posiciona ao meu lado e então o reverencia com as duas mãos em punhos, uma próxima a outra.

– Aqui está ela senhor. Com licença.

– Não, por favor, fique! — Ele diz logo ao ver ela se virando e se preparando para sair da sala. Isso me deixa ainda mais tensa, já que Lizia vai piorar muito esta conversa.

– Sente-se Cily! — Condelo me diz com bastante cortesia, estendendo a mão, me indicando uma poltrona.

Dou alguns passos, alcançando a mão até a poltrona indicada, e então me ajeito nela. É bastante confortável, mas na ocasião mais parecia estar cheio de pregos e amarras para meus pulsos.

– Espero não estar lhe preocupando demais. — Condelo diz, com um sorriso no rosto. Não sei se ele quer ser agradável ou cínico.

– Não. — Digo em uma voz bastante baixa, espero que ele tenha ouvido minha resposta. Olhando para o lado, vejo Lizia, me analisando minuciosamente.

– Pois bem. — Condelo diz, sentando-se em sua gigante cadeira decorada do outro lado da mesa, ficando bem a minha frente. E Lizia continua em outro canto, plantada de pé, nos
observando. — Conte-me o que aconteceu!

– Ela entrou em outra briga com um… — Lizia é interrompida com apenas o levantar de uma mão de Condelo. Que com a mesma direciona-a para mim, me dando a palavra de me explicar.

Demoraram alguns pequenos segundos, até que eu encontrasse as palavras certas para que me explicasse melhor.

– Reno me encurralou em uma viela numa tarde, quando os navegadores ainda estavam no mar. — Digo todas as palavras com a cabeça baixa, e com palavras secas.

– Ele te agrediu? — Condelo continua a perguntar depois de alguns segundos debruçado na mesa, me observando e esperando uma continuação.

– Ahh.. eh.. Não! Mas tentou me assediar.

Condelo se levanta, com os lábios apertados, ele passa próximo a Lizia, colocando a mão em seu ombro, próximo ao pescoço, que continua observando o rosto do homem, caminhando em minha direção.

– Fiquei sabendo que você fraturou a perna dele!

Meu coração dispara, ao saber que Condelo tem esta informação.

– Foi um acidente. — Digo de cabeça baixa, observando minhas mãos nervosas entrelaçadas em meu colo.

Ele se aproxima, e então agacha em minha frente. Lizia se aproxima logo ao nosso lado.

– Não se preocupe. — Ele diz com palavras calmas, estendendo suas mãos em busca das minhas, que o disponibilizo. — Iremos cuidar deste problema, nada vai acontecer.

– Só não vai se meter em encrencas novamente! — Lizia diz em voz firme. Cujo Condelo faz uma careta e então olha para mulher com expressão de reprovação.

– Ela tem razão. É difícil cuidar de você, se você ficar procurando briga em toda esquina que passar. Procure evitar.

– Mas eu não tenho…

– Se cuida garota! — Sou interrompida pela nervosa da Lizia.

Condelo levanta a mão pedindo para Lizia parar de gritar, que sai caminhando em passos firmes para um canto da sala.

– Vá pra sala. Você está perdendo matéria. — Não que eu estivesse ansiosa para voltar para aquela aula chata e monótona. Mas ficar sentada naquela poltrona estava me sufocando.

Me levanto e começo a caminhar em direção à porta.

– Direto pra sala mocinha! — Lizia me diz com autoridade, visivelmente nervosa comigo.

Continuo meu caminho sem olhar para ela nem para os lados, e a ouço indo falar algo para Condelo.

– Você deveria ser ma...

No caminho, eu paro próximo ao banheiro, onde existe varias torneiras, uma em especial sempre esteve pingando, me dando a calma, simulando o “tique taque” de um relógio.

– Está tudo bem? — Hilia quase me assusta se não fosse sua voz familiar.

– Sim, está… está tudo uma bosta! — Digo olhando as gotas tremular meu reflexo na água.

