Cigarette Smoke
30 Vespa Azul
Notas iniciais
Uma coisa é certa: comida de avião é uma delícia... Até você por o pé no aeroporto e sentir que vai vomitar todos os seus órgãos.
Contraio a garganta na esperança de conseguir me livrar daqueles canelones nojentos, mas parece que eles grudaram na minha parede estomacal. Acho que não vai ter jeito, então respiro fundo, abaixo a tampa da privada e dou descarga. Abro a porta do reservado e dou de cara com minhas sardas, que estão num contraste tenso com a minha pele pálida.
Lavo o rosto e seco com papel toalha. Percebo que tem duas mulheres ao meu lado, não, mulheres não, garotas. Elas estão me encarando e fico incomodada com isso. Então, para o meu total desespero, uma delas vem falar comigo.
–Excusez-moi, vous êtes la fille de ce fameux modèle?
Minha cara de interrogação deve ter me entregado. É, a triste realidade é que não falo francês, nem uma palavra, nem sim ou não, obrigada muito menos. Não posso nem pedir um copo d’água sozinha... Vai que me dão xixi ou algo pior? Por sorte o amor de Jeremy pela cidade luz fez com que ele dedicasse um pouco de sua agitada vida ao aprendizado da língua. Eu, claro, perguntei se era professor ou professora de francês, porque não estava nada afim de encontrar com alguma namoradinha de sotaque sexy dele lá no topo da Torre Eiffel... Vai que ele resolve ficar com ela e me joga de lá de cima? Nossa, que neurose!
– Desculpa, eu... Hã, não falo francês.
– Excuse. Hã, você é filha da modelo Kari?
Oh, mais que droga! Eu deveria ter imaginado que ela seria mais famosa aqui. Dou um sorriso amarelo e seguro minha língua afiada, afinal, elas não tem culpa por eu ter a mãe que tenho.
– Sim, é minha mãe.
– Eh bien! Vocês são muito parecidas mesmo!
Faço um sim com a cabeça, louca para sair daqui. Estou muito enjoada e se elas continuarem falando que minha mãe é isso, que minha mãe é aquilo, eu vou vomitar nos sapatos de grife delas.
– Sim... É, ela é bonita... É... São bem grandes mesmo para uma modelo... Não, não sei se ela vai ao desfile de Milão... Desculpa, mas eu tenho que ir agora.
Dou um pequeno aceno e me jogo na porta do banheiro, acabando por dar de cara com Jeremy.
– Caramba Ninfa, eu pensei que você estivesse vomitando sua alma lá dentro.
– Desculpa, duas malucas me pararam para falar sobre todas as qualidades físicas de Kari.
– Nossa, que sexy. Aqui, te comprei uma coca-cola.
Olha para a latinha vermelha e sinto que posso vomitá-la de uma vez só. Volto meus olhos para Jemy, suplicando silenciosamente que ele tire aquilo da minha frente, mas ele apenas ri e explica:
– Não é para beber. Coloque a latinha gelada na nunca, alivia um pouco do seu mal estar.
Sigo seu conselho e aos poucos o enjôo vai sumindo, solto um suspiro e escoro em Jeremy. Ele passa um braço sobre meus ombros e me aperta junto a si.
– Está melhor?
– Uhum.
– Ótimo, vamos buscar as malas.
Estamos a mais ou menos dois meses organizando essa viajem passagens, hospedagem, bagagem e coisa e tal. Mas é claro que algo tinha que dar errado.
– Hum, Ninfa, que cor é a sua mala mesmo?
– Azul, por quê?
Estou agora tentando abrir a latinha de coca e faço o favor de quebrar o lacre. Eita, mas que merda.
– Bem... Porque a minha mala está vindo e a sua ainda não...
Jeremy pega a lata da minha mão e usa uma chave de seu chaveiro em forma de moto (foi eu quem deu!) e a devolve para mim, o líquido escuro borbulhante na borda.
– E o que é que tem?
– O que tem é que a minha mala é a última da esteira.
Engasgada básica. Como assim, a mala dele é a última? Olho para a esteira e vejo que, sim, é verdade, minha mala provavelmente foi extraviada.
Meu desespero é imenso, mas evito gritar com a mulher que está no balcão de atendimento. Ela está falando em inglês, mas eu entenderia até em francês (ou não): minha mala nem chegou a ser colocada no avião.
– Mas minhas roupas estão todas lá!
– Desculpe-me, mas por enquanto não posso fazer nada a não ser pedir que coloquem sua mala no próximo vôo.
– Que vai ser...?
