Cigarette Smoke
27 Dona Girafa?
Notas iniciais
As aulas da faculdade têm ocupado a maior parte do meu tempo, sem contar as horas em que trabalho com Maureen. Nunca pensei que botânica me levaria à loucura dessa forma, mas não é só isso que vem me enlouquecendo nos últimos dias.
Um novo estorvo nasceu em minha vida (maldita) e seu nome é Amélia. Ando o mais rápido que posso pelo corredor em direção ao banheiro. Tenho tentado evitar andar pela faculdade sozinha por conta das ameaças que venho recebendo da ex-cadela-namorada de Jeremy. Vê se pode uma coisa dessas! Eu sendo ameaçada pela gigante! Porém, as gêmeas resolveram me abandonar hoje, disseram que tinham algo mais importante pra fazer do que estudar. Vadias.
Entro no banheiro e me tranco na última cabine. Eu nem teria saído da sala se a necessidade de ligar para meu pai não fosse maior. Tenho o evitado todos esses dias, mas o professor de Biologia disso algo na aula que fez meu coração saltar: “Temos que agradecer aos nossos pais pelos genes que nos passaram, afinal, imaginem só viver uma vida inteira sem poder enxergar ou andar porque o DNA deles não combinava?”. Cara, isso faz tanto sentido! Disquei o número de Hans super rápido e acabei ligando errado.
– Desculpa senhor, foi engano.
Disquei novamente, só que mais devagar. Ele atendeu de primeira, como se estivesse esperando sentado ao lado do telefone.
– Filha?
– Hey pai.
– Meu Deus quanto tempo! Você está bem? Espero que tenha parado com aquela babaquice de cigarros! Ainda se recusa a vir morar comigo? Eu só quero cuidar de você!
– Pai! Pai, se calma! Olha, eu estou bem... Eu parei de fumar, juro!
– Sarah... Tem certeza? Você pode vir morar comigo se quiser.
– Desculpa, mas não vou.
Ele suspira pesadamente e começo a sentir os sintomas novamente: ombros caídos, olhos ardendo, garganta seca e um aperto no coração, daqueles que parecem que uma mão gigante está apertando em meio à dor.
– Eu sinto muito a sua falta pai, mas preciso viver sozinha... Se for ficar para sempre debaixo das suas asas vou continuar horrível como sempre fui.
– Você não é horrível...
– Você sabe que é verdade... Eu, eu estou tentando ser diferente pai, e se eu voltar a morar com você, talvez não consiga mais...
Seguro as lágrimas em seu devido lugar. Pisco, desesperada para não borrar o rímel e sair do banheiro parecendo um panda.
– Tudo bem... Olha, mas se mudar de ideia...
– Não vou.
– Eu sei que não, mas você bem que pode vir me visitar né!
Não evito sorrir... Na verdade, essa é umas das poucas coisas que tenho me permitido fazer. Despeço-me de Hans, mas não antes de prometer que vou visitá-lo o quanto antes possível. Respiro bem fundo e abro a porta do reservado, apenas para ter um mega infarto.
– Ai, mas que merda!
– Olá Sarah.
– O que você quer Amélia?
A Dona Girafa está de braços cruzados bem a minha frente, inspira tanta hostilidade que sinto a pele do meu rosto queimar. Mas talvez seja apenas a minha raiva.
– Eu vim apenas refazer a minha ordem, já que claramente você ainda não entendeu.
– Há-há. Tudo bem, vai lá, repete.
– Fique longe do Jeremy sua vaquinha malhada. Ele é meu.
– Hm, eu já ouvi essa antes... Talvez você tenha que pensar em algo melhor da próxima vez.
– Não terá próxima vez... Você vai seguir meu comando e deixará que meu Jeremy volte correndo aos meus braços.
– Ok.
Argh! Decido concordar só para que ela largue do meu pé. Mas quando vou passar por Amélia pra poder voltar para a aula, sua mão grande e fina dá a volta em meu braço me fazendo virar e encará-la.
– Jure.
– Vá para a merda.
– Se você não fizer o que estou mandado Sarah, eu vou fazer da sua vida um inferno.
– Uau, nossa! Que medo de você sua pirralha!
Na verdade estou com medo sim, mas se é pra jogar... Faço uma cara de espanto bem forçada e aproveito o momento de distração dela para me soltar e correr de volta para a sala. Cerca de dez minutos depois as aulas do dia finalmente acabam, então junto meu material e vou para fora do prédio esperar Jemy nas escadas.
