Cigarette Smoke
17 New York, New York
Notas iniciais
– Isso aqui parece o bastidor do desfile da Victoria’s Secret.
Acompanho com o olhar Zoe e Madison correndo pra lá e pra cá improvisando uma cama pra mim no sofá. Cheguei à meia hora atrás e desde então elas estão pirando pela casa, seminuas.
– Ai, jura? Estou malhando tanto pra ficar igual a uma Angel!
– Mads, ela não está falando do nosso corpo, mas sim das nossas roupas.
As duas estão usando apenas regatas e calcinhas e estou tentando ao máximo não me sentir incomodada com esse monte de pele exposta, ainda mais com esse meu corpo pintadinho. Me sento numa poltrona no canto da sala e quando vejo que é amarela fico em pé num pulo. Olho com desprezo pro móvel cor de mostarda.
– Ainda com isso? A cor amarela não vai te morder.
–Eu sei Zoe, mas...
Ah dane-se, estou tão cansada! Dou de ombros e me jogo na poltrona e continuo vendo-as trabalhar. Eu quero muito dormir, mas sinto que meus planos não vão seguir esse rumo quando Madison entra na sala carregando três travesseiros.
– Vocês não vão me deixar dormir, não é?
Mads coloca os travesseiros no sofá e sorri pra mim.
– Claro que não! Vamos fazer uma festa do pijama de emergência!
– Mas estou tão cansada! Vou ser a primeira a dormir.
Zoe aparece na porta da cozinha com uma panela na mão, e uma lata de leite condensado na outra.
– Como sempre!
Suspiro e me aconchego mais na poltrona. Olho a sala ao redor e é tudo tão colorido e cheio de vida que tenho que sorrir para não chorar de saudades delas... O que é muita idiotice, porque estamos juntas! A mesinha de centro é um tronco pintado de rosa com um tampo de vidro em cima, têm várias revistas e controles remotos. Os sofás são todas peças distintas: essa poltrona de vovó amarela, outro sofá roxo e o outro, no qual eu vou dormir, é azul. As portas dos quartos delas são laranja, e várias luminárias de tripé estão espalhadas pela sala. Por mais extravagante, essa decoração me anima e deixa o apartamento bem mais aconchegante. Quadrinhos engraçados estão dispostos nas paredes e um, particularmente, me chama a atenção. Fico em pé para vê-lo mais de perto.
– Vocês têm uma foto minha na parede?
Madison aparece na sala vinda do além e Zoe sai da cozinha, ambas olham para mim e sorriem. Quero chorar e rir e me sinto uma babaca. Abro os braços e elas me abraçam.
– Não chora não Sarah...
– Você fica toda vermelha e remelenta quando chora.
– Melequenta Mads, não remelenta.
– Tá bom, tanto faz.
Aperto mais as duas antes de soltá-las. Elas me olham por um tempo e de repente Mads grita.
– Ai meu Deus, tenho que por minha máscara de beleza!
– Pra que? Você está bonita já.
– Sim, sim. Mas os rapazes adoram minha pele macia.
Ela faz uma pose super sensual: uma mãe no rosto e uma perna erguida. Olho para Zoe que apenas dá de ombros.
– Só você pra conseguir dizer a palavra “rapazes” desse jeito. É capaz de fazer qualquer pessoa do século 21 falar sem pestanejar.
– É verdade! Você tinha que ver, Mads conseguiu fazer com que todos no campus usassem nossa gíria.
– Sério?
Zoe balança a cabeça e pisca um olho pra mim. De repente todas nós fazemos uma pose de vadia (eu fingindo que estou mascando um chiclete de braços cruzados, Madison enrolando um dos cachos com a bunda empinada e Zoe escorada em mim, fazendo um olhar sedutor) e cada uma diz um pedaço da nossa frase.
–Que vadia!
– Ela está tendo espasmos de putice!
– Uma cria perfeita da Medusa!
E caímos na gargalhada. Sigo Zoe até a cozinha, enquanto sua gêmea vai fazer qualquer outra coisa mais interessante segundo ela. Quando entro na cozinha percebo que a cor amarela, roxa e azul eram os temas para a decoração da casa. Os armários alternavam entre as três cores e algumas portas brancas; enquanto o chão todo era de ladrinhos brancos, a janela era azul e o teto roxo.
– Vocês estavam inspiradas quando resolveram decorar isso aqui, né?
– Foi a Mads quem decorou... Ela está bem entusiasmada com a faculdade de Arquitetura, então resolveu fazer um curso de decoração e paisagismo pra poder compor todo o trabalho...
Zoe parece triste... Meio aérea, mas não tenho certeza, ela sempre foi a mais sóbria de todas nós, sempre a que dá os conselhos, a que ouve nossos desabafos e não a que desabafa... Mas definitivamente tem algo errado com ela.
