Cigarette Smoke
34 Não eu, mas sim nós
Notas iniciais
– Alô? Pai? Onde você está? Você não disse que vinha me buscar?
Pego a mala na esteira, saio do aeroporto pra poder esperar meu pai e procuro um lugar para me sentar. Avisto um banco onde tem uma mulher com duas crianças. Crianças me odeiam, mas arrisco e me sento ao lado da garotinha loira com uma touca vermelha na cabeça. Ela sorri para mim e eu faço um esboço de sorriso, que a deixa assustada.
– Desculpa Sarah, já estou chegando. O pneu do caro furou.
– Mentira. Você dormiu demais não foi?
– Como é que você sempre sabe das coisas?
– Não faço ideia.
Me despeço dele e desligo o telefone.
A garotinha está me encarando, mas não tenho condições de tentar engatar uma conversa com ela. Porém, ela não está nem ai pro meu estado de espírito e escuto-a perguntando para a mãe porque é que “a moça aqui do lado fez pintas de canetinha no rosto?”.
– Desculpa.
A mulher se levanta com o bebê de colo, segura a mão da menininha e sai correndo. Acho que fiz alguma cara horripilante. Tudo bem, não tem como piorar.
Abro a mala à procura de um casaco e quando eu o encontro trato de enfiar os braços pelas mangas e fechar o zíper. Como está frio! É outono, mas parece inverno! Estamos mais ou menos na mesma época em que Jeremy se mudou para o colégio, alguns anos atrás. Faz exatamente vinte e quatro horas que não o vejo e parece que tem um buraco aberto no meu estômago e uma cratera no meu peito. Acho que sinto mais falta dele agora, do que senti quando fugi aquela vez.
Coloco as mãos no bolso e me aconchego bem dentro do casaco. O vento frio queima minha pele e minha respiração cria fumaça no ar a minha volta. Deveria ter colocado uma touca e luvas na mala... Idiota!
Concentro minha atenção nas pessoas que saem do aeroporto: famílias inteiras, casais que vieram juntos ou que acabaram de se encontrar, alguns pobres solitários como eu e minha mãe... Espera. Minha mãe?
Começo a encarar a mulher loira quem vem na minha direção, ela está usando um casaco parecido com o meu só que vermelho, o cabelo esvoaça ao seu redor como uma nuvem... Kari parece mesmo com uma rainha, uma rainha má e vingativa.
– Olá querida.
– O que você está fazendo aqui?
– Isso é jeito de falar com sua mamãe?
Ergo o queixo pra tentar ficar com uma expressão superior à dela, porém, ela é tudo o que eu ainda vou ser um dia, então minha técnica não funcionou muito bem. Resolvo partir para a ironia.
– Ah mamãe, estou tão feliz em vê-la!
Kari se senta ao meu lado. Tenho certeza que as pessoas que passam por nós agora e que nos encaram devem estar pensando que somos irmãs.
– Certo Sarah, não precisa me atacar. Estou aqui para me desculpar.
Arregalo os olhos e viro a cabeça em sua direção. Seu rosto parece bem mais cansado do que da primeira vez em que a encontrei, como se a idade tivesse chegado de repente. Mas, apesar disso, ela ainda é linda como uma modelo.
– O que aconteceu?
– Nunca me senti tão mal... Nem quando eu quase matei você... É como se faltasse algo muito importante na minha vida.
– Você acha que essa coisa é o Hans?
– Acho... Tenho certeza que é.
Seguro o ar por alguns segundos. Kari tem problemas, eu tenho os mesmos problemas que ela. Nós duas temos coisas ruins dentro de nós que nos faz estragar as coisas. Solto o ar vagarosamente.
– Olha mãe, apenas tente não magoá-lo de novo.
Ficamos em silêncio por alguns minutos. Começo a ficar preocupada com Hans, onde será que ele se meteu?
– Soube que esteve em Paris nos últimos meses.
– É. Como descobriu?
