Cigano de Dom Pedrito

3 Negócio em Três Postados


Notas iniciais
Bom, um cigano né, então, não poderia deixar de haver um negócio... ou um rolo, mais propriamente. O sotaque gaúcho está na trama. Como a trama se passa em minha terra, não poderia ser diferente e aproveitei para deixar rolar.

***

O Coronel Juca Chavez parou o balanço suave da cadeira e respondeu cortês ao cumprimento do cigano que lhe chegara melodioso ao ouvido.

— Vou bem, cigano Pacácio. E vosmecê, como é que tá? — já se levantou, vindo à soleira da varanda receber o visitante.

— Vou bem, ainda que não goze de força que nem a sua. — expressou galanteio e marca de sedutor.

O Coronel Juca Chavez era um senhor cortês, de fala mansa e agradável. Dos fazendeiros, era o menos arrogante no trato com os empregados e aos gaúchos de menor sorte. Homem de aparência imponente, barba feita e sem bigodes, sempre recebia bem, fosse patrão ou empregado.

Gostava de andar bem pilchado e montado em um bom cavalo, que tivesse aparência. Cavalgava de corpo ereto que parecia um general. Quiçá, um rei. Preferia o último.

Também era envolvido com brigas de galo. Tinha sempre as melhores aves e pagava por elas o preço que fosse. Se gabava de derrubar a maioria os galos dos fazendeiros que enfrentava pelas rinhas do Rio Grande.

Porém, não era o que se podia dizer de um exímio conhecedor das qualidades de um cavalo. Não conhecia se o animal era de marcha ou que idade tinha. Não sabia se era cego, refugão ou boleador. Olhava pela beleza e postura do animal e se fosse do agrado, pagava o preço pedido.

Da mesma forma os galos. Gostava de ver as brigas e de levar a melhor. Mas por ver um galo, não sabia se era bom ou não; se enfrentava ou se fugia; se de raça ou de terreiro.

Mas era homem orgulhoso e a vaidade repontava. Ostentava por ser o melhor dos conhecedores dos cavalos e das aves. Sempre dava sua opinião e ela tinha que ter valor. Pobre do vivente que questionasse seu parecer.

Vivia na fazenda Três Postados, cuidando das charqueadas e de suas lavouras de mate a perder de vista.

— Pois apeie e suba a varanda. Beberá de minha guampa já que veio em minha casa. — disse o Coronel com sorriso largo e conviteiro estampado na face.

— Mas é uma honra de maior tamanho poder entrar na casa de tão imponente personalidade. — expressou o cigano valorizando o ego do Coronel. Desceu do animal e o atou ao pé direito da varanda. — Homem de respeito em todo esse Rio Grande que nem o senhor e se dá ao simples de receber um sujeito do mato que nem eu. — já de logo subiu a varanda.

— Pois não faça cerimônia e puxe um trago que a erva é da boa. — estendeu a guampa donde saía fumaça carregando o aroma amargo do mate. — Aproveite e me diga o que foi que te trouxe aqui.

Pacácio, sem fazer de rogado, pegou a guampa e deu um trago. Depois, falou de seu pretendido.

— Vim saber se num quer um rolo. Já faz tempo que estou por essas bandas e nunca negociei com o senhor. — disse ao sotaque cantado tentado seduzir o coronel.

Coronel Juca Chavez pegou de novo a guampa, deu uma boa tragada antes de dar fala ao cigano.

— Mas então faz a proposta, quem sabe que eu não aceite.

— Bom, eu tenho aqui esse baio que possuí do Capitão Faustino. — disse paciente, mostrando o cavalo ao Coronel. — Para serviço num tem melhor e para cavalgar num tem igual. De tão bom a gente nem sente as patas dele tocar o chão, parece que está balançando em uma rede. — continuou descendo as escadas da varanda, seguido pelo Coronel.

Quando chegaram no terreiro, o Coronel pôs a rodear o cavalo, avaliando a mercadoria. Ele sabia que ciganos são espertos para os negócios e não queria que Pacácio lhe passasse a perna. Depois, pôs tento ao assunto.

— Mas bah, seu cigano. Quando chegaste, notei que ele mancava. Parece que puxa da perna direita. — disse tocando a anca do cavalo do lado que notou manqueira. Por pouco não leva um coice do animal. Esgueirou de lado assustado.

— O senhor tem bons olhos, Coronel. O que o senhor diz é claro que é coisa certa. — falou dando razão ao Coronel antes de apresentar sua versão. — Mas nesse caso não é manqueira, é moda que ele faz. Ele rebola para encantar as éguas e nelas poder montar. — disse tentando convencer a faceira do cavalo.

Coronel Juca Chavez achou estranho o argumento e coçou a cabeça embaixo do chapéu. Não dando por convencido e com receio de se deixar cair nas lábias do cigano, buscou mais defeitos no cavalo.

— Mas olha seu Pacácio, que eu conheço um bom flete. Esse só de olhar dá pra ver que é redomão. — estendeu novamente as mãos em direção ao animal que já estirou na corda, dando sinais de refugo.

— Mas olha que o senhor entende mesmo dos fletes desse Rio Grande. — concordou novamente polindo o orgulho do fazendeiro. Depois contra-argumentou, faceiro que ele só. — Mas nesse caso, Coronel, não é que ele é redomão, é ardência que o bicho tem. E ardência, o senhor sabe, é coisa necessária para um flete de boa cepa. — já transformou o defeito em qualidade.