– Zoe, o que está acontecendo?
Ela está picando alguma coisa vermelha, acho que são morangos. Mas para e olha pela janela, acompanho seu olhar e percebo que flocos de neve branquinhos estão caindo... Quando foi que ficou tão frio?
– Acho que vou trancar meu curso Sarah.
– O que? Por quê?
– Estou cansada das pessoas ficarem esperando tanto de mim. “Ah, porque ela tem as melhores notas do curso”, “Ah, porque seu pai é multimilionário dono de uma empresa muito bem sucedida e vai fazer um belo uso de sua inteligência para os negócios”... Vou te dizer uma coisa: ser boa em algo não significa que você tem que amar isso. E eu odeio administração...
– Zoe...
– Sempre odiei!
– Então porque se empenhou tanto?
Ela coloca a faca na pia e se vira pra mim, o rosto estranho, como se já estivesse pensado nisso há anos.
– Mads não é boa em matemática... Ela é muito dispersa para fazer Administração.
– Sua irmã que não é boa em matemática e é dispersa, mas que está cursando Arquitetura? Tem certeza, porque eu achava que para um curso desses você tinha que saber fazer umas continhas básicas e prestar bastante atenção.
Digo irônica e cruzo os braços. Ela não me engana. Sei que está preocupada com outra coisa... Para fazê-la querer largar o curso.
– Acho que estou grávida.
– Mas o que?
– Xiu, não conte para a Mads... Vou comprar o teste amanhã... E depois ver o que faço...
– Mas e o curso? O que vai fazer?
– Já estava querendo trancar antes da suspeita, mas não tenho certeza... Acho que vou mudar para outra coisa.
Olho para ela ainda de olhos arregalados. Grávida? Como assim? Tento me manter calma. Vou me concentrar na outra coisa.
– O que?
– Jornalismo.
Quando vou responder Madison grita que a nossa cama já está arrumada. Vou à sala dar uma olhada, porque só tinham sofás e nós três em um só é sacanagem com minhas costas. Olho pela porta da cozinha e fico assombrada com o tamanho da cama montada no meio da sala.
– Da onde saiu isso?
– É um sofá cama Sarah.
– É, e o brigadeiro já está pronto. Vamos colocar a conversa em dia.
Entro na defensiva e digo que vou ao banheiro antes. Entro e tranco a porta, me apoio na pia e olho meu rosto no espelho. Estou com umas olheiras sinistras e meu cabelo está um bagaço. Sinto tanta falta de Jeremy que meus olhos refletem os seus... Penso nele, provavelmente deitado na cama, tentando entender porque menti. Sou um lixo-humano, não deveria coexistir em paz com o ambiente a minha volta, por isso sempre dou um jeito de estragar tudo. Respiro fundo e jogo água no rosto, depois saio do banheiro e vejo que as gêmeas já estão deitadas no sofá bem cobertas, deixaram o espaço no meio para mim.
– Vem Sarah, e nos conte quem é esse tal de Jeremy.
Droga, eu sabia que não devia ter falado o nome dele tantas vezes ao telefone. Tiro os sapatos e a calça jeans e escorrego entre elas; fico responsável por segurar a panela de brigadeiro. Não sou a fã número um de brigadeiro, mas meu emocional precisa do melhor antídoto anti-dor.
– Jeremy é filho da Agatha e do Christian.
– Não, espera! Não aquele Jeremy? Como assim?
Madison parece em choque, e bem, não é pra menos: a primeira vez que vimos Jemy, ele é um magrelo! Sem todo esse jeito sexy dele... Talvez tenha sido o lacrosse. O fato é que preciso honrar minha imagem, porém não sei como... Não tenho foto nenhum.
– Vocês não fazem ideia de como ele está tão lindo que fico sem ar perto dele.
– Certo.
– Ok.
Elas colocam uma colher cheia de chocolate na boca e reviram os olhos, fazem isso tão sincronizadas que me deixam assustada.
– Qual é a de vocês?
– Essa é a primeira vez que...
– Vemos você desse jeito.
– E o que é que tem?
Zoe sorri e Madison me cutuca com a colher. Estou tão confusa quanto elas quando resolveram comprar aquela poltrona horrorosa, mas não vou dizer isso em voz alta, claro.
– Você gosta dele!
– Claro que gosto!
– Não Sarah, o que a Mads quis dizer é que você está apaixonada pelo Jeremy Magrelo! E isso é hilário!
Sinto meu rosto esquentar monstruosamente! E não sei se é por causa dessa afirmação (que na real é a maior mentira do universo! Eu apaixonada? Puft!) ou se é porque elas ficam dizendo que ele é feio.
