Cigano de Dom Pedrito
1 Promessa de sangue
Notas iniciais
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O sol reluzia no dente de ouro do cigano Pacácio e no sangue que escorria da lâmina curta de sua adaga, herança de seu avô. Aos pés da ponte do rio Santa Maria, donde ao lado estendia o povoado de Dom Pedrito, ele observava o corpo estendido da negra Maria, sua amada que ali jazia morta. Tristeza no semblante daquele cigano pelo feito que realizara. Matara sua amada e sua alma entristecia.
Pacácio não era homem de matança. Nem mal fazia a ninguém, nem desfeita se atrevia. Quanto muito matava alguns terneiros em dia da festa de São Gonçalo para o assado ao fogo de chão. De homens, só matou imperiais pela independência do Rio Grande em uma luta que não era sua. Ainda assim, matou a contragosto, pelo peso de uma promessa. A cada homem tombado, uma oração fazia, rogando para que o patrão celeste recebesse de bom grado a alma e cuidasse da família que ficava sem um pai ou sem um filho. Mas à Maria, jamais mal ele faria.
Traição. Quem o visse naquela feita, observando morta sua china, por certo isso pensaria. Mas ela jamais o trairia, pois por demais o amava. Sua boca conheceu apenas os beijos do cigano Pacácio, apenas a ele se entregou e apenas a ele amou. Com seu primeiro filho no ventre, não o trairia nunca.
Mas ela estava morta e quem matou foi ele. Foi morta por aquele que no dia de São Bonifácio, à frente do padre Adão, a jurou amor eterno. Pacácio, o bom cigano que mal não fazia a ninguém, matou a sua amada.
Dela, ódio ele não tinha. De manhã, ao sair para a lida, jamais deixou de beijá-la. Ao chegar para o almoço, deslizando as nazarenas pelo chão de barro batido da tapera, quando via a anca da negra Maria que lhe aquecia a água para o mate, abraçava-a por de trás e a cortejava com um beijo antes de provar a erva amarga para lhe abrir o apetite. Pacácio a amava, a venerava talvez tanto quanto a Santa Efigênia, que estava sempre pendurada em seu peito e com uma vela a queimar ao altar em seu quarto, aos pés do catre.
Mas no raiar daquele dia, aos pés da ponte sobre o rio Santa Maria ele a matou. Observava o corpo quente dela prenha de nove meses. Matou a negra Maria e o filho dele que ela esperava.
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Pacácio era um cigano de pouca idade, nem trinta anos contava. Por muito tempo viveu com seu grupo numeroso, para mais de trezentos, vagando pelo Rio Grande e por terras uruguaias. Mas sua alma e seu espírito não eram de viver em bando. Assim que completou idade se pôs ao mundo sozinho.
Vivia vagando e fazendo rolos pelos rincões do Rio Grande. Negociava cavalos e tudo mais que possuía. Dava um por outro e fazia esforço para receber alguns cobres em troco para comprar o que de precisão. Cigano de boa lábia, sempre convencia que o seu era o melhor, e o do outro, de menor valia.
De certa feita, andarilhando pelos lados de Vacaria, encontrou a negra Maria. Ela era escrava desgarrada da família e trabalhava na casa de um coronel abolicionista. Pacácio ficou por um tempo na região, mais do que acostumava ficar. Se negacearam por alguns meses até que tiveram sua primeira noite de amor em um paiol abandonado.
Naquela tarde, no paiol, Pacácio fez colchão com o pelego; com o lombilho, travesseiro; com a baldrana fez lençol e esperou a negra Maria. Chovia naquela tarde, uma fina garoa a enfeitar o amor. Pacácio com seus braços fortes, porém, mais delicados que rude, envolveu negra Maria e se amaram no entardecer.
Depois não teve jeito. O cigano levou consigo a negra em sua vida peregrina e solitária. Eram felizes os dois, pois se amavam sem igual. Para ela ele tudo fazia; para ele, ela tudo concedia.
Com eles, poucas eram as tropilhas. Apenas algumas galinhas, ralos cavalos e pouca roupa. O que precisavam, Pacácio conseguia com os negócios. Sempre tinha uns cobres na guaiaca para o que faltava de alimento. Não havia luxo, porém, fome não passavam jamais.
Mas no findar do outono, Maria emprenhou. Pegou de Pacácio seu primeiro filho. Com sua negra prenha, havia de fixar residência ao menos até o menino vir ao mundo, criar um pouco de sustância e Maria estar novamente em condições de seguir no trote do cavalo.
