Cigarette Smoke
5 Tirana Completa
Notas iniciais
Desculpe, é que fiquei muito feliz com o primeiro comentário :3
Meu quarto parece estranhamente vazio. Como se faltasse algo muito importante que eu não sei o que é. Faço uma lista mental de tudo que tem ali dentro: cama de casal com dossel azul, uma escrivaninha em estilo antigo também azul, um espelho grande que toma conta quase de toda a parede e uma porta pintada de branco que dava para o closet. Uma das paredes é toda pintada com estrelas e constelações, enquanto a parede oposta é pintada com uma tinta branca especial, onde eu posso escrever o que quiser e apagar com álcool.
Está tudo em seu devido lugar, cada objeto, cada detalhe, cada palavrão escrito. Mas a sensação de vazio continua aqui, apenas esperando para dar mais uma fisgada.
Um longo suspiro escapa da minha garganta.
– Qual é Sarah, não é tão ruim assim!
Ah, é sim! Enganar um garoto desses é ruim, muito ruim... Mas se for pra me tirar daqui... Ou talvez não valha a pena.
Olho a hora no celular e me assombra saber que ainda são duas da manhã... Parece que faz tanto tempo que Jeremy saiu daqui... Jeremy.
Ah, droga! Ele não podia ser feio? Ou chato? Seria tudo mais fácil!
Me reviro na cama procurando uma posição mais livre de culpa, mas não ajuda muito. Basicamente vou morrer de remorso antes de conseguir sair desse buraco.
Algumas horas antes, depois que Jeremy terminou de colocar as folhas nos sacos de lixo, nós fomos para a casa dele – já que na minha não tem comida alguma – e encontramos Christian na cozinha. A reação dele ao ver o filho foi incrivelmente fofa.
“Jemy?”
– Oi pai.
Os olhos de Christian se arregalaram e várias lágrimas começaram a escorrer pelo rosto enquanto ele abraçava Jeremy. Eu pensei que ele ficaria com vergonha do pai chorar daquela maneira, mas ele começou a chorar junto e eu fiquei no canto, só assistindo e desejando ter uma máquina fotográfica. Claro, ninguém é de ferro!
Depois que Jeremy explicou ao pai porque tinha vindo antes, deixando de fora todos os detalhes sórdidos (que não saciou minha curiosidade), nós três nos sentamos e comemos os lanches que Christian tinha feito. Meia hora depois a mesma cena se repetiu com Agatha.
Começo a pensar que tipos de pais tentam enganar o filho dessa forma.
Quem sabe seja amor demais. Ou preocupação demais. Só sei que me sinto aflita só de pensar em continuar com isso.
“Mas é sua chance de sair daqui”, essa maldita voz está de volta. O que eu faço pra extinguir de vez essa voz maligna da minha mente? Foi ela que me fez fazer todas aquelas coisas terríveis no ensino médio e agora está tentando voltar, apenas para me assombrar.
Devo ter cochilado em algum momento porque comecei a sonhar com ele.
Estou em pé, de frente para Jeremy. Nossos rostos estão a centímetros um do outro. Tento me afastar, mas é inútil, pois descubro que não estou de pé coisa nenhuma, mas sim deitada com o corpo dele por cima do meu.
É estranho, mas não sinto sua respiração. Vejo seus lábios se movendo, seus olhos claros me encaram com medo. Começo a entrar em pânico por que não consigo ouvir o que ele diz. A coisa toda muda e eu finalmente consigo ouvir o que ele fala, mas eu não estou mais em baixo dele e sim vendo de longe: Jeremy está apoiado numa caixa de vidro gritando meu nome freneticamente, ele bate na caixa e grita, pede socorro. Começo a chorar ao notar o sangue em seus pulsos quando os socos na caixa começam a quebrá-la.
E quando ele finalmente consegue partir todo o vidro é apenas para descobrir que não estou mais ali.
Acordo num pulo, suando bicas, a respiração entrecortada. Pulo da cama e vou até a janela investigar a origem do barulho que me fez acordar daquele sonho horrível... Talvez eu até agradeça. Ou não.
Olho para baixo e vejo Jeremy, vestindo apenas uma calça de moletom, jogando pedrinhas na minha janela. Abro o vidro e grito:
– O que raios você está fazendo?
– Te acordando!
– Pra que?
– Pra conversar!
Fecho a janela e volto para a minha cama. Outra chuva de pedras. Suspiro e levanto novamente. Nem me dou ao trabalho de abrir o vidro de novo, apenas sinalizo para que ele dê a volta e entre pela porta da frente. Ele some e começo a contar mentalmente. Três minutos e vinte e seis segundos depois ouço batidas na minha porta.
– Entra logo.
A porta se abre com um rangido e Jeremy entra no quarto. De repente o ambiente que antes parecia vazio se enche de algo que não pude distinguir de inicio, mas que agora classifico como muita informação num único lugar. Como eu tinha imaginado ele era muito musculoso por baixo da camiseta, sua barriga era perfeitamente intricada e, até onde eu posso ver, durinha. Pensar nisso me fez erguer os olhos para seu rosto. Não que isso tenha ajudado muito.