– Vamos pra sala, me espera um instante.

Ela continua caminhando, em direção ao banheiro logo ao lado. Demora alguns minutos, até ela voltar e então tocar minhas costas.

– Vamos!

Caminho lentamente, e ela controla os passos para me acompanhar. Entramos na sala, e todos nos observam caminhando até nossas carteiras, onde sentamos e mantínhamos em silencio.

“Não consigo entender tanto ódio, é algo…”

– Cily, poderia ... de Cristás? — Brine procura chamar minha atenção, para me distrair.

– Oi? — Não entendi corretamente a pergunta, já que me pegou de surpresa.

– Poderia nos dizer onde foi encontrado os Comos de Cristás?

– Na bacia de Luta? — Respondi com uma pergunta, pois não tinha certeza do nome.

– Luntáh. Pode dar mais informações sobre esta descoberta? Você leu o livro?

Na verdade eu não li, mas ainda bem que meu pai contou um pouco sobre esta descoberta há algum tempo.

– A uma geração e meia, alguns pescadores pequenos procuravam explorar o Rio Grande, até que encontraram um lugar bastante hostil, onde existiam rochas pontudas que danificaram o barco. Foi ai que tiveram que encostar em um lugar estranho, com esculturas desconhecidas pelo homem, e então encontraram três peças de Cristal puro, porém pouco danificadas.

– Você leu o livro? — Ela me pergunta novamente com um tom de duvida da origem da historia.

– Na verdade não, meu pai contou.

– Na verdade, o lugar não era hostil, e não possuía nada no lugar, e encontraram no fundo do rio cristalino as peças de Cristal.

– Ouvi boatos que teve batalhas, e os pescadores desconheciam aquela raça.

– Isso tudo são lendas para enriquecer a historia.

Aperto meus lábios e acento com a cabeça, mostrando entender a explicação, e percebo todos me olhando com reprovação da falsa historia.

– Deveria pegar mais leve. — Hilia diz em voz baixa, e rindo.

…

No fim do dia, percebo que fui praticamente o centro da sala o dia todo. Já que Brine sempre procurava inventar perguntas pra mim, para que eu não ficasse viajando em meus pensamentos. Ainda mais por estar preocupada com a conversa que tive com o Sr Condelo.

– Hoje o dia foi cansativo, mas graças a Baym foi bastante produtivo.

Hilia já está de pé a minha espera para ir embora. Enquanto eu ainda guardo as minhas coisas na bolsa.

– Cris, você vem amanha? — Hilia começa a puxar assunto com outra aluna da sala.

– Sim. Venho sim...

“Será que papai sabe da conversa que tive com Condelo?”, “Será que ele está bravo comigo?”

Me levanto da carteira. Hilia percebe minha presença, e então caminhamos juntas à caminho de casa. Sempre vamos embora juntas, apesar de pouco antes de chegar a minha casa ela
tenha que tomar outro caminho.

– Está tudo bem? — Hilia pergunta depois de meu silencio contínuo.

– Sim.. Está sim! — Dou um leve sorriso a ela.

– Você parece preocupada. Tem algo que posso ajudar?

– Não. É só... a conversa que tive com Condelo... sobre a briga e a confusão. — Na verdade esta não era a minha principal preocupação, e sim o homem bem vestido.

– Eu sei que Reno vive a te perturbar, mas deveria tomar cuidado.

– Hum! — Respondo brevemente, para não continuar a conversa.

Estávamos um pouco a frente do portão da igreja, todos discípulos já se espalharam nas ruas rumo a suas casas. O sol estava laranja, deixando muitas sombras nas ruas, onde alguns guardas acendiam as lâmpadas dos postes.

– Ai santo Baym. Esqueci de devolver o livro para Pristy. — Esta era a senhora que cuidava da biblioteca particular da igreja, onde as maiorias dos livros são sobre o seguimento de
Baym.

– Você me espera?

– Estou cansada, amanha a gente conversa.

