Cigarette Smoke

32 Morrer Amando


Notas iniciais
Eu disse que esse seria o último né? Pois é, menti! Haha. Não consegui acabar agora, então estiquei um capitulo... O próximo é o epilogo e fim. :(

Você pode comparar, de um jeito meio tosco, o amor a um cigarro. Acende, traga e logo acaba na tua boca. Então se joga o resto no chão e pisa em cima. Porém, o amor não tem filtro, talvez nem tenha fim, e acaba fodendo muito mais...

Gosto de pensar que comigo e Jeremy isso nunca vá acontecer... Mas eu não sei o que nos espera daqui pra frente. Pode ser que nosso amor acabe mesmo, como um cigarro; pode ser que tenha um filtro que impeça que nos tornemos tristes e pretensiosos, ou pode ser que não.

– Ei Ninfa, olha essas aqui!

Observo o local para onde Jeremy está apontando. É um pequeno canteiro de flores brancas, bem no meio da calçada. As pessoas passam por elas, algumas pisam em cima, outras desviam e, às vezes, sorriem. É um gesto bem bonito para franceses mesquinhos.

– Eu gostaria de poder levá-las para casa.

Casa. Minha casa. Com Jeremy. Deuses! Estou dividindo uma CASA com um pirralho maroto e preguiçoso!

– Pode levar uma se quiser.

Ele se abaixa e arrebenta um galhinho, se aproxima de mim e o coloca preso atrás da minha orelha.

– Jemy?

– Hm?

– Essas flores provavelmente foram regadas a xixi.

– Mas ficou ótima em você.

Suspiro e cutuco a flor em meu cabelo. Tudo bem, tudo certo. Que fique ai e me transmita alguma doença incurável! Jemy estende o braço e o seguro com as duas mãos. Estamos fazendo o que gostamos de chamar de “Passeio Matinal para Reconhecimento de Território”, cada dia aumentamos uma rua em nosso percurso pra assim podermos conhecer nosso bairro todo.

– Estou cansada de não entender direito o que eles dizem Jeremy!

– Logo você se acostuma Ninfa...

– Mas e se eu for comprar algo banal, tipo, sei lá, um sutiã, e eles me derem algo estranho em troca?

– Mais estranho do que comprar um sutiã?

– E porque seria estranho comprar um sutiã?

Ele sorri. Sacana, com certeza vai fazer alguma piada tosca.

– É que nunca entendi direito o motivo certo de você insistir em usar um sutiã...

Não vou me dignar a responder isso. Babaca.

– Só pra você saber Ninfa, isso foi dito em voz alta.

– Ótimo!

Mostro o dedo do meio pra ele e corro em direção a um café. Café. Preciso de uns croissants também. Atravesso a rua correndo (olho dos dois lados, claro, eu não quero terminar isso aqui com a minha morte!) e empurro a porta de vidro. Olho para trás e dou de cara com Jeremy, sorrindo como sempre, meio corado e os cachinhos esvoaçantes. Ele realmente, por tudo que é mais sagrado no Monte Olimpo, precisa cortar esse cabelo! Está me deprimindo!

– Sarah?

– Hum?

– Isso também foi dito em voz alta.

Ele me olha de um jeito meio magoado, e juro pelos Deuses, me senti mal de verdade por isso.

– Desculpa.

– Tudo bem.

Obviamente que não está bem. Jeremy passa por mim e vai até a atendente, diz algo num lindo francês e ela sorri para ele... Aquele tipo de sorriso que diz “Por favor, estou desesperada!”. Rapidamente me ponho ao seu lado e, sem sombra de dúvida, sorrio para ela também. Ela me encara, seu olhar congelante desce de meu sorriso sacana até minhas botas favoritas. Só então me dou conta de que sou minúscula perto da beleza estonteante dela.

Quando você conhecer alguém que com certeza absoluta é mais bonita que você, só resta algo a se fazer: ser irônica até o último fio de cabelo! E estou preparada para isso, até em francês!

– Mon petit ami n'est pas beau?

Sim, meu namorado é lindo, mas é meu! Dou-lhe meu melhor sorriso mesquinho e grudo meu corpo ao de Jeremy.

– Sarah, por favor, não faça isso.

– Mas...!

– Estou pedindo para não fazer, por favor.

Ele nem me olha ao dizer isso.

A atendente diz mais alguma coisa e Jeremy assente. Não faço ideia do que seja, mas o deixo lá e vou me sentar em uma mesa do lado de fora. Foco toda minha atenção nas pessoas que passam por ali, me recusando a ficar mal por isso.

Pessoas idosas caminham pra cima e pra baixo com seus cachorrinhos minúsculos, enquanto pessoas jovens correm pra cima e pra baixo com celulares grudados nas orelhas... Me parece até que elas vivem em um mundo diferentes dos velhinhos dali, como se a idade nunca fosse chegar para elas ou coisa assim. Mas, essas pessoas velhas, já pensaram que seriam jovens para sempre, e agora não lhes resta mais nada além de seus maridos e esposas velhos e seus pequenos e velhos cães. Começo a pensar que não vou ter nenhum dos dois, por que:

a) Sou uma idiota egoísta do caramba, que não tem noção do que fala e do que faz, e

b) Cães simplesmente me odeiam!

Eu não tiro a razão deles. Na verdade, todas as pessoas do mundo devem me odiar!

– O que nós conversamos sobre birras e dramas, Sarah?

– Que eu pararia com isso e cresceria.

– Exatamente.

