Cigarette Smoke
20 Um Breve Conto de Natal
– Zoe, eu não quero vestir isso!
Puxo a barra do vestido, tentando, inutilmente, alongá-lo alguns centímetros. Ai que droga, me olho no espelho e quase enfarto.
– Pare de frescura Sarah.
– Mas é Natal! Cadê o respeito?
Madison chega enrolada em uma toalha Pink e assovia quando me vê.
– Uau, vamos para um jantar ou para uma balada natalina?
– Está vendo só! Até ela achou muito curto.
Zoe suspira e cruza os braços. Me sinto mal por estar fazendo isso, mas, pelos deuses, esse vestido é muito curto! Nunca que eu vou sair daqui só com dois centímetros de pano cobrindo minha bunda!
– Está bem, você ganhou. Pode escolher sua roupa. Mas nada de calça jeans!
Sorrio e vou saltitando até o closet delas. Depois de dar uma olhada lá dentro começo a pensar que talvez eu nunca encontre algo decente ali, então cai a ficha: as roupas delas não ficam bem em mim porque elas são uns bom cinco quilos mais leves... E eu sou gorda! É isso!
Estou pirando.
– Já chega, vou sair daqui.
Volto ao closet e coloco meu jeans e a blusa. Pego meu casaco e minha bolsa e saio batendo os pés. Quando passo pela porta consigo ouvir Madison dizendo:
– Relaxa, daqui a pouco ela volta.
Ha ha, volto porcaria nenhuma. Aperto o botão do elevador e quando as portas se abrem, entro correndo, antes que elas saquem que eu não vou voltar.
Lá pelo sétimo andar o elevador para e duas mulheres ruivas entram: uma senhora bem velhinha e outra, que parecia ser sua filha, segurando algumas cestas (que parecem bem pesadas). Meu lado bonzinho fala mais alto e antes que eu posso me calar, já ofereci ajuda a elas.
– Quer mesmo ajudar?
– Claro, porque não?
A senhora (que aparenta ter uns sessenta anos, mas que ainda possui cabelo ruivo, mesmo com alguns fios brancos) me passa duas das cestas e quase as largo quando sinto o peso. Olho assustada para ela me perguntando como é que ela aguentou aquele peso todo.
– Anos e anos de academia, minha filha.
Caramba preciso começar a praticar exercícios. Franzo a testa e deixo passar... Quando o elevador pára, elas se preparam para sair, até que tenho a fantástica ideia de perguntar onde estão indo.
– Estamos indo servir a ceia no Central Park.
– Jura?
– Sim... É tradição em nossa família.
Olho para as cestas e de repente elas não parecem muitas. Acho que a mulher mais nova nota minha confusão, porque ri e aponto para fora.
– Essa é nossa última volta, já enchemos a van com mais de cem cestas.
– Isso é incrível! Ahn, será que eu, sei lá, poderia ajudar as senhoras?
– Você não tem outro lugar para passar o Natal?
A senhora olha para mim sorrindo duramente enquanto dá uma cotovelada na barriga da filha. Finjo que não vi nada.
– Na verdade até que tenho, mas não me sinto no direito de intervir na vida deles.
Ai que mentira feia!
– Bem, se você não se sente confortável “invadindo” a ceia dessa família, pode vir conosco servir comida para os sem-tetos.
– Jura? Posso mesmo?
– Claro! A propósito eu sou Maureen e essa é minha filha Verônica.
As sigo até a van e deposito as cestas lá dentro. No caminho descobri que toda a família participava e que a maioria já se encontrava limpando a neve, montando as mesas e instalando os picas-piscas no Central Park. Contei a elas que tinha fugido de casa e o motivo... Elas me ouviram e ainda disseram que fariam o mesmo... Quer dizer, Verônica disse que faria enquanto Maureen disse que já tinha feito.
Depois ajudei a levar toda a comida para as mesas e a servir todas as pessoas famintas e tristes. E eu nunca me senti tão bem em toda minha vida! Conheci várias pessoas da família de Maureen, alguns da minha idade outros mais velhos e algumas crianças que brincam de guerra de bola de neve. Mas conheci alguns sem tetos bem legais também, alguns que tinha ido para New York atrás de um sonho e coisas do tipo; algumas histórias me emocionaram de verdade enquanto outras me assustaram, tipo um cara que disse que tinha fugido da cadeia. Me levanto e sai de fininho de perto dele.
Me sento num canto mais afastado da mesa, quando todos os moradores de rua já se foram (disseram algo sobre o albergue dar biscoitos de natal) e só sobraram as pessoas da família Canavan. Apoiei meu rosto na mão e fiquei rindo feito boba das brigas e piadas.
– Eles são bem estranhos né?
