Cigarette Smoke
29 Seduzida
Notas iniciais
Estendo o lençol na grama e fico irritada quando o vento sopra fazendo voar o pano colorido. Jeremy ri e corre atrás do pano. Observo seus cachos recém crescidos se mexendo enquanto ele desembesta morro a baixo.
– Ei, corre!
Ele se vira e me mostra o dedo do meio. Insolente! Pirralho malcriado! Começo a procurar pedras para colocar em cima do lençol antes que Jeremy volte.
Um ano atrás se me dissessem que eu estaria fazendo um piquenique num morro verdinho, usando um vestido (!), eu diria que o mundo acabou, eu morri e nasci de novo. Mas aqui estou eu, usando um vestido e fazendo um piquenique num morro verdinho. Tem até uma cesta! Pego uma última pedra e volto para onde Jeremy está me esperando com o lençol já nos braços.
– E então, o que está achando?
– Divertido... Mas, só pra saber, você por acaso não vai tentar me alimentar na boca, vai?
– Você quer que eu te dê comida na boca Sarah?
– Claro que não!
Finjo um arrepio de repulsa e ele ri. Jeremy estende uma parte do pano e eu coloco as pedras, a mesma coisa do outro lado.
Então se senta no lençol e dá uma batidinha para que eu me sente ao seu lado. Pego a cesta e me aconchego perto dele... Sinto um arrepio e dessa vez foi por causa de um vento gelado que soprou.
– Isso é tão antiquado.
– Você já está falando como aquelas garotas dos anos 50... Acho que é o vestido.
Ele tira a jaqueta de couro e a coloca sobre meus ombros. E isso é tão estúpido que tiro a jaqueta e a devolvo para ele.
– A sua roupa também não está ajudando. Até óculos quadrados você está usando.
– Eu sei que você gosta! E além do mais, eu queria algo que você nunca fosse esquecer, então pedi pras gêmeas te arranjarem esse vestido e a minha roupa.
– É. Elas me ameaçaram dizendo que raspariam minhas sobrancelhas caso eu ousasse não usar a roupa.
– Eu que dei essa ideia na verdade. Mas ainda acho que você ficaria bem bonita sem as sobrancelhas.
Dou uma gargalhada tão boa que até jogo a cabeça para trás. Quando me endireito Jeremy está me encarando, meu sorriso começa a sumir quando ele segura meu queixo e encosta a boca na minha. Cara, isso é tão bom... Coisas boas assim não são de graça e ainda estou esperando a minha conta, por ter Jeremy só para mim, chegar.
– Jeremy...
– Ei, olha como estamos vestidos! Precisamos seguir o roteiro.
Ele aperta meu pescoço e me beija de verdade. Apoio uma mão no chão e a outra segura a perna dele. E, inconscientemente, suspiro.
– Não! Não, chega!
– Ah Sarah!
Jeremy encosta a testa na minha sem querer se separar, mas é impossível não ficar com medo de estragar tudo.
– Solta, vamos me solta.
Com um suspiro ele tira a mão do meu pescoço e abre a cesta. Tira de lá sanduíches e uma garrafa térmica. Serve em dois copos o café e desembrulha um sanduíche pra mim. Começo a mastigar sem sentir o gosto, o que me deixa mal, já que é o meu favorito. Observo-o com o canto do olho, e noto que uma veia pulsa em seu pescoço... A veia da raiva... E do desespero. E talvez do arrependimento.
– Desculpa...
– Pelo o que?
– Por continuar sendo uma babaca... Não é minha intenção Jemy, mas toda vez que você me beija, sinto que algo vai dar errado e você vai sair correndo.
– Sarah... Tipo, já faz um ano e meio, e eu ainda estou aqui. Se você quiser mesmo se livrar de mim, vai ter que arranjar algo melhor do que isso.
Suspiro e assinto com a cabeça apenas uma vez.
– Está bem... Sabe, você fica muito bem com essa camiseta colada.
– Hm...
– Vai ser uma pena quando você tiver que tirá-la, heim?
– É né.
– Ei, já que não tem jeito mesmo, que tal me beijar de novo?
– Quem sabe depois...
Não arrisco dizer mais nada e nem ele, então apenas engolimos a comida toda e logo começamos a nos arrumar para voltar para casa. Jeremy pega a cesta vazia e estende o braço para que eu segure.
– Pirralho...
– Hm?
– Precisamos comprar as...
