Cigarette Smoke
19 A Volta do Opala Azul
Notas iniciais
A neve está se prendendo em meu cabelo e começo a sentir meus ossos congelados, mas não vou entrar, agora não. Preciso sentir algo de novo, tanto frio como calor. Já faz um mês que estou aqui com as gêmeas... Um mês de melodrama total. A grade congelada da varanda gruda em meus dedos, não me importo nem um pouco. Estico a língua e capturo um floco de neve que derrete em contato com minha saliva.
Zoe e Madison estão fazendo qualquer outra coisa mais interessante do que congelar na varanda e não ficam me importunando em nada... Talvez elas saibam que estou numa fase de não querer ficar em contato com mais ninguém.
– Sarah, Zack está aqui.
Elas sabem, mas ele não. Que droga! Porque não posso gostar dele? Zack é incrível, inteligente e carinhoso... Mas não me chama de ninfa e nem tem cabelo cacheado. Desgrudo os braços da grade e passo as mãos no cabelo pra derreter a neve. Aliso minha roupa e entro na sala. Ele está lindo como sempre, as mãos enfiadas nos bolsos da calça e um casaco azul protegendo seu corpo do frio.
– Olá.
Sorrio e aceno para que ele me siga. Entro no meu quarto e deixo a porta aberta, Zack entra logo atrás sorrindo e tira o casaco deixando sobre a cadeira no canto. Depois fecha a porta e vem até mim.
– Você está azul.
– Gosto do frio.
Ele então segura meu rosto entre suas mãos e me dá um beijo, bem suave, que me faz sentir vontade de gritar. Preciso acabar com isso! Ele vai se machucar quando perceber que não estou interessada em ter um romance com ele.
– Quer dar uma volta?
– Zack... Não posso fazer isso com você... É injusto.
– Sarah, eu não me importo.
Olho, incrédula, para ele. Como assim não se importa? Cadê o amor próprio? Onde está a raiva por eu não gostar dele? Qual é! Esse cara lindo pode ter qualquer uma apaixonada por ele e decide ficar aqui, comigo, logo a pessoa que não quer nada com ele? Quanta doidera.
– Você está louco! Já disse que não posso me apaixonar por você, mas você continua aqui... Está testando a mim ou a você mesmo?
Zack ri e me beija outra vez. Coloco as mãos entre nós dois e o empurro para longe. Não quero isso, não quero beijá-lo e, aliás, nem sinto vontade de fazê-lo. Zack não é meu tipo, Zack não é o Jeremy.
– Está bem, me desculpa. Já entendi que não importa quanto charme eu use, você não vai esquecer aquele garoto.
Faço cara feia, mas logo sorrio. Não vale a pena discutir a maturidade do cara que se recusa a atender meus telefonemas, que foram vários se quer saber.
– Ah Zack... Gostaria de ter te conhecido algumas semanas atrás.
– É, eu também... Vamos dar uma volta ou não?
Então Sarah? Sim ou não? Fácil, né?
Seria super fácil... Mas não consigo. Abro um sorriso para ele e olho ao redor procurando uma via de escape e suspiro aliviada quando vejo a papelada para a faculdade ainda pela metade.
– Desculpa, mas tenho que terminar aqueles papéis para a faculdade, porque se não entregar logo não vou poder começar mês que vem.
– Eu vou gostar de te ver por lá... Vou indo então, preciso terminar as compras de natal... Vou passar com minha família em Cleveland.
– Ahn... Se eu disser que talvez sinta saudades é muita maldade, né?
– É.
– Vou sentir saudades.
Ele ri e me abraça. Quero ser amiga dele, de verdade. Mas se ele gosta de mim talvez seja complicado...
– Podemos tomar um café quando você entrar na faculdade, o que acha?
– Acho ótimo.
– Sim, nos vemos daqui um mês.
Me abraça de novo e pega o casaco na cadeira. Depois de vesti-lo acena mais uma vez e sai do quarto. Posso ouvi-lo dizendo adeus ás gêmeas e a porta se fechando. Começo a contar, 5, 4, 3...
