Cigano de Dom Pedrito
2 Vendeiro de Juca Chavez
Notas iniciais
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Naquele dia, reponte da primavera, com as primeiras flores aparecendo na copa de algumas árvores, Pacácio bem cedo levantou. Era ainda de noitinha, mal dava para ver o terreiro já que a lua escondia seu brilho no leito celeste por trás dos pampas. Colocou a pilcha com bombacha, bota, lenço e jogou sobre os ombros o poncho de três lãs. Foi ao terreiro e pegou alguns gravetos, voltou à tapera e ateou fogo no fogão de pedra rebocado com barro e estrume, que ele mesmo fez. Pôs a água para aquecer enquanto preparava o mate.
Fervida a água o cigano deitou ela ao mate sentindo o cheiro no vapor que subia. Foi até o terreiro, sentou-se em um toco que servia de banco e como um rei, degustou o mate amargo em curtas tragadas, sentindo o minuano que manso soprava naquele dia, trazendo consigo os últimos resquícios do frio do inverno.
Ouvia o piar das corujas, o cantar dos sabiás e os relinchos dos cavalos.
Cavalos ele tinha alguns. Negociante de boa lábia, os animais paravam pouco com ele, logo encontrava alguém para negociar e os passava adiante, sempre pegando em troca outro animal e alguns réis para comprar o que de preciso lhe faltava.
Tomado o mate e a alma lavada, foi até o pasto e com um assobio, veio a égua bragada trazendo de arrasto o filho, potrinho que havia nascido a poucos dias. Pacácio o chamou de Valente devido à coloração que tinha. Era negro de reluzir. Estava peludo, pescoço bem comprido e pernudo. Mas o pelo iria alisar, o pescoço iria robustecer e as pernas ficariam fortes. Eram assim o pai e a mãe, não seria diferente o potrinho. Ajoelhou na anca da égua e retirou um pouco de leite em uma cabaça de moranga. O leite saiu quentinho, até fumaça da cuia subia.
Rumou para a tapera, deitou o leite em uma panela de pedra e deixou na taipa do fogão para manter aquecido. Quando a negra Maria acordasse, iria ser de com grado encontrar a bebida para seu dejejum. Foi até o outro cômodo, dos dois que a tapera possuía, e com a luz de lamparina que queimava ao azeite, viu dormindo sua negra. Cresceu um sorriso nos lábios e sua alma se fez acalentada pelo amor em sua china.
Apagou a luz e fez sumir o fogo do fogão, deixando apenas algumas brasas para manter o leite aquecido. Pegou sua cela de couro curtido, seu laço de oito braças, baldrana, pelego, e foi a pasto. Era hora de escolher um animal e sair pelo rincão ver se encontrava alguém para fazer rolo em sua sina de negociante.
Pegou um baio redomão que tinha negociado a alguns dias com o Capitão Faustino. Era um cavalo de pouca valia, já que não era jeitoso para o serviço e o trote era duro como o pulo de um touro. Pelo mal dos pecados, era ainda manco. Puxava da perna direita traseira que fazia o cavaleiro quase cair pelas ancas em cada passada que dava.
Mas não pense que o Capitão Faustino passou Pacácio para trás, pois o cigano ainda saiu no lucro. Deu em troca do baio um terneiro recém-nascido cego dos dois olhos que por certo logo morreria, já que nem capim enxergava para comer.
Porém, com a lábia do cigano, o baio havia de valer uns bons réis. Encilhou o animal que ficou um flete de boa feita, reluzindo no peito o peitoral de vinte argolas de prata polida.
Estando o baio encilhado, foi a uma árvore de galhos baixos que servia de poleiro às galinhas e pegou pelo pé um galo desengonçado. Uma ave que para nada servia. Não corria as galinhas, não cantava na meia noite nem no raiar do dia. Dos outros galos ele corria léguas, pois tinha um medo danado de briga. No mas, era magro que dava dó, nem para um ensopado servia. Colocou o bicho num saco e atou na cela do baio.