– Eu te disse que nunca tinha te perdido de vista, não disse? Passei bem perto de te visitar várias vezes... Queria conversar e pedir desculpas por ter dito aquele monte de coisas. Mas não tive coragem.
Resolvo que a melhor resposta para o que ela acabou de dizer é ficar quieta. Tiro minhas mãos dos bolsos e elas estão roxas, tento esquentá-las esfregando uma na outra, porém meus dedos ficam dormentes. Que ótimo! Tudo o que eu preciso agora é que meus dedos congelem e caiam!
– Aqui querida, pegue.
Ela abre a bolsa que eu nem tinha reparado que estava em seu colo e tira um par de luvas de dentro dela.
– Não...
– Pega logo! Não seja teimosa.
Kari pega minhas mãos e sopra ar quente nelas, depois veste as luvas. Fico olhando atônita enquanto ela faz isso, sem conseguir expressar em palavras o quanto fico chocada. Ela quer mesmo se redimir, porque, talvez pela primeira vez, ela agiu como uma mãe de verdade.
Um carro estaciona e buzina algumas vezes.
– Veja, acho que é seu pai.
Vejo Hans descer do carro e vir na nossa direção. Ele está de cabeça baixa, então só percebe quem está ao meu lado quando já é tarde demais pra correr de volta pro carro e fugir dali.
– O que é que você está fazendo aqui Kari?
– Nossa, será que vocês só sabem dizer isso?
Me levanto do banco, pego minha mala e vou em direção ao carro. É melhor deixá-los se acertarem em paz, sem minha opinião...
– Sarah, fique aqui. Quero que você ouça tudo.
– Eu... Não, mãe...
– De que você me chamou?
Hm? Chamei de... Ai deuses! Eu a chamei de mãe, não foi? Faço cara de paisagem tentando fingir que não sei do que ela está falando. Sei que não dá certo, porque ela sorri, os olhos quase transbordando de lágrimas. Kari olha para Hans, e é verdade, ela o ama.
– Hans querido...
– Olha Kari, por favor, vou pedir que não faça isso...
Coloco a mão no ombro dele e dou um apertão. Hans me encara, parece que está pedindo socorro, então sorrio e digo apenas com o olhar: Escute-a.
– Hans, desculpa. Você sempre esteve comigo e eu sempre fui a fraca que preferia fugir ao invés de tentar arrumar as coisas. Fui embora tantas e tantas vezes, mas mesmo assim, sempre que eu voltava você me acolhia.
As palavras dela são um balde de água fria... Em mim. Eu sempre soube que éramos iguais, mas não nesse ponto! Eu fiz exatamente a mesma coisa com Jeremy, não uma, mas duas vezes! E mesmo assim ele ainda me quis... Ele ainda me queria.
As lágrimas que escorrem pelo meu rosto não são em favor de Kari, mas sim contra mim. Eu sou horrível!
– Kari... Mas que droga! Para que fazer isso agora?
– Pai?
– Hans... Desculpa, eu... Eu achei que...
Meu pai está vermelho (essa característica eu herdei dele) prestes a entrar em colapso. Ele dá alguns passos em direção a ela, soltando-se de meu aperto. Penso em entrar na frente dele e impedi-lo de fazer qualquer bobagem, mas sou surpreendida quando ele a beija.
Ok. Eu não precisava ver isso.
Pego a chave que está pendurada no cinto de Hans, arrasto minha mala até o carro e a enfio lá dentro, abro a porta de trás e me sento. Encosto o rosto no vidro e vejo-os se abraçarem. Os dois realmente fazem um lindo casal.
Eu quero o Jeremy de volta!
Estúpida! Foi você quem pediu por isso! Porque não conversou com ele antes de fazer aquele drama todo?
O que? Eu não pedi por nada! Eu queria apenas que ele viesse comigo!
Lá vem você como os seus “eu queria”. Nova informação queridinha: em um relacionamento não existe “eu”, existe “nós”!