– Sarah!
Vou andando lentamente até a sala. As gêmeas estão em pé de ombros grudados e os braços cruzados... Seria engraçado se eu não estivesse com medo.
– Oi.
– Qual é...
– O seu problema?
Não posso demonstrar que estou com medo... Cruzo os braços também e as encaro de cara feia.
– Não tenho problema algum.
– Então porque deu um fora nele?
– Sarah, o Zack nunca corre atrás de garota nenhuma e ele gostou de você, porque fez isso?
– Não posso fazer isso com ele gente, o cara é demais pra carregar um fardo como eu.
– Fardo? Pelo amor de Deus, coloca um sapato e vai atrás dele se desculpar.
Solto os braços e os balanço, estou em dúvida: ir ou não atrás do cara que não faz meu coração bater mais rápido? Isso não é exatamente uma questão muito inteligente, afinal, não importa o quão perfeito ele seja, não estou apaixonada por ele. O que me faz pensar: então estou apaixonada por Jeremy? Isso sim me faz fraquejar.
– Desculpa, mas eu não me desculpo mais.
Me viro e saio o mais rápido indo até meu quarto e trancando a porta. Deito na cama e pego o celular... Vou ligar mais uma vez, quem sabe dessa vez ele atenda. Disco o número com as mãos tremendo. O tu-tu-tu costumeiro me deixa louca e começo a mastigar a unha do dedão.
– Alô?
Ai meus deuses! É ele. O que eu digo? Estou com saudades? Por favor, me desculpa? Então me lembro que não peço mais desculpa e mordo a língua.
– Alô? Tem alguém ai?
– J-jeremy?
Silêncio. Ele vai desligar, eu sei. Meu coração está batendo muito rápido e sinto vontade de vomitar. A respiração do outro lado do fone é tão descompassada quanto a minha.
– Sarah, por favor, me deixa em paz.
– Jemy, sinto sua...
Ele desliga.
P.O.V Jeremy
Não consigo mais ficar longe dela. Mas não posso dar o braço a torcer. Aquela idiota foi embora, me abandonou aqui. E agora liga dizendo que sente minha falta. Vadia!
Jogo o telefone na mesa e volto ao seu quarto. Estou acampado aqui há um mês e tortura é uma palavra muito boba pra descrever o que estou passando. Se ela é uma idiota, eu sou dez vezes mais. Torturo-me dormindo todo dia em sua cama, sentindo seu cheiro. Quão otário eu posso ser?
Claro que já estou formulando meu plano de vingança. Pego meu notebook e a página que ando vendo há uma semana ainda está ali. A mesma faculdade que Sarah vai entrar ano que vem. Pode parecer complicado armar um plano assim, mas quando se está apaixonado você comete loucuras. E no final, é tudo bem simples: entrar na mesma faculdade e lhe fazer uma surpresa (ela com certeza vai ficar surpresa quando me vir) e depois quebrar seu coraçãozinho em vários pedaços (exatamente como ela fez comigo).
– Sarah, minha ninfa, vai se arrepender por ter feito isso comigo.
P.O.V Sarah
Tomo um banho bem quente e demorado. Os meninos chegam hoje trazendo Mark, vou encontrá-los e pegar meu bebê de volta. E claro, apresentá-los para as gêmeas. Desligo o chuveiro e me enrolo numa toalha felpuda e vou me tremendo toda para o meu quarto. Coloco uma calça jeans (dessa vez elas não podem me impedir, o frio está terrível), uma blusa e um casaco qualquer, calço as botas, enrolo um cachecol em volta do meu pescoço e cubro meu cabelo desgrenhado com um gorro. Saio do quarto e encontro-as já arrumadas me esperando.
– Vamos logo buscar o Mark.
– Sim e comprar um café antes... Ahn, Sarah, onde você vai hospedar seus amigos?
Ops. Não tinha pensado nisso. Mas bem, eles são mochileiros, acho que podem arranjar um...
– Não fale besteira Zoe, eles vão ficar aqui.
