Cigarro e Flor de Cerejeira
3 Peruca.
Notas iniciais
Agora não tenho muito tempo para pensar nele, e decidi seguir em frente. Se algum dia eu conseguir reescreve-lo, será um prazer.
Enfim, esse capítulo marca o final do Ensino Médio da Ayame. Ele quase foi dividido em duas partes, mas achei desnecessário. Uma cena foi cortada para adicionar coisas importantes.
Estou muito contente com ele, aliás. Apesar de longo, espero que gostem.
E no próximo, estaremos ainda mais perto de onde o anime se passa!
Boa leitura!
Após aquele dia em que conheci Heiwajima Shizuo, tudo pareceu mudar.
Ou melhor, aquele dia em que reencontrei Heiwajima Shizuo.
O problema é que eu nunca ousava falar sobre o que aconteceu.
Ele não gostava de falar sobre as coisas que destruiu sem querer devido a seus acessos de raiva.
E por outro lado, eu também tinha medo de que ele não se lembrasse de nada.
Mesmo assim, mantínhamos uma amizade normal.
A única coisa era que eu nunca conseguia chamá-lo pelo nome.
Era algo estranho. Toda vez que começava a dizer seu nome, minha voz falhava, o que resultava em algo, no mínimo, engraçado.
“Hei...-san”, “Heiwa...-san”, e certa vez cheguei até a “Heiwaji...-san”. Mas nunca passei disso.
Vocês se perguntam em como eu digo o nome dele normalmente aqui, não é?
Acontece que eu só não consigo dizer na frente dele.
Simplesmente, não consigo.
Ainda bem que isso nunca pareceu importunar Heiwajima-san.
Eu andava com os garotos mais malucos de toda a Academia Raira. Com isso, minha fama de delinqüente voltou.
Ainda mais depois que conheci Orihara Izaya, outro amigo de Kishitani-kun e provavelmente o garoto mais maléfico do colégio.
Nós nunca nos falamos muito, mas ele parecia se divertir com a minha expressão eternamente triste.
Eu provavelmente era tão miserável que ele não se importava em fazer minha vida ainda mais caótica do que era, então me deixava em paz.
Diferentemente do Heiwajima-san.
Quando os dois se viam, nada à sua volta saía ileso.
Era como se uma bomba radioativa explodisse bem na sua cara.
Mas aconteceu algo deveras curioso num certo dia em que aqueles dois se encontraram.
Isso se passou depois da aula.
Heiwajima-san perdeu Orihara-san de vista, como sempre.
Cansado e ofegante, parou próximo a um dos prédios da academia.
Ninguém passava por ali naquela hora.
Eu segui os dois de longe, como costumava fazer.
Aliás, eu sempre seguia Heiwajima-san. Para quase todo lugar. Ou ele não se importava, ou a minha presença era tão insignificante que nem era notada. De qualquer forma, ele nunca me impediu de segui-lo.
Aproximei-me silenciosamente, e me postei ao seu lado.
Ele estava mais irritado do que nunca.
Xingava até o último fio de cabelo de Orihara-san.
Ficou tão descontrolado que até deu alguns socos na parede próxima, trincando-a de leve.
Então eu fiz algo impensável.
Estendi uma garrafa de leite, daquele mesmo tipo que minha mãe me fazia entregar para ele todos os dias na infância.
Heiwajima-san me olhou.
Estiquei um pouco mais o braço.
Ele estalou a língua e pegou a garrafa da minha mão.
- Valeu. – ele disse com a voz rouca.
Dei um sorriso quase imperceptível enquanto ele arrancava o lacre da garrafa e bebia todo o seu conteúdo de uma vez só.
Antes que eu notasse, estava fazendo isso todos os dias.
No segundo ano do colegial da Academia Raira, fiquei na mesma sala que Heiwajima-san e Kishitani-kun.
Nós três andávamos juntos o tempo inteiro, e foi assim que os piores rumores começaram.
Prefiro não entrar em detalhes, mas aparentemente eu tinha um relacionamento promíscuo com os dois.
Diziam que eu fazia coisas impensáveis, e que por morar sozinha, sempre recebia meus dois amigos para uma “festinha particular”.
Além de comentarem várias vezes sobre minhas “performances fantásticas”.
Se eu soubesse fazer metade do que diziam que eu fazia, acho que nem estaria mais morando no Japão.
De qualquer forma, os rumores foram ficando piores e piores.
Eu não ligava muito. Podiam dizer o que quisessem, mas eu gostava de andar com meus dois amigos. Eram meus únicos, afinal.
E nenhum deles me via dessa forma errada e distorcida que o resto tanto teimava.
Heiwajima-san nem sonhava com os sentimentos que eu nutria por ele. Eu preferia que ficasse desse jeito.
A coisa foi ficando tão drástica que alguns professores começaram a me ignorar na sala de aula. Outros me davam suspensões sem motivo aparente. E um deles uma vez tentou até me assediar sexualmente, mas Heiwajima-san entrou na sala antes que algo pior acontecesse.