Certo, brigar comigo mesma não vai adiantar de nada.
Continuo olhando-os quando eles se separam e Hans puxa a mala dela até o carro. Kari se senta no banco do carona e se vira para me olhar.
– Por que está chorando querida?
– Hm, é o vento frio... Fez meus olhos lacrimejarem...
– Haha. Sério, o que houve?
Por um segundo eu realmente pondero contar, mas então Hans abre a porta e entra resmungando algo sobre não ter sido uma boa ideia tirar as meias... Balanço a cabeça pedindo silenciosamente para que Kari não toque mais no assunto e ela entende. Passo o resto do caminho deitada no banco de trás, fingindo dormir.
Quando finalmente chegamos ao colégio, invento uma desculpa qualquer e subo para meu quarto. Engulo a saudade que sinto de Agatha e Christian e me escondo debaixo das cobertas. Inspeciono meu quarto e noto que está praticamente da mesma forma que o deixei alguns anos atrás. Apenas por uma diferença: a parede aonde antes eu escreverá inúmeras frases, estava limpa... Exceto por uma frase.
Me levanto pulando da cama e acabo tropeçando no meu edredom muito branco. Fico em pé, e com dificuldade me arrasto até a parede.
Tá legal.
Foi um erro imensurável ter o deixado.
“Por algum motivo imbecil algo nos uniu, e é por isso que sempre estarei com você.”
Encosto a cabeça na parede e escorrego até sentar-me sobre meus joelhos. Eu fiz tudo errado! Por todas as escolhas obvias que eu deveria ter feito, resolvi seguir as piores. Mas tudo bem. Tenho quase certeza de que não pode piorar. Cheguei ao fundo do poço. Estou caminhando pelo inferno, e já que estou por aqui, é melhor continuar andando.
Com certa dificuldade, me levanto do chão e vou para o banheiro tomar banho. Depois coloco uma roupa mais confortável (moletom, eu te amo) e resolvo dar um jeito nesse mausoléu. Por algum motivo fora do meu controle sempre acabo limpando esse lugar! Inacreditável.
Pego um balde na lavanderia, sem me importar com a cor, alguns produtos de limpeza com cheiro bom e dou uma geral na sala. Tem tanto pacote de salgadinho e embalagem de lasanha na cozinha que quase surto. Enquanto limpo, não vejo sinal de Kari ou de Hans, imagino que estejam com Agatha e Christian. Termino de limpar dentro de casa e vou para a garagem atrás do cortador de grama.
Coloco o balde no chão e fito a mancha de óleo no lugar onde Mark costumava ficar. Outro aperto no coração é capaz de me matar, então engulo o choro e corto toda a grama. O resultado é um lixo total. Tem tantas falhas que faço tudo novamente. Depois busco o rastelo para juntar as folhas.
Puxo todas num monte perfeito e a sensação de nostalgia me faz tão bem que resolvo me deitar sobre elas. Fecho os olhos e aceito a fraca quentura do sol me aquecer. Deixo que o tempo me cure...
Tenho aquela sensação estranha de estar sendo observada, mas essa seria uma coincidência muito boa para ser verdade. Mesmo assim resolvo abrir um olho e apenas vejo um pássaro pousado na cerca. Coloco as duas mãos no roso e dou um grito abafado.
– É claro que é apenas um pássaro Sarah, quem mais seria?
– Poderia ser uma lesma no seu cabelo.
Maldita imaginação, pára de brincar comigo.
– Não vai olhar para mim?
– Não, isso é apenas um sonho.
– Ninfa maluca. Isso não é um sonho.
É um pesadelo então! Isso é tortura, subconsciente masoquista maldito sedento por dor!
– Também não é um pesadelo doentio.
– Pare de brincar comigo!
– Não tem ninguém brincando aqui.
Ele ri. Aquele risinho infantil de sempre. Isso não pode estar realmente acontecendo, então separo os dedos para poder espiar entre os vãos. Os cabelos castanhos claros e cacheados, o sorriso bobo. É, eu só posso estar tento alucinações, melhor aproveitar.