– Tudo bem. Até amanha então!

Na verdade estava tentando me livrar dela, queria ter o meu tempo pra pensar sobre tudo o que aconteceu hoje, foi um dia agitado pra mim.

Os meus pensamentos giravam entre Condelo, o homem misterioso e meu pai. Eu nunca havia visto aquele homem na cidade, nem mesmo alguém vestido com tamanha formalidade, não deve ser da cidade. Mas algo me diz que ele tem muito a ver com a conversa com Condelo.

– Eii! Pare com isto, não quero confusão com ninguém. — Ouço um garoto em um beco, e então me aproximo para ver o que está acontecendo.

Não poderia ser outra pessoa, Reno criando confusão novamente. Vou caminhando lentamente para não chamar a atenção, mas sou mal sucedida e vista.

– Ora ora! Quem veio me ver, a esquentadinha da Cily.

Mantenho em silencio.

– Vá lá buscar ela.

– Mas da ultima vez… — Um de seus companheiros começa a resmungar, lembrando do ultimo encontro. Mas Reno dá-lhe um empurrão, — Vá logo! — e então ele caminha em minha direção. Dou alguns passos para trás, e quando percebo ele aumenta os passos, me viro e começo a correr, mas não tenho chance de dar dois passos, e sou agarrada pelos braços. Ele me carrega até perto de Reno, que logo percebo sua perna enfaixada.

– Venha, participe da festa. Eu estava conversando com esta… escória, justamente sobre andar pelos becos. Você mesma sabe o que acontece né, poderia dizê-lo.

– Como, por exemplo, alguém fraturar a perna? — Respondo com tom de piada.

Reno faz uma careta ao perceber que estou falando dele mesmo, e então observa o garoto olhando sua perna, fecha o punho, e o acerta no rosto.

– O que está olhando idiota!

– Deixa ele em paz! — Grito ao ouvir o som da pancada, e vê-lo se encolhendo no canto.

– Solte ela. — Reno diz.

O garoto me solta, mas permanece logo atrás de mim, assim não posso correr.

– O que vai fazer? – Reno me insulta.

Outro garoto mais forte se aproxima de Reno, como se tivesse lhe protegendo.

– Afasta! não preciso. Ela não vai fazer nada. — Ele diz ao garoto, o empurrando para trás.

Reno vem caminhando em minha direção, tento dar alguns passos para trás, mas me esbarro no peito do garoto. Reno se aproxima, e então dispara seu punho em meu estomago, mesmo eu tentando me esquivar, ele acerta em cheio, fazendo todo ar da atmosfera simplesmente desaparecer e me fazer arquejar no chão.

– Levanta! Eu não terminei ainda! — Reno grita ordens.

Mãos fortes envolvem meu braço, me levantando contra minha vontade. Mesmo ainda sem respirar, recebo outra pancada no mesmo lugar. A vontade de tossir vem a tona, mas a falta de ar dificulta tudo.

– Viu só verme? É isto que acontece! — Ele diz ao garoto ainda no chão.

Não consigo enxergar direito a minha volta, mas vejo o garoto observando com preocupação o meu sofrimento.

– Ouvi dizer que não dói quando fazemos ISTO em uma mulher. — Ele diz ao mesmo tempo em que me acerta um chute entre minhas pernas, onde eu levo minha mão tentando controlar a dor, e caio novamente no chão.

– Olha garoto! Veja o sofrimento dela, ela merece.

– Pare, ela está mal. — O garoto tenta dizer entre os dentes, com medo de receber outro golpe.

– O que é? Você quer que eu pare?

Permaneço no chão por algum tempo, tentando recuperar meu fôlego.

– Vai dizer para eu deixá-la em paz também? — Reno continua atormentando o garoto.

Minha visão se recupera, e minha respiração também. E então vejo Reno lançando o punho no garoto novamente.

– RESPONDE!

– Reno! Acho melhor você ir embora. — Digo me levantando.

