Cigarette Smoke
33 Erro
Notas iniciais
Hans me ligou cinco minutos atrás, enlouquecido e ainda meio transtornado. Ele berrou algumas coisas incompreensíveis, e outras que eu preferiria não ter entendido.
– Dois anos Sarah! Você está sem me dar noticias suas há dois anos!
– Pai, não foram dois anos...
– Não me interessa Sarah Harue! Isso não é coisa que se faça! Faz ideia do buraco horrível de abandono em que me encontro?
Suspiro e me sento na poltrona onde Jeremy se encontrava algumas noites passadas. Eu comecei uma vida aqui em Paris sem notar... Foi algo um tanto inesperado, sem planejamento. Pensando bem, nada que eu tenha planejado na vida deu certo, então o melhor mesmo foi ter feito sem aviso prévio... Isso inclui sem aviso prévio ao meu pai.
– Pai, por favor, sem drama...
– Sem drama? Sarah, eu estou deprimido! Nunca me senti tão mal em toda a minha vida! Eu só queria minha filhinha...
Meus olhos ardem, mas me recuso a chorar. Eu também fiquei deprimida quando ele me prendeu no Colégio e nem por isso fiz tanto drama.
Ou fiz?
– Pai, olha... Vou te visitar, ok? Vou até New York só pra te dar um abraço.
– Não estou em New York.
– Ué, por quê? Pensei que sua vida toda estava lá!
Me estico na poltrona de forma que minhas pernas fiquem penduradas no apoio para braços, seguro o celular entre a orelha e o ombro, e começo a roer a unha. Um hábito nojento que adquiri nos últimos meses... Estranho, esses meses foi o tempo mais longo em que fiquei sem mexer com plantas, não que o jardim em frente de casa seja descuidado, mas não é nem de perto a mesma sensação de cuidar dos jardins do colégio ou da flor e cultura da Maureen.
Maureen. Quanto tempo eu não há vejo? Quanto tempo que não tenho notícia dos amigos que fiz em NY? De Zoe e Mads, do Andrew, Jay e Cal... Uau, parece que se passaram décadas desde a última vez em que os vi, o que é uma mentira, já que nos vimos no casamento das gêmeas. Só que eu estava tão absorta em fitar Jeremy, que me esqueci totalmente dos meus amigos... Da minha família.
– Estou no Colégio... Parece que esse é o único lugar que aquela louca me deixa em paz.
– Louca? Que louca?
– A louca da tua mãe!
– Epa. O que Kari tem a ver com essa história?
– Ela não larga do meu pé! Fica me ligando dizendo que me ama demais, e que nem todos os garotinhos da Irlanda podem me substituir.
Posso imaginar Hans se encolhendo na poltrona do mausoléu, tremendo dos pés a cabeça com medo da Rainha das Ninfas.
Não posso julgá-lo. Eu também tremi.
– Pai, fica calmo, ta legal? Você é um homem adulto, que não precisa se assustar com essa doida. Escuta bem, você vai levantar dessa poltrona, tirar esse roupão, tomar um bom banho, pôr uma roupa confortável, e vai dar uma volta lá no Colégio, bater um papo com os alunos e tal.
– Como você sabe que estou sentado na poltrona usando um roupão?
– Eu te conheço senhor! Ah, e posso apostar que está com um prato sujo de calda de panquecas ai do seu lado, e também deve estar usando aquelas suas meias ortopédicas horrorosas.
– Ai, essa doeu!
Sorrio e mordisco a unha do dedinho... Seguro a pelinha entre os dentes e puxo de uma só vez, acabando por fazer sangrar. Ai.
– Vai mesmo me visitar, filha?
– Eu já disse que sim.
Alguns segundos se passam e apenas nossas respirações se comunicam entre si. Posso sentir o desespero emanando do fone e me sinto péssima. Como pude fazer isso? Como foi que esqueci todos? Estava tão dedicada a Jeremy, que esqueci todo o resto. Esqueci até do meu carro! Mark está novamente sendo cuidado pelos rapazes... Como pude abandonar meu carro? Deuses!
– Você não mandou nenhuma mensagem...
– Desculpa.
– Estava começando a pensar que você tivesse morrido. E a Agatha também não sabia onde vocês estavam... Só tive noticias suas quando as gêmeas Prince casaram... Eu não tive coragem de ir, fiquei com medo de ver sua mãe por lá.
– Sua saudade por mim era menor do que seu medo por ela?
– Isso ai.
Suspiro pesadamente e chupo o sangue do dedo. Eca. Que decadência.
– Pai, preciso desligar, tenho umas coisas para fazer...
– Certo... Manda uma mensagem com a data e a hora do seu vôo... Faço questão de te buscar.
– Pai...
– Sim, querida?
– Eu amo você.
Não espero ele responder, apenas encerro a chamada e jogo a cabeça para trás, ficando com as duas extremidades do meu corpo penduradas na poltrona. Meus deuses! Estou tão ansiosa e solitária! Jeremy arranjou um trabalho num jornal por ai (não tive vontade de saber qual) e passa o dia todo fora de casa. Eu fico aqui, brisando e vendo o tempo passar a rodo, com medo de sair de casa e me perder no meu francês fajuto.
Meu jardim tem uma variedade de duas, isso mesmo, duas plantas! Olho para ele e sinto que vou morrer de frustração!
E no meio dessa coisa toda, eu só consigo pensar em ponto: porque não estou feliz?
Moro numa casa bonita, na cidade mais perfeita do mundo e o melhor, com Jeremy. Mas não consigo ficar feliz... Parece que falta algo muito importante, só ainda não descobri o que é.