O Coronel pensou para ver a valência do cavalo. Era alto, pelo liso e vistoso. Olhou bem as patas para mostrar que conhecia e ver se não tinha bicheira. Olhou os dentes para dizer que conhecia idade. Cutucou com as mãos o animal para provar sua ardência. Pacácio afirmava não ser barda de redomão.

Para mostrar que era bom negociador e jamais passado para traz, o Coronel fez sua proposta de forma que não levasse prejuízo.

— Olha, seu cigano. Eu tenho uma égua bragada que dá para negócio. Mas já lhe digo que está prenha e é muito boa, vale mais que esse teu cavalo. Você tem que me voltar uns réis. — riu ao cigano, se mostrando bom negociador.

— Então vamos ver a égua para ver sua valia. — falou feliz pelo negócio que se formava.

Coronel mandou um pretinho buscar a bragada no pasto. Logo ele trouxe a égua e Pacácio pôs a observar. Era mesma uma beleza. Gorda, forte e de robustez. Prenha de uns seis meses, teria um belo de um potrinho. Pacácio, esmero conhecedor, logo viu que era uma égua de primeira.

— Pois eu confio no senhor. Se diz que a égua vale mais que meu baio, quem sou eu pra contestar. — concordou o cigano enfeitando a vaidade de Juca Chavez. — Mais eu tenho outra relíquia que garanto o senhor vai gostar. — foi até o saco atano na chincha do cavalo e de lá tirou o galo, mostrando ao Coronel. — Veja só esse galo que tenho. Um legítimo São Gonçalo que nas rinhas não tem igual. Veja só pelas esporas e avalia a imponência.

O Coronel cresceu os olhos no tal galo ao ouvir ser um São Gonçalo. Qualquer gaúcho sabe que nas rinhas, melhor que essa raça não há.

— Mas de galo eu entendo mais ainda. — foi falando enquanto examinava a ave. — Esse parece muito magro, não vai aguentar uma briga. — balançou o galo sentindo o peso da criatura, quase só de osso e pena.

O cigano, velhaco dos negócios, deu início à defesa da ave.

— Eu sei que o senhor conhece e respeito sua opinião. — exclamou olhando o Coronel a examinar o bicho. Cigano velhaco, procurou trazer convincente verdade a cada palavra pronunciada. — Mais é por ser magro assim que tem tanta destreza na briga. Assim ele pula como nenhum e esporeia para mais de cem.

O coronel pensou um momento olhando de soslaio ao negociante enquanto examinava o galo magricela. Conhecer, não conhecia, mas fazia que sabia, mostrando entendido no assunto.

— Bom, que ele é um São Gonçalo eu não tenho dúvida nenhuma. — deu o incerto parecer. — Deve de ter boa valia.

— Mais é claro que ele é. — disse o cigano em concordância. — E a valia é só ver os galos que ele derrubou pelas rinhas do Rio Grande e até do Uruguai. Já venceu galo imponente até nas rinhas de Porto Alegre.

Pensou mais um pouco o Coronel e se convenceu que faria um bom negócio. Teria em troco da bragada prenha, um baio reluzente de boa aparência e um penacho São Gonçalo. Pensou, pensou, e deu sua proposta.

— Então lhe dou a égua prenha em troco do cavalo e do galo. E fazemos na orelha.

— Mais na orelha levo prejuízo. — argumentou o cigano. — Carece me voltar um troco. Ao menos uns vinte réis para pagar a venda de Dom Tibúrcio. Comprei lá uma canha e um rodado de fumo e tive que deixar fiado, pois nem um pila eu tinha na guaiaca. Desse jeito faço negócio com Coronel Valentino que muito deseja um galo desses. — concluiu com a última cartada em convencer seu oponente.

Coronel Juca Chavez não querendo perder negócio e contente em ter um galo daquela estirpe, resolveu concordar com o cigano e dar aceite à proposta. Com uma pequena pechincha, para parecer esmero negociador.

— Já que o baio é bom e o galo é um São Gonçalo, tá feito o negócio. Lhe dou a égua bragada junto a mais dez réis de troco.

O cigano pensou um pouco para não mostrar de fácil convencido. Depois deu o seu aceite.

— Muito bem Coronel. Tá aceita a proposta. Vai ter o melhor cavalo e o galo mais valente de todo esse Rio Grande. Vai fazer bonito frente a todos os fazendeiro.

O Coronel, orgulhoso pelo feito, foi feliz à casa grande e trouxe os dez réis ao cigano.

Pacácio tirou a sela do baio e colocou na bragada. Pôs na baldrana os dez réis e já ia se pondo embora quando foi contido pelo convite do Coronel.

— Antes de ir embora, vá comer com os empregados que o almoço já foi servido. Tem no tacho angu, feijão, arroz e charque para dar sustância.

— Pois eu aceito, Coronel. Não me faço de rogado e lhe fico agradecido, num esqueço do favor.

Encaminhou para o lado do terreiro onde o almoço era servido e comeu como um rei enquanto conversava com os empregados e escravos da fazenda. Depois, pegou a bragada e seguiu seu caminho satisfeito pelo negócio que tinha feito, já voltando para a tapera.

A saudade na negra Maria já começava a apertar o peito. Do filho que ela esperava também já fazia gosto e apreciava ver a abarriga que já estava bem repontada. O cusco seguia de trás os passos do cigano Pacácio. Ia ele na égua bragada.

***

Notas finais
É isso aí, negócio feito, beeeeem ao estilo cigano. E eles não enganam, pessoal, apenas valorizam o que tem :)