– Então pare de me encarar.
– Quem? Eu?
Não consigo não sorrir.
– Não, a lesma invisível que estava no meu cabelo.
– Nossa primeira conversa não foi exatamente assim.
– Na nossa primeira conversa eu ainda não tinha visto seu corpo nu.
Jeremy se deita ao meu lado. Nossos olhos estão no mesmo nível, os rostos tão perto um do outro que sua respiração faz cócegas na minha boca. É hora de aceitar, ele está realmente aqui. Está mesmo. Acho que vou morrer!
– Deu tempo de sentir minha falta?
– Eu já estava sentindo sua falta antes mesmo de ter saído de casa.
– Desculpa Sarah, desculpa por ter te deixado de lado.
– Você não é o único errado nessa história... Eu tenho mais culpa do que você.
Ele coloca uma mecha do meu cabelo para trás e fecho os olhos esperando que me beije. Não acontece.
– O que?
– Nada.
– Me beije então.
– Nossos pais estão nos espionando pelo portão.
Me sento e faço uma varredura pelo quintal. É, realmente eles estão nos espionando, posso ver o cabelo de Kari daqui.
– Como me encontrou?
– Sarah, meu amor, eu estava no mesmo avião que você.
Olho Jeremy ainda deitado nas folhas. Seus olhos estão semicerrados por causa da claridade, mas sei que ele pode me ver perfeitamente. Não acredito nisso.
– Acredite sim, eu estava sentado duas fileiras atrás de você, ao lado de sua mãe.
– O que?
– É. Quando você saiu de casa, eu corri e comprei minha passagem, só não sabia que era no mesmo vôo que o seu. Fiz minhas malas e cheguei ao aeroporto em cima da hora. Quando entrei no avião, você já estava lá, de olhos fechados e com fones de ouvido. Me sentei ao lado de Kari, ela me disse que pretendia se desculpar com seu pai e ficou surpresa quando eu disse que você estava no mesmo vôo.
– É muita coincidência Jeremy.
– Você acha? Quando o avião pousou, esperei até você sair, então liguei para meus pais e avisei que estava vindo. Eles disseram que Hans estava indo te buscar, calculei que ele com certeza se atrasaria, então peguei um táxi e cheguei aqui antes de vocês.
– Foi assim que Kari chegou até mim e conseguiu falar com meu pai?
– Exatamente
– Ah não, para com isso.
– Você sabe que é verdade.
– Tá legal, mas e agora?
Jemy sorri e se apóia nos cotovelos para me encarar com seu melhor olhar matreiro.
– Bem, eu pensei que podíamos ficar um pouco por aqui, talvez só um mês ou dois, e depois vamos para New York, o que acha? Eu posso escrever sobre filmes por lá e você pode abrir sua própria floricultura. A gente compra um apartamento, juro por todos os deuses, de frente para o Central Park ou em um daqueles bairros que tem hill no nome. Podemos tomar café todo dia numa cafeteria e comer donuts cheios de glacê rosa. O que você quiser.
– Não.
Ouço um burburinho vindo da direção onde nossos pais estão escondidos. Mas tenho certeza de que eles não estão tão chocados quanto Jeremy está agora. Suas sobrancelhas estão quase que embaralhadas com seu cabelo, a boca paralisada num lindo ó.
– Não? Não por quê?
Aproximo-me bem devagar e encosto meus lábios nos seus. Não preciso gritar, mas digo em alto e em bom som para que todos possam ouvir também:
– Não o que eu quiser, mas sim o que for melhor, para nós dois.
Seu sorriso se abre, tomando conta vagarosamente de todo seu rosto. Então ele me beija, e todo o autocontrole que tenho é usado para manter minhas mãos seguras em seus cabelos ao invés de descerem para sua roupa.
– Ah, sim, agora sim.
O meu caminho pelo inferno era de apenas algumas passadas.
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