Tenho me esforçado muito para controlar meu lado mimado, mas sem perder quem eu sou. Jeremy não merece que eu vire um estorvo em sua vida, mesmo que eu ache que já sou. Enfio o caderno na bolsa e encosto-me à amurada. Gosto de observar as pessoas do campus, elas são tão diferentes! Na minha antiga escola nunca teve tanta diversidade humana, então quase não estou acostumada com esse monte de grupos daqui. Na verdade, nem sei classificá-los. Fico tão envolvida tentando desvendá-los que nem percebo ele se aproximar, até que coloca os dois braços ao meu redor me prendendo de frente para a amurada.
– Oi Ninfa.
– Que susto.
Jeremy beija meu ombro e me solta (cedo demais para meu gosto) e se posta ao meu lado. Observo seu rosto e vejo que um sorriso matreiro toma conta de seus lábios... Hm, conheço esse sorriso.
– O que você está aprontando?
– Segredo.
– Ok... A Amélia me cercou hoje de novo.
– E o que ela disse?
Ele fica tenso me encarando... No começo foi difícil para ele acreditar que sua doce Amy estava me ameaçando, mas quando contei todos os detalhes e o motivo óbvio para suas ordens, Jeremy pareceu entender.
– Ela continua dizendo para que eu fique longe de você e blá-blá-blá... Vocês crianças não respeitam mais os mais velhos! Aquela garotinha pensa que pode mandar em mim! Coitada.
Jeremy ri e volta a me abraçar.
– Eu pensei que ela tivesse te batido ou algo assim...
– Se ela me bater, quem você acha que vai se machucar mais?
Com os braços a minha volta, um centímetro de distância entre minha testa e seus lábios Jeremy me olha. Estico-me toda e quando estou prestes a beijá-lo, olho por cima de seu ombro e vejo Amélia nos encarando de braços cruzados. Volto a fincar os pés no chão. Ok, não posso ficar fingindo pra sempre, essa maluca me assusta muito.
– Que foi?
– Ela está nos encarando de uma forma assustadora.
– Onde?
Jemy olha para todos os lados procurando por ela e o amaldiçôo por ser tão super discreto. Nossa!
– Atrás de você babaca.
– Ah.
– É.
Apenas uma olhadela por cima do ombro e um suspiro. Então Jeremy me pega pela mão e me arrasta até onde a Dona Girafa está.
– Sarah?
– O que?
– Tente evitar chamá-la de Dona Girafa por alguns instantes, ok?
– Mas, como é que...? Ah, esquece.
Cara, que vergonha. Anotar na listinha de coisas a se parar de fazer: pensar em voz alta. Jeremy para e dá um aperto forte na minha mão, um lembrete claro para o que ele acabou de me dizer.
– Amélia.
Ela descruza os braços enquanto abre um sorriso encantador para o meu Jeremy. Ai que raiva!
– Oi Jeremy.
Observo bem sua linguagem corporal, aprendi com Christian, e ela diz algo como: “Pelo amor dos deuses, alguém me coma! Estou desesperada!”. Tusso pra disfarçar uma risada. Jeremy solta nossas mãos, porém passa um braço sobre meus ombros.
– Amy, eu... Eu não sei como dizer isso...
– Apenas diga querido.
– Eu... Eu sou um idiota! Cara, a garota que eu sempre sonhei esteve sempre mais perto do que eu podia imaginar e eu simplesmente não podia deixá-la escapar, então fiquei com ela! Mas...
Como assim? Ei, alguém volte a fita porque eu me perdi em algum ponto entre o “eu amo você ninfa” e o “garota dos sonhos”.
– Jura Jeremy?
– Juro Amy... Mas, então, eu descobri que ela era uma vaca e tive que voltar para casa só pra entender que a garota, talvez não a dos meus sonhos, estava ali, apenas esperando por mim.
Uau, que meigo. Por um único instante eu pensei que ele fosse me enforcar pra poder viver feliz para sempre com a Dona Girafa. Ufa. Um berro me faz voltar de meu devaneio.
– O que?!
– É Amy, você pensa que pode ameaçar minha namorada para que eu volte com você, só que você não entende que mesmo sem a Sarah nós nunca voltaríamos.
É por isso que eu amo esse pirralho. Antes que eu possa dizer algo ainda mais maldoso, Jeremy me puxa em direção a sua moto e me entrega meu capacete azul.
– Aonde vamos?
