Cigarro e Flor de Cerejeira
4 Microfone.
Notas iniciais
Ao final do colegial, Kishitani-kun conseguiu um emprego como médico.
Obviamente, como médico clandestino.
Mesmo assim, eu e Celty fizemos um bolo para comemorar sua conquista.
Quanto a Heiwajima-san...
Ele tentou vários tipos de empregos de meio-período.
Mas por não ser a pessoa mais calma do mundo, sempre se irritava e destruía tudo o que estava à sua volta.
Isso resultou num total de 32 cartas de demissão.
Acho que isso pode ser considerado um recorde mundial.
E eu?
Bem, eu arranjei um emprego numa padaria da região.
Eu tinha experiência graças à minha mãe. Mas não estava satisfeita com esse trabalho.
Provavelmente porque ele me privava de passar meu tempo com Heiwajima-san.
Naquela época, eu já era uma stalker sem volta.
Alguns meses depois, Heiwajima-san nos contou que encontrara um emprego muito bom.
Ele começou a trabalhar como barman num bar relativamente famoso.
Era algo tranqüilo, ele não se estressava e permanecia quieto na maioria das vezes, apenas enchendo os copos dos clientes que ali passavam.
Fui visitá-lo num dia desses.
Celty iria junto, mas disse que Kishitani-kun a chamou para sair.
No fundo desejei que aqueles dois já estivessem namorando. Apesar de Setcchan sempre negar, ela gostava muito daquele médico doido. E ele a amava, mesmo ela sendo uma figura mitológica sem cabeça.
É, o amor é maluco às vezes.
Acho que é por isso que é amor.
Eu conversava com Heiwajima-san enquanto bebia minha água com gás. Não gostava de álcool. Achava amargo demais.
Reclamei disso com ele, e Heiwajima-san pareceu um pouco pensativo.
Abaixou-se e pegou algumas garrafas, colocando-as em cima do balcão.
Preparou um drink rápido na taça de martini.
Mas não era um martini comum. Tinha um leve tom rosado.
Empurrou a taça para mim.
- Aprendi esse recentemente. – ele disse.
Fiquei olhando do líquido cor de rosa para Heiwajima-san com uma cara de “você está fazendo piada com o meu cabelo de novo, não?”. Mas bebi um minuto depois.
Era gostoso, muito gostoso. Suave.
- Gostei. – eu disse. – o que é?
- “Cherry Blossomtini”. – ele respondeu.
Realmente, ele estava fazendo piada com a cor do meu cabelo.
Enquanto eu me levantava para sair do bar algumas horas depois, algo chamou a minha atenção.
No canto do bar havia um palquinho vazio com um microfone no pedestal.
- Fazem shows ao vivo aqui, Hei...-san? – perguntei.
- Faziam. O cara que costumava cantar aqui se mudou para os Estados Unidos, pelo visto.
- Hm... – pensei um pouco.
O álcool do Blossomtini devia estar circulando de forma esquisita pelas minhas veias, porque troquei algumas palavras com o gerente.
Ele balançou a cabeça em aprovação. Minha sugestão foi aceita.
Subi no palco, sentando no banquinho que havia no canto. Ajustei a altura do microfone.
Fiz um sinal para o gerente. As luzes do palco quase me cegaram.
A música que pedi começou a tocar, passando do meu mp3 para a caixa de som.
Assim que fechei os olhos, eu já não era mais a mesma.
In a courtyard
Used to sing as loud as she could
Locked away here
She's been quiet, lovely and good
But no one listens now
She lost her voice
She had no choice
Eu nunca mencionei antes para vocês.
Mas eu tinha um talento nato para cantar.
Minha especialidade eram músicas em inglês.
Devido à minha natureza tímida, eu não participei do clube de música da escola.
Aliás, eu raramente revelava esse dom.
Mas ao ver o palco vazio, me surgiu um ímpeto impossível de conter.
Quando eu cantava, minha personalidade parecia mudar.
E naquele momento, não havia mais ninguém além de mim mesma.
If you sing loud and clear
Someone passing by will surely hear you
No you can't be afraid
If you ever want somebody near you
If you sing loud and clear
Someone passing by will surely hear you
No you can't be afraid
Enquanto eu cantava, minha doença parecia não existir.
Meus ouvidos não zumbiam.
Meu corpo não doía.
Não havia repressão.
Não havia temor.
E, somente naquele momento,
Não havia Heiwajima Shizuo.
Tore the curtain
Put her hand outside of the frame
Let her hair down
Sat all day and nobody came
But when the sun went down
The stars came out
She heard them shout
But when the sun went down
The stars came out
She heard them shout
If you sing loud and clear
Someone passing by will surely hear you
No you can't be afraid
If you ever want somebody near you
If you sing loud and clear
Someone passing by will surely hear you
No you can't be afraid…
A música terminou.
Aplausos. Muitos, muitos aplausos.
Abri os olhos e me deparei com Heiwajima-san feito uma estátua, de boca aberta.
Ainda bem que as luzes do palco apagaram antes que minha hemorragia nasal começasse.
E foi assim que me tornei cantora no bar onde Heiwajima-san trabalhava.
Na noite seguinte, cantei a mesma música.
Eu estava usando um vestido vermelho de gola alta, sem mangas e que ia até meus joelhos.
Meu cabelos rosados caíam meio enrolados de um coque displicente.
Os sapatos de salto pretos me faziam mais alta, mas logicamente ainda parecia uma pulga perto de Heiwajima-san.
Enquanto eu cantava, me levantei e me inclinei para o balcão.
Olhei para Heiwajima-san e apontei para meu cabelo, rindo.
Ele me preparou um Cherry Blossomtini.
Após meu show, o gerente me elogiou muito e me deu um pagamento adiantado.
Mas eu não estava nem um pouco interessada na opinião dele.
Sentei-me junto ao balcão, esperando Heiwajima-san terminar de lavar a louça.
- Então...? – perguntei.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos.
- Você canta bem.
Sorri.
- Mas odeio você de vermelho.
Na noite seguinte, fui trabalhar de lilás.
Alguém que eu não via há muito tempo foi visitar Heiwajima-san no bar.
Reconheci-o instantaneamente.
O ator famoso, Hanejima Yuhei.
Mas eu o conheci muitos anos antes como Heiwajima Kasuka.
O irmão mais novo, de cabelos pretos e cara de sono.
Acompanhado de dois homens carregando caixas de papelão, foi até o balcão onde Heiwajima-san limpava um copo.
- Você não deveria mudar de emprego tão freqüentemente. – foi o que consegui escutar.
Heiwajima-san parecia feliz.
A introdução da música começou.
Kasuka olhou para mim rapidamente.
E saiu do bar no mesmo segundo em que comecei a cantar.
Será que ele também se lembrou de mim?
Mais uma noite.
Heiwajima-san me preparou um Cherry Blossomtini.
Eu cantei.
A vida estava plena e ótima.
Infelizmente, não por muito tempo.
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