Cigarro e Flor de Cerejeira
10 "Stalker".
Notas iniciais
Strike!
Acertei o rosto de um deles bem em cheio com meu taco de beisebol.
Ele reluzia com as poucas luzes das lojas em volta da praça.
Outro delinqüente me atacou. Notei que ele avançava com um canivete.
Desviei rapidamente e acertei-o na canela. Ele caiu.
Mas eu sabia que não ia durar muito tempo contra eles. Eu precisava fugir.
Meu corpo não foi feito para lutar e eu tinha noção disso.
Comecei a dar alguns passos para trás.
- “Sakura”-chan, você não vai correr da gente. – o líder deles disse, nervoso.
Bem, admito que não pretendia correr.
Era mais fácil eu desmaiar no meio do caminho por causa da pressão baixa.
- Veremos... – eu sorri.
Mas meu sorriso foi interrompido.
Alguém segurou meus braços por trás.
Havia um quinto delinqüente, escondido nas sombras, provavelmente.
Cometi um erro fatal em não notar.
Merda, merda.
Meu coração estava tão acelerado.
Comecei a sentir os sintomas do estresse. Fiquei um pouco tonta.
Tentei me mexer, mas foi em vão – o cara era muito mais forte que eu.
O líder do grupo se aproximou, arrancando o taco de minhas mãos.
- Eu devia te acertar com isso bem agora, pra você saber o quanto dói. – ele disse. – Mas não quero estragar esse rostinho bonitinho...
Ele segurou meu rosto com sua mão grudenta, apertando-o.
- Sua vaca, achou que a gente não era de nada? Somos Dollars!
Balancei a cabeça, sentindo um gosto metálico na boca.
Ótima hora pra cuspir sangue.
Cuspi bem nos olhos do maldito.
Ele soltou o meu rosto, virando-se.
- Que merda é essa? Você cuspiu sangue?? – ele limpou o rosto. – Vadia louca!
- Vocês não são Dollars porra nenhuma. Só estão blefando. – eu disse.
- Quem é você pra dizer isso?
O delinqüente se endireitou e fechou o punho. Avançou para me dar um soco.
Fechei os olhos com força.
Mas não senti a dor, nem o impacto.
Abri os olhos, e ele ria debilmente.
- “Sakura”-chan, não vou machucar seu rostinho lindo... Pelo menos não agora. – ele agarrou meu pescoço com a mão. – Solta ela, mano.
O homem atrás de mim me soltou, e fui empurrada direto para o chão. Minha cabeça bateu contra o piso da praça.
Dor.
Meu pescoço estava sendo pressionado com força.
Minha visão embaçada conseguiu distinguir vagamente os outros que derrubei, agora recuperados, se aproximando.
- E agora, “Sakura”-chan? E agora? – o líder me perguntava, apertando o meu pescoço ainda mais.
Sangue borbulhou da minha boca, escorrendo pelo meu queixo.
- Que nojo, que porra é essa? Vai morrer? – ele reclamou. – Não antes de eu acabar com você, vadia.
Apertei os olhos com força, tentando me manter consciente.
Meus pulsos estavam presos ao chão.
Senti alguém puxando o meu cabelo.
Heiwajima-san...
Uma lágrima escorreu pelo canto do meu olho.
Eu não conseguia respirar.
Ouvi um berro.
Sons característicos de ossos sendo quebrados.
A pressão saiu do meu pescoço, e eu puxei o ar pela minha boca com muita ânsia.
Silêncio.
Abri os olhos, avistando um borrão muito alto, de cores preto, branco e loiro.
Pisquei algumas vezes e minha visão clareou.
Heiwajima-san estava parado junto a mim, de pé, fumando um cigarro.
Me virei para o lado, ficando nessa posição por um segundo antes de me sentar bem devagar.
Limpei o sangue da minha boca depressa.
Olhei para Heiwajima-san, ainda sentada.
- Que merda você estava fazendo aqui sozinha à essa hora? – ele rosnou.
Sua aparência era ainda mais ameaçadora vista de baixo.
Me senti a coisa mais frágil do mundo, tremendo sob tamanha força.
Mas não tive medo.
- Eu estava te esperando. – respondi, finalmente me levantando.
Ele estalou a língua, irritado.
- Não é bom para você ficar aqui sozinha. Devia ter ido para casa. – Heiwajima-san me repreendeu.
Mesmo de pé, continuei me sentindo pequena à frente dele.
- Mas...
- Chega de “mas”. Imagina que merda podia ter acontecido se eu não tivesse chegado a tempo? – ele me interrompeu.
Fiquei em silêncio.
- Você está certo. – eu disse, finalmente. – Me desculpe por ser tão imprudente.
Heiwajima-san pegou o meu taco de beisebol do chão e me devolveu.
- Só porque você tem uma arma não significa que é invencível. Lembre-se da sua condição.