Levanto-me a contra gosto e cambaleio até o quarto que, obviamente, divido com Jeremy. A cama é grande e ocupa um terço do quarto, o restante é preenchido com criados-mudos, tapetes felpudos e outras coisas sem sentido. Me jogo no chão e observo as malas de baixo da cama: a minha azul e a preta dele.
Estico o braço e encosto os dedos na alça da mala e é como um estalo. Uma certeza absoluta.
Eu não posso mais ficar aqui!
É loucura!
Como eu pude passar tanto tempo sem perceber?
Por maior que seja meu amor por Jeremy, não posso mais viver confinada! Aquela vez no colégio quase me matou, mas agora parece que é ruim multiplicado por mil.
Puxo a mala e a jogo na cama, e em poucos minutos todas as coisas que trouxe comigo para Paris, estão guardadas. Tomo um longo banho e me visto com meu uniforme oficial: jeans, camiseta e bota. Arrasto a mala até a sala e me sento novamente na poltrona. Ligo para o aeroporto e consigo uma passagem no último vôo do dia.
Me perco no tempo, pode ter se passado uma hora ou quatro, apenas sei que posso ouvir, finalmente, o portão da rua sendo aberto e os passos pesados de Jeremy até chegar a porta. Ele bate duas vezes e usa a própria chave para entrar.
A primeira coisa que ele faz a me ver é sorrir... Depois ele vê a mala.
– Sarah...?
– Oi Jemy.
– Onde... Aonde?
Ele atravessa a sala em três longas passadas e se joga em cima de mim. Nossa respiração combina no sentido de descompassada.
– Vou visitar meu pai.
Jemy ergue a cabeça e me encara por tanto tempo que começo a ficar desconfortável. Ele sabe que não é apenas isso.
– Você não vai voltar, não é?
Essa simples frase me lembrou o que eu disse quando ele resolveu ficar aqui. Eu não queria ficar, mas a simples hipótese de ficarmos separados me fez esquecer de mim e focar apenas nele... Será que ele faria o mesmo por mim?
– Eu não consigo viver aqui Jeremy, é demais para mim.
Tiro seus braços de cima dos meus ombros e me levanto afobada. Jemy se senta no lugar onde eu estivera pelas últimas horas e passa a me encarar. Aceito como um sinal de que é melhor começar a dizer tudo.
– Eu odeio esse lugar! Odeio esses parisienses mesquinhos! Um dia desses, eu sai para comprar uma torta de limão e o cara na padaria me chamou de americana idiota só porque errei a pronuncia! Fiquei tão revoltada que acabei pegando o trem errado e fui parar do outro lado da cidade! Fiquei horas pedindo informação Jeremy, horas!
– Você poderia simplesmente ter me ligado Sarah.
Paro atônita no meio da sala, os braços balançando de um lado a outro. Poderia ter ligado? Ah, não me diga? Aperto o botão da ironia.
– Ah, mas é claro que eu podia ter ligado! Como foi que eu não pensei nisso? Como sou idiota! Eu nem imaginei isso enquanto procurava o celular dentro da bolsa e percebia que o tinha deixado em casa.
Fico sem ar e começo a arfar como se tivesse corrido uma maratona. De repente apenas me sinto muito cansada, então me sento no sofá e faço um esforço sobre-humano para não chorar.
– Odeia tanto assim Paris?
– Não... É, que... Eu não me sinto bem, parece que estou presa... Sou o pior tipo de prisioneiro.
– Qual tipo?
– O tipo que não precisa de grades, porque está presa dentro de si mesmo.
Ele me encara demoradamente, observa todo meu rosto e fita meus olhos. Por fim, resolve falar.
– Vai mesmo visitar seu pai.
Não foi uma pergunta. Mas resolvi responder assim mesmo.
– Sim.
– E depois?
Observo seu rosto, seus olhos estão úmidos e seus lábios tremem. Mas ele se mantém firme e forte, está fazendo o possível pra continuar sendo o Sr. Poker Face.
– Depois eu ainda não sei.
Por uma fração de segundos eu realmente penso que ele vai dizer que vem comigo. Pobre Sarah, tão inocente.
– E nós?
– Eu tinha esperanças de que você quisesse vir comigo... Mas, ao que parece, isso não vai acontecer.
– Você tem razão. Não vou com você.
Ele me pareceu tão adulto ao dizer isso. Mas seu lado infantil aflorou nas manchas vermelhas que se espalharam por seu pescoço. Jeremy está triste ou com muita raiva de mim. Eu aposto na segunda opção. Suspiro e me levanto do sofá pegando o cabo da mala.
Uma sensação ruim toma conta de mim. Um aperto no peito, um sentimento de abandono.
– Então, isso é um adeus?
– Você quer que seja?
Encara-me de uma forma que tenho vontade de largar a mala e me jogar nele, mas não posso sucumbir à tentação. Não de novo.
– Não, não quero.
– Bem, eu também não.
Jeremy se levanta e vem até mim, essa movimentação faz meu coração acelerar de uma forma horrível. Sua mão pousa sobre minha bochecha e fecho os olhos sem poder encará-lo.
– Sarah, visite seu pai...
– Jeremy...
– Vá.
Sua mão desce até meu pescoço, e sinto sua respiração cada vez mais próxima do meu rosto. Jemy me beija de leve, depois se afasta. Quando abro os olhos, ele não está mais na sala. Então, pego minha mala e saio pela porta da frente.
Eu quero voltar pra casa, mas isso justifica deixá-lo para trás? Quão grande é o erro que estou cometendo?
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