Pulo no banco e olho assustada para o lado. Um garoto ruivo de uns doze anos, que eu lembro se chamar Miles, ria da minha cara.
– Desculpa, não queria te assustar.
– Tudo bem, não vou te xingar no Natal.
Ele ri e para me olhando. Fico incomodada com seu olhar, ainda mais pela cor de seus olhos serem tão parecidas com as dos olhos de Jeremy. Ai que ódio, porque não consigo parar de pensar nele? Jeremy não é tudo e provavelmente me odeia no momento!
– Minha mãe me contou sua história.
– Ah, é? Bem, não esperava que fosse ter tanta exposição.
– Não fique chateada com ela... Ela não faz por mal, só disse que era para sermos legais com você.
– Obrigada.
Miles coloca a mão no meu ombro e o aperta, antes de se levantar e correr até onde seus primos fazem um boneco de neve. Fico olhando eles brincarem e de repente dou outro pulo.
– Ai, deuses, está vibrando!
Pelo o celular no bolso da jaqueta e olho o visor. Suspiro e atendo.
– Onde é que você está?
– Oi Zoe, estou no Central Park alimentando os sem tetos.
– Você... Aonde? Você o que?
– Central Park, ceia de Natal para os moradores de rua.
Escuto Zoe berrar do outro lado da linha dizendo onde estou. Sua voz parece estranha...
– Certo, estamos indo até você.
Antes que eu posso dizer qualquer coisa impedindo-a, ela desliga o fone. Suspiro outra vez e me levanto, vou até onde Verônica está sentada com seu marido (o nome dele é John) e a cutuco no ombro.
– Ahn, Verônica, meus amigos descobriram onde estou e estão vindo pra cá... Espero que não tenha problema.
– Ah, claro que não! Quando mais gente melhor!
– Obrigada de novo.
Me afasto deles e vou para um outro canto, de baixo de um poste de luz. Um tempo depois escuto risos e me esforço para enxergar de onde vem o som. Avisto cinco jovens andando juntos, parecem bêbados, estão caindo e rindo ao mesmo tempo. É, definitivamente estão bêbados. Aceno e eles andam até mim.
– Sarah! Que saudade!
– Cal, a gente se viu algumas horas atrás.
Ele se joga nos meus braços e quase me esmaga. Olho por cima de seu ombro e vejo que até Zoe está atordoada, escorada em um garoto (que não me é estranho)... Ah, sim, o Andrew. Sorrio para ele, que parece ser o único sóbrio e ele sorri de volta. Logo Calvin me solta e sai saltitando pela neve. Madison vai atrás dele dando saltos, como se fosse uma bailarina. Jay se senta no chão, com a cabeça apoiada nos joelhos. Escuto um baque e mais risos. Olho para trás e vejo que os dançarinos caíram.
– Ei Sarah, que tal arranjarmos café para esses bêbados?
– Acho que Maureen tem café numa das cestas Andrew.
Andrew senta Zoe num banco e me acompanha. Chegamos até onde a família Canavan está e Verônica corre até nós.
– Aqueles malucos ali são seus amigos?
– São sim... Acho que beberam muita cidra de maçã. E esse aqui é o Andrew, namorado da Zoe.
Ela ri depois de cumprimentar Andrew “Ele é bem alto né?” e chama uma garota, que vem correndo até nós. Seu nome é Anna e ela é tão ruiva quanto o Miles.
– Oi tia?
– Esse aqui é o Andrew, amigo da Sarah. Ajude eles a levar café e alguns biscoitos para os amigos deles.
Anna pega um pote grande cheinho de biscoitos, enquanto eu pego copos de isopor e o Andrew trás duas garrafas térmicas de café. Quando nos aproximamos dos quatro bêbados, reparo Anna olhar Jason e ficar rosa de vergonha. Epa, Cupido Sarah ataca outra vez. Depois que entregamos café a todos eles, Andrew senta no banco com Zoe deitada em seu colo. Calvin e Madison ainda estão no chão, mas com copos e biscoitos nas mãos. Ai, estou segurando duas velas aqui. Suspirando me viro para o outro lado... E dou de cara com Jason e Anna se beijando.
– Tá legal, vou me retirar. E vocês dois: arranjem um quarto!
Saio andando no meio do parque chutando neve para todos os lados. Me canso e largo meu corpo num banco de frente para o lago congelado. Pego o celular e vejo que já é Natal há horas.
É, no final das contas, aqui estou eu: nas ruas de New York, com mendigos nova-iorquinos. Pelo menos ainda tenho um lugar onde morar. Pensando bem, e qual é, posso sim sofrer de auto-piedade, minha história é tão triste quanto a de todos eles.
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