- Eu tenho noção do meu próprio corpo, acha que não? Eu estava só... – fui interrompida por um cigarro nos meus lábios.
Heiwajima-san me encarou.
Olhei para o chão e assenti com a cabeça, apertando o taco entre minhas mãos.
- Agora, vamos. – ele virou-se e começou a andar.
Segui-o, ignorando as massas disformes no chão dos homens que me atacaram.
Vocês devem pensar que foi uma grande burrice minha ficar ali.
Eu concordo. Não era tão burra assim.
Mas eu tinha essa ânsia terrível.
Ânsia de ver Heiwajima-san brigando comigo.
Era como se ele se importasse comigo. Uma ilusão.
Quando ele ficava irritado com minhas atitudes, me olhando com desaprovação, meu coração batia descompassado, o sangue fluía mais quente.
Era perigoso, era errado.
Mas eu gostava.
Somente assim Heiwajima-san voltava toda a sua atenção para mim.
Eu gostava daquela expressão dura.
Aquelas palavras me ordenando.
O gosto do cigarro já iniciado por ele era como um beijo indireto.
Era a minha forma de tê-lo para mim, mesmo que só por um momento.
Eu era uma garota má.
Tirei o cigarro da minha boca, batendo as cinzas e devolvendo para Heiwajima-san.
Ele o pegou, dando uma tragada.
Senti o gosto do meu sangue misturado com o da nicotina.
Eu sorria por dentro.
Que garota má.
- — [朔夜ねね] (Sakuya Nene)-san entrou no chat.
[甘楽] (Kanra): Vocês ouviram?
[甘楽] (Kanra): Parece que um cara chamado Heiwajima Shizuo tem causado muita confusão ultimamente.
[セットン] (Setton): Hã?
[朔夜ねね] (Sakuya Nene): Boa noite! (・∀・)
[朔夜ねね] (Sakuya Nene): Ah
[朔夜ねね] (Sakuya Nene): Heiwajima Shizuo? Aquele que usa roupas de barman?
[甘楽] (Kanra): Siim.
[甘楽] (Kanra): Eu soube que ele sempre foi um cara assustador, mas ultimamente anda mais violento.
[甘楽] (Kanra): Prova de que Ikebukuro é como um campo de batalha nesse momento!!
[田中太郎] (Tanaka Tarou): Eu nunca o vi…
[朔夜ねね] (Sakuya Nene): Eu já o vi algumas vezes por aí.
[朔夜ねね] (Sakuya Nene): Me pareceu um cara normal. (゚ペ)
[田中太郎] (Tanaka Tarou): Mas ele deve ser assustador, como as pessoas dizem.
[セットン] (Setton): Não sei…
[セットン] (Setton): Mas você não devia julgar as pessoas só se baseando em rumores.
[朔夜ねね] (Sakuya Nene): Bem, isso é verdade. (・-・)
[甘楽] (Kanra): Ah, Setton-san, então você o conhece?
[甘楽] (Kanra): Não me diga que... Você é um criminoso também?
[朔夜ねね] (Sakuya Nene): ∑(O_O;)
[甘楽] (Kanra): Que medooooo!!! Me salveeeeeem!!!!! ( ( ( (; ゚Д゚) ) ) )
[セットン] (Setton): Não sou!
Me recostei contra as costas da minha cadeira.
Celty sempre falava demais nos chats.
Tanaka-san dava uma leve bronca em Heiwajima-san, por ter espancado outro devedor antes mesmo de eles pegarem o dinheiro.
- Desculpe. – ele disse em resposta.
Perto de Tanaka-san, ele ficava tão calmo que me dava até uma pontada de ciúmes.
Às vezes eu pensava que machucava ainda mais Heiwajima-san por dar tanto trabalho para ele.
Mas essa era a minha natureza masoquista. Quando eu percebia, já estava correndo perigo.
E Heiwajima-san sempre vinha me salvar.
Sempre.
Como um herói num romance salvando a sua amada.
Mas ele não era nenhum herói, e eu nunca fui sua amada.
Eu sempre soube disso.
Porém, só fui me ligar muito tempo depois.
- Algo fede. – Heiwajima-san resmungou.
Mas eu só sentia o costumeiro cheiro de concreto e pessoas de Ikebukuro.
Mais tarde, havia uma multidão em volta de uma ambulância.
Um homem tinha sido ferido.
As pessoas cochichavam. “Foi o Retalhador!”
- Que coisa... – Tanaka-san suspirou. – Ikebukuro começou a ficar bastante turbulento de novo.
Ele se afastou.
Me virei para acompanhá-lo, mas Heiwajima-san virou a cabeça rapidamente para o outro lado, surpreso.
- O que foi, Heiwa...-san? – perguntei.
- Ah, nada... – ele virou-se e começou a andar. – Algo cheira mal.
Dei de ombros e o acompanhei.
