Cigana De Luxo!
9 Sorte ou Azar
Bernardo sentia a cabeça quase explodir de dor. Adormeceu por alguns instantes com a mão sobre a cabeça enquanto apoiava o cotovelo sobre a perna. Não sonhara com absolutamente nada, mas a raiva que estava havia passado, de certa forma, não que se arrependesse do que fizera, mas ver Jazmim desmaiada daquela maneira, tão frágil, tão desprotegida... Não o fazia ficar bem.
Agarrou o corpo da cigana e a puxou para si, ficando admirando por poucos segundos os traços finos daquele rosto angelical. A carregou até a ponta da escada, e subiu com ela nos braços até seu quarto. Bernardo não entendia o porquê de está-la obrigando a ficar ao seu lado, nunca precisou fazer isso com mulher nenhuma... Mas o simples fato de vê-la longe o angustiava. Quando aquela menina o desafiava aquilo o excitava... Pois para sua mente obsessiva, parecia que ela estava duvidando do poder dele sobre ela. Não seria mentira, pois ciganas são almas livres e devotas à com seu povo, possuem a bravura de uma leoa e não entregam o que mais de precioso possuem nem que isso lhes custe à vida.
Demorou para Bernardo perceber o que Ana entendeu desde o começo . Apesar de possuírem ideais diferentes, a personalidade era a mesma.
Bernardo a colocou sobre a cama, a tampou com o fino lençol e tirou a mecha de cabelo de seus olhos. Nesse momento começara a chover, e após ir até a janela e a fechar, um trovão clareou o céu escuro fazendo os olhos da cigana se abrirem, encarando a face de Bernardo ao pé da cama.
Sabia que não era um sonho e nem um pesadelo, embora o silêncio a fizesse estranhar ainda mais o porquê de tudo. Suspeitava que ele a tivesse trazido, é claro, no entanto o real motivo ainda à era desconhecido. Seu olhar repreensor e analista percorria todo o corpo de Jazmim, fazendo ela o encolher e abraçar as próprias pernas. Não tinha coragem de olhar profundamente nos olhos de Bernardo, estava com medo depois do que ele fez, e mesmo assim não entendia o porquê depois de agredi-la, ele a levara para uma cama. Para morrer bem, não era o costume de Bernardo Guilertina, e nem aconchegar mortos em seu próprio quarto.
Bernardo se aproximou da garota, e sem dizer uma única palavra a tocou. Não que quisesse ser repreendida de novo, mas é uma característica do ser humano se afastar quando presente perigo, e sim, ela o fez. De maneira mais agressiva, se afastando até a ponta da cama.
- Não se afaste de mim até que eu mande.
Bernardo falou entre os dentes, subindo na cama e a puxando pelo pulso. A cigana tentou se afastar, mas era inútil lutar, sendo que parecia um pequeno pássaro nas mãos de um tigre.
Bernardo a levantou como uma boneca de pano e a jogou na cama, ficando contra seu corpo e apertando ligeiramente seus pulsos contra o colchão. Ela encarou seus olhos com ódio e sem o medo que imaginava sentir quando isso acontecesse.
- Eu te odeio.
Bernardo sorriu com aquelas palavras, embora não parecesse novidade pra ele. Apertou os pulsos da garota com força a fazendo gemer de dor, enquanto aproximou seus lábios de sua orelha.
- Igual a todos. – Jazmim arregalou os olhos com aquelas palavras, sentindo todos os pelos do corpo se arrepiarem. – Sinto o cheiro de seu medo.
- Não tenho medo de você.
Assustou-se ao sentir uma mão de Bernardo indo em direção ao seu pescoço novamente.
- Mentirosa...
Jazmim podia sentir as lágrimas inevitáveis brotando em seus olhos mais uma vez, e por mais que quisesse não iria as deixar cair. Não mais na frente dele.
- O que quer de mim?
A cigana sussurrou em um tom de súplica e o mais intrigante dessa pergunta, era que nem mesmo ele sabia. A desejava, mas parecia que apenas isso não era o suficiente. Podia tê-la a qualquer momento se assim ordena-se, mas enquanto uma parte dele aclamava apenas pelo seu corpo, a outra, oculta, aclamava por algo muito maior. Como poderia pensar nisso? Bernardo Guilertina, o homem mais poderoso do país, desejando que uma prostituta o quisesse? Ora! Ela está ali, a seus domínios e controles, faça o que quiser e dane-se tudo!