Em suas andanças, eles sempre vinham às bandas do povoado de Dom Pedrito. Foi ali que Pacácio nasceu. Aquele povoado era o que de mais próximo ele tinha de lugar no mundo que pudesse chamar de seu. Certa identificação, ainda que tênue.
Com a prenhez de Maria, foi o primeiro lugar que pensou para ficar até que o menino tivesse em condições de segui-los na vida nômade que ele tanto amava e prezava. E havia de ser um menino para dar siga a seu sangue. Um gaúcho da fina cepa cigana que levaria adiante a cina andarilha.
Resolveu arranchar nas terras do Coronel Poncilhano, o mais poderoso fazendeiro daquela região. O Coronel vendia charque para todo o império e até para o estrangeiro. Gaúcho de marca maior, conhecido pela imponência e orgulho das tradições. Homem de pouca fala e muita ordem. Na arte do mando, ninguém melhor que ele.
Pacácio, mesmo que sempre passasse pela região e permanecesse por algum tempo nas fazendas por ali, nunca havia ficado nas terras do Coronel Poncilhano. Algumas vezes tentou fazer negócios com ele, sem jamais ter êxito. Mas agora precisava de um lugar seguro e as terras do Coronel sem dúvida era o melhor lugar. Nenhum malandro rondava por ali e as tropas do império se mantinham distantes.
Com seus cavalos e apetrechos, Pacácio e a negra chegaram até bem perto da sede da fazenda. O cigano deixou ali Maria e as tralhas e foi até o Coronel pedir autorização para ficar em suas terras. Intrometido cigano não é e sempre pede licença para fundar rancho em qualquer chão que seja, ainda que por pouco tempo.
Cavalgando sozinho, seguiu pela estrada em meio à invernada onde viviam os terneiros da fazenda. Passou depois pela colônia destinada aos colonos livres. Casas simples e todas iguais, construídas de taipa rebocadas com barro e estrumes de terneiros, cobertas com sapé. Ao lado, uma senzala de cedro rebocada com barro, ainda que não muito guarnecida já que Coronel Poncilhano não prezava pela escravidão. Passou pelas charqueadas, grandes galpões construídos com esteios fortes de cedro e cobertos com telhas de barro. Homens, mulheres, crianças e escravos trabalhavam ferrenhos na produção do charque. Atrás das charqueadas, em um local afastado ao lado do rio Santa Maria, estava o matadouro, um simples curral cercado com tábuas. Logo à frente, em um plano mais alto, avistou a casa grande, construída com pedra e rebocada com cal e barro. Uma imensa varanda circundava a construção.
Chegou ao lado da varanda e bateu palmas. Apareceu um negrinho mestiço desnudo, deixando as vergonhas à mostra, chupando os dedos e ranhento.
— Bom dia negrinho. Me chame o Coronel, lhe peço favor. — disse o cigano Pacácio com sua voz cantada, quase uma melodia. Sorriso costumeiro e faceiro nos lábios.
O negrinho não deu resposta e entrou de pronto correndo à casa.
Logo apareceu o Coronel na varanda. Gaúcho de boa altura e linhagem espanhola. Cabelos brancos alongados e por cortar. Sem barba e com um bigode que lhe tapava toda a boca e descia até o queixo. Vestia a legítima pilcha gaúcha. Bombacha negra larga enfiada nas botas de cano longo. Camisa branca de mangas longas e fofas e um lenço vermelho atado ao pescoço. Uma boina posta de lado completava a indumentária. Da guampa que trazia às mãos, a fumaça levantava.
— Batarde Coronel Poncilhano. Como vai vossa pessoa? — falou cantado o cigano, com um sorrido que fez reluzir seu dente de ouro ao sol daquela tarde, já retirando o chapéu e curvando sobre o cavalo em reverência ao Coronel.
— Mas por certo que vou bem. E o que desejas, seu cigano? — deu resposta o velho com sotaque carregado do sul e um naco de espanhol, já fazendo outra pergunta, pois gostava de ser direto. Ao contrário do cigano, estava sério como um viúvo no dia da morte da mulher.
— Minha china está prenha. Preciso me arranchar até que ela tenha o piá e ele ganhe sustância. Em suas terras vi uma tafona abandonada na capoeira pros lados do povoado que bem me serve. Vim, então, solicitar arranchamento a vossa excelência. – falou imploroso, mantendo o riso nos lábios e a fala melodiosa de sua natureza.
