Cigarette Smoke
25 Palitinho do Diabo
Notas iniciais
Um desejo desesperador apertou minha garganta. Eu não sentia isso há semanas, mas estou em um estado tão deplorável que já estava começando a estranhar a falta de vontade de fumar.
Mas, não posso fumar no hospital.
– Ele ainda vai demorar a acordar senhorita, se quiser ir comer algo, a hora é agora.
– Obrigada.
Observo o médico pendurar a placa na cama, indicando ali o que aconteceu e que remédios que o paciente deve tomar. No caso o paciente é Jeremy. Volto meu olhar para seu rosto machucado e meio roxo. Cara, Zack fez um estrago no seu lindo rostinho... E quero esganá-lo por isso. A sorte dele (ou minha, ainda não sei) é que uma senhora, vizinha de Jemy, abriu a porta bem no momento em que minhas mãos voavam ao pescoço de Zack... Então, depois de uma breve explicação ela ligou para a ambulância. E para a polícia.
– Ai Jemy...
Seguro sua mão entre as minhas e me esforço para não chorar. A culpa é minha por ter dado esperanças para Zack e quem sofreu as consequências foi Jeremy. Eu não mereço nenhum dos dois. Mas Zack merece o boletim de ocorrência que fiz contra ele.
Decido que é melhor seguir o conselho do médico, já que não comi nada desde que acordei. Saio do quarto e desço alguns andares pela rampa de cadeirantes (eu entendo eles, se estivesse doente a ponto de precisar de uma cadeira de rodas ia preferir fazer o caminho ao ar livre e não num elevador agourento) e encontro uma lanchonete.
– Um sanduíche de queijo e um suco, por favor.
– Qual suco?
– Qualquer suco.
A garçonete me trás uma bandeja com meu lanche, me sento de frente pra bancada mesmo e engulo o pão em algumas dentadas. O suco (de laranja) vem em seguida, mas mesmo toda a quantidade de sabores diversificados para meu paladar identificar, é apenas por um que ele clama: cigarro.
– Hã, por acaso você não teria cigarros aqui, teria?
– Garota, estamos num hospital.
– Ah, certo, desculpa.
A mulher me olha por um tempo, o que me deixa um pouco incomodada, mas então sorri deixando dentes perfeitamente amarelos a vista.
– Mas posso te dar alguns do meu estoque particular.
Ela estende dois cigarros na minha direção e ao mesmo tempo em que um ponto na minha testa me manda recusar, outro diz pra eu pegar logo e sair correndo. Pego os dois cigarros que deveria atirar no chão depois da cena de seus dentes amarelados, mas apenas sorrio agradecendo e acendo o cigarro, saindo do hospital em seguida. Fumo o primeiro em tragadas vorazes, como se minha vida dependesse disso e aproveito o toco para acender o segundo. Esse fumo bem calmamente, apreciando o sabor e soltando anéis de fumaça no ar.
Fico mais um tempo apreciando a fumaça se extinguir no ar a minha volta; o tempo está estranho hoje: como se quisesse nevar, mas com muita preguiça pra isso. Um belo sinal de que a primavera está chegando. Jogo os tocos no lixo e entro no hospital, dessa vez subo de elevador até o andar em que Jeremy está internado.
As portas do elevador se abrem e saio de cabeça baixa e quando olho para cima tenho um mini ataque cardíaco. Começo a tossir desesperadamente olhando o ser parado na porta do quarto, com a camisola de hospital e os tubos de remédio pendurados no braço.
– O que você está fazendo fora da cama?
– Sarah?
Seguro Jeremy pela barriga antes que ele caia, mas não posso fazer nada pela minha tosse. Empurro-o de volta ao quarto quase sufocando e o ajudo a se deitar.
– Porque está acordado? O médico disse que ia demorar pra acordar.
– Eu... Eu tive um sonho estranho.
– Que sonho Jeremy? Deixa disso e volta pra cama, você está um bagaço.
– Eu sonhei que você me deixava.
