Cigarette Smoke
9 Um ano e três meses antes
Notas iniciais
A garota revirava as gavetas apressada, procurando qualquer coisa que pudessem usar contra Sarah. Suas longas tranças pendiam de cada lado de sua cabeça e ela as tirava do caminho com as mãos. Morria de orgulho de seus cabelos negros, que alcançavam seu quadril.
Da forma que estava, de costas para a porta, não podia ver que estava sendo observada.
Sarah olhava uma de suas melhores amigas revirar o escritório de seu pai, e mal podia acreditar no que via. Estava sendo traída por uma das pessoas em quem mais confiava na vida!
Conheceu Andy dois anos atrás quando a garota entrou no colégio. Ela logo se enturmou com Sarah e suas outras amigas, Zoe e Madison, que ficaram encantadas com sua meiguice.
E agora, a garota mais meiga que Sarah já conheceu estava contra ela. Tinha se juntado ao ser que ela mais detestava no mundo: Amanda.
Sarah não fez sequer um ruído quando Andy encontrou a pasta com seus atestados médicos.
O sorriso maligno de Andy fez Sarah pestanejar e um sentimento ruim tomou conta de seu sangue.
Preciso dar um jeito nisso, pensou Sarah. Preciso acabar com isso! Ela me derruba se quiser, mas que vai junto ela vai!
Ela desapareceu de vista no exato momento em que Andy olhou para trás. Sarah desceu correndo para a garagem e pegou um saco de lixo, jogando o resto do pacote no chão de qualquer jeito. Estava cega de raiva e mal fazia algo, já se esquecia logo em seguida. A única coisa de que se lembrava claramente era o ódio.
Pegou uma tesoura no armário da cozinha e voltou para o quarto, onde encontrou as duas amigas dormindo. Andy ainda não tinha voltado da sua caça ao tesouro.
Sarah escondeu o saco de lixo e a tesoura debaixo do cobertor e se deitou como se nunca tivesse se levantado.
Alguns minutos depois a outra garota entrou no quarto e se deitou em seu saco de dormir, aos pés da cama.
Sarah esperou pacientemente o tempo necessário até Andy dormir. Levantou da cama sem fazer barulho algum e se agachou ao lado da garota.
Seu olhar era de alguém em plena crise neurótica. Há anos ela não sentia isso e agora a dor do peito voltava como um furacão. Sabia que tinha duas opções: gritar e alertar as outras duas que sabiam de seu problema ou prosseguir com sua vingança.
A segunda opção prevaleceu e num movimento impetuoso Sarah cortou uma das tranças longas de Andy, e o alívio que isso lhe causou foi tão grande que ela se desviou de seu plano inicial e cortou a outra trança também. Depois de mais alguns picotes, ela guardou o cabelo no saco de lixo, calçou suas botas favoritas, saiu da casa e caminhou até o colégio. Ela cresceu ali e sabia como entrar sem disparar alarme ou acordar Hector.
Chegou ao corredor onde ficavam os armários e usou a combinação universal para abrir o armário de Amanda. Pegou uma folha do livro de Trigonometria e escreveu “Vingança”. Colocou o saco de lixo cheio do amado cabelo da amiga dentro do armário, com o bilhete logo em cima e o fechou. Voltou para casa entorpecida, tirou as botas e deitando a cabeça no travesseiro, dormiu, como se nada tivesse acontecido.
Acordou pouco tempo depois com o berro de Andy.
– Porque você fez isso?
Levantou desorientada, não sabia o que estava acontecendo.
– Sarah maldita! Porque fez isso comigo?
Sarah ficou de pé, encarando Andy passar as mãos furiosamente pela cabeça procurando por algo que não conseguia perceber o que era.
– Fiz o que Andy?
Madison estava ao lado de Andy, tentando acalmá-la, enquanto sua irmã gêmea Zoe ainda se levantava do saco de dormir, tão desorientada quando Sarah.
– Você! Você cortou meu cabelo!
Sarah não estava entendo nada. A última coisa de que se lembrava era de ver Andy mexendo nas coisas de seu pai e depois disso, mais nada.
– Eu... Eu não... Você mexeu nas coisas do meu pai... Você... Eu...
Zoe se levantou e segurou Sarah pelos ombros dando o apoio necessário para continuar de pé.
Madison e Zoe eram gêmeas idênticas, o que diferenciava as duas era o cabelo: Madison usava-o liso e Zoe cacheado. A pele cor de chocolate, o nariz, a boca e até as sobrancelhas eram idênticas.
As gêmeas olhavam de Sarah para Andy e ambas sabiam que tudo aquilo era verdade.
Sarah começou a visitar o médico aos doze anos, depois de arrancar plantas venenosas da região e cobrir a própria cama com elas, e a pior parte, não se lembrar de ter feito isso.
Zoe abraçou Sarah e disse com uma voz carinhosa e baixa para que só ela pudesse ouvir:
– Sarah, você fez isso, apenas não se lembra. Mas consegue se lembrar o que a teria feito tomar essa decisão?
Sarah balançou a cabeça e respondeu Zoe com uma voz que ela classificaria como dolorosa:
– Ela achou meus exames... Ia dar para a Amanda... Minha amiga ia fazer isso comigo...
Começou a chorar abraçada a Zoe.
– Ela é louca! Como você pode abraçar alguém retardado igual a ela?
– Cala a boca Andy!
Madison nunca se deixou enganar pela carinha de anjo de Andy e por mais que estivesse tentando acalmá-la não podia suportar ouvi-la falar mal de Sarah.
Depois de um tempo de choro e berros ameaçadores, as quatro garotas decidiram irem direto falar com Agatha, elas só não esperavam que Sarah fosse receber uma ligação da diretora solicitando sua presença imediata no colégio.
Elas seguiram rumo ao prédio de tijolos amarelos e quando entraram viram que todos estavam reunidos ali no pátio, assistindo ao vídeo de uma das seções de Sarah.
Agatha corria para lá e para cá, tentando parar a gravação, mas não conseguia encontrar o responsável. Todos estavam atônitos demais até para comentar o vídeo e a única pessoa que expressava alguma reação era Amanda, que exibia um sorriso triunfante.
Sarah naquele momento tomou uma decisão consciente: iria acabar com Amanda, nem que isso acabasse com ela.
Andy se bandeou oficialmente para o lado de Amanda e, pro desespero total de Sarah, todos amaram seu novo cabelo curto.
Uma série de planos maldosos se seguiu a partir daquele dia. Dentre esses pequenos (mas bons) planos, o pior foi quando Sarah despregou a escada do loft de Amanda. (Os dormitórios eram mini lofts para duas pessoas: uma cama na parte de cima e outra em baixo.) Amanda apenas quebrou o braço na queda, mas por pouco não foi o pescoço. Os pais de Amanda queriam processar Sarah, mas Hans conseguiu convencê-los de que não tinham prova alguma contra ela.
Então Hans Harue prometeu castigar Sarah. E essa promessa destruiu a vida dela: por ter feito tudo isso e ainda sair ilesa, iria ficar no colégio por tempo indeterminado, trabalhando de domingo a domingo, de dia a noite, sem poder ir além do vilarejo ou ter qualquer contato com o mundo exterior e isso incluía falar com as amigas que estavam saindo do colégio naquele ano.
Ela aceitou de bom grado, mesmo que isso parasse sua vida, mesmo que significasse adir (ou mesmo estrangular) o sonho de estudar botânica. Aceitou porque sabia o quão má tinha sido. Aceitou porque precisava disso pra voltar a ser normal.
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