Notas iniciais
Mais um *-*

Meus saltos batucam no chão de linóleo enquanto ando apressada pelo corredor.

A apresentação de Jeremy para o resto da turma foi boa... Porém ele recebeu certos olhares que provavelmente colocarão meus planos em risco. E agora ele sumiu. Simplesmente sumiu no terceiro dia de aula... Isso porque a mãe dele é a diretora!

Não pude conversar direito com ele nos últimos três dias, acho até que Jeremy está magoado comigo ou coisa do tipo... Mas não tenho certeza, seu comportamento já estava estranho no domingo quando ele apareceu na minha janela implorando pela minha história de vida. Nunca, nos últimos dias, senti tanta vontade de saber o que aconteceu com ele no outro colégio. Agatha quase me sufocou com trabalho, Hector resolveu ter um ataque do pânico (tudo mentira, eu vi ele dançado conga no quarto) e Amanda está dando mais problemas do que nunca.

É de se imaginar que exista algum atrito entre mim e a Amanda... E é totalmente verdade. Aquela garotinha chegou aqui quando eu estava no ultimo ano e ficou deslumbrada com o poder que eu tinha.

Naturalmente ela quis roubá-lo de mim e eu naturalmente não deixei. Começamos uma guerra generalizada: ela com os novatos ao seu lado e eu, com os outros oitenta por cento da escola.

Dessa briga só me restou uma coisa: estou presa nesse colégio por tempo indeterminado por causa da pequena vadia. Por quê? Bem, vamos dizer que as cosas saíram um pouco do controle.

Paro no meio do corredor ao detectar um ruído... Música. Subo as escadas para o último andar e fico parada atrás da porta que dá para o telhado tentando ouvir algo a mais. Sem vozes sem passos. Abro a porta e encontro Jeremy.

Ele está encostado na parede, relaxado ouvindo música com os headphones no último volume (me surpreende seus ouvidos não estarem sangrando) lendo um livro. Tão concentrado que não me vê chegar até eu me sentar ao seu lado.

– Ah não, Jeremy! Você descobriu meu lugar secreto!

Jeremy tira os headphones assustado. Depois sorri ao ver que sou apenas eu.

– Como me encontrou?

– Qual é, eu moro aqui há anos. Conheço esse prédio como conheço as veias no meu punho. Além do mais, tenho uma super audição.

– Está tão alto assim?

– Quando você tiver trinta anos terá sua resposta... Se não antes.

Estiquei as pernas a minha frente me espreguiçando. Olho para seu rosto ainda surpreso por me ver ali. Abro um sorriso esperando conseguir deixá-lo envergonhado, mas ele apenas sorri também. Droga! Perdi minha única arma de sedução!

Olho entre suas mãos o livro que está lendo: tem uma caixa de correio na frente e o titulo escrito em letras garrafais.

– “Eu Sou o Mensageiro”? Sobre o que fala?

– Sobre um cara que pensa que é um Zé Mané, mas na verdade tem o mundo nas mãos.

– Interessante.

Na verdade já li esse livro. Foi ele que me trouxe de volta a realidade, e é mais um dos motivos do porque ainda estou presa aqui.

– Como encontrou este lugar, Jeremy? Eu deixo a porta trancada.

– Eu sei alguns truques Sarah.

– Você sabe arrombar?

– Não, mas sei distrair minha mãe enquanto pego a chave reserva.

– Garoto esperto.

Ficamos um tempo em silêncio. Eu o observo, espero ele voltar a ler, mas ele simplesmente remexe o livro nas mãos... Parece preocupado.

– O que aconteceu Jeremy?

– Nada demais Sarah.

Saquei que ele não quer conversar... Ou talvez só precise de tempo pra saber se pode confiar em mim... Se eu fosse ele não confiaria, afinal, eu estou aqui apenas por interesse pessoal em fugir.

Sinto-me um lixo humano.

– Sabe, eu nunca deixei ninguém vir aqui. Demorei tempo demais para deixá-lo perfeito.

– Dá pra perceber, tem sua marca por todo canto.

– Como assim?

– Tem umas erva-daninhas crescendo ali e um tanto de musgo espalhado do outro lado.

– Nossa, que engraçado.

– Xiu Ninfa.

Mas o pior que é verdade: eu adoro aquelas pequenas plantas crescendo no parapeito do telhado, o chão todo verde de musgo macio.

– Não são ervas daninhas. São trepadeiras Plubango.

– Plu o que?

– Plubango... Gosto das flores azuis, mas elas estão começando a sair do controle. Terei que cortar.

– Você quem plantou?

Fiz que sim.

– Você gosta de plantas?

– Porque está tão surpreso?

Jeremy balança a cabeça rindo. Pressinto que virá merda. Automaticamente entro na defensiva.

– Ouvi umas coisas sobre você...

– Sou a inspetora, é normal que ouça coisas sobre mim.

– Eu ouvi, mas não sobre a inspetora. Sobre a ex-aluna.

– Pergunto novamente: porque está surpreso? Te contei tudo no domingo.

Ele parece confuso. Não é pra menos, ele dormiu durante a história toda. Solto um longo suspiro e começo a me levantar. Jeremy segura meu braço.

– Não quer saber o que eles falam?

– Eu sei o que eles falam Jeremy. E digo: eu ainda sou a rainha.

– Não é o que a Amanda pensa.

– A Amanda não pensa.

Fico de pé e aliso minha saia. Dou o braço para ele se apoiar e levantar também.

– Ah, não obrigado. Vou ficar mais um pouco.

– Nem pensar, sua mãe está te procurando.

Ele junta suas coisas de má vontade, mas desce as escadas. Se ele pensa que pode me enganar está muito, mas muito errado mesmo.

– Ei senhor, me devolva a chave.

– Não vai me deixar voltar para seu lugar secreto?

– Não sem ser convidado.

Jeremy fica desapontado, faz um biquinho infantil (que me faz ter uma vontade absurda de mordê-lo), mas me entrega a chave. Desce o resto da escada e quando está para abrir a porta, grito:

– Que tal uma volta de carro hoje à noite?

– Está bem.

Então ele sai, me deixando para trás um braço arrepiado e uma culpa gigantesca.

Notas finais
Comentem que tal?