Começava o raiar do dia quando ele deixou a tapera bem pilchado no baio redomão e com o galo achinchado.
Seu cusco o seguiu. Cachorro pequenininho, mas bom para juntar gado e cercar cavalo alongado. Bicho de estimação, estava sempre com Pacácio onde quer que ele fosse. E o cigano por muito gostava, sequer imaginava cavalgar sem que o cusco estivesse logo atrás a latir de vez em quando.
Assim foi ele troteando pela estrada, quase uma picada por entre as capoeiras.
Assobiava uma milonga cadenciada lembrando dos bailes de rancho na gaita de oito baixos do peão Lozano Pinto, tocador de campanha que alegrava os bailes pelos rincões do Rio Grande.
Galopeou até que já passasse quase um quarto do dia quando chegou à venda de Dom Tibúrcio, vendeiro do Coronel Juca Chavez.
Na venda de pau a pique vendia arroz, feijão, água ardente, quirera, canjica e uma infinidade de outras mercadorias. Ela servia aos empregados da fazenda. Eles trabalhavam para o Coronel Juca Chavez e iam pegando mercadorias na venda. Na hora do acerto, descontando os fiados, nada sobrava para os viventes que ainda ficavam em dívida. Assim, viviam felizes.
Dom Tibúrcio estava debruçado no balcão.
Um gaúcho de avançada idade, porém, robusto e vistoso. Ele era empregado antigo do Coronel Juca. Homem de confiança cuja palavra valia muitos réis e o Coronel acreditava de imediato. E não era para menos, pois defendia o patrão com unhas e dentes.
Ele sempre trabalhou nas charqueadas do Coronel. Quando a idade lhe impediu o trabalho, o Coronel Juca Chavez lhe deu a administração da venda. Numa pilcha bem gaúcha, mateava e pitava um cachimbo que caia pelos beiços. Junto dele estavam dois empregados do Coronel Juca que vieram beber canha e pegar alguns fiados.
Homem de fala solta, Dom Tibúrcio mal viu Pacácio chegar ao terreiro da venda e de vereda gritou ao freguês.
– Bom dia Pacácio. Boleie a perna, parceiro. Venha matear conosco. — riu descompassado em prova de boa amizade.
– Bão dia Dom Tibúrcio, aceito a oferenda. — retorquiu o cigano melodioso, já apeando e atando o baio a um palanque.
Conferiu a amarra e seguiu para dentro do estabelecimento.
– Beba da erva, companheiro, aceite que é de bom grado. — disse o vendeiro estendendo a cuia ao cigano que de pronto aceitou. Tragou um gole largo, cumprimentando os outros dois.
– Estamos aqui charlando. — continuou Dom Tibúrcio. — A coisa tá mesmo feia pros lados desse Rio Grande. Esses impostos do imperador acabou com nosso rincão. — deu um soco ao balcão em tom de descontento.
– Me falaram qualquer coisa, mais com isso não me importo. Não me muda o meu viver. — respondeu o cigano sem dar grande importância ao fato.
De certo Pacácio, apreciador da vida livre e desapegado das burocracias da vida, não se preocupava com comércio além dos rolos que fazia.
– O imposto do charque é um absurdo, nunca vi coisa igual. — foi falando o vendeiro. — O imposto da erva-mate está pela hora da morte e do couro então, nem se fale. — gesticulava com as mãos para dar ênfase ao dito, quando não coçava a cabeça quase arrancando os cabelos, preocupado com o patrão.
O cigano sorridente, mostrando o dente de ouro, fazia pouco dos impostos e quase com desdém retorquiu.
– Minha erva eu cato no mato onde é Deus que semeia e cuida. O charque eu mesmo faço o que preciso para comer, mato terneiro e seco a carne no eitão da tapera com a fumaça do fogão. O couro eu mesmo curto, estiro eles e seco no sol para fazer os apetrechos de encilha. — tomou mais um gole do mate, alheio ao sufoco dos fazendeiros.