Jeremy se senta ao meu lado, o braço apoiado no encosto da minha cadeira. Essa posição me lembra da festa de casamento das gêmeas. Tive que ficar em pé no altar a cerimônia toda, com um vestido horroroso cor de rabanete (sim, rabanete!), com direito a um buquê de flores amarelas e tudo! Resumindo, eu estava odiando aquilo tudo! Tirando a parte de que Zoe e Madison estavam lindas e que eu não conseguia manter água dentro do meu sistema por muito tempo, estava um horror de tão romântico. E, enquanto eu fungava e me derretia, Jeremy sorria feito um bocó e ficava me dando tchauzinho, eu apenas queria jogar as flores na cabeça dele. Quando, aleluia, chegou a hora da festa, eu não tinha mais disposição nenhuma para ficar em pé, porém, tive que enfrentar uma seção inteira de fotos ao lado delas, depois com as damas de honra (que por acaso eu nunca nem tinha visto na vida) e ainda por cima dançar uma valsa com os padrinhos dos noivos. É, porque eu era madrinha de duas, enquanto cada um deles tinha o próprio padrinho. Magnífico isso ai!

Então, quando eu achava que não dava pra piorar, elas me fizeram tirar Jeremy para a primeira dança, junto com elas e os meninos. O que não fez sentido algum, mas como era o dia delas, não discuti. Dançamos por uns cinco minutos até ele ver que eu estava prestes a morrer, deu uma desculpa esfarrapada e nos sentamos em nossas cadeiras. Passei o resto da festa apoiada em seu braço, sorrindo (adivinha) feito uma bocó.

– Desculpa, mas não posso evitar sentir ciúmes.

– Estava com ciúmes da atendente?

– O que você acha?

Jeremy arreganha os lábios num sorriso demoníaco. Meus deuses...

– Eu acho que você finalmente cedeu aos meus encantos.

– Idiota.

– Ninfa.

– Que é?

Sua mão grande dá a volta em meu pescoço e seu rosto fica a centímetros do meu, tão perto que sua respiração faz cócegas em mina orelha. Seus lábios encostam na curva do meu pescoço e depositam um beijo de leve, depois outro e mais outro, até chegar em meu ouvido.

– Je t'aime, Nymphe.

Isso eu sei o que significa. Eu amo você, Ninfa.

– Eu sei pirralho.

– Vem, vamos sair daqui.

Ele segura meu pulso e me faz levantar.

– E o nosso pedido?

– Eu nem pedi nada.

Nem sequer pergunto por que, apenas o sigo pela calçada, sem rumo.

Andamos por alguns minutos, até eu me dar conta de que estamos voltando para casa. Não quero saber o motivo, só quero ficar o mais perto dele o possível, por isso me jogo em suas costas. Jeremy me segura ali sem cerimônia alguma e fico grata por isso, já estava começando a achar que estou comendo muito croissant.

Logo paramos em frente a pequena casa, com uma cerca de madeira branca e muitas, mas muitas flores mesmo, uma grama verdinha e com a porta da frente vermelha com um batedor dourado em forma de arco. Ainda perco o ar, como na primeira vez em que a vi “Parece casa de fada, Jemy!” e ele simplesmente respondeu “Não, fada não. Ninfa.”

– Vamos entrar? Preciso te mostrar umas coisas.

– Que coisas?

– Lá dentro. Podem nos prender se eu mostrar aqui fora

Hm... Coisas.

Jemy me coloca no chão e poucos passos depois, nós entramos em casa. Me esparramo no sofá cinza (Jeremy gosta de cinza, mais um fato desconhecido) e ele se senta na poltrona de frente para mim. Chuto as botas dos pés, jogo as pernas no encosto do sofá e termino numa posição de cabeça para baixo, encarando-o e sorrindo.

– Você nunca vai crescer?

– Você realmente quer que eu mude Jemy?

Ele estica um dos cantos da boca numa tentativa fofa de sorriso, mas volta a ficar sério. Apóia os cotovelos nos joelhos, o queixo na mão. Seu olhar é tão sério e penetrante que sou forçada a me endireitar no sofá, igual a uma criança que sabe que está errada e vai levar uma bronca da pesada.

– Às vezes Ninfa, eu queria nem ter te conhecido.

– Ah, uau... Cara, essa doeu lá no fundinho da alma. Bem naquele lugar que a gente guarda pra se apaixonar por alguém... Sabe, aquela parte que sempre vai acabar ferrada? Então, bem lá.

– Dá pra esperar eu terminar?

– Ah, e tem mais? Acho que não quero ouvir o resto Jeremy.

Ameaço levantar do sofá, mas Jeremy é mais rápido ao se levantar e me prender no lugar. Ele praticamente se deita em cima de mim, as mãos prendendo meus punhos, um joelho entre os meus e a respiração descompassada junto à minha. Espera, que respiração? Eu não me lembro como é que se respira! Ah deuses, estou hiperventilando!

– O caso é que, Ninfa, se eu não tivesse te conhecido nem sei onde eu estaria agora. Talvez estivesse perdido, preso naquela escola maldita com a besta da Amy. Ou em casa, trabalhando com minha mãe... Eu poderia ter ficado terrível. Mas eu te conheci, e, cara, ainda bem... Tenho medo do que eu seria sem você.

– Você provavelmente seria o mesmo, ou será que você não percebe que a única problemática nessa história toda sou eu? Eu tenho medo do que eu seria sem você.

Minha voz sai num fiozinho de som... Tenho minhas dúvidas se ele as ouviu... Mas ele sorri, e agora tenho minha resposta.

– Pára de se vangloriar tanto, sua metida.

E me beija.

Dane-se que nosso amor seja um cigarro cancerígeno, eu vou tragá-lo até perder o ar e morrer com ele ali, preso entre meus dentes. Mas, claro, isso é apenas uma metáfora. Eu prefiro não morrer de amor. Prefiro morrer amando.

Notas finais
o/