Ele parece uma criança ao dizer isso.
– Não vou fazer isso, ok?
– Tem certeza?
– Absoluta.
Me deito ao seu lado tomando o cuidado de não ficar por cima de nenhum tubo. Jeremy encosta a cabeça na minha e fica tão quieto que quase morro quando ele fala:
– Você estava fumando.
– Eu? Não...
– Estava sim... Você prometeu que não ia mais fumar.
– Eu nunca prometi algo assim.
– Então prometa agora.
– Jemy...
Jeremy segura minha mão e a aperta tão forte que esqueço que ele está todo machucado... De onde ele está tirando essa força para esmagar meus dedos?
– Você disse que não tinha um motivo bom o suficiente pra te fazer parar... Surpresa, agora você tem!
– O que? Meus dedos esmagados?
– Não. Agora você tem a mim.
– Ok, ok. Eu prometo! Está satisfeito?
– Ainda não. Repita comigo: Eu, Sarah Harue.
–Eu Sarah Harue.
– Prometo nunca mais colocar um palitinho do diabo da boca.
Olho para ele de canto de olho, um sorriso bobinho estampa sua boca que tem um pequeno corte no lábio inferior, bem no meio, o que me dá uma vontade imensa de beijá-lo.
– Um o que?
– Palitinho do diabo.
– Ah, certo. Eu prometo nunca mais colocar um palitinho do diabo na boca.
– A não ser.
– A não ser...
– Que seja o palitinho do Je...
– Não ouse terminar essa frase.
Ele gargalha com certa dificuldade, dou-lhe um empurrão com o ombro e ele geme de dor. Logo me sinto culpada e peço desculpa milhares de vezes.
– Tudo bem Sarah.
– Me desculpa Jemy, não queria te machucar...
– Está tudo bem, estou bem, está vendo? Nada fora do lugar.
Ele movimenta o ombro pra frente e pra trás, o que é claramente muito esforço, já que seus olhos se enchem de lágrimas.
– Bom, vou deixar você dormir.
– Fica.
– Você precisa descansar...
– Fica só até eu dormir então.
– Ok.
Aconchego-me ao seu lado e alguns minutos depois ele já dormiu. Acomodo sua cabeça no travesseiro, dou-lhe um beijo na testa e saio do quarto. Não vou embora agora mesmo se quisesse, já que não tive coragem de ligar pra Agatha pra dizer que quase mataram o filho dela por minha causa, então sou responsável por Jeremy...
Desço dessa vez de elevador, e passo pela recepção com passos largos, sem coragem de olhar para as pessoas doentes que se aglomeram por ali. Saio para o ar ainda gélido, me apoiando na grade quando meus olhos se enchem de lágrimas. Talvez tenha sido por esse motivo, ou pela minha alma distraída, que não vi a mulher se aproximar até ela se postar ao meu lado, também apoiada à grade.
– Você está crescida, Sarah.
Viro minha cabeça lentamente dando de cara com o ser mais lindo e brilhante que já tive o desprazer de ver na vida. Sim, desprazer, porque no momento em que meu cérebro absorveu seus traços, tive vontade de vomitar.
– Você deveria estar morta.
– Você também.
– Uau, que ótimo, o mundo tem duas almas desnecessárias pra suportar.
– Seu pai disse que você tinha um humor ácido, mas eu não acreditei.
Seu cabelo era de um lindo loiro esquilo e as sardas eram suavizadas pela maquiagem leve que estava usando. Meus deuses, realmente somos idênticas. Mas ela é tipo a Rainha das Ninfas, se é que isso existe, enquanto eu sou apenas uma ninfazinha das flores maluca.
– Como você me encontrou Kari?
– Na verdade Sarah, eu nunca te perdi. Estou de observando desde que fui embora.
– É melhor que eu nem pergunte como.
Ela ri e sua risada parece sinos... E eu nunca pensei que um dia compararia a risada de alguém com sinos. Certo, ela diz que nunca me “perdeu de vista”... Isso explica como me encontrou, mas a pergunta que não quer calar é: pra quê vir atrás de mim agora?