– Amanhã.
Desisto de dizer mais qualquer coisa. Ainda bem que o básico eu coloquei na bagagem de mão: um chiclete, celular, passaporte, documentos, absorvente, um batom vermelho, uma barrinha e meia de cereal que eu roubei no avião, uma garrafa de água e creme para as mãos.
Deuses, eu vou morrer!
– Sarah, você precisa assinar os documentos de bagagem perdida.
– Ok.
Assino no modo automático todas as oito cópias e entrego tudo à atendente. Jeremy passa o braço pela minha cintura e me leva para fora do aeroporto, em direção a estação de trem, para podermos chegar ao hotel onde vamos ficar.
– Não acredito! Eu não via a hora de tomar um banho relaxante e dormir por umas boas horas! Agora só vou poder dormir!
– Relaxa Ninfa, vamos para o hotel você toma seu banho quente e eu saio pra arranjar roupas que você possa usar enquanto sua mala não chega.
– Não vou deixar você comprar roupas para mim Pirralho.
Entramos no trem e nos ajeitamos nos bancos de madeira. A mala preta de Jeremy está presa entre minha perna e a dele. Encosto a cabeça no vidro e acabo cochilando o trajeto inteiro... Mais ou menos dez minutos. Ele puxa a manga da minha blusa e logo estamos dando entrada no hotel.
– La réserve est au nom de Jeremy Daves.
Olho bem para o funcionário atrás do balcão, ele tem um nariz comprido e as sobrancelhas arqueadas, como se estivesse usando uma máscara de “não-ligo-para-vocês-hospedes-nojentos-então-por-favor-não-falem-comigo”. Porém seus olhos se acenderam quando Jeremy disse em francês que a reserva estava em seu nome.
– Ah, bien sûr! M. Daves!
Faço um som horrível de vômito e o atendente me olha de cara feia. Ai deuses, meu pirralho deixou o cara encantado! Eles, então, engatam numa conversa animada e como não estou entendendo nada, começo a dar uma olhada em volta. O hotel é uma maravilha de tão lindo e é pra ser mesmo, porque foi caro pra caramba! Gastei dois meses de salário que eu tinha guardado pra pagar apenas a metade da nossa estadia, já que Jeremy pagaria a outra metade. Mas, certo, o preço até que é justo, já que vamos ficar quase um mês na cidade da luz! Jeremy finalmente se lembra de que eu existo e vem até mim, a chave do quarto pendurada no dedo.
– Vamos subir?
– Uhum.
Pegamos o elevador até o décimo sexto andar e enquanto ele abre a porta, eu seguro sua mala. Estou olhando para fora quando Jemy me puxa para dentro do quarto. É tudo bem simples e bonito. Não pedimos nada muito especial, já que ficaremos mais tempo fora do que dentro do quarto. Um papel de parede de um tom claro de laranja e repleto de pequenas florzinhas brancas ocupa toda a parede, uma cama de casal de ferro bem grande com uma colcha branca, um pequeno closet e a porta que dava para o banheiro, alguns móveis espalhados, como mesas e criados-mudos, e um sofá debaixo da janela.
– Bem bonito, não é?
– Sim.
– Certo, vá logo tomar banho sua nojenta, enquanto eu vou dar uma volta lá embaixo pra arranjar roupas para você.
Faço um gesto de cabeça afirmando, sem coragem de falar mais e perder todo o encantamento daquele quarto. Uns quatro vasos, ou talvez mais, estão espalhados pelo quarto e em cada, um buquê de flores silvestres bem coloridas.
A porta se fechou e voltei a mim. Entro no banheiro e quase morro de felicidade ao ver que tem uma banheira. Não perco tempo nenhum e logo já estou de molho na água quente cheia de espuma, o cabelo preso num coque bem no topo da cabeça. Ah, Paris!
– Ei.
– Hum...
– Ninfa!
– Xiu!
– Você está dormindo na banheira?
– Quê?
Sinto mãos grandes apertando minha cintura e abro os olhos rapidamente. Dou de cara com Jeremy, os braços cheios de espuma até a altura dos cotovelos, o sorriso maroto enquanto esfrega minha barriga.
– O que o senhor pensa que está fazendo?
– Nada. Comprei suas roupas, tem sorte de estar quente lá fora, porque não achei nenhuma calça jeans ou casaco.
– Eu tenho minha calça, meu lindo chapéu e meu casaco Jeremy. Não se preocupe com o frio. Mas o que você comprou?
– Veja por si mesma.
Ele tira os braços da banheira e joga uma toalha pra mim. Me enrolo e o sigo até o quarto.