– Já chega! Cadê, preciso de um notebook agora!
Zoe se levanta e vai até o quarto, deixando nas mãos de Madison a honra de me irritar: “Jeremy Magrela, Jeremy Magrela, lálálá”... Quero esganá-la, mas antes de fazer algo que peque contra minha liberdade (novamente) enfio uma colherada de brigadeiro goela abaixo. Zoe então volta segurando um notebook cheio de florzinhas... Nem preciso pensar muito: super gay! Torço o nariz, mas pego o computador.
– Certo! Agora vocês vão ver!
Entro no site da antiga escola do Jemy e procuro pelas fotos do time de lacrosse. Uma rápida olhada e consigo identificar seus lindos cachinhos no meio dos outros garotos. Coloco o dedo na tela e sorrio.
– Ele aqui.
Vejo pelo canto dos olhos suas bocas se abrirem, se preparando para tirar sarro e de repente voltarem a se fechar. E abrir... Fechar. Dou um sorriso vitorioso.
– Meu Deus...
– Que gostoso!
Olho para cada uma delas e fico brava... Muito, mas muito brava mesmo! Quero bater na cabeça delas com a panela. Fecho o notebook. O que é isso que estou sentindo?
– Tá, já chega! Vamos parando de graça!
Percebo tarde demais que é ciúme. Puro e simples. E o pior de tudo isso é que o perdi... E talvez quando o veja de novo, ele não vai querer nem chegar perto de mim. Sou uma inútil!
– Está com ciúme Sarah?
– Não... Claro que não!
– Se você diz.
Acho... Acho que as coisas estão ruins de verdade... Talvez eu não devesse ter fugido, perdido a cabeça desse jeito! Meus olhos ficam embaçados e começo a chorar feito uma criança: soluçando, remelando e tudo mais.
– Você não está nos contando tudo não é?
Balanço a cabeça e coloco as mãos nos olhos tentando parar a enxurrada... Zoe põe a mão nas minhas costas e isso me faz chorar mais ainda.
– Minha mãe está viva... Ela é modelo e mora em Dublin.
– O que? Sério?
– Sim... Ela foi embora e pediu ao meu pai que escondesse a verdade de mim.
Então conto tudo a elas, desde a parte em que eu mostro o álbum ao Jeremy até o dia em que Amanda me contou a verdade. Despejo tudo em cima delas, todos os detalhes e termino a história na parte em que deixei Mark aos cuidados de Jay e Cal.
– Você deixou o Mark nas mãos de dois caras que você acabou de conhecer?
– Eu deixaria minha alma nas mãos deles... Sério Zoe, eles são incríveis de verdade! Jason é atleta, pratica remo e escalada, já o Calvin é todo certinho e adora sair pra mochilar... O que na verdade é uma combinação bem estranha... Eles são melhores amigos desde criança e são ótimos.
– Uau, que tal me apresentar um deles Sarah?
– Apresento Madison... Eles vêm para cá daqui um mês de balsa para trazer o Mark... É mais ou menos o tempo que preciso pra me acertar aqui, arranjar um emprego, uma casa e me re-matricular na faculdade.
Mads bate palminhas toda sorridente... Acho que esse jeito maluco dela combina perfeitamente com o Cal, mas vou deixar pra ver depois.
– Vai mesmo ficar?
– Sim Zoe, não acho que voltar para a Inglaterra seja uma boa ideia. Então amanhã já vou começar a procurar um apartamento e pagar o aluguel com os salários acumulados que recebi do colégio.
– Não precisa procurar casa Sarah, pode morar aqui com a gente.
Torço o nariz, por mais que queira morar com as gêmeas, minhas costas clamam por uma cama. Ela ri e belisca minha bochecha.
– Temos um quarto a mais Sarah; só não hospedamos você nele porque as tintas que a Mads usou estão todas lá, mas vamos tirá-las e pintar o quarto do jeito que você quiser... E então você nos ajuda com as despesas com comida e essas coisas, já que o Senhor Prince é dono desse prédio e podemos morar aqui de graça.
– Que sorte que o papai é dono disso tudo, se não teríamos que morar em uma daquelas fraternidades nojentas.
Nós três trememos juntas. Desde que viramos amigas, alguns anos atrás, nosso sonho de faculdade com toda certeza não incluía fraternidades mesquinhas, e saber que vamos morar juntas faz meu humor melhorar bastante.
– Bem, se vocês insistem tanto... É claro que fico!
Morando aqui vou conseguir me livrar de uma despesa que não poderia cuidar por muito tempo e consequentemente ficar de olho em Zoe e na tal possível gravidez. Só espero que minha vinda para cá não me traga mais problemas... Não sei o quanto mais posso suportar.
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