Coronel Poncilhano, cuja prepotência Pacácio bem conhecia, deu uma tragada no mate enquanto observava o cigano do alto de sua varanda. Sem rodeios ou delicadeza, falou de uma vez.
— Não dou guarda a peão desgarrado do meu Rio Grande porque não tem devoção. São gente que vagueiam pelo mundo e não tem amor à terra. Se quiser, fique um dia, passe a noite para não dizer que sou ruim. Mas de manhecida, põe-se fora de minhas terras com tua china e teus trazeres. — disse o Coronel em resposta, sem dar margem à contestação.
Mas Pacácio não se deu por vencido e resolveu dar evolução à prosa com sua lábia de bom negociador.
— Minha alma é desse pago. Amo o Rio Grande e sou devoto a ele. Mais ainda sou devoto a quem me dá arranchamento. Se me permitir arranchar em suas terras, serei um homem da mais fina devoção. — falou deixando de lado o riso para dar verdade ao dito.
— Tua palavra vagueia tanto quando você pelo mundo. Que peso ela tem, lhe pergunto? Cigano é tudo mentiroso, palavra de vocês não tem peso algum. — respondeu o Coronel, sem dar pistas de ser convencido.
Pacácio se viu queimado no orgulho. Vontade deu de sangrar o Coronel se matador fosse.
— Minha palavra é uma só e tem valia de uma fortuna. Mas se quiser pedir jura, me peça seja qual for. — falou em retruco propondo desafio.
O Coronel pensou desgostoso do repente. Deu mais uma tragada no mate e trouxe seu parecer.
— A palavra de cigano valia não tem nenhuma. Só creio se for no sangue. — disse pensando trazer medo à Pacácio.
— Pois que seja como o senhor quiser. Estou disposto. — concordou o cigano que jamais recusava peleia.
Coronel Poncilhano pôs de lado a guampa e desceu as escadas da varanda, parando próximo ao cigano montado em seu cavalo. Arrancou um fio de seu bigode e falou a Pacácio:
— Falta agora o teu sangue para completar a questão.
Pacácio decidiu mostrar para o caborteiro qual o pau que dá cavaco. Sacou de pronto a adaga, fechou a lâmina numa das mãos e com a outra puxou o cabo, olhando fixo nos olhos do Coronel. Sentiu uma dor medonha, mas fez força para não dar demonstração. Pegou o fio do bigode do Coronel, colocou em sua mão ensanguentada e apertou com valia. Abriu a mão e viu o fio banhado em sangue. Pegou-o e devolveu à Poncilhano.
— Ta resolvida a questão. Tem agora minha palavra e meu sangue. — disse com seu orgulho lavado e recomposto.
— Tua palavra não tem valia, mas no sangue acredito. Vou guardar esse fio de bigode banhado em teu sangue e o que lhe pedir, tu faz. Comigo é assim, gosto das coisas certas porque sou homem justo. — falou pegando o fio de bigode, olhando o sangue vermelho que o envolvia. — Na tafona que tu disses, há muito não fabrico farinha. Pode ficar o tempo de precisão. Tem lá um piquete onde pode soltar os cavalos. Teus negócios pode fazer por aí, só não esqueças de nosso combinado.
— Não me esqueço, Coronel, pode disso ficar certo. Passe bem, e o que precisar, estou disposto a fazer. — disse já em despedida, virando nos pés o cavalo.
***
A tafona era local onde o Coronel fazia farinha, mas abandonada desde quando resolveu construir as charqueadas e dedicar somente ao charque. Uma simples construção de pau-a-pique rebocada com barro e coberta com sapé, sem repartições ou conforto.
Na repartição ele daria um jeito. Dividiria com taquara e de um cômodo, faria dois. De paus e bambus construiria bancos e camas. Com pedras faria um fogão e com cipós, um varal para estender as roupas lavadas no rio Santa Maria. A deixaria confortável, à altura de sua prenda. Estava na entrância de uma capoeira logo depois do rio Santa Maria. Apesar de não muito longe do povoado de Dom Pedrito, era isolada e por ali não passava viva alma.
Arranchado na tapera, Pacácio passou o inverno tranquilo com sua prenda. Levantava cedo e saía pelos rincões fazer negócios. Para o almoço ou à tarde, retornava à tapera aconchegar com sua amada.
Seguiu assim até o final do inverno, reponte da primavera, quando Maria já de barriga por quatro meses. A sorte, então, resolveu deixar seu caminho.
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