Cigarette Smoke
28 Quase Melhor
Notas iniciais
Ser abandonado e depois a aceitar de volta de braços abertos: fácil.
Levar uma surra por ela: fácil.
Dizer na cara dura o quão mimada e mesquinha ela é: difícil. Quase impossível por assim dizer, mas já estava enjoado das birras e ceninhas dela, então decidi que já chegava disso! Já passava da hora de crescer.
– Pro meu espanto total ela aceitou tudo muito bem.
– Jura?
– É... Fiquei um pouco desconfiado no começo, mas nesses últimos meses ela se mostrou bem madura em comparação.
– Uau... E o que você vai fazer agora?
Me espreguiço e coloco o braço de baixo da cabeça. Cara, essa foi a noite mais quente de toda a minha vida... Essa garota é incrível.
– Bem, a próxima coisa na minha lista é pedi-la em casamento.
– O que?
– Relaxa mãe, estou brincando... Por enquanto nada de casório, mas só por enquanto.
– Nunca mais faça isso Jeremy Evans! Quase me matou do coração!
Me deito de lado no chão gelado com o telefone a alguns centímetros da orelha. Minha mãe pode gritar muito alto quando quer, acho que quase acordou Sarah, que está no quarto dormindo... Essa é uma das poucas vezes que conseguimos ficar sozinhos... E, uau, até perdi o sono.
– Algum problema em me casar com a Sarah?
– Claro que não! Eu mesma ia dar essa ideia... Mas só daqui uns dez anos, vocês ainda são tão novinhos!
– Sim.
Novos. Não sei se me vejo exatamente novo, mas pensando bem, dezoito anos é muito pouco pra decidir se quero ou não ficar com alguém até morrer... Ok, a quem estou enganando? Estou decidido desde o momento em que vi a fumaça do cigarro escapando por entre seus lábios “vou fazê-la parar, nem que pra isso eu leve uma vida inteira”. Nesse dia eu já sabia: eu ficaria com Sarah até o dia da nossa morte.
– Filho, está tarde e você ainda tem aula... É melhor dormir.
– Eu sei mãe... Vou tentar ligar mais vezes.
– É bom mesmo, mas não precisa esperar o fuso horário, vou te atender a qualquer hora do dia ou da noite. Ah, seu pai está mandando um abraço, ele diz que apóia o casamento e que quer três netos.
– Ok. Tchau mãe. E fala pro pai que vou pensar no caso dele.
Desligo o telefone e o coloco no chão ao meu lado. O sorriso no meu rosto talvez seja de um maníaco, mas não posso fazer nada, nunca me senti tão feliz em toda a minha vida. Deito de barriga pra baixo, estendendo os braços e começo a tamborilar com os dedos uma canção que acabei de me lembrar. If I know one thing, that's true/ It ain't what you say, it's what you do. (Se eu sei de uma coisa, isso é verdade/Não é o que você diz, é o que você faz).
A primeira coisa que vejo são seus pés, as unhas pintadas de azul. Vou erguendo os olhos e passo por suas pernas cheias de sardas, depois para seu rosto. Ela está coçando os olhos e bocejando ao mesmo tempo; a camiseta que eu estava usando ontem quando fui buscá-la pra dormir aqui comigo agora cobre todo o seu corpo. No matter where we go/ Or even if we don't /And even if they try.(Não importa para onde vamos/Ou mesmo se não formos/E mesmo se eles tentarem). Só um cara que teve o prazer de ver uma garota assim, vestida com sua camisa, conheço o sinônimo de felicidade em carne e osso.They'll never take my body from your side/ Love don't die! (Eles nunca vão tirar o meu corpo do seu lado/ Mas o amor não more).
– O que você está fazendo ai no chão?
– Estava falando com minha mãe...
– Hum... Porque no chão?
– Está geladinho aqui.
Ela franze as sobrancelhas, mas se senta perto de mim, com as pernas esticadas a sua frente. De repente ela encosta a testa nos joelhos e, ai, doeu em mim. You can break it up/You can burn it down.( Você pode quebra-lo/ Você pode queima-lo).