Dom Tibúrcio achou por demais o descaso do cigano. Ficou pasmado e já rumando a ficar raivoso. Para dar sustância ao que dizia, seguiu com o argumento.
– Mas que é isso cigano? Esse imposto espalha descontentamento. Os patrões não conseguem vender o que produzem daí tem que mandar empregados embora. Veja quantas famílias no desespero. — bradou com voz forte serrando o cenho tentando convencer o cigano, raivoso pela despreocupação de Pacácio com a causa dos coronéis.
– É que patrão acostumou a ganhar bastante, daí não acostuma com pouco. Acostumou com a grandeza, não aceita diminuir. — seguiu o cigano em contestação.
Dom Tibúrcio bufou enfezado. Deixou de lado o mate e mandou um trago de canha à goela. Não conformava com Pacácio fazendo pouco dos coronéis, não ligando com as agruras que passavam os fazendeiros.
– Mas tche. É só tu que não vê a maldade do imperador, parece que nem é daqui! — disse afoito o vendeiro. — No Rio Grande estão todos lutando contra os desmandos desse maldito.
– Pois é Dom Tibúrcio. — concordou Joaquim Alves, um dos homens que participava da conversa. — Um meu irmão memo já foi chamado pra servi co General Netto. Otro foi a tempo lutá em pras bandas de Bajé, nem sei se vivo tá. — falou com certo pesar, ainda que orgulhoso pelo feito e coragem dos irmãos.
– Sim. — continuou o vendeiro. — Muitos fazendeiros estão juntando peões para ir enfrentar as tropas do imperador. — falou furioso tentando provar as mazelas dos impostos para o povo do Rio Grande.
– Meu piá tamém foi pra Porto Alegre lutá co Generar Bento Gonçarve. — completou outro peão. — Nem sei cumé qui tá. — se mostrou um tanto mais pesaroso por não saber do destino do filho.
– Mas olha gente, eu sou daqui e amo este Rio Grande. — interpelou o cigano. — Só não tolero coronel que explora empregados e negros escravos. Eles mandam os empregados lutar e morrer enquanto ficam no conforto da casa grade.
– Num é bem assim, Pacácio. — foi falando bravo o vendeiro. — Os coronéis são como uns pais pros empregados e até para os pretos. Que seria das famílias dos colonos se não fosse os patrões para dar a eles o sustento do dia-a-dia? Que seria dos pretos se não tivesse os coronéis para dar abrigo?
– Pois eu é que num luto e num morro por coronel endinheirado nenhum. — foi falando o cigano. — Eles falam que os gaúchos que estão na luta, lutam pelo Rio Grande. Mas que nada. Lutam mesmo é pelos interesses dos fazendeiros coronéis. — falou com sua quase cantiga, pedindo uma canha para o vendeiro.
Dom Tibúrcio encheu o copo com cagibrina de segunda tremendo de enfezado com o desdém do cigano.
– Pois fique você sabendo que é graça aos coronéis que nós todos temos comida no prato. Tu falas assim porque não tem patrão, vive ao Deus dará. Mas quem tem patão há de dar é muito valor a ele. — concluiu de cenho franzido e sobrancelha apertando os olhos em sinal de irritamento.
De fato. Dom Tibúrcio, defensor do coronelismo e do patrão Juca Chavez, ficava muito indignado com quem não se agradasse com os fazendeiros do Rio Grande.
– É anssim memo cumo Dom Tibúrcio falô. — concordou Joaquim Alves. — Eu memo dô muito valor ao patrão. Qui seria di mim si num fosse ele. Meus irmãos estão lutano pra defendê o Rio Grande e eu memo ia se não fosse tão veio anssim. — falou em defesa do coronel a quem era devoto, não sentindo a esfola que sofria na lida do dia-a-dia.
– Pois eu não tenho mesmo patrão e nem quero ter um. — disse Pacácio pondo um gole de canha na goela. — Para mim são todos uns covardes que vivem de calça nas mãos enquanto os empregados morrem por conta deles.