– Eu já disse que é surpresa.
Dou de ombros e coloco o capacete, depois subo na moto e me agarro a Jeremy, claro, sem segundas intenções... Tirando o fato de que posso sentir o calor emanando pela jaqueta de futebol preta e azul que ele está usando hoje... Sem contar seus músculos... Foco Sarah!
Logo Jeremy entra na garagem do seu prédio. Certo, seja lá o que Jeremy esteja aprontando, precisa ser feito entre quatro paredes... Hum. Descemos da moto e logo entramos no elevador da garagem.
– Sarah, você sabe que dia é hoje?
– O que? Hoje?
– Sim.
Paro para pensar: a última vez que olhei a data faltava uma semana para o meu aniversário, mas tantas coisas aconteceram que não sei bem se já estou mais velha ou não.
– Não tenho ideia.
– Jura?
Faço que sim com a cabeça e ele uma cara confusa, do tipo: “como assim você não sabe que dia é hoje?”
– Uau, elas realmente tinham razão.
– Elas quem Jemy?
Antes que ele possa responder a porta do elevador se abre e Jemy me arrasta (ok, eu acho que ele está me arrastando muito hoje) para o corredor. Pára no meio do caminho e pega o celular, o movimento é tão rápido que não me dou conta do que ele está fazendo, então me arrasta novamente (isso está ficando meio chato). Fica atrás de mim (o que é bem estranho), coloca a chave na fechadura e abre a porta. Está tudo escuro. Hã, isso parece até uma...
– Surpresa!
Festa surpresa. Minha cara deve estar uma maravilha e pra melhorar as gêmeas estão tirando fotos freneticamente. Olho para Jeremy sem entender, ele apenas dá de ombros e sorri. Começo a sorrir, é claro, meu aniversário é hoje! Dia vinte e um de março, o dia mundial da árvore. Coincidência? Eu acho que não. Olho todos ali amontoados: meu pai (ah, que sacana!), Jay e Anna, Maureen e toda a família Canavan, Cal ao lado de Madison, e Zoe e Andrew.
– Gente...
Hans vem até mim e quase me sufoca entre seus braços. E então sou tomada de braço em braço, e as coisas começam a ficar meio automáticas e fora de foco: música, abraços, gritaria, bolo, velas, pedidos. Então sou retirada da multidão por braços conhecidos que me levam a outro cômodo.
– Jemy...
– Não me agradeça, foi ideia das gêmeas. Elas disseram que você não desconfiaria de nada, já que nem sabia que dia era hoje.
– Eu não ia agradecer por isso.
– Então por quê?
– Eu ia agradecer por você ser tão você.
Ele abre um sorrisinho e me beija na testa. Logo tira uma caixinha de sei lá onde e a coloca em minhas mãos.
– O que é isso?
– Meu presente pra você.
– Ah, eu não preciso de presente... Não sei se você notou, mas ninguém me deu presentes.
– Eu sei que você não gosta de presentes, as gêmeas me avisaram e seu pai também, mas eu já ia te dar de qualquer jeito.
Suspiro, mas acabo aceitando. A caixinha é branca e tem um laço azul em cima, e está bem pesada. Puxo a fita azul, levanto a tampa e...
– Uma pedra?
– Quê?
– Você está me dando uma pedra?
Franzo a testa olhando o conteúdo na caixinha: uma pedra azul acomodada numa almofadinha de espuma branca. Certo, a pedra é linda, além de ser azul, mas o que eu vou fazer com uma pedra?
– Ai deuses!
Jeremy dá um tapa na minha testa enquanto me chama de idiota e ri ao tirar a caixa das minhas mãos. Ele pega a pedra e a retira da almofada, revelando uma corrente dourada meio rosa. Acho que chamam isso de ouro rosado, ou algo assim.
– Ah, é um colar!
– Gostou?
– É lindo Jemy!
Ele aproxima a peça dos meus olhos e sussurra algo, que por um triz eu quase não entendo:
– É exatamente a mesma cor.
– Meus olhos são dessa cor?
– Uhum. Principalmente quando você sorri.
Dane-se os centímetros que nos separam, me jogo em cima de Jemy passando os braços por seu pescoço e grudo os lábios nos seus. Respiro pelo nariz, mas logo só essa pequena quantidade de ar começa a me deixar atordoada, então separo nossas bocas apenas o suficiente para recuperar a consciência.
– Obrigada pirralho.
– Disponha sempre Ninfa.
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