– Como é que você consegue fazer isso?
– Sei lá.
– É estranho.
– Não, é reconfortante.
You can turn it away/Try to keep it down (Você pode afasta-lo/Tentar diminuí-lo).Sorrio de lado e me viro, apoiando-me no cotovelo. Six feet in the ground/ But love don't die. (Seis pés abaixo do chão/ Mas o amor não morre). Sarah se endireita e cruza as pernas, agora ela parece bem mais atenta.
– Jeremy, qual é o seu maior sonho?
– Hum... Não tenho certeza, alguns deles eu já consegui realizar.
– Como quais?
– Vamos ver: comprar um Harley, entrar na faculdade que eu sempre quis fazer, conseguir uma namorada loira...
Sarah ri, jogando a cabeça para trás como uma criança. No matter where we go/ Or even if we don't. (Não importa para onde vamos/ Ou mesmo se não formos). Por um segundo fico hipnotizado por esse movimento, mas logo volto ao normal quando ela volta a me encarar. And even if they try/ They'll never take my body from your side/ Love don’t die.(E mesmo se eles tentarem/ Eles nunca vão tirar o meu corpo do seu lado/ Mas o amor não morre).
– Isso não são realmente sonhos, estão mais para realizações pessoais... Quero saber algo que você sempre quis mesmo, como... Como andar de balão, pilotar um caça de guerra, atirar com uma arma de alta precisão.
– Não é só porque eu sou um menino que tenho que desejar coisas assim...
– Então o que você quer?
– O que eu quero?
– Foi o que eu perguntei.
O que eu quero? Meu sonho? Meu Deus, como é vou dizer isso para ela? Vai ser uma vergonha épica! Não... Não posso dizer. No matter where we go/ Or even if we don't. (Não importa para onde vamos/ Ou mesmo se não formos).
– Morar em Paris
Droga! I’d like to watch them try/ They'll never take my body from your side.( Eu gostaria de vê-los tentar/ Eles nunca vão tirar o meu corpo do seu lado/ Mas o amor não morre).
– Sério?
Mil vezes droga! Isso, com certeza, foi a coisa mais gay que já falei para ela... Se Sarah tinha alguma dúvida da minha sexualidade, agora ela não existe mais.
Love don't die! ( O amor nunca morre!).
– Hã...
– Isso é...
– Gay? Super idiota?
– Incrível!
Incrível? Observo bem seu rosto pra ver se ela está brincando comigo, mas ela parece em completo êxtase!
– Você acha?
– Claro! Digo, faz todo o sentido, você ama cinema e Paris é a cidade do cinema!
– É.
– Jemy, qual sua comida favorita?
– Ér, lasanha...
Sarah está radiante... E está me assustando. Será que está tendo uma crise ou algo do tipo?
– Lasanha.
– Sarah, você está se sentindo bem?
– Estou ótima! Por quê?
Ela me lança um olhar desconfiado. Me sento de frente para ela e fixo meus olhos nos seus. “Quem piscar primeiro perde”.
– Porque ficou feliz desse jeito?
– Eu gosto de saber coisas novas sobre você. Me faz bem.
Meu coração dá um salto triplo e cai de cara no chão. Como sempre ela faz coisas que me deixam boquiaberto, mesmo com a mania de pensar alto. Agora mesmo não sei se ela quis mesmo dizer isso ou se simplesmente escapou de seus pensamentos não tão secretos.
– Então vou estocar uma série de coisas sobre mim...
– Sim!
– E vou contar quando você começar a enjoar de mim.
– Hã... Jemy...
– O que? Já está enjoada? Está bem: quando eu era criança minha mãe me forçou a entrar na aula de balé! Fui o príncipe em três musicais diferentes e o gato de botas em outro.
Sarah me encara. De repente seus olhos ficam ejetados e lacrimejantes. Então ela dá uma super gargalhada e deita de lado no chão se contorcendo toda. Há-há, que engraçado.
– Porque você está rindo maldita?
– I-imaginei de você de collant!
Ok... O pensamento também me fez rir... Mas não tanto quanto ela. Cutuquei sua barriga e ela voltou a se sentar, enxugou os olhos tentando ficar séria.