Os outros alunos cochichavam enquanto eu passava, e comecei a “perder” objetos como canetas, livros, estojos... Certa vez até meus sapatos.
Eu vivia “tropeçando” nos corredores quando andava sozinha.
Meus joelhos ficaram roxos de tanto se encontrarem com o chão frio da escola.
Mas eu não soltava nenhum pio de dor. Não reclamava.
Kishitani-kun, por outro lado, não sabia o que fazer comigo. Se preocupava que eu acabasse quebrando um osso por conta disso. Dizia para eu ter cuidado.
Heiwajima-san não dizia nada, mas fazia uma expressão muito irritada toda vez que eu ia até Kishitani-kun para cuidar dos meus machucados.
Algumas semanas depois, vários alunos faltaram.
Estranhamente, eram justamente os que implicavam comigo.
Os professores disseram que todos estavam no hospital. A maioria com braços e pernas quebrados.
No intervalo, comentei sobre como isso era estranho. Confessei que na verdade estava sendo perseguida por aqueles garotos.
Kishitani-kun suspirou.
Heiwajima-san estalou a língua. – Furisaki. – ele me chamou.
Olhei para ele.
- Me deve uma garrafa de leite. – ele disse antes de se afastar.
Olhei com curiosidade para Kishitani-kun.
Então foi isso.
Assim que terminaram as aulas do dia, me levantei e deixei uma garrafa de leite sobre a mesa de Heiwajima-san.
Tinha um bilhete colado nele.
“Obrigada.”
Não consegui escrever mais nada além daquilo.
A partir daquele dia, os rumores e as implicâncias terminaram.
Algumas semanas depois, chegava um dia muito importante.
Todas as garotas da sala já estavam cochichando sobre isso.
Chegava o dia 14 de Fevereiro.
E, bem, todos devem saber o que isso queria dizer.
Eu estava no quarto de Celty, conversando sobre isso, sentada no chão.
- Secchan, o que faço?
“Que tal biscoitos?” ela escreveu no notebook.
- É uma boa idéia. E você? Vai fazer o quê?
“Não sou muito boa em cozinhar.”
- Eu te ajudo. Faremos nossos presentes juntas, o que acha?
“E o Shinra?”
- Nós o chutamos para fora.
Celty se contorceu no que parecia uma risada, e eu ri também.
“Combinado, Aya-chan.”
Preciso mencionar que a Celty era minha melhor amiga?
Logo chegou o dia tão esperado.
Eu estava tão nervosa que quase desisti da idéia e faltei no colégio.
Mas a Celty ia me matar se eu fizesse isso.
O dia passou normalmente. Dei meu chocolate de amizade para Kishitani-kun no intervalo, enquanto Heiwajima-san corria atrás do Orihara-san mais uma vez.
- Ganhei um chocolate da Ayame-chan! Vivaaa! Obrigado! – festejou. — E o Shizuo-kun?
Mordi o lábio inferior e desviei o olhar.
- Hm... – ele me olhou com curiosidade, sorrindo.
Balancei a cabeça e disse que tinha que fazer algo importante.
Kishitani-kun se limitou a continuar sorrindo.
Meu médico sabia mais sobre mim do que qualquer outra pessoa no mundo.
Na saída do colégio, encontrei com Heiwajima-san.
Kishitani-kun estava comigo.
Não vi nenhum embrulho na mão de Heiwajima-san, além de alguns pacotes vermelhos e rosas que ele provavelmente ganhou de outras garotas.
Nós nos sentamos no parque ali perto e ele dividiu os chocolates conosco.
- Isso não é um pouco desalmado, Shizuo-kun? – Kishitani-kun perguntou.
- Se eu comer todos esses chocolates, vou passar mal. – ele disse depois de estalar a língua. Se comeu um ou dois bombons, foi muito.
- Ainda assim... – o jovem médico engoliu seu décimo oitavo bombom.
- Estou guardando espaço para outra coisa.
- Hmmm... O que será?
Heiwajima-san mandou Kishitani-kun tomar no cu e calar a boca.
Eu ri.
Mas meu coração se apertava com o medo de que meu amado não tivesse encontrado o pequeno embrulho branco com uma fita azul claro debaixo da mesa. O meu presente.
Nos levantamos depois de terminar de comer tudo, e enquanto Heiwajima-san virava de costas para ir embora, arregalei os olhos.
Uma fita azul claro despontava do bolso da calça, onde sua mão estava enfiada, como se segurasse aquilo com todas as forças, mas ao mesmo tempo se contendo para não destruir.
Meus lábios se esticaram num sorriso. Minhas bochechas doeram.
Fazia quantos anos que eu não sorria?
A surpresa mesmo veio um mês depois.
Kishitani-kun me deu bombons de White Day, e pediu um conselho sobre o que dar para Celty.