– O que você quer comigo às três da manhã?
– Já disse que quero conversar.
– Sobre o que?
Por favor, é domingo! O único dia que eu só trabalho até a hora do almoço e que posso dormir o resto da tarde! Porque agora Senhor? Por quê?
– Sei lá... Qualquer coisa.
Eu olhei para ele, digo, olhei mesmo (sem perversão, juro!) e então eu percebi que ele só precisa falar, até sobre insetos se for necessário.
– Certo... Ahn, senta aqui, vamos falar sobre...
– Você.
– Porque eu?
– Gosto de ninfas.
Ele se jogou ao meu lado e me encarou.
– Tudo bem, o que quer saber?
– Tudo.
Então contei a ele. Disse que quando vim para cá era excluída por ser a filha do dono da escola, a protegida da diretora. Mas depois da primeira maldade conquistei o respeito de alguns e o amor de outros... Virei uma tirana completa.
– Resumindo, eu era terrível.
Só então notei que ele dormiu. Não estou irritada nem nada do tipo. Então apenas puxo o edredom por cima dele e me enrosco ao seu lado, voltando a dormir.
Entrei em estado de vegetação... Sinto mãos me puxando pra realidade, mas a única coisa povoando minha mente é que a cama está tão macia e quentinha...
– Sarah!
– Hum.
– Seu celular está tocando!
– É só o despertador...
Tentei dizer a ele que tanto faz, que deixasse tocar... Que jogasse pela janela.
Mas então me perguntei: Quem é ele?
– Quem é você?
– Você não lembra que eu passei a noite aqui não é?
Eu sei que poderia abrir os olhos e pronto, a voz ganharia um rosto... Mas estou tão cansada, e tem partes do meu corpo doendo que eu nem sabia que existiam.
– Sarah, você não lembra que me deixou entrar ontem?
Me concentro... Cabelo cacheado, olhos claros... Promessas... Erros... Castigos...
– Jeremy.
– Uau Ninfa, parece até que você bebeu todas ontem!
Preferia ter bebido.
– Que horas são?
– Hum... Dez pra sete.
Isso com certeza me faz acordar. Preciso estar no colégio as sete em ponto! Ai droga, droga, droga! Pulo da cama, tropeço no meu edredom muito branco e acabo de cara no chão. Não paro ao ouvir Jeremy perguntar se estou bem, apenas fico de pé e corro para o banheiro.
Tomar uma chuveirada é luxo, mas estou suada e com corpo todo doendo. Arranco o pijama de qualquer jeito e me enfio debaixo do chuveiro. Um dos piores erros da minha vida... Foi difícil deixar a água quente para trás, mas um dos acordos era nunca chegar atrasada.
Vou até o closet enrolada numa toalha grande e felpuda. Vejo, pelos cantos dos olhos, Jeremy se estirar na minha cama e fazer um anjo de cobertor. Ele está me fazendo inveja ou é apenas impressão minha?
Olho novamente o relógio: três minutos. Visto o uniforme, calço os sapatos e saio do closet prendendo o cabelo num coque alto (que é o penteado mais arrumado que consigo fazer certo). Fico parada em frente à parede espelhada arrumando os fiozinhos soltos. Jeremy me encara pelo espelho.
– Está bonita Ninfa... E você está rosa de novo.
– Sua mãe não disse que era para você estar na escola para a apresentação?
Sorri ao ver seus pequenos olhos infantis se arregalarem. Jeremy levantou num pulo da cama e fez exatamente a mesma coisa que eu: caiu de cara no chão.
– Espere, vou com você!
Vou saltitando escada a baixo e Jeremy escorrega pelo corrimão. Isso é uma coisa que não faço mais por causa de um dedo quebrado (coisas de um passado não muito distante).
– Espera... Minha mãe não vai meio que achar estranho nós chegarmos meio que juntos? E eu meio que estou sem camiseta...
– São muitos meios em uma frase só.
Sorrio e abro o portão entre as propriedades. Agatha está me esperando, olhando pelas portas de vidro. Vejo duas expressões passarem voando pelo seu rosto: surpresa e satisfação. Ela está feliz que eu tenha aceitado de vez o acordo.
– Bom dia para os dois... E Jeremy, você está atrasado.
– Foi mal mãe.
– Foi mal nada... Suba e troque de roupas, você tem cinco minutos.
Nós duas nos encaramos esperando Jeremy subir as escadas. Então ela sorriu e sussurrou um “bom trabalho”.
Bom trabalho? Claro, bom trabalho em continuar com seu egoísmo, bom trabalho em continuar sendo má... Bom trabalho em enganar uma pessoa tão... Tão Jeremy.
Notas finais
Comentem, sim?
Beijos o/
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