- Olá, Shizuo, Tom-san, Ayame-chan! – Simon nos cumprimentou quando passamos em frente ao seu ponto de propaganda do Russia Sushi.
- E aí, Simon! – Tanaka-san respondeu, sorridente.
- Simon-san. – fiz uma curta reverência para ele, sorrindo também.
Heiwajima-san não o respondeu e continuou em frente, como se Simon fosse invisível.
Fiquei sem saber o que fazer, olhando para Simon e Heiwajima-san que já se afastava.
Fiz mais uma curta reverência para o russo e corri atrás do loiro.
Encontramos com Kadota, e o mesmo se sucedeu.
- E aí, há quanto tempo. – ele nos cumprimentou.
- Oi, Kadota-san. – eu acenei para ele e continuei atrás de Heiwajima-san.
Então, Heiwajima-san finalmente parou.
Olhava para os filmes em cartaz na fachada do Cine Sunshine.
Havia um pôster enorme do novo filme de Kasuka.
“Pecado do coração”, pude ler.
Que irônico.
- Então ele está estrelando outro filme... – um homem parou ao nosso lado. – Hanejima Yuhei é mesmo uma estrela.
Olhei para ele com desconfiança.
- Não, acho que o nome dele é Heiwajima Kasuka-san. – o homem continuou. – Não tem orgulho de ele ser seu irmão mais novo? Heiwajima Shizuo-san.
Fiquei aflita, mas Heiwajima-san não se movia, ainda olhando para frente.
O homem notou que eu o encarava, então sorriu.
- Perdoem minha indelicadeza. Aqui está o meu cartão. – ele estendeu um pequeno retângulo branco de papel encorpado.
Niekawa Shuuji
Escritor
Olhei para o homem com atenção, não pegando o cartão. Ele usava um sobretudo de cor clara, e uma boina marrom. Suas barba por fazer deixava-o com cara de mendigo bêbado.
- Ele não só é elegante, como também atua bem. – Niekawa continuou a conversa como se não notasse as nossas reações peculiares. Continuou falando mais e mais sobre Kasuka.
Heiwajima-san pegou um cigarro e o colocou na boca.
Senti que ele já estava começando a ficar nervoso.
- Ouvi muitos rumores a respeito de você tê-lo treinado ou não. – o homem falou. – Será que eu podia tomar algum tempo seu esta noite para perguntar detalhes sobre isso?
Heiwajima-san tirou o cigarro sem acender dos lábios.
- Senhor, acho melhor nos deixar em paz. – eu disse, notando a impaciência de Heiwajima-san.
- Ou então sobre o relacionamento entre você e Kasuka... Disseram que eram tão íntimos que já chegaram a fazer coisas que a sociedade não aprovaria... – Niekawa comentou, ignorando meu aviso.
- S-SENHOR! — Senti meu rosto ficar em brasa instantaneamente.
Mas foi tarde demais.
Heiwajima-san mordeu o lábio inferior e amassou o cigarro, jogando-o no chão e pisando em cima dele.
Aquele homem, Niekawa Shuuji, tinha definitivamente passado de todos os limites.
Em uma fração de segundo, um poste de luz da rua foi arrancado de seu lugar, e em outra fração, o tal escritor estava jogado no chão, em choque, o poste enfiado no concreto bem próximo a ele.
Bem merecido, se querem saber minha opinião.
Porém, mas uma vez, tinha falhado em conter a raiva de Heiwajima-san.
Nos momentos em que ficávamos à sós, por incrível que pareça, eu e Heiwajima-san não conversávamos muito.
Só falávamos o necessário.
Algumas noites, eram apenas palavras monossilábicas.
Eu gostava de ouvir a voz de Heiwajima-san, mas não queria incomodá-lo.
Minha presença era como a de um fantasma.
Mas meus cabelos não eram negros como os das lendas, e sim rosa berrante.
Um fantasma escandaloso ouvindo música alta e carregando um taco de beisebol.
Às vezes andávamos por Ikebukuro, sem destino.
Observávamos as pessoas.
Intercalando com sua expressão séria e pensativa, às vezes ele dava alguns sorrisos fracos.
Isso, para mim, era felicidade.
Eu me contentava com tão pouco, e ainda assim, tinha atos tão egoístas.
No que afinal eu estava me tornando?
Acho que já tinha passado do adjetivo “stalker”.
Porém...
- Izaya! – Heiwajima-san resmungou, avistando o informante numa ponte à sua frente. – Eu sabia que algo cheirava mal! Era você!
Orihara Izaya desapareceu de onde estava, quase como um gato de rua.
- O que pensa que vai fazer com Ikebukuro agora? — Heiwajima-san correu até a ponte, irritado.
Suspirei.
Eu realmente não prestava para ficar ao lado de Heiwajima-san.
Andei atrás dele enquanto ouvia um costumeiro grito.
- IIIIIIIIIZAAAAAAAAAYAAAAAAAAAAAAA!!!!!!!!!!!!!
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