– O que você ia dizer?
– Eu ia dizer que posso ser uma total babaca idiota Jeremy, mas não sou louca a ponto de perder você.
Caramba! Veja só o que ela consegue fazer comigo: enlouquece-me de raiva, frustração, e chego a borbulhar... Mas então ela diz isso, e como posso ficar com raiva? Impossível! Só posso beijá-la. Coloco as mãos em volta de seu rosto e encosto meus lábios nos seus, automaticamente suas mãos se prendem ao meu cabelo. Engraçado como ela sempre faz isso, é como um imã: lábios, cabelo. Sorrio forçando-a a parar de me beijar.
– Que foi?
– Porque você teima em agarrar meu cabelo?
– Cara, seu cabelo me seduz.
E volta a me beijar. Sarah me empurra para trás me fazendo deitar no chão, seu corpo magro por cima do meu nem faz diferença, mas então ela prende as pernas à minha volta e fico totalmente consciente da quentura de nossos corpos.
– Ei.
– Que foi?
– Está confortável Ninfa?
– Hum, na medida do possível sim.
Segura meus ombros e sorri. Meus deuses! Fico parado, sem respirar, sem piscar, a boca aberta e escorrendo baba. Alguém, eu preciso de um balde! Rápido!
– Que foi?
– Hã...
– Jeremy?
– Diz de novo.
Ela enruga a testa, os olhos diminuindo considerávelmente deixando visível apenas pintinhas azuis que contrastam com as pintinhas alaranjadas em seu rosto.
– O que?
– Meu nome.
– Você está brincando, não é?
Balanço a cabeça ainda sem conseguir respirar direito, mas Sarah volta a sorrir e depois faz um biquinho engraçado.
– Jeremy.
– De novo.
– Je-re-my.
– Uau, cara, isso me excita pra caramba!
Outra risada estrondosa. Sarah se deita ao meu lado, o corpo praticamente grudado no meu, algumas mechas de seu cabelo em meu rosto. Eles nunca vão tirar o meu corpo do seu lado.
– Seu garotinho pervertido.
– Sei que sou... Mas você também é.
– Eu nunca disse o contrário.
Passo o braço por baixo de sua cabeça e ela se aconchega ao meu lado. Ficamos assim por tanto tempo que os primeiros raios de sol começam a passar pela janela sem cortinas. Será que ela está dormindo?
– Sarah?
– Não, não estou dormindo.
Sorrio e beijo seu cabelo (Tem cheiro de flores silvestres... Cara, eu nunca senti o cheiro de flores silvestres! Como é que eu sei que tem esse cheiro então?)
– O que você quer fazer hoje?
– Bem... Não faço ideia. E você?
– Você sabe que dia é hoje?
– Ah, não me vá dizer que é meu aniversário novamente?
– Não, sua besta.
Cutuco sua barriga e ela ri. A sensação é tão legal que continua beliscando e fazendo cócegas, até que ela se irrita e me soca no ombro.
– Hoje começa o verão Sarah.
– Ah! E dai?
– Ah Sarah! O que se faz no primeiro dia de verão?
– Hum... Piquenique?
– Isso! Nós vamos até o Central Park, você vai arrumar a cesta, e vamos ficar lá a tarde toda apenas vendo o movimento. O que acha?
– Sinceramente?
Ela olha pra cima e vejo que está fazendo uma cara do tipo: “Jeremy, por favor, se contenha! Está dando bandeira!”. Não pude deixar de rir.
– Diga.
– É uma ótima ideia.
– Eu sei. Eu só tenho ótimas ideias.
– É... Mas está muito cedo... Podemos fazer qualquer outra coisa mais interessante. Se é que me entende.
Sorrio maliciosamente. É claro que podemos fazer qualquer outra coisa mais interessante, tipo... Pôquer!
Não. Claro que não. Eu apenas estava tentando não parecer desesperado.
Enlaço meus braços ao seu redor e mordo seu pescoço.
– Essa ideia é quase melhor que a minha.
– É. Quase melhor...
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