– O que você quer comigo, mamãe?
– Quero que venha morar comigo.
– Como é?
Kari fica de frente para mim e não tenho escolha a não ser encará-la também. Até nossos olhos são iguais, mas ela é um pouco mais alta do que eu, deixando claro quem é a mãe e quem é a filha.
– Eu queria ter entrado em contato com você antes, mas seu pai conseguiu dar um jeito de te manter mais tempo longe de mim.
– Que jeito?
– Ele aproveitou aquela sua briguinha pra te deixar de castigo e assim não consegui falar com você! Não sei como ele pôde ter feito isso!
– Você me abandonou e disse que estava morta, como você pôde fazer isso?
Ela coloca os dedos nas têmporas e fecha os olhos. Raivosa e teimosa.
– Tudo bem Sarah, eu sei que errei... Na verdade eu sou horrível e se serve de consolo não fui feliz em nenhum segundo da minha vida depois que parti.
– Ah, acredito muito nisso. Então porque não voltou?
– Culpa? Orgulho?
– Ok. E porque quer que eu vá morar com você agora?
– Recuperar o tempo perdido...
Tento digerir isso, mas fico com indigestão. Caraca, mulher maluca! Mas é minha mãe, aquela que eu passei a vida desejando poder ter de volta. E agora ela está aqui, me oferecendo um band-aid para por na ferida que me fez há anos. Só tem um problema.
– Você não mora na Irlanda?
– Sim e você vai ver que lá é um lugar incrível pra se morar! Ar puro, parques lindos, garotos mais lindos ainda!
– Mas eu acabei de começar uma vida aqui! Tenho um emprego, uma vaga na faculdade e um...
– Não me vá dizer que está mesmo levando a sério esse namorico com o filho da Agatha, não é? Por favor, Sarah, tem um mundo esperando por você e esse garoto só vai te atrapalhar.
– Kari, eu amo esse garoto!
Só quando as palavras saem é que me dou conta da veracidade delas. Eu amo aquele pirralho! Deuses, eu não posso nem pensar em ficar longe dele que meu corpo todo dói, como se Jeremy fosse minha seringa de insulina e eu tivesse diabetes tipo três.
– Você ama? Minha querida, esse amor vai desaparecer com o tempo! A única pessoa que você vai amar para sempre é você mesma! Ou o que? Você acha que ele vai gostar de você pra sempre Sarah? Que ele vai brigar por você, lutar por você pra sempre como faz agora? Pois te digo uma coisa: quando você menos esperar ele vai fugir!
– Você por acaso é expert no assunto? Porque até onde eu sei foi você que fugiu do Hans! Foi você que se cansou de lutar, se cansou de amar ele! Se você quiser mesmo recuperar nosso perdido Kari, vai ter que aceitar o fato de que eu vou ficar com quem eu amo e onde eu amo estar!
Minha respiração está falhada e acho que vou precisar de uma dose daquele oxigênio do hospital. Kari está vermelha e provavelmente eu estou espelhando essa vermelhidão toda. Acho que ela quer me bater, pois seus punhos estão cerrados ao lado do corpo e está tremendo como se estivesse levando um super choque.
– Está bem. Faça como quiser, mas quando ele te chutar filha, eu vou estar na Irlanda, curtindo o ar puro e os garotos lindos.
– Você não acha que não está mais na idade de curtir os garotos?
– Ah, eu vou ser jovem para sempre.
Como na primeira vez, não sei de onde ela surgiu, mas um carro parou ao nosso lado e minha mãe abre a porta traseira, e antes de entrar olha para mim e sorri. Bipolaridade. “Sarah, sua mãe era louca!”.
– Vamos voltar a nos encontrar filha.
Então ela fecha a porta com força e o carro se vai tão inesperadamente quanto chegou. E eu nem me mexo, estou muito preocupada com o meu status, que foi de garota confusa para garota apaixonada em menos de vinte e quatro horas.
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