– Cuidado com o que fala! — interpelou Dom Tibúrcio. — Tu tá é muito errado, os coronéis importam sim e muito com os empregados.
– Que nada, Dom Tibúrcio. — contestou Pacácio. — Eles ficam na casa grande comendo do bom e do melhor enquanto os empregados trabalham igual condenados nas lavoras e nas charqueadas. Agora ainda mandam os coitados para lutar contra o imperador e morrerem sangrando no meio do mato. — concluiu indignado, louvando sua vida de andarilho desgarrado, sem patrão a defender.
Dom Tibúrcio ficou mais ainda indignado. Não achou de bons modos Pacácio ficar falando mal de coronéis em seu estabelecimento. Os outros dois gaúchos também surpreenderam com a fala do cigano. Jamais eles pensariam que os patrões fossem homens de explorar empregados. Dom Tibúrcio deu processo na conversa falando mais firme ao cigano.
– Se eles souberem que tu anda falando essas coisas, são capazes de dar cabo de tua vida. — ameaçou o vendeiro. — E fazem em nome da honra do Rio Grande e estão muito certo em fazer. Tome tento, seu gaúcho! — disse bravo com charuto na mão, dando com a outra, um soco no balcão.
– Pois eu penso mesmo assim. — confirmou o dito Pacácio. — Esses coronéis são todos uns covardes que se escondem atrás dos colonos. Mais vamos cortar conversa. — desviou assunto, retomando seu sorriso faceiro. — Só vim comprar umas coisas e já sigo meu caminho. — concluiu dando fim a peleia antes que Dom Tibúrcio quisesse pender para a ignorância.
Dom Tibúrcio aprumou o corpo e com a mesma braveza, seguiu falando ao cigano:
– Pois então, compre e se vá. Não quero mesmo que aqui na venda fiquem falando mal dos patrões, homens justos e por demais de bons.
Pacácio deu de ombros antes de prosseguir.
– Me vê então um galão de canha. Vê também um rolo de fumo que Maria carece pitar para o piá nascer com sustância.
O vendeiro de cara amarrada, foi em uma prateleira e pegou a água ardente de uma ceifa bem ruim. Embaixo do balcão pegou o rolo de fumo. Pôs tudo em um saco e entregou ao cigano.
– São cinco réis e aqui só tem fiado pros empregados do Coronel Juca. Os outros peões, que pague na hora ou fique sem mercadoria. — falou colérico ao cigano.
Pacácio se viu enfezado com a postura do vendeiro. Sentiu o orgulho ferir e por pouco não deu resposta a Dom Tibúrcio. Mas resolveu não arranjar confusão e seguiu com fala mansa.
– Não careço de fiado nem de esmola não senhor. Tenho uns cobres e vou pagar.
Pegou a mercadoria e despediu dos companheiros. Deixou a venda e foi ao cavalo. Atou as compras na chincha e montou no baio redomão, deixou a venda e se foi pelo rincão.
Saiu assoviando pela estrada pensando na dura vida dos agregados dos coronéis. Mas não convinha se preocupar com dominância e dominados. Cada um que cuidasse da vida e deixasse a dele em paz.
Cavalgando pelos pampas, passou mais de uma légua e meia e chegou na casa grande do Coronel Juca Chavez, rodeada por charqueadas, senzalas e a capela. Gaúcho de marca maior, estava na varanda mateando na cadeira de balanço.
Pacácio levou as mãos no peito e pegou a imagem de Santa Efigênia que trazia pendurada ao cordão. Em pensamento, fez uma breve oração e um pedido para que suas palavras fossem bem conduzidas no negócio que ia fazer. Alargou seu riso faceiro e deu fala ao Coronel.
– Batarde coronel. Como vai vossa excelência? — disse cantado Pacácio, levantando o chapéu e curvando o corpo em reverência ao fazendeiro.
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