– Sim... Sim.
Franzo a testa e olho pra ele, mas Jeremy mantém a cabeça erguida para que eu não possa ver seus olhos. Ei, o que esse garoto está aprontando? Está bem, talvez dezenove anos não seja mais criança... Mas eu ainda tenho meus direitos como anciã; então vou chamá-lo de pirralho para sempre. Finco os pés na grama e seguro seu braço com força, fazendo-o parar e me encarar assustado.
– O que você está fazendo Sarah?
– Eu quero saber por que o senhor está agindo assim!
– Assim como?
– Desse... Desse jeito estranho... Distraído.
– Estou normal Sarah.
Sacudo meu braço para cima e para baixo, movimentando o seu junto. Logo ele fica irritado e faz um único movimento me fazendo parar.
– Não, não está! Eu disse um monte de coisas dignas de uma de suas piadinhas pervertidas, mas você não fez nenhuma e nem me chamou de ninfa. Ou seja, tem algo plenamente errado com você.
– Sarah...
– Jeremy, pra que isso? Estávamos indo bem! Roupas engraçadas, piquenique, beijos e piadinhas... E de repente você ficou assim! O que está acontecendo?
– Nada Sarah.
– Não! Para de mentir pra mim!
Ele me olha, enfurecido, e solta o braço das minhas mãos de forma um tanto bruta demais, muito atípico dele. Não evito um olhar de desespero.
– Quer realmente saber? Eu estou com medo!
– Que? Medo? Do que?
– Disso tudo, oras! Eu sinto o mesmo que você Sarah, que a vida vai cansar de ser legal e cobrar um preço muito alto de nós dois... Estou com medo desse preço...
– O que? Eu pensei que não tivesse dito isso voz alta...
– Você sempre diz as coisas importantes em voz alta.
– É, seu babaca, por isso eu sempre digo seu nome!
É. Por essa ele não esperava. É, eu também não esperava gritar isso, porque eu não queria ter dito! Foi apenas mais um desses malditos pensamentos que teimam em escorregar do meu cérebro. Coloco as mãos na boca, só pra ter certeza de que não vou mais falar besteira.
– Sarah...
Balanço a cabeça, os olhos ainda arregalados. Meus deuses, nós estamos gritando no meio do parque, com criancinhas correndo ao nosso redor. Jeremy solta os braços ao lado do corpo, como se tivesse acabado de soltar um peso enorme. Ocorre-me que talvez o peso fosse eu...
– Sarah... Caramba Ninfa! Vem, vamos embora...
Ele pega meu braço e me arrasta até onde Mark está estacionado. Me sento no banco do carona e quando cai a ficha Jeremy já deu a partida e estamos no meio do trânsito.
– Ei! Quem foi que te deu autorização para dirigir meu carro?
– Há-há, você não pode me impedir agora!
– Parece um vilão berrando sobre seus planos de dominação do mundo.
– Xiu Ninfa, acabo de dominar seu carro.
Passamos longos minutos até que, finalmente, ele estaciona na garagem de seu prédio, ao lado da Harley-fortes-emoções-Davidson.
– Vamos...
– Precisamos mesmo conversar...
– A gente conversa lá em cima. Vamos.
Ele abre a porta do motorista e a bate com um pouco de força desnecessária. Dou um suspiro longo e estremeço o corpo todo pra me livrar dos maus agouros e então saio. Jeremy está me esperando encostado no capô do carro. Dou a mão para ele e vamos juntos até o elevador.
– Desculpa Jemy...
– Lá em cima Sarah.
– Mas...
Jemy passa o braço sobre meu pescoço e coloca o nariz no meio do meu cabelo, fazendo com que todo o lado esquerdo do meu corpo se arrepie. De repente o elevador pára no primeiro andar e um casal entra em pleno amasso, quase prensando nós dois contra o espelho. Automaticamente Jeremy se coloca entre mim e a dupla selvagem, protegendo-me da visão aterrorizante.
– Eu não precisava ter visto isso.
Parece que essa simples frase faz com que o casal se dê conta de que existem outros seres humanos no mundo, e quando eles se viram para nos encarar, o choque é tremendo!
– Zack?
– Amélia?
– Sarah?
– Jeremy?
Eita! Por essa, nenhum de nós esperava. Amélia está roxa de vergonha e Zack parece que vai abrir um buraco no elevador e se jogar fora dele.
– Nós podemos explicar...