Quando percebo Reno dando um sinal ao grandalhão atrás de mim. Esquivo-me rapidamente, e por muita sorte consigo lhe acertar uma cotovelada no nariz, lhe fazendo cair desmaiado. Meu braço todo dói pela pancada, mas tento disfarçar a dor observando Reno me encarando. O garoto atrás dele dá alguns passos, mas Reno o impede novamente, e
caminha em minha direção.

– Por acaso você esqueceu a conversa que teve? — Ele me diz caminhando em minha direção.

Lembro-me da conversa novamente, “Então ele tem relacao com a conversa”. Procuro me controlar, apesar da raiva estar já espalhada em minhas veias.

– Eu disse que deveria me respeitar!

Ele leva seu punho novamente para meu rosto, mas consigo me defender com as mãos. Então ele logo se afasta me observando assustado, seus olhos observam minhas mãos abaixarem a altura de meu peito, em posição de ataque. Mas logo sou surpreendida pelo garoto que se levanta correndo, e me abraça.

– Vamos embora. — Reno diz em voz calma, passando por nós, acompanhado pelo grandalhão, que se agacha e procura acordar o seu amigo desmaiado. Reno já virou a esquina, quando o garoto acorda meio zonzo se levantando com a ajuda do outro.

O garoto abraçado a minha cintura, me solta lentamente. Ele se levanta, e então limpa sua roupa, que parece ter uma espécie de pó branco, onde parece estar molhado, até eu perceber que aquilo é gelo.

– O que é isto? — Pergunto.

– Suas mãos.

Observo minhas mãos, que aparentemente estão normais, porem pouco unidas.

– O que têm elas?

– Serio que você não sabe?

– Não!

O garoto aperta os lábio.

– O que faz aqui? — Ele me pergunta, desviando o assunto.

– Estava indo para casa, e então ouvi barulhos.

– É melhor se cuidar, na sua situação, era melhor não ter me ajudado.

– Na minha situação? Como assim? Quem é você pra falar assim comigo? Você não sabe da minha vida. — Disparo várias perguntas sem esperar respostas.

– É melhor ir embora.

– Não. Quero que me conte o que sabe.

– Vá embora! — Ele dá sua ultima palavra e vira as costas.

Fico ali parada por alguns segundos, sem entender nada, mas logo viro-me e retomo o caminho para casa.

– Mas o que diabos aquele garoto quis dizer? — sussurro sozinha na rua, tentando entender.

– O dia foi realmente agitado hoje, já não bastava o homem na igreja, depois Condelo saber da confusão e eu encontrar novamente Reno, pra piorar meus pensamentos, aquele garoto que tentei ajudar me diz coisas sem sentido.

Fico observando minhas mãos por entre os postes de luz que passo. Só então percebo que já está de noite, e meu pai sentado na varanda a minha espera me preocupa.

– Chegou tarde hoje hem. — Meu pai diz ao me aproximar.

– Foi um dia cansativo.

– Eu imagino. — Me surpreende ao ver ele dizer tão calmamente, sem nenhuma bronca, nem interrogatório.

– Vamos entrar? — Pergunto olhando seu rosto visivelmente triste.

Ele se levanta, e pega minha mão que estava estendida a ele. Vou puxando-o até a cozinha, onde o cheiro gostoso revelava minha mãe preparando a nossa janta.

– Cily! Está bem? — Minha mãe me pergunta ao nos ver entrar.

– Sim, tudo sim.

O clima dentro de casa está visivelmente tenso.

– Aconteceu algo aqui?

Meu pai apenas me dá um sorriso, e procura algo na mesa para beber.

– Não. Está tudo bem! — Minha mãe responde com um sorriso, visivelmente forçado.

Notas finais
Demorei um pouco para dar continuidade a historia, mas tudo está indo bem! Créditos: Google – Por tirar algumas duvidas. Half Life – Por me dar uma pequena inspiração. (Quem conhece vai entender)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.