– Madison, eu não acho que precisa... Eles sabem se virar...
– Não Sarah, eles podem ficar aqui na sala, no sofá-cama.
Olho para Zoe que apenas dá de ombros. Certo, eles vão ficar aqui então. Saímos do apartamento e descemos de elevador até a garagem. Zoe vai dirigir, como sempre. Quando saímos da garagem ouço um assovio, olho para o lado e meus olhos se arregalam.
– Zoe, pare o carro.
– O que?
– Para o carro!
Antes mesmo de ela desligar o motor, abro a porta e me jogo na calçada, a neve se gruda nos meus joelhos, mas logo fico de pé e corro até o carro azul.
– Como vocês sabiam que eu estava aqui?
Jay sorri e me dá um abraço, me solto rapidamente dele e abraço Cal. Depois estendo os braços e me jogo na lataria de Mark.
– Bati um papo com uma amiga sua.
Ergo os olhos e vejo Cal segurando a mão de Madison... Mas o que? Como eles se conheceram? Zoe chega e cumprimenta os meninos. Ela fica um pouco afastada me observando.
– Peguei o número do Mark no seu celular Sarah... Madison cuidou do resto. Nós queríamos te fazer uma surpresa.
Sorrio para os três e volto a abraçar o Mark. Senti tanta falta do meu bebê! De repente me dou conta do mico que estou pagando e me endireito ficando de pé.
– Obrigada pessoal. Já estava começando a pensar que vocês tivessem roubado meu carro.
– Sabe que nunca faríamos isso.
– Eu sei. Mas como fizeram para chegar até aqui?
Jason coça a cabeça e olha pro lado, enquanto Calvin abaixa os olhos para a calçada e chuta um punhado de neve.
– Meninos!
– Tá legal, desculpa! Quando chegamos em casa descobrimos que não dá pra trazer um carro pelo serviço de balsa... Na verdade nem existe um serviço desse tipo. Então arranjamos um trabalho e pagamos para trazer de avião.
– Vocês o que?
O preço pra trazer um carro assim é muito alto! Eles devem ter trabalho feito camelos para conseguir isso. Ai deuses, eu sou uma pessoa horrível.
– Gente, eu vou recompensar vocês, eu prometo.
– Quanto a isso, eu e a Zoe já resolvemos.
– Como assim?
Elas se entreolham e sorriem.
– Papai Prince deu um trabalho para eles!
– Jura?
– Sim.
Tá legal, parece que as coisas estão começando a se ajeitar: Madison e Calvin, eu e meu carro, mais a faculdade, Zoe sem gravidez, Jason empregado. Ótimo, perfeito!
Mas eu só queria o Jeremy.
Então o telefone de Zoe toca, ela atende e faz uma cara engraçada. Pelo canto do olho vejo Cal dando um beijo em Mads e Jay todo vermelho ao lado deles. Dou um sorriso enorme.
– Meu pai quer que a gente passe o natal com ele.
– Sério?
– Sim e é para todos nós irmos.
Bem, essa será a segunda vez que passo um natal longe de Hans... Caramba, sinto uma vontade enorme de pegar um avião e ir até ele.
– Tipo, agora?
– É.
– Certo, então vou com o Mark.
Antes que elas discutam, entro no carro e espero até que eles se ajeitem no carro de Zoe. Vou seguindo-os até o prédio onde o senhor Prince mora. Depois que entramos na garagem, digo a Zoe que vou subir daqui cinco minutos... Ela entende na hora e chama o pessoal para subir.
Pego o celular e ligo para meu pai. No celular dele, não quero correr o risco de falar com Jeremy agora.
– Alô, pai?
– Oi Sarah! Estou com tanta saudade.
– Eu também, pai. Eu também.
– Sarah, preciso te contar algo.
Fico na defensiva, cara, com certeza vem bomba por ai. Encosto a cabeça no volante e fecho os olhos. Respiro bem lentamente.
– Diga.
– Jeremy está indo para a mesma faculdade que você.
É, parece que a noite vai ser bem longa.
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