– Explicar o que Zack? Eu estou com Jeremy, e você... Bem, você parece que está com a Amélia né?
Zack coça a cabeça envergonhado e Jeremy segura a risada. Amélia nem ousa nos olhar e dou graças aos deuses por isso. Quando parece que o ambiente vai explodir de tanta vergonha alheia, a porta se abre no andar de Jeremy. Ele me puxa para fora e damos um pequeno aceno para o mais novo casal do ano! Bem, eles se merecem.
– Isso foi...
– Mega estranho.
Por um segundo parece que não estamos brigando, mas então a lembrança nos atinge com força e não sabemos mais o que dizer. Ele abre a porta e eu entro meio sem jeito, carregando a cesta como se fosse uma arma super poderosa contra zumbis.
– Então...
– Ér...
– Certo. Já chega disso! Me diz o que é que está acontecendo com você Jeremy! Eu odeio olhar pra você e não saber o que se passa!
Jogo a cesta no chão e lanço os braços para o alto, ao mesmo tempo em que começo a andar para lá e para cá reclamando igual a uma velha. Com a minha maravilhosa visão periférica, vejo ele se sentar no sofá, o rosto enterrado nas mãos. Paro de andar, enrolo os braços na frente do corpo e o encaro.
– Sarah... Cara, isso é tão estranho! Eu quero tanto ficar com você e quero agora, por muito, muito tempo! Talvez sempre! Mas então me lembro que somos novos e que podemos acabar enjoando um do outro e no final dar merda... Porra!
Fico em silêncio.
– Então, eu começo a pensar em tudo que podemos fazer juntos e isso contrasta com tudo que podemos fazer separados, e ai eu penso: deuses, se ela souber dessas coisas, com certeza vai me dar um pé na bunda e seguir mundo a fora sozinha.
Silêncio total da minha parte.
– Você não vai dizer nada?
Dou um suspiro e descruzo meu escudo de braços.
– Você quer classe econômica? Ou a primeira? Eles servem champanhe... Apesar de que você ainda não pode beber oficialmente...
– Do que você está falando?
– Sobre a viagem à Paris, oras. Você está ai reclamando sobre as coisas que podemos ou não fazer juntos, pois eu te digo: foda-se! Pirralho, quem é neurótico com esses problemas de casais, sou eu e não você. Então continue sendo o senhor sensato e “nada-me-atinge-sou-o-rei-do-poker-face”, que eu me preocupo com o resto. Ok?
– O que?
– Jeremy, querido, você está ficando surdo? Eu. Não. Me. Importo! Vamos ficar juntos e quando a conta chegar, a gente paga e segue em frente!
Jeremy fica alguns segundos apenas me encarando e começo a me incomodar com isso. Ele então se abaixa e desamarra os sapatos pretos, chuta-os dos pés e se levanta, tira a jaqueta de couro e a jogo no sofá, tira a calça jeans escura, as meias e deixa tudo jogado no chão. Resultado final: cueca azul e camisa apertada preta.
– O que você pensa que está fazendo?
– Deixei a melhor parte pra você tirar.
Dou um sorriso à lá Jeremy, ou seja, super sacana. Me aproximo vagarosamente e coloco dois dedos no cós de sua linda cueca azul. Puxo o elástico, sem quebrar o contato visual, e o solto de uma vez. Ele pragueja alguns palavrões muito feios e esfrega a região da barriga que está gradativamente mais vermelha.
– Seu pirralho safado!
– Ninfa maluca! Tem uma lesma no seu cabelo!
– Essa não funciona mais querido.
– Eu sei...
Ele para de esfregar a barriga e faz aquela carinha pervertida que eu tanto gosto (gosto no sentido de: ai, que cara gostoso!). Chega mais perto passando um braço pela minha cintura e me prendendo em seu corpo. A proximidade me deixa a par de seus batimentos cardíacos super acelerados e do calor que ele emana. Uau.
– Jeremy...
– O que?
– Esqueci.
– Eu sempre faço você esquecer as coisas, não é?
– São esses seus cachinhos super sexy.
Seguro um de seus cachos e o solto. Isso me enlouquece totalmente. Jogo meus braços ao redor do seu pescoço e aproximo meu rosto do seu até que seus olhos claros fiquem meios embaçados e nossas respirações se misturem.
– Eu não vou dizer que te amo, mas quero que saiba que estou completamente seduzida por você.
– Eu sei que está Ninfa, eu sei que está.
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