Sou Sarah Harue, tenho dezoito anos e uma vida chata e entediante. Pacata, chata e entediante. Horrivelmente parada.

No momento estou apta a competir em uma maratona do sono em minha cama. E tudo transcorreria perfeitamente, se não fosse uma mensagem de meu pai, avisando que não vamos poder passar o natal juntos este ano. Isso porque ainda faltam um mês para o feriado!

Minha casa está tão vazia quanto um mausoléu. E estou começado a me sentir depressiva.

Meus amigos foram todos embora, para a faculdade ou para empresas da família. E eu continuo na mesma, a não ser pela parte de que agora trabalho na escola e não preciso mais estudar ou fazer provas.

Sou o braço direito da diretora e enquanto me arrumo para o café na casa dela repasso a agenda do dia na cabeça: reuniões, telefonemas, vídeo-reuniões e mais telefonemas.

Prendo meu cabeço comprido num rabo desgrenhado e desço as escadas correndo, deixando marcas de dedos na poeira do corrimão. Preciso de alguém para limpar essa casa.

Saio para o jardim e atravesso a grama alta até o portão que divide a propriedade.

O choque entre os quintais me assusta. Minha casa está mesmo um lixo! Abri as portas de vidro e encontro Agatha sentada à bancada comendo torradas com geléia de morango e requeijão.

– Bom dia Agatha.

– Bom dia Sarah... O que aconteceu no seu cabelo? E esse uniforme todo amassado?

É, meu cabelo não está lá essas coisas, mas não é pra tanto! E, bem, meu uniforme realmente está decadente.

– Ahn... Quer dizer, está difícil me virar sozinha naquela casa...

– Você poderia contratar alguém para te ajudar!

– Eu mesma poderia limpar, mas estou meio sem tempo no momento...

Fico sem jeito de dizer isso para a minha chefe, mas na real ela também é minha amiga. Deve me entender. De fato.

– Desculpe Sarah. Realmente estou abusando da sua boa vontade. Vou dar um jeito nos seus horários para você poder contratar alguém e, sabe dar um jeito na sua aparência seria legal.

Sem saber o que dizer quanto a isso apenas pisco e mostro a língua a ela. Agatha ri.

– Senta logo e toma seu café.

Comi vários alimentos que seriam saudáveis não fosse à quantidade de açúcar e manteiga que eu colocava em tudo.

– E ai, alguma novidade de ontem para hoje?

Eu pergunto isso todos os dias e nunca espero uma resposta de verdade, surpreendi-me quando ela disse que tinha.

– Sério? O que é?

– Jeremy virá morar aqui.

– O que? Por quê?

Paro com a torrada á meio caminho do buraco negro no meio da minha cara.

– Ahn... Na verdade Sarah eu só queria que você o ajudasse um pouco...

Notei que ela não respondeu minha pergunta, mas ignorei e resolvi direcionar minha atenção para a outra informação que foi jogada na minha cara.

– Ajudar?

– Sim.

– Como?

–Ajudando oras!

– Agatha!

– Hupth! Está certo! Te direi a noite, quando Christian estiver aqui também.

– Ok.

Ela fez uma cara engraçada ao olhar novamente meu cabelo. Tentei me sentir desconfortável, mas é quase impossível quando a pessoa que deveria te constranger te ensinou, anos atrás, a usar absorvente.

– Venha cá, me deixa dar um jeito nesse teu cabelo.

Levantei da cadeira desenterrando minha cabeça do prato de bacon e fui até ela. Dez minutos depois eu estava com o cabelo preso em uma trança grega. Muito mais apresentável.

– Certo cabelo apresentável...

– Mas uniforme não.

Agatha começou a puxar desamassar e abotoar minha roupa. Em poucos minutos estou arrumada como uma inspetora do mal, só meu falta um chicote e uma língua bifurcada.

O colégio não é particular, mas apenas os melhores podem entrar, sem importar dinheiro, cor, raça ou religião.

A maioria dos alunos vem todos os dias de ônibus, alguns de carro. Outros ficam no colégio, os que moram em outras cidades e em outros países.

Todos usam uniformes. Inclusive eu, que como inspetora, a única coisa que difere é a cor do casaco, que ao invés de azul é preto.

– O que tenho que fazer hoje Sarah?

– Bem, tem uma vídeo-reunião com os pais dos alunos brasileiros, uma ligação para a compra de materiais para as aulas de ginástica oriental, almoço na cidade com o pai de uma aluna riquinha problemática... Leve dinheiro.

Agatha sorriu. Essa aluna era um terror, primeiro por ser extremamente inteligente, segundo por ser um exemplo de vilã de histórias em quadrinhos. Seu pai não era o tipo que levava desaforo para casa e se Agatha disser algo que ele não goste, vai deixá-la com a conta pra pagar. Melhor prevenir do que remediar.

– Ok. Quando eu estiver fora, você vai ficar responsável.

– Agatha, porque você confia tanto em mim? Quer dizer, eu não sou e nunca fui um exemplo dentro dessa escola.

– O que? Só porque você fuma? E adora festas? Por favor, Sarah, eu te conheço desde sempre.

Entendi perfeitamente o que ela disse que está oculto nesta frase, traduzindo: “Sarah eu sei que você tem problemas com cigarro porque é insegura e tem medo do mundo, sei também que odeia festas, mas só frequenta para pensarem que você não tem problemas”. Ela me conhece melhor do que eu mesma.

Deve ser por isso que não sinto tanta falta da minha mãe.