– Está tudo na sacola.
Olho, meio desconfiada a sacola de papel na cama, mas vou até lá e a abro. Uma saia, uma camiseta e, ai deuses, algumas calcinhas.
– Hã...
– E ai, gostou? Eu particularmente gosto mais da preta, mas a azul e a vermelha também são bem bonitas.
– Jeremy querido...
– Sim?
– Seu idiota!
Ele ri e como não tenho opção, eu uso o que ele comprou. E até que não fico tão ruim. Coloco as botas e arrumo o cabelo em baixo do chapéu.
– E então, o que faremos?
– Ah, sim, eu tenho uma lista.
Jeremy pega um papel no bolso e me entrega todo sorridente. Leio nosso itinerário:
1. Ir até o topo da Torre Eiffel e jogar uma moeda.
2. Tirar uma foto com Sarah nas costas no Arco do Triunfo.
3. Fazer um Poli-Dace super sensual nas colunas de Madeleine e, claro, tirar uma foto.
4. Ir até o Place de La Concorde e ver Paris de cima da Grande Roda-Gigante.
5. Dar um passeio super emocionante de Segway.
6. Outro passeio super emocionante de Carruagem.
7. Fazer um piquenique com croissants no Parc André-Citroen.
8. E por último, alugar um carro e dirigir 70 km até o Jardim de Monet.
– Hã, Pirralho, isso aqui é para quantos dias?
– Dá pra fazer tudo isso ai em mais ou menos dez dias.
– E os outros treze dias que ficaremos aqui?
Recebo um olhar confuso dele. Como assim? O que faremos? Ai meus deuses, tenho até medo de saber...
– Nos outros dias vamos ao cinema.
– E?
– Visitar tudo que tem a ver com cinema.
– Hã...?
– Vespa! Ah, droga, sabia que tinha esquecido algo!
Ele pega o telefone na mesa do quarto e disca um numero. Fala em francês de um jeito animadamente bobo e sei que está falando com o senhor metido lá de baixo. Uns cinco minutos depois, ele está todo serelepe pelo quarto rindo e me beijando.
– O que aconteceu?
– Arranjei para nós o melhor meio de se locomover por Paris!
Descemos de elevador e ele para na recepção, pega algo com o Senhor-Metido e vem sorrindo de orelha a orelha até onde estou.
– Está estacionado lá fora.
O sigo de cabeça baixa, usando o chapéu para proteger meu rosto do sol quente. Estou tão distraída olhando o movimento da minha saia e não me dou conta de que ele parou de andar até que dou de cara com suas costas. Então vejo o pesadelo minúsculo!
– Isso é tão...
– Pequeno? Perigoso?
– Legal!
Olho para a vespa azul bebê parada na vaga de moto e isso é tão engraçado que dou um sorriso. Até parece que vou andar nisso ai, imagina, se tenho medo da Harley que é grande e tenho onde segurar, essa vespinha quase me faz chorar.
– Eu não vou subir nisso.
– Vai sim.
– Não vou.
O vento bate com força e sou obrigada a soltar uma mão, que estou segurando na camiseta de Jeremy, para segurar o chapéu na cabeça. Finalmente paramos numa ruazinha perto do nosso primeiro destino: a Torre Eiffel! Coloco os dois pés calmamente no chão e preciso segurar na vespa, que mesmo sendo azul ainda sim me assusta, para não cair.
– Você realmente ficou com medo?
– Não... Estou... Apenas... Fazendo... Manha.
Respiro fundo a cada palavra e meu coração começa a bater normalmente.
– Sério mesmo?
– Jeremy, você foi sentando tranquilamente com as pernas apoiadas na vespa e eu, euzinha aqui, tive que me sentar de lado, por que meu namorado esperto me comprou uma saia e me fez sair por ai montada num carrinho de sorvete!
– Um... Carrinho de sorvete?
– Eu não consegui inventar nada melhor!
Cruzo os braços e faço uma careta nada elegante. Jeremy sorri, circula a moto e me abraça, dando um beijo no meu rosto.
– Você está vermelha Ninfa.
– Estou com raiva.
– Deixa disso. Vem, vamos jogar algumas moedas.
Ele pega minha mão e com a outra aponta a torre. Uau, é linda. E grande. E deve ser proibido jogar moedas lá de cima.
– E é, mas eu sou um cara rebelde.
Não notei que disse isso em voz alta, mas pouco me importei, porque Jeremy me puxou pela calçada e eu apenas corri atrás do meu Pirralho rebelde.
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