Dei a idéia de um cartão bonitinho, ou um chaveiro.
Ele ficou tão eufórico com a idéia que saiu disparado no final da aula, deixando seus amigos para trás.
Eu não vi Heiwajima-san, então rumei para o portão do colégio, saindo.
Se eu estava triste por não ter recebido nada de White Day dele?
Na verdade, não.
Eu não esperava nada do Heiwajima-san. Eu só queria ficar ao lado dele.
Ele aceitou meus biscoitos e não disse nenhuma palavra sobre isso.
Mas eu não fazia questão de palavras nem gestos.
Apenas sua presença já era o suficiente para o zumbido nos meus ouvidos diminuir.
Então somente isso bastava.
Só que não foi isso o que aconteceu.
Parado no portão do colégio, Heiwajima-san me esperava.
- Vou te levar para casa. – ele rosnou.
Assenti com a cabeça e começamos o percurso.
Faltava a distância de uma esquina para chegarmos no meu prédio.
Heiwajima-san parou.
Olhei para ele.
Ele me entregou uma caixinha branca sem-graça.
- Valeu. – se limitou a dizer.
Ele não olhou para mim em momento algum.
Abri a caixinha ali mesmo.
Tinha um doce japonês rosado.
- No White Day geralmente se dá algo branco, Heiwa...-san. – Eu disse, minha voz travando no seu nome como se costume.
Ele estalou a língua.
- Obrigada. – eu disse, por fim.
- SHIZU-CHAAAAAAAAAAAAAAAAN!!!!!!!! – um grito ecoou próximo.
Heiwajima-san perdeu a postura.
- IIIIIIIIZAAAAAAAYAAAAAAAAAAAAAA!!!!!!!! – ele berrou assim que avistou Orihara-san passando furtivamente por nós dois.
E os dois correram desembestados.
Aquele “chocolate” de White Day tinha um gosto indescritível.
O tempo de colegial passou mais rápido do que nunca.
Ao fim do terceiro ano, enquanto todos se preocupavam com vestibulares e qual faculdade prestar, eu, Kishitani-kun e Heiwajima-san apenas nos ocupávamos com viver cada dia de forma mais tranqüila possível.
Afinal não era fácil para uma garota com uma doença rara, um projeto de médico maluco e um garoto que não conseguia controlar sua raiva viverem normalmente.
Ainda mais com um psicopata com Orihara-san nos importunando todos os dias.
Mesmo assim, eu não trocaria esses dias por nada.
No dia da formatura, durante a cerimônia, sentamos longe um do outro.
Após todas as formalidades e a entrega dos diplomas, saímos para tomar um ar na quadra de futebol da escola, reformada pela décima segunda vez depois de mais um ataque de raiva de vocês sabem quem.
Heiwajima-san arrancou fora sua gravata assim que chegamos, jogando-a no chão.
- Enfim, terminou. – Kishitani-kun sorriu.
- Obrigada por esses três anos, meninos. – eu disse.
- Vão continuar em Ikebukuro? – ele perguntou.
- Não vejo motivos para ir embora daqui. – Heiwajima-san disse.
- Eu também não. – respondi.
- Hm... – Kishitani-kun suspirou. – Que bom, ainda tenho muito o que estudar sobre vocês.
- Vá se foder. – Heiwajima-san disse.
No final do dia, nosso médico maluco foi embora e nos deixou sozinhos.
Quase ninguém da escola estava mais lá.
Eu e Heiwajima-san nos encontrávamos parados na porta do colégio.
Entreguei uma garrafa de leite para ele.
- A última...? – perguntei.
- Você que sabe. – ele grunhiu.
Eu sorri.
- Faz um favor. – ele cortou o silêncio.
Olhei para ele.
Ele encarava os prédios à frente.
- Tire essa peruca.
Continuei olhando para ele.
Ele continuou encarando os prédios.
Abaixei a cabeça e puxei os fios castanhos.
Meu cabelo de verdade caiu sobre os ombros.
Já estava bastante comprido e completamente rosa. Eu parecia uma personagem de anime.
- Como você...?
- Essa coisa me irritava profundamente. Você não precisa esconder quem é, ouviu? – ele me interrompeu.
- Ta.
- E desculpe pela padaria.
Meu coração parou de bater.
Eu quase engasguei.
- Heiwaji...-san...
- É... – acho que ele tentou dizer algo, mas ficou parado no ar.
Até um certo garoto de cabelos pretos sair de trás do muro e dar uma rasteira no Heiwajima-san.
- SHIZU-CHAAAAAAAAN! – ele gritou em deboche enquanto corria.
- IIIIIIIIIIZAAAAAAAYAAAAAAAAA........ – Heiwajima-san rosnou enquanto se levantava e corria para alcançar o moreno.
O pôr do sol fez meu cabelo parecer alaranjado.
Andei calmamente para casa.
A peruca ficou na porta da Academia Raira.
As flores de cerejeira desabrochavam.
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