- Quero você. E quero agora...
Segurou seus dois pulsos com uma só mão enquanto a outra descia de forma brusca até suas cochas. A língua quente de Bernardo invadiu novamente a sua boca sentindo o gosto doce dos lábios de um demônio. Bernardo não evitava a olhar nos olhos, pois sentir cada parte do corpo daquela garota intocável era como ter o poder supremo apenas para si... Era como quebrar todas as regras e simplesmente viver, sentir, fazer o que lhe der vontade como há muito tempo não fazia.
Jazmim sentiu a mão de Bernardo lhe invadir a intimidade e fechou as pernas bruscamente. Não queria daquela maneira, não queria com aquele mostro, e não importava o que ele fizesse... Nesse momento nunca lhe entregaria o que mais de precioso possuía.
- Não... Por favor...
Pediu, implorou, mas Bernardo nem pareceu ouvir. Estava fora de si, como um animal com uma fome insaciável.
Abriu as pernas da garota e se encaixou sobre elas enquanto a mesma o batia, esperneava, gritava... Parecia estar sem voz, porque ninguém a ouvia? Porque ninguém a ajudava? Mergulhou em um fosso que não podia voltar, estava presa e até respirar se tornou difícil. Sentira o calor sobre as pernas enquanto o membro de Bernardo pulsava, pressionado seu sexo. A cigana não conseguia explicar aquela sensação desconhecida, tinha medo de Bernardo, mesmo disposta a tudo...
- Quando eu acabar, vai desejar nunca ter cruzado o meu caminho. Jazmim...
Bernardo arrancou a blusa de seu corpo com apenas uma mão fazendo a garota cobrir os seios como podia. Virou de costas, mordeu os lábios inferiores para não chorar enquanto ele não a dava possibilidade de fuga. Bernardo a puxou pelos cabelos, lançando seu corpo para trás e o prendendo contra a parede fria. Levantou suas pernas e encaixou seu corpo sobre ela novamente deslizando a mão, quase que imperceptivelmente, até seu sexo. Jazmim estremeceu... O que ele queria? Enlouquecera?
Sim e há muito tempo. Controlava-se para não arrastá-la para cama desde a primeira vez que a vira... Todas as trocas temidas de olhares eram martírios que ele tentava esquecer. Não conseguia evitar... Dormir com outras mulheres e enxergar o rosto da garota que lhe desafiara, o estava já enlouquecendo. Sendo quem é, não aguentaria mais.
- Você é muito gostosa sabia? Isso vai ser muito prazeroso. – Falara alto enquanto a garota fechou os olhos, sentindo o peso da mão de Bernardo sobre sua boca. – Se gritar, vou fazer com que fique sem andar amanhã.
Deixou a camisa deslizar sobre seu corpo ate atingir o chão, fazendo daquele momento, o maior contato físico que Jazmim já teve com um homem. Ele a prendia com os músculos rígidos enquanto ela, com o medo prematuro de uma menina, tentava ter forças para sobreviver a tudo aquilo.
“Estou com medo... Socorro... Me ajudem...”
Os religioso diriam que foi uma ajuda de Deus, os mais realistas que foi apenas uma questão de coincidência, mas acredito que era o destino... Sempre foi desde o começo em que eles se viram a primeira vez.
No meio da chuva, um táxi parara em frente a mansão de Guilertina. Da porta aberta, surgiu uma mulher alta, de salto agulha, vestido colado ao corpo com um grosso casaco de pele em cima. Cabelos louros, olhos castanhos e nariz fino empinado, essa era a descrição de Rebeca Krosk, a Ex-noiva de Bernardo e a única mulher com quem manteve um relacionamento sério. Para outros, um casal rico e feliz, pois quem não teria felicidade em rios de dinheiro tendo uma mulher exuberante ao seu lado? Para Rebeca, uma oportunidade única, se tornaria rica e poderosa. Para Bernardo, apenas uma imagem, um martírio que ele teria que suportar apenas alguns anos para satisfazer a vontade do pai. Não durou tanto tempo quanto Bernardo pensava, o pai morreu depois de dois meses, o que livrou Bernardo da noiva de certa forma.
Sandra abriu a porta, onde a mulher entrou largando o casaco em sua mão. A empregada franziu o cenho, se pudesse expulsava aquela mulher a vassouradas da casa o faria...
- Chame Bernardo... – Encarou a empregada com desprezo e sentou-se no sofá. – ANDE! VAMOS!
Sandra balançou a cabeça negativamente e subiu em direção ao quarto de seu patrão, respirando fundo e batendo na porta.
- Só pode ser brincadeira. – Sussurrou Bernardo para si encarando os olhos azuis da cigana. – O QUE É SANDRA? ESTOU OCUPADO!
- Desculpe senhor Bernardo... – A voz da empregada era apenas ouvida por trás da porta enquanto Jazmim torcia para que fosse algo importante, queria aquele homem longe de si. – Mas Rebeca Krosk está aqui em baixo, procura pelo senhor.
Jazmim sentira os músculos de Bernardo se contraírem em um acesso de raiva. Ele se levantou e bufou caminhando em direção à porta. Jazmim encolhera o corpo, ficando na ponta da cama enquanto cobria com os joelhos os seios a amostra. Sentia-se suja e uma onda de tristezas e raiva a invadiu... Parecia que Bernardo estava em cada parte do seu corpo.
- Fique aqui, ainda não acabei com você...
Bateu a porta atrás de si e a trancou com a chave fazendo Jazmim se levantar no mesmo momento da cama e ir em direção à janela. Abriu-a fazendo um vento forte invadir seu rosto e seus cabelos voarem para trás. Os pingos de chuva também lhe tomaram o rosto, e por apenas alguns segundos, sentira a sensação de liberdade.
Bernardo colocou o casaco por cima do peito nu e desceu as escadas. Encontrando a mulher sentada sobre o sofá com um cigarro na mão esquerda. Por algum motivo sorria e Bernardo, ao vê-la sem ela perceber, identificou aquele sorriso como um dos poucos de malicia que só ele conhecia. Caminhou até ela e se colocou em sua frente fazendo Rebeca abrir um sorriso e levantar-se.
- Bernardo... Quanto tempo! – O abraçou com força, porém o homem nem se moveu. – Desculpe pela interrupção...
- O que quer aqui Rebeca? – Bernardo a interrompeu bruscamente, passando por ela e servindo um gole de uísque.
- Por toda a história que tivemos meu amor... Eu preciso de sua ajuda.
Bernardo a olhou de cima com desprezo. Na verdade, não suportava aquela mulher, passou a aguentar simplesmente porque era desejável, mas isso foi há muito tempo, não? Sentiu-se no meio de um navio em alto mar, sentia-se enjoado, mas não podia ir para outro lugar. Bernardo deu dois passos em direção a ela, ficando perto de seu rosto... Rebeca interpretou aquilo como um sinal de que ele podia aceitá-la de volta, porém a única coisa que Bernardo enxergava naquele sorriso era um poço de veneno.
A cigana, pelo contrário, estava como a muito tempo não se sentia: Tinha o pleno controle sobre a própria vida. E não, isso não significava uma melhora nas coisas, na verdade, apenas tinha o poder sobre o começo e o fim dela... Pensou em acabar com tudo naquele momento. Isso pode parecer indeterminante, mas como contestar os pensamentos de uma alma desesperada por ajuda?
Olhou mais uma vez para baixo, não era tão alto, mas o suficiente para morrer. Pensou em como seria deixar essa vida, se sofreria muito e se por acaso a Deusa e perdoaria por tirar a vida que ela lhe dera. Sentiu-se a pior pessoa do mundo quando uma ideia lhe atingiu a mente... Realmente, todas as circunstâncias a estavam mudando. Se seu tio a vendeu, é porque nunca a amou de verdade... Então como poderia existir alguém que a amasse muito mais longe dali? Será que a Deusa era cega pela sua dor? Olhava para o céu procurando uma resposta, ou pelo menos um sinal que a dissesse para parar... Não o encontrou, e com a alma doendo colocou o primeiro pé no suporte.
- O que pensa que vai fazer?
A mão lhe segurara o ombro e puxara para trás, fazendo Jazmim perder o ar que preenchia seus pulmões. Se não tivesse pensado tanto e sim agido mais, talvez estaria um pouco menos longe da morte do que estava agora. Encararia mil andares, mas não um olhar que dizia